5.º Conto BBdE :: Policial :: Melo Drama

Melo Drama
User avatar
Samwise
Realizador
Posts: 14973
Joined: 29 Dec 2004 11:46
Location: Monument Valley
Contact:

Re: 5.º Conto BBdE :: Policial :: Melo Drama

Postby Samwise » 03 Sep 2008 17:34

- Sei que não acredita em mim, mas estou do seu lado, José...

A voz não parecia a de Catarina. Não da mesma Catarina que momentos antes se havia dirigido a mim movimentando o corpo esguio, sincronizado, com evidentes intenções terceiras. Toda a envolvente viperina da Femme-Fatale desaparecera. No seu lugar encontrava-se agora a voz de uma mulher esgotada. Rodei a cadeira sobre o eixo e olhei para a figura envolta nas sombras. Estava de pé, encostada a uma coluna, com a cabeça apoiada na pedra, de lado, e metade do rosto na escuridão.

- É mais um dos seus truques? Estou a ficar cansado de ser o....

- Não. Estou farta disto tudo. Acabou-se a farsa.

- Prove-o. Porque tentaram matar-me? Primeiro matar-me. Chantagear-me depois, para que cometesse um homicídio-

- Não sei. Não foi o Júlio que o tentou matar. Disso tenho a certeza. O José é mais valioso para ele vivo do que morto, pelo menos por enquanto - Desapoiou-se da coluna com um ligeiro empurrão de ombro e começou a aproximar-se de mim. O rosto, exposto à claridade do abajur da secretária, revelava uns dez anos em cima da figura jovial que eu estava habituado a ver. Dois trilhos negros paralelos, formados por restos de maquilhagem desbotada pelas lágrimas, desciam-lhe dos olhos e desfiguravam-lhe a cara.

- Não acredito em si. Não é a primeira vez que se tenta aproveitar da minha ingenuidade.

- O jogo do Júlio é simples, e uma vez que já está a par das suas intenções quanto à miúda, não há grandes segredos a ocultar: limpar as pistas que o ligam ao Rafael, ilibar-se de qualquer comportamento menos próprio de alguém com a sua reputação, e atirar as culpas para cima de um bode expiatório qualquer. Você, José, para ser mais concreta...

Pensei por momentos em que reputação estaria ela a falar ao certo. O Júlio Mascaranhas, preocupado com as revelações de uma faceta menos própria da sua vida sexual? Pouco provável. Levantei-me da cadeira. A Catarina parou a um metro de mim. Estávamos a sós pela primeira vez desde que ela entrara no meu escritório com o engodo das cartas. Aquele rosto magoado confundia-me o raciocínio e atirava-me os sentimentos para regiões ambíguas, locais da mente que o velho Jack tratava de votar ao abandono.

- Que papel tem no meio disto tudo?

- Eu? - olhou para o lado, evitando encarar-me de frente - E sou mais um pião no jogo mortífero entre o Rafael e do Júlio. O meu casamento foi uma fachada desde o primeiro momento...

- E a miúda? Nenhuma mãe é insensível a ponto de querer que a própria filha... - As palavras morreram-me na boca.

- Sim... Sim... ela não é minha filha. Eu não sou quem o José pensa que sou. Pelo menos até certo ponto. E ela... é filha do Rafael. O meu marido obrigava a própria filha a fazer aquilo com ele. Filmava-a. E ela gostava.

Ao longo de vários anos de casos e casos de infidelidade conjugal, em que não poucas vezes me vira na necessidade de confrontar as esposas ou os esposos em falta com a verdade, aprendera a verificar os sinais físicos lançados pelo sistema nervoso quando impulsionado pela presença de uma mentira. As pequenas contorções nos músculos do rosto, o olhar fugidio e aleatório, a inquietude das mãos, todo o comportamento corporal a revelar uma falta de à vontade, uma espécie de necessidade de se expandir - como se não estivesse confortável na roupa envolvente...

Por pior que as revelações soassem, a Catarina não estava a mentir. Decidi-me então levar a cabo algo que não me largava o pensamento desde há largas horas. Esbofeteei-a com força suficiente para a pôr a dormir, agarrei-lhe o corpo antes de atingir ao chão, e arrastei-o até um sofá do outro lado da sala. Resisti à tentação de lhe tirar o vestido e de me por a olhar para o que estava por baixo.

