O Exílio e o Reino

<<

Pedro Farinha

User avatar

Edição Única

Posts: 2797

Joined: 03 Apr 2005 00:07

Post 08 Feb 2010 21:58

O Exílio e o Reino

O Exílio e o Reino
Albert Camus

Este livro de Camus traz-nos seis contos, cinco dos quais passados na sua terra, a Argélia, onde cada individuo se sente, de alguma forma, exilado na sua própria terra. São histórias de pessoas, das suas formas de encarar a vida, da relação entre elas. Histórias de grande profundidade mas escritas com a contenção e a mestria que caracteriza a obra de Camus.
Há livros que sabem ao deserto seco das pedras e às faces escavadas dos homens profundos.
9/10
<<

Samwise

User avatar

Edição Única

Posts: 11471

Joined: 29 Dec 2004 11:46

Location: Monument Valley

Post 08 Feb 2010 22:20

Ultimamente tens lido algumas coisas dele, não é?

Acabei ontem O Estrangeiro e já tenho ali A Peste, que anda a ser folheada aleatoriamente sempre que passo perto dela... :D
«Somos a memória que temos e a responsabilidade que assumimos. Sem memória não existimos, sem responsabilidade talvez não mereçamos existir.» - José Saramago - Diário II

«A alegria é uma queimadura que não se saboreia.»
(...)
«Se há qualquer coisa que se pode desejar sempre e obter algumas vezes, essa qualquer coisa é a ternura humana.» - Albert Camus - A Peste

BBdE-Zine V.II * * * * Lista de filmes 2010
<<

Pedro Farinha

User avatar

Edição Única

Posts: 2797

Joined: 03 Apr 2005 00:07

Post 08 Feb 2010 22:32

E que achaste do Estrangeiro ?
<<

Samwise

User avatar

Edição Única

Posts: 11471

Joined: 29 Dec 2004 11:46

Location: Monument Valley

Post 08 Feb 2010 22:37

Obra-prima. Vou ver se escrevinho qualquer coisa mais elaborada que isto.

Como nunca tinha lido nada dele, fui apanhado de surpresa. Já sei que não achas muita piada a Kafka, mas houve ali qualquer coisa de irreversível no destino daquela personagem que me fez lembrar o saudoso K. Isso e mais a inversão a nível de importância que é dada às coisas que o rodeiam.
«Somos a memória que temos e a responsabilidade que assumimos. Sem memória não existimos, sem responsabilidade talvez não mereçamos existir.» - José Saramago - Diário II

«A alegria é uma queimadura que não se saboreia.»
(...)
«Se há qualquer coisa que se pode desejar sempre e obter algumas vezes, essa qualquer coisa é a ternura humana.» - Albert Camus - A Peste

BBdE-Zine V.II * * * * Lista de filmes 2010
<<

Tzimbi

Edição Limitada

Posts: 1225

Joined: 11 May 2007 23:24

Location: Lisboa

Post 08 Feb 2010 23:22

Samwise wrote:Como nunca tinha lido nada dele, fui apanhado de surpresa. Já sei que não achas muita piada a Kafka, mas houve ali qualquer coisa de irreversível no destino daquela personagem que me fez lembrar o saudoso K. Isso e mais a inversão a nível de importância que é dada as coisas que o rodeiam.


Claro que Kafka e Camus andam de mãos dadas, Sam. O K. e Mersault são os chamados heróis-absurdos. Eu ainda os relacionava com mais um herói, ou anti-herói, o Raskolnikov.
Camus e Kafka partilham muitas características, mesmo a nível de temática. A alienação do homem, o absurdo da vida e de múltiplas situações, e mais uma lista infindável de pontos de contacto. Aliás, Camus reconhece a genialidade da obra de Kafka. Não me recordo onde li que Camus afirmava que a obra de Kafka devia ser lida muitas vezes devido ao seu carácter altamente simbólico que dá origem a diferentes interpretações.

S.

(Ainda hoje é um mistério para mim por que razão o Pedro acha Kafka um "chato" e agora le Camus e adora.)
<<

Arsénio Mata

User avatar

Edição Limitada

Posts: 1013

Joined: 01 Oct 2009 20:41

Location: Portimão

Post 09 Feb 2010 02:39

Tzimbi wrote:

Camus e Kafka partilham muitas características, mesmo a nível de temática. A alienação do homem, o absurdo da vida e de múltiplas situações, e mais uma lista infindável de pontos de contacto.

Correndo o risco de ser crucificado, concordo com o que dizes, mas parece-me que o Camus o faz muito melhor. Atenção que só li um livro de cada, não posso falar da obra completa.
"Wake up, fight back, open your eyes and see that we are under attack, take it for granted and they will take it all right back. Right back is where we are going, regression to the Dark Age, open up our present lives and it's another fucking black page" - Animosity - The Black Page

Game Over - O Delfim - José Cardoso Pires
Em fase de degustação - Submundo - Don DeLillo
Próxima vítima - A Obra ao Negro - Marguerite Yourcenar

www.oarseniomata.blogspot.com
<<

Thanatos

User avatar

Edição Única

Posts: 10053

Joined: 31 Dec 2004 22:36

Location: Cosmos

Post 09 Feb 2010 10:16

Arsénio Mata wrote:
Tzimbi wrote:

Camus e Kafka partilham muitas características, mesmo a nível de temática. A alienação do homem, o absurdo da vida e de múltiplas situações, e mais uma lista infindável de pontos de contacto.

Correndo o risco de ser crucificado, concordo com o que dizes, mas parece-me que o Camus o faz muito melhor. Atenção que só li um livro de cada, não posso falar da obra completa.



Talvez porque é um nadinha mais coerente no enredo. Eu, embora do Camus só tenha lido A Peste (e por culpa do filme) tenho a ideia de que compará-lo ao Kafka, pese embora o absurdismo em ambos, acaba por ser como comparar diamantes com ouro. Não leva a lado nenhum em concreto e serve mesmo para quê? Para mostrarmos o quanto avant-garde somos nas nossas apreciações e gostos literários? ^_^
<<

croquete

User avatar

Dicionário

Posts: 618

Joined: 11 Feb 2009 16:29

Post 09 Feb 2010 10:48

Também acho que uma argumentação do tipo: " o escritor A escreve melhor que o B" deve ter um pouco mais de espessura.
Nem que seja só para ficarmos um pouco mais livres de interpretações redutoras sobre a intenção com que exprimimos a nossa opinião. :mrgreen:
<<

Samwise

User avatar

Edição Única

Posts: 11471

Joined: 29 Dec 2004 11:46

Location: Monument Valley

Post 09 Feb 2010 11:21

Thanatos