Fado

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azert
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Fado

Postby azert » 11 Nov 2008 22:58

A confraria dos cães ladra na noite, as vozes chegando onde as patas não alcançam. Carpem latindo o metro e meio de ferro que os acorrenta a um só lugar.

Maria da Fé, um embrulho de xaile negro, parte para a sua via sacra nocturna. Com os chinelos pela calçada, passa entre as casas de talha pequena em direcção à praia. Lá chegada, já não chora. Bebeu-lhe a areia a água com que lavava os olhos expectantes, como lhe tragou o mar o corpo esperado.

Enquanto Maria das Dores cumpre as estações, o seu leito arrefece. Jaime já está à janela tangendo a guitarra com os dedos que a Prazeres não quis. Desde que ela se foi, religiosamente agarrada ao último padre que por ali passou, a cama de Jaime não recebe visitas - prefere ser ele a despedir-se todas as noites nas casas das viúvas.

Quando regressa a casa, Maria da Saudade reacende a vela à foto do homem que, com o anel de ouro que ainda traz no dedo, ganhou o direito de dormir com ela às vezes.

Nada muda. Os cães calam-se.
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Pedro Farinha
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Re: Fado

Postby Pedro Farinha » 11 Nov 2008 23:00

azert no seu melhor :smile: Gosto sempre da galeria de personagens que consegues inserir em tão poucas linhas de texto. Este deixou-me os lábios com sabor a sal.

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Re: Fado

Postby azert » 11 Nov 2008 23:10

Obrigada, Pedro. :smile:

Por acaso, não são várias personagens (eu sei, isso não é visível :rolleyes: ), mas uma só personagem, uma Maria, que muda de segundo nome conforme as circunstâncias: Fé, na "via sacra"; Dores, na praia; Saudade, de volta a casa.
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Pedro Farinha
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Re: Fado

Postby Pedro Farinha » 11 Nov 2008 23:12

Ups, curioso. eu pensei que eram as várias "viúvas" de um só pescador. Devem ser as minhas tendências poligâmicas :lol2:

De qualquer forma o texto está muito bonito. Tenho é sempre pena que os teus textos sejam tão curtos. Quando é que aceitas o desafio de um texto de duas páginas...

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Re: Fado

Postby azert » 11 Nov 2008 23:28

A culpa não foi tua, eu é que não deixei claro que era uma personagem só. :rolleyes:

Quanto ao tamanho do texto, neste caso tenho desculpa, porque para a Revista Minguante o máximo são 200 palavrinhas. :mrgreen4nw:
Escrever um texto mais longo... não sei se consigo. :sad: Das vezes que tentei, não resultou, Talvez um dia, assim muito talvez. :tongue:
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Re: Fado

Postby Samwise » 12 Nov 2008 12:53

Azert,

O que mais me surpreende (ou talvez não, uma vez que já sei de que é que és capaz) nestas histórias é a capacidade com que nos equipas para imaginamos as coisas que ficam por dizer. O poder de síntese. Nesta crónica curta, há uma série de vidas que conseguimos adivinhar e construir a partir das poucas palavras que utilizas.

Acerca deste texto específico, está mesmo carregado de negrume, saudade e tristeza, e talvez seja por aí que fazes a ponte para o tema "Fado".

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Re: Fado

Postby azert » 12 Nov 2008 17:05

:notworthy:

Talvez que my thing sejam mesmo os textos curtos. :rolleyes:
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Re: Fado

Postby Thanatos » 14 Nov 2008 09:19

azert wrote::notworthy:

Talvez que my thing sejam mesmo os textos curtos. :rolleyes:



Tem piada que sempre pensei que as mulheres não gostavam de «curtos».

Prontos, esta é a minha «vingançazinha» pelo chingómetro. :devil:

A sério o texto está porreirito mas é de mim que não me dá pica ler textos tão curtinhos (e sim eu conheço a Minguante) pelo que fico sempre com um sabor a pouco. Ali neste 'Fado' material para muito mais. O que também não deixa de ser estimulante porque a imaginação fervilha de hipóteses.
Não importa como, não importa quando, não importa onde, a culpa será sempre do T!

-- um membro qualquer do BBdE!


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