Voltei a sentar-me à secretária. Tirei do bolso o aparelhito de Mp3 que me ia salvar a vida - sete ou oito horas de conversas registadas ao longo dos últimos três dias. Peguei na lista telefónica e marquei o número da inspectora.

A voz de quem acabava de acordar de um sono profundo respondeu do outro lado da linha:

- Sim?... é bom que isto seja importante...

- Inspectora Mariana, vejo que não estou a interromper nada de importante. Tenho informações cruciais para lhe fornecer.

- Sr. Melo? Não acredito!!! Mas porque é que não me deixa em paz? São … três e meia da manhã… De onde está a ligar?

- Da casa do falecido Rafael Bragança. Será que pode dar aqui um pulinho?

- A estas horas? Há mais algum cadáver?

- Não...não... nada de tão dramático. Apenas algumas pistas que a vão colocar no trilho certo. E está aqui uma testemunha com vontade de falar. Na realidade, inspectora, estou-lhe a oferecer a noite mais importante da sua vida. Numa bandeja dourada.

- Está bem... está bem... dê-me uns minutos que eu já passo aí.

Pousei o auscultador e sorvi uns goles de whisky. O iPod, pousado à minha frente, na secretária de carvalho envernizado, continuava a gravar tudo o que era som.

- Nunca sabes quando parar, pois não Zé?

A voz gelou-me os sentidos. O copo caiu para o chão e despedaçou-se em mil cacos afiados, que rolaram através do soalho em todas as direcções da sala.

- Ed?

- As coisas que um gajo ouve por acaso…

Estava parado à entrada do escritório, com um revolver numa mão e três cassetes VHS na outra. Umas luvas de pele negra evitavam descuidos desnecessários.

- Já suspeitava de ti, Ed. Era uma questão de tempo até te apanhar.

- A sério, meu caro Zé? Suspeitavas do teu velho amigo de infância? Como é possível... - Baixou a cabeça e abanou-a em sinal de desagrado. A ironia revirou-me o estômago. Só o Jack me mantinha composto, afastado da loucura do confronto associado àquela revelação. Àquela confirmação.

- E as provas, Zé? Que provas tens contra mim?

Elevei as mãos em sinal de rendição.

- O que ainda não entendi foi a razão, Ed. Dinheiro? O que é que este caso todo tem para te oferecer? Andas a chantagear alguém?

- Não. Desta vez não foram as notas. Sempre burro, como de costume. É justo que saibas a verdade. Tens direito a uma explicação, à laia das últimas refeições concedidas aos condenados à morte. Enquanto pensas naquilo que te vou dizer, prepara-te para comeres uma bala na cabeça.

- A polícia vem a caminho...

- Não, não vem. Eu conheço os hábitos da Mariana muito bem. Lembra-te que trabalho com essa cabra às largos anos. Por esta altura ainda deve estar a pensar que sapatos há-de calçar, para além de que mora do outro lado da cidade. Temos tempo. E virá sozinha. Ela gosta de fazer o caso antes de o passar para outros colegas. É muito minuciosa, estás a ver? Quase que me tramou uma vez... Mas não perde pela demora.

- Não sabes dos outros polícias a quem falei quando vinha para cá...

- Bluf!

- O que tens para me dizer?

- Estás a ver estas cassetes? São as festas que o Rafael gravava com a filha dele. Eu apareço nalgumas delas. E o Júlio Mascaranhas também. Ainda demorei umas horas a arrombar o maldito cofre, mas pelos vistos foi tempo recompensado – primeiro apareces-me tu e essa bimba avantajada – apontou para o sofá - , e depois ainda convidas a minha querida amiga da polícia para a festa. Adeus, Zé...

Fechei os olhos. O som do tiro foi suficiente forte para me fazer recuar um passo, tropeçar na cadeira, e cair desamparado no chão, de costas. Para além de uma pontada aguda na omoplata esquerda, a que havia suportado a queda, nada mais sentia. Por momentos pensei que a dor do ferimento demorava uns segundos até chegar aos centros de alerta, depois pensei que provavelmente a bala tinha acertado nos próprios centros de alerta, e finalmente cheguei à conclusão de que não havia sido atingido. Levantei-me cautelosamente e espreitei por cima da secretária. O Ed estava estendido no chão. Só lhe via os pés. O resto do corpo estava para lá da porta do escritório. Uma poça de sangue expandia-se lentamente pelo chão em redor.

