Entrei em Braga

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azert
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Entrei em Braga

Postby azert » 30 Apr 2009 17:01

<!--coloro:#696969--><!--/coloro-->(texto do concurso "Obrigados a entrar em Braga algo desconfiados")*
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Entrei em Braga algo desconfiada, depois de ter sido passada de um lugar para outro, sem saber em qual iria finalmente ficar. Era de noite e não se viam as cordas com roupa a secar, nem as mulheres de negro a estendê-la. A avenida que se abria para um e outro lado do semáforo era ladeada por prédios, não havendo nem sinal das colinas onde esperava ter encontrado as fêmeas em sua devida ocupação.

O meu pai estacionou o carro de cuja mala retirámos os pertences que nos haviam acompanhado na travessia aérea entre dois continentes. Eram quase tudo quanto tínhamos, quase tudo quanto guardáramos da nossa existência no país que há uns meses tínhamos deixado em rápida fuga. Entrámos no hotel que iria ser a nossa morada até encontrarmos sítio menos provisório.

No dia seguinte começámos a busca de uma casa económica, pois o estatuto granjeado pelo esforço paterno além-mar mais não era do que uma recordação nesta terra estranha, onde tudo seria novamente uma vez. Percorremos a cidade, visitando vivendas fora de mão e fora de bolso e terminámos por alugar um apartamento na avenida por onde entráramos em Braga.

Eu já sabia agora do desencontro entre a imagem que tinha feito de Braga e a realidade. As mulheres de negro, cabeças cobertas por lenços e ventres tapados com aventais, ficaram para trás, na aldeia paterna aos pés da serra, onde a única casa de banho existente era a da Casa do Povo. Ao mais, resolviam-se todas as necessidades com baldes e alguidares por trás de uma cortina. Findo o serviço, lançavam-se os produtos das entranhas às valas das ruas e riachos de dejectos corriam rente às casas, uniformizando odores por toda a aldeia.

Assim que Braga era uma cidade e eu já sabia então que este país era feito tanto de povoações grandes e pavimentadas, onde se amontoavam aos sete andares famílias para viver, como de pequenos lugares, próximos no espaço, mas distantes no tempo. Do assento traseiro do carro do meu pai, fiquei conhecer umas e outros, tentando reter na memória o que viam os olhos e no estômago o que havia comido a boca. As estradas retorciam-se, dorida a terra pelos rasgões das obras públicas. Só mais tarde haviam de cicatrizar, à força de alcatrão, e endireitar-se para regozijo dos viajantes rodoviários. Mas naquela altura, tardavam sempre mais os destinos que, embora não muito distantes, se adiavam pelas curvas.

Também havia de ver Portugal inteiro, com terras e rios, planícies e montes, pendurado por um fio na parede, ao pé do quadro por onde desfilariam as aprendizagens de três anos de escola. E, por entre as carteiras e as casas das colegas, haveria de fiar raízes, pois que as que fragilmente haviam sido criadas desde a minha nascença, tinham ficado no ultramar, nome que uniformemente se atribuía a todos os países, maiores que Portugal, que constituíam o Luso império.

Fui então percebendo, à medida que ia entrando nas casas, a existência de uma intrincada rede familiar de que todas as minhas amigas faziam parte e que, no meu caso, se encontrava dispersa pelos velhos países de origem e pelos de destino, para onde alguns tinham partido atrás de todas as possibilidades. Entrava nas casas da cidade, sem referências de ascendência que me pudessem situar na hierarquia das suas famílias antigas. Toda eu era estranheza, desde o tom de pele, escurecido pelo sol africano, ao nome, herança do lado estrangeiro da minha mãe, e ao lugar de nascimento, mais longínquo ainda no conhecimento dos meus concidadãos do que no mapa.

Morava na Avenida da Liberdade e ia aos recados ao mini-mercado "Abril em Portugal", no cruzamento com a Rua 25 de Abril. Naquele quarteirão, as vias rebaptizadas após as mudanças recentes ocorridas na nação, conviviam com as ruas de Goa, Damão e Diu, numa amálgama de anacronismos. Estes, contudo, não se revelavam somente na nomenclatura das ruas – eram muito mais evidentes no desfasamento das mentalidades relativamente aos tempos revolucionários que acabavam de atravessar, talvez por Lisboa ainda ficar tão longe.

Brincando um dia na rua, como há trinta anos se podia fazer, chamou-me um rapaz de "preta", designação sem dúvida escutada em casa, saída de bocas ofendidas pela invasão dos "retornados" que, ao que se dizia na época, roubavam os postos de trabalho aos nacionais, esquecendo que também aqueles eram portugueses. Em reposta ao rapaz – convencido de me ter feito um grande insulto – chamei-lhe "albino", palavra que, por não constar do seu vocabulário, acabou por não surtir efeito. Ele não suspeitava que ser diferente era para mim, simultaneamente, causa de sofrimento e orgulho. O não pertencer totalmente a esta terra, ainda que me fizesse sentir desenraizada, conferia-me um ponto de vista distante.

Senti-me estrangeira até chegar à adolescência, altura em que comecei a criar gosto pela traça dos antigos prédios do centro histórico – alguns já desaparecidos ou reinventados – sem nenhum ponto em comum com a arquitectura de desenho colonial e, mais recentemente, vanguardista, a que estava acostumada em Moçambique. Visitava museus, igrejas – das muitas que Braga tem – aspirando séculos de história. Foi pela apropriação do passado da cidade que me fui sentindo, pouco a pouco, parte integrante dela.

Sendo de vários sítios e de nenhum, hoje sinto-me quase deste país e quase desta cidade. Orgulho-me das pedras da Sé, das torres que franqueavam a entrada na cidade e para lá das quais se foi derramando a cidade, dos caminhos pisados outrora por pés romanos, dos anéis de história que foram crescendo a partir do núcleo de Braga, como nas árvores. Só não me chega o orgulho para as sufocantes urbanizações, os andares suplementares nos prédios (como se enganam os projectos arquitectónicos relativamente à realidade!), os parques deixados aos estragos do tempo, a vala que foi um dia um rio e os espaços verdes que não vejo.

* http://www.bbde.org/index.php?s=&showt...ost&p=52068
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Re: Entrei em Braga

Postby azert » 30 Apr 2009 17:06

Para que não digam que não avisei, este texto é um bocado pastelão, com menos interesse "literário" do que sociológico, histórico ou pessoal. :rolleyes:
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Re: Entrei em Braga

Postby Samwise » 30 Apr 2009 17:17

:smile: (you know why)

Sam
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Re: Entrei em Braga

Postby gajomailindo » 02 May 2009 01:54

Está óptimo!
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Re: Entrei em Braga

Postby azert » 02 May 2009 03:39

gajomailindo wrote:Está óptimo!


Óptimo, não está, mas está sincero. :smile:
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Re: Entrei em Braga

Postby azert » 02 May 2009 17:03

Samwise wrote::smile: (you know why)

Sam


Publicamente agradeço a paciência com que leste este texto após a sua criação, um ano atrás, e os comentários que fizéste. :smile:
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