Impressões

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azert
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Postby azert » 01 Apr 2009 00:33

Ali estava a família: o pai, há quinze anos separado da mãe; a mãe, cada vez mais envolvida no abraço de Alzheimer; a irmã, que suporta já mais de vinte anos de casada; ela, que nunca casou e a sobrinha, pela idade ainda arredada desse junta-separa. Faltava o marido da irmã, de mal com o pai, e o pai do seu filho, já antes da separação arredio de fotos de família. E faltava o filho pequeno, depositário das últimas esperanças do avô.
Recuando vinte anos, a mesma foto não defraudava ainda as esperanças, mas agora que o tempo vincou rugas e trajectos, enganos, falhas, lutas e desânimos, agora que se revelaram impotências e sonhos traídos, tudo é visível na imagem, até mesmo as distâncias, apesar dos abraços, sempre fotogénicos.
É este o retrato do homem lutador que construiu para si um lugar confortável na vida, tal como se propôs na sua juventude, quando quase tudo lhe faltava e, por isso, tudo queria. E, por destoarem, vai deixando cair as mulheres, todas elas sucumbidas à tristeza, há já três gerações. E ela, reconhecendo-o, envergonha-se e esconde-se; sabe que o desiludiu, ao pai de vontade férrea.
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Re: Impressões

Postby pco69 » 01 Apr 2009 15:28

azert wrote:(...)
sabe que o desiludiu, ao pai de vontade férrea.

Bom texto, mas não gosto do conteúdo....ou seja, do que aquilo que eu acho que pretende transmitir.
Parece-me que seria mais um daqueles pais que pretendem orientar os filhos numa determinada direcção e os formatam de tal forma que quando eles seguem caminhos diferentes, acabam por sentirem que falharam....
Fenómenos desencadeantes de enfarte do miocárdio

Esforços físicos, stress psíquico, digestão de alimentos, coito, tempo frio, vento de frente e esforços a princípio da manhã.

Ou seja, é extremamente perigoso fazer sexo ao ar livre com vento de frente, após ter tomado o pequeno almoço numa manhã de inverno...

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Re: Impressões

Postby azert » 01 Apr 2009 15:52

Para quem, como eu, escreve sem recursos (que é como quem diz, que não sabe escrever, não como um escritor), escrever é tentar descobrir o que tenho para dizer, já que as palavras vêm algures do fundo (chamemos-lhe ID, inconsciente, intuição...) e o meu pulso mais não é do que o instrumento de escoamento. Lamento se o texto saiu um pouco para o pesado, acontece. :rolleyes:

Esse pai de vontade férrea, que tanto te desagradou pco, não é dos que traçam destinos - apenas esperam sucesso. O que já não é pouco.
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Re: Impressões

Postby Thanatos » 01 Apr 2009 15:56

Pois a mim o texto não me desagradou nada. Estava a lê-lo e a imaginar uma foto em tons sépia... e aquelas intermináveis reuniões de família com todos aos beijinhos mas todos com esqueletos no armário...

Não sei mas de certa forma este texto atravessa gerações e experiências para ser universal no seu apelo. Pena ser tão breve.

azert: estás como eu quando escrevo... sinto-me conduta de algo que não se gera necessariamente dentro de mim mas de pedaços de mim e doutros que se cruzaram comigo e que eu por osmose absorvi... enfim! :rolleyes:
Não importa como, não importa quando, não importa onde, a culpa será sempre do T!

-- um membro qualquer do BBdE!

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Re: Impressões

Postby azert » 01 Apr 2009 16:06

Thanatos wrote:azert: estás como eu quando escrevo... sinto-me conduta de algo que não se gera necessariamente dentro de mim mas de pedaços de mim e doutros que se cruzaram comigo e que eu por osmose absorvi... enfim! :rolleyes:


A propósito disso, a Sophia de Mello Breyner dizia qualquer coisa como achar, em pequena, ao ouvir poesia, que os poemas seriam ditados por alguém (as musas?).

Precisamente por não ser mais do que uma simples escriba, quando se corta a inspiração, acabam-se os textos! :sad:
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Re: Impressões

Postby Pedro Farinha » 01 Apr 2009 20:25

azert deves escrever quando tiveres vontade ou te apetecer e não o fazer quando não o tiveres. Por vezes é preciso deixar as palavras em pousio...

Este teu texto começa bem, o ambiente está criado mas gostava que tivesse tido mais desenvolvimento.

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Re: Impressões

Postby gajomailindo » 14 Apr 2009 12:50

E na fotografia vê-se esse peso da "culpa" às tuas costas.
Mas... Culpa de quê?
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Re: Impressões

Postby Ripley » 14 Apr 2009 14:25

azert, não consegui comentar este texto da primeira vez que o li. Fiquei com a sensação de algo que não estava a ser capaz de interpretar.
Desta vez, já após os teus comentários, entendi-o melhor; o pai, habituado ao sucesso e exigente em que os que a ele estivessem ligados fossem igualmente bem sucedidos, deixando para trás quem não "cumprisse" essa exigência. Pareceu-me que o que ele queria era, não que seguissem as suas pisadas ou um qualquer destino que ele traçasse, mas que se abalançassem a desejar algo, fixar objectivos por si próprios e principalmente atingi-los como ele fizera.

A sensação final foi, como outros já disseram, de que haveria mais a contar. É pena que a inspiração se tenha sumido de repente.
"És a metade que me é tudo." [Pedro Chagas Freitas]
---§§§---
"O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende." [Miguel Esteves Cardoso]

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Re: Impressões

Postby azert » 14 Apr 2009 15:58

gajomailindo wrote:E na fotografia vê-se esse peso da "culpa" às tuas costas.
Mas... Culpa de quê?


Das escolhas que ela fez ou deixou por fazer, da pontaria desacertada com os destinos por ela esboçados (tantos e tão desperdiçados). Tu, que a conheces, não precisas de explicação.

Lt, thanks! :smile:
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