- Eu disse-lhe que estava do seu lado...

No sofá, uma Catarina com um ar destrambelhado segurava um mini-revólver fumegante.
Guido: "A felicidade consiste em conseguir dizer a verdade sem magoar ninguém." -

Nemo vir est qui mundum non reddat meliorem?

My taste is only personal, but it's all I have. - Roger Ebert

- Monturo Fotográfico - Câmara Subjectiva -

pictish scout
Manifesto
Posts: 47
Joined: 01 Feb 2008 00:18
Contact:

Re: 5.º Conto BBdE :: Policial :: Melo Drama

Postby pictish scout » 06 Sep 2008 14:59

Antes de me restabelecer do susto, o som de tiros e vidros a estilhaçar dominou toda a sala. Não me lembro ao certo qual foi a minha reacção, sabia apenas que o Ed não estava sozinho, tinha tomado precauções e cercado a casa com alguns dos seus homens, não sei ao certo quantos.
Quando dei por mim estava já fora do escritório, correndo na direcção contrária aos tiros que vinham do exterior. Saltara sobre o corpo do velho Ed, prendendo sob os meus dedos o pulso da Catarina. Ela não se queixou nem hesitou, correu atrás de mim, sabendo que a sua vida dependia disso.

Antes que pudéssemos alcançar a porta da casa, percebemos que do lado de fora, alguém estava a tentar entrar. Senti movimento no escritório. Mais tiros a abrir buracos nas paredes e a fazer em cacos milhares de euros em cristais da Baviera que adornavam as prateleiras da sala.

- Vamos pela porta dos fundos – disse ela, assustada.

Empurrei-a para a frente, enquanto distraía os atiradores com um ou dois tiros. Disparei também contra a porta e devo ter acertado no alvo porque, do outro lado, ouvi um gemido grave. Mas não o abati; a porta abriu-se e mais disparos surgiram na minha direcção.

Ouvi um grito. Catarina!

Uma bala perdida, talvez. Senti vontade de voar e atravessar paredes. Não voltei a ouvir a sua voz. Talvez estivesse já deitada sobre uma poça de sangue. Estava tudo terminado, mas tinha de manter a cabeça fria. Não existe limites para uma tragédia e não tinha razões para piorar ainda mais a minha situação.

Consegui alcançar a divisão da casa de onde viera o grito. Pelo caminho, descarreguei a pistola sem qualquer sucesso, a não ser o facto de os ter atrasado uns segundos.

Não havia corpo nem poça de sangue. Catarina estava viva!

- Já podes parar de correr meu caro. – O Ed sorria, apesar de ter a perna coberta de sangue. Não sei como, mas conseguiu arrastar-se até aqui sob a cobertura do fogo dos seus homens e barrar-me o caminho. O cano da sua arma pressionava a orelha da Catarina. Com a outra mão, Ed segurava na arma que o abatera a poucos instantes. Apontava-a na minha direcção. Tinha-o na mira, mas estava sem munições…
Web Comic:
http://ermalbd.tumblr.com/

Portefólio Online:
http://pictishscout.daportfolio.com/

User avatar
grayfox
Edição Única
Posts: 4203
Joined: 01 Jul 2008 16:20
Location: Braga
Contact:

