Ausência

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Ausência

Postby azert » 01 Oct 2008 01:57

Toda a família está reunida. Falam pouco, mas também, nunca nenhum Alves saiu falador. A Alzira traz um tabuleiro com umas chávenas de chá e umas bolachas de água e sal, para o caso de alguém querer, mas só o Quinzinho, sempre guloso, lhes deita a mão.
A minha mãe folheia o álbum de fotografias, relembrando tempos idos. O meu cunhado, apercebe-se de que o Quinzinho traz vestido um colete meu: “Vai já tirar isso!”, ralha. O Beto é militar e tudo o que lhe sai pela boca fora é uma ordem que não admite desobediência. O meu filho corre até ao quarto e aí insubordina-se em segredo, mantendo o colete vestido.
A Tina acaricia a barriga, grande de oito meses. A princípio, todos temeram que o bebé nascesse antes de tempo, mas a criança lá se aguentou onde estava.
A Alzira, agora, está nervosa; irrequietam-se-lhe as mãos quando não estão ocupadas. Gostava de poder dizer-lhe umas piadas, daquelas que sempre lhe arrancam um risinho quando está triste, mas não creio que consiga ouvir-me com toda a terra que me deitaram em cima, as flores e o caixão de carvalho maciço.


(Escrito há cerca de um ano, de acordo com o tema de um número da Revista Minguante)
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Re: Ausência

Postby Thanatos » 01 Oct 2008 06:59

E foi publicado na Minguante?
Não importa como, não importa quando, não importa onde, a culpa será sempre do T!

-- um membro qualquer do BBdE!

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Re: Ausência

Postby Pedro Farinha » 01 Oct 2008 07:19

Excelente. Uma das coisas que gosto nos textos curtos (e mesmo nos contos) é quando o final tem uma reviravolta ou uma revelação que muda toda a perspectiva do texto. Assim um pouco ao estilo dos contos imprevisíveis de Roland Dahl.

Neste caso acho que conseguiste isso plenamente. A envolvência no ambiente familiar e de repente percebemos que a posição do narrador é afinal... horizontal.

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Re: Ausência

Postby Samwise » 01 Oct 2008 10:20

Muito Bom!

Apesar de pequeno, estão lá os costumes familiares conhecidos de toda a gente.

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Re: Ausência

Postby azert » 01 Oct 2008 14:31

Thanatos wrote:E foi publicado na Minguante?


Diz que sim. :rolleyes: Aliás, é por isso que é tão breve... :whistling: (desculpas :tongue: )

Obrigada pelos comentários. :notworthy:
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Re: Ausência

Postby Hen » 09 Oct 2008 15:10

Sinceramente, do melhor que já li por aqui. Para mim, o que lhe eleva a qualidade é exactamente o facto de ser breve, onde cada palavra tem uma vida própria e se conjuga em harmonia com outras igualmente poderosas. Excelente final!
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Re: Ausência

Postby azert » 09 Oct 2008 15:29

:blush: Obrigada, Hen, fico espantada pelo teu comentário! :ohmy:
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Re: Ausência

Postby Samwise » 09 Oct 2008 15:51

azert wrote::blush: Obrigada, Hen, fico espantada pelo teu comentário! :ohmy:


Sim, mas olha que deves ser só tu que ficas espantada. A Hen só veio sublinhar aquilo que é por demais evidente a todos os outros... :wink:

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Re: Ausência

Postby azert » 09 Oct 2008 16:01

Pode até parecer que digo mal da minha escrita para que me contradigam a seguir :mrgreen4nw: , mas a verdade é que não consigo ver os meus textos como tão bons assim! :ohmy:

Por estes dias tenho lido os textos do pedro Farinha e, apesar de nalguns deles se notar que foram escritos de uma penada e não revistos, têm uma força que não encontro nos meus, são textos que dizem alguma coisa, enquanto que os meus se perdem, por vezes, num palavreado floreado. Oh well! :rolleyes:

EDIT e PS: Ó Pedro, desculpa lá ultimamente andar a pôr-te na berra, mas é que a tua escrita foi uma (boa) surpresa para mim. :smile:

PPS: Não sei como é que fui pôr isto na secção de poesia!! :see_stars:
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Re: Ausência

Postby azert » 14 Oct 2008 22:09

Thanatos, seria possível mudar este texto para o sítio devido - o cãotinho da prosa? Não foram os comentários e mudá-lo-ia eu mesma.
Não é que seja importante, mas faz-me espécie esta desarrumação. :rolleyes:
Thank you very mucho.

P.S. Se for muito trabalhoso, esquece.
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Re: Ausência

Postby azert » 15 Oct 2008 13:08

Thanatos, obrigada por te teres dado ao incómodo de efectuar a mudança. :smile:
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Re: Ausência

Postby Aignes » 16 Oct 2008 14:43

Ainda não tinha lido este...muito giro. Grande sensação de família que conseguiste criar em tão poucas linhas. E gosto principalmente da maneira como a narradora observa, quase enfadada, a quantidade de terra e flores e o caixão que lhe puseram por cima.
«The force that through the green fuse drives the flower
Drives my green age; that blasts the roots of trees
Is my destroyer.
And I am dumb to tell the crooked rose
My youth is bent by the same wintry fever.»


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