09 Feb 2010 16:11 by Pedro Farinha
A questão aqui é exactamente essa. Se estamos aqui para falar de livros, mais interessante do gosto / não gosto, é percebermos e discutirmos porque gostamos, porque não gostamos e, pelo menos eu tento, aprender mais alguma coisa sobre literatura, correntes literárias, conhecer autores, etc.
Já não são poucos os autores e livros que li à conta deste fórum e dos seus utilizadores e que entraram na minha top list.
Quanto a Kafka e Camus, julgo que ambos existencialistas (Sandra se estiver a dar alguma calinada grande podes corrigir-me) diferem no entanto (nos dois livros de cada um que li) na forma como a personagem central é colocada. Em Kafka, quer no Processo quer na Metamorfose, o personagem principal em termos acção é um joguete do destino e são os seus pensamentos que dominam o livro e o absurdo.
Em Camus, pelo contrário, os protagonistas agem e tentam forçar o destino ou, como acontece n'O estrangeiro olham para o seu próprio destino como se fosse o de outrem, podendo agir mas alheando-se da sua sorte. N'O processo é exactamente o contrário, o personagem central tenta agir mas é impotente face à "máquina burocrática". Ou seja, em Camus o homem domina, em Kafka é dominado.
Depois, há outra razão para eu achar Camus francamente bom e Kafka medíocre. Que é a escrita. A de Camus, ainda mais contida, mas, talvez por força disso, com uma selecção criteriosa de palavras e de expressões que consegue numa única linha conter uma profusão de informação. Em Kafka não senti essa força da linguagem nem o poder da palavra escrita.
Admito, no entanto, que os tradutores dos livros em questão também podem ter a sua influencia.
A peste que estou a começar agora, espero que me venha confirmar a genialidade de Camus. que de autor que nunca tinha lido até há bem pouco tempo, saltou seguramente para o top 10.