Re: 5.º Conto BBdE :: Policial :: Melo Drama

Postby grayfox » 06 Sep 2008 19:00

- Porquê isto tudo? Já tens as cassetes! – Tentei comprar um pouco de tempo enquanto analisava a situação.
- Mas não posso deixar-vos viver. Sabes, entramos numa espiral tal, que neste momento acho que o melhor é mesmo não deixar ninguém com vida. Tudo isto por causa do teu amigo!
- O Joe ? – Não consegui disfarçar o olhar de espanto.
- Então a nossa amiguinha comum não te explicou? – deitou um olhar irónico para Catarina! – O Wilson tornou-se de certa forma “chegado” à Joana Bragança!
- A filha do Rafale! – conclui.
- Certo! A pirralha não tem emenda. Já se sabe como é, filha de pais ricos, faz tudo o que lhe apetece, estoura o dinheiro em drogas. Só sei que com quinze anos ela já está bem rodada e drogada. – Outro sorriso irónico. – Graças a isso, as cassetes que Rafael Bragança guardava e nós, os outros “participantes” dos vídeos, desconhecíamos foram parar ás mãos do Wilson. Pouco depois começamos a receber bilhetinhos de amor!
- Chantagem!
- Claro, 5 milhões de euros cada um, eu, esta puta aqui e o Júlio, se não quiséssemos apanhar uns bons anos por pedófilia!
- O Rafael não foi ameaçado?
Um olhar de raiva surgiu no seu rosto.
- O cabrão foi que nos meteu nesta alhada toda e dormia descansado na sua inocência enquanto nós nos reuníamos as escondidas como ratos e tentávamos descobrir o que fazer. È que o estúpido nem deu por falta das cassetes! – Ergueu a voz indignado.
- Então decidiram que ele tinha de ser eliminado!
- Plano perfeito, matávamos o estúpido que nos enganou, matávamos a pirralha que afinal estava metida nisto até ao pescoço, esta puta herdava tudo e pagávamos ao chantagista para que ele destruísse as cassetes!
- E porque não tentaram matar o Joe?
- Ah, mas nós não sabíamos quem era o chantagista, não nessa altura! Nem sabíamos que tinha sido a filha do Rafael a tirar as cassetes lá de casa! Só sabíamos dos bilhetes, recebemos também algumas cópias das cassetes para vermos que não era bluff, mas não sabíamos quem as enviava. Então decidimos seguir com o plano de matar o Rafael e a Joana!
- E eu fui metido no meio para servir de bode expiatório! – Concluí!
- Ah! – a sua cara encheu-se de orgulho - Mas não só! Havia alguma coisa de estranho naquelas cartas, a maneira de acentuar os “i” lembravam-me algo e durante dias quase dava em doido a tentar perceber. Até que cheguei lá, o teu ajudante secreto!
- As dicas que recebia! – Completei!
- Exacto, nunca te perguntei quem era o gajo que ás vezes te dava informações a que nem eu tinha acesso, nunca perguntei nem liguei muito ao caso. Mas lembro-me que as vezes tinhas uns bilhetinhos, e os “i” eram os mesmos. Então quando chegou a altura de “nomearmos” um bode expiatório para as mortes que iriam acontecer, apontei o teu nome. Inventamos aquelas cartas que a Catarina te entregou, e deixamos-te cair na boca do lobo!
- Obrigadinho! – Ironizei!
- Não tens de quê! É claro que eu sabia que com o caso a complicar-se irias recorrer ao teu ajudante secreto. E quando o fizesses eu ficava a saber quem era o nosso chantagista!
- Então mataste-o!
- Infelizmente não. Acontece que o Rafael estava mais ao corrente da situação do que pensávamos, por isso te retirou as cartas. Pensou que essas cartas eram as que a Catarina tinha recebido e que ela recorreu a ti desesperada para que descobrisses o autor! Entretanto, talvez a filha lhe tenha contado, descobriu antes de mim que o Joe Wilson era o chantagista e tratou-lhe da saúde!
- Então, porque é que o mataram?
- Para além de saber demais e teimar em não destruir as cassetes, a ideia de a Catarina lhe herdar a fortuna já estava demasiado enraizada na nossa mente!
- E o tipo que me atacou no harém do Wilson?
- Quem? – Fez um ar incrédulo –O Yuri! – Outro olhar de orgulho. - Desgostoso com a perda do seu “patrão”. O gajo ainda é mais estúpido que tu, foi tão fácil convencê-lo que tu é que tinhas assassinado o Rafael!
- Então tu é que puxavas os cordelinhos todos!
- Sim , de facto! Mas agora vejo que não vale a pena manter esta cadela viva, ela nunca iria ficar de bico calado. Sendo assim, vou ter de me livrar dela, de ti que me estás a apontar essa pistola vazia, e do Júlio!
- Isso é o que tu pensas – Ouviu-se de repente a voz de Júlio Mascaranhas!
A melhor assinatura chinesa da actualidade.

Pedro Farinha
Edição Única
Posts: 3298
Joined: 03 Apr 2005 00:07
Contact:

Re: 5.º Conto BBdE :: Policial :: Melo Drama

Postby Pedro Farinha » 08 Sep 2008 23:50

A voz dele tinha perdido toda a suavidade e delicadeza com que me presenteara no seu antro. Virei-me para trás e vi que a ferocidade no rosto dele acompanhava o timbre. Mas mais preocupante foi ter-me apercebido que estava exactamente na linha de fogo daqueles dois.

Os olhos de Ed permaneciam calmos mas determinados. Os de Júlio faiscavam de raiva. Olhavam um para o outro como se eu, no meio dos dois me tivesse tornado subitamente transparente.

- Polícia! Larguem as armas – a voz da Inspectora Mariana irrompeu pela sala adentro, uns metros à frente da própria.

Mais de duas dezenas de polícias entraram pelos vidros já partidos e retiraram as armas aos homens de Ed.

Tentei esboçar um sorriso para a Inspectora, mas o olhar dela manteve-se impávido até que com um gesto suspendeu o agente que ia colocar as algemas no Ed e sorriu – estas ponho-as eu mesma, já tenho prática disto. Desde o dia na recruta em que este engraçadinho… calou-se subitamente ao dar-se conta que tinha vários pares de olhos subalternos virados na sua direcção.

– Bem, não interessa todos para a esquadra. Tu também – disse virando-se para mim.

Confirmei com a cabeça enquanto vi a Catarina a ser algemada por um agente que não conseguia despegar-lhe os olhos de cima.

Formámos uma estranha fila, eu, a Catarina, o Júlio e o Ed e os seus homens bem escoltados pela brigada da Mariana em direcção à ramona.

Uma voz esganiçada ouviu-se do alto da escada – isto não fica assim seus cabrões, vocês mataram o meu pai.
Olhei para cima, a miúda empunhava uma arma pesada de mais para as mãos dela apontando indiscriminadamente para todos os que estavam no salão. Trazia uma mini saia de ganga a não cobrir umas meias de rede que combinavam com a pintura excessiva que lhe borrava a cara, mas os olho, esses permaneciam infantis.

urukai
Edição Única
Posts: 3232
Joined: 07 Aug 2008 23:35
Location: Lisboa
Contact:

Re: 5.º Conto BBdE :: Policial :: Melo Drama

Postby urukai » 09 Sep 2008 15:44

Durante breves segundos o mundo pareceu parar.

Os polícias foram os primeiros a reagir. Pistolas saltaram de coldres e miras foram apontadas à rapariga.

Senti tensão a acumular-se à minha esquerda. A Catarina tentou recuar mas o polícia que a segurava impediu-a. Olhei de relance para o seu rosto perfeito. O branco dos olhos ocupava mais de metade da face e os seus lábios murmuravam repetidamente: "Ela vai disparar. Ela vai disparar. Ela vai disparar.", como se de uma prece se tratasse.

Foquei novamente a atenção na miúda. Lágrimas com laivos negros escorriam-lhe pela face. Dois rios poluídos que terminavam abruptamente na cascata do seu queixo tenso e cerrado. Passaria por uma estátua não fora a respiração ofegante que lhe subia e descia o peito num ritmo rápido e nervoso.

Empunhava uma caçadeira de caça. Os relevos de prata conferiam um ar ainda mais ameaçador aos dois canos negros e paralelos que, agora, pareciam ter encontrado um ponto onde se fixar. Ao meu lado estavam três perdizes prestes a comprovar o quão letal é chumbo a menos de 10 metros.

" Vocês...", silvou a miúda de olhos injectados de raiva.

"Calma Joana! Larga a arma e nada te acontecerá!", ripostou a Mariana, com um tom de voz nitidamente trabalhado mas que mesmo assim não conseguia esconder o nervosismo da situação.

"Estão...", cuspo acumulava-se nos cantos da boca da rapariga. Instintiva e inconscientemente, agarrei no pulso de Catarina e comecei a puxá-la para mim.

"Joana, não faças nada de que te arrependas! Estamos do teu lado!"

"MORTOS!", o grito foi algo de gutural e animalesco. Se não o tivesse presenciado, nunca acreditaria que saíra de um corpo de uma jovem de 15 anos. Na verdade, reflectira mais tarde, não foram as cordas vocais de Joana que deram aquele berro, fora a sua alma fracturada, o seu espírito vandalizado que, num ímpeto de revolta e absolvição, soltou os pecados, as ofensas, os abusos e as feridas que nunca iriam sarar.

Juntamente com tudo isto, Joana atirou também dois cartuchos de chumbo quente na nossa direcção.

BAM!

Rodei sobre mim próprio e uma explosão de dor rebenta-me no ombro. Sinto as pernas a ceder e caio para a frente.

BAM! BAM! BAM! BAM!

"PAREM!". Com cada fibra do meu corpo a informar-me que, desta vez, tinha sido alvejado, reconheço a voz de Mariana. A tempestade de pólvora dá lugar a uma acalmia de fumo que exala pelos canos das pistolas ainda em riste.

"Vão ver a miúda e chamem os paramédicos".

Sem forças sou puxado de cima de Catarina, aparentemente incólume mas petrificada.

A minha consciência é um animal encurralado numa jaula de dor em forma de ombro. A minha visão fica turva. Não consigo distinguir o vermelho carnal dos lábios de Catarina do morticínio sanguíneo que jaz ao nosso lado. Ainda lhe agarro o pulso, que bate violentamente e sem descanso contra a minha mão. Sinto os meus dedos deslizar um por um sobre a sua pele cândida. As forças falham-me e um véu negro, pressionado pela bebida, pelas feridas, pelo cansaço, pelas lutas, pela intensidade dos últimos dias, cai sobre mim.

Um véu pesado, denso, escuro...aliviante.

User avatar
anavicenteferreira
Edição Limitada
Posts: 1355
Joined: 04 Apr 2005 19:45
Location: Torres Vedras
Contact:

Re: 5.º Conto BBdE :: Policial :: Melo Drama

Postby anavicenteferreira » 10 Sep 2008 22:38

Há um milhão de histórias nesta cidade e eu começo a perguntar-me quantas serão bem menos banais do que parecem.

Acordei no hospital. Ouvi meia dúzia de palavras soltas sobre o meu ombro, que não percebi bem; ainda estava demasiado tonto da perda de sangue. Depois levaram-me para a sala de operação e houve outro grande período de escuridão, até ter acordado numa enfermaria cheia dos sons e odores de estranhos e ter começado a vomitar a anestesia.

Tentei perguntar à enfermeira que me veio limpar o que se passara, mas a minha língua ainda estava atafulhada de anestéticos. Ela assentiu como se estivesse a perceber tudo o que eu estava a dizer e fez-me deitar sobre o lado esquerdo.

– Descanse, está tudo bem, o doutor depois fala consigo. A sua esposa já cá esteve, logo a seguir à anestesia, mas o senhor ainda estava a dormir.

Passei os dois minutos seguintes a tentar lembrar-me se era casado. Parecia-me que não, mas o cérebro recusava-se a dar-me a certeza. Acabei por adormecer e fiquei morto para o mundo até esta manhã.

A "minha esposa" afinal era a Inspectora Henriques. Esteve aqui ainda há pouco. Agradeceu-me, ao modo dela, que incluiu uma ameaça bastante específica sobre o que me fazia se voltasse a interferir com assuntos da polícia. Devo confessar que me senti tentado a começar a interferir ali mesmo.

O Ed está em Caxias. A Catarina e o Júlio também foram presos. Nenhum deles se deve safar, entre a prova das cassetes e o meu iPod.

A miúda acabou por morrer. Um dos tiros da polícia atingiu-a no pescoço e não conseguiram parar a hemorragia a tempo. Já estava morta quando chegou ao hospital. Há uma parte de mim que pensa que talvez tenha sido o melhor.

Suponho que devia estar a pensar que é melhor ter-se cuidado com o que se deseja. Passei os últimos dias enterrado em merda; tenho o braço direito feito num oito; fui traído por um dos meus melhores amigos. A maioria das pessoas daria graças a todos os deuses e a uns quantos demónios por poder voltar aos casos comezinhos de traições e rivalidades.

Pois, mas a verdade é que eu não me importo de andar na imundície. Há miúdos que sonham ser homens do lixo: andar nos camiões enormes, carregar com os contentores, ouvir o mecanismo do carro a comprimir tudo numa pasta nojenta. Eu apenas trato de um tipo diferente de porcaria.
Ana


Return to “5.º Conto BBdE”




  Who is online

Users browsing this forum: No registered users and 1 guest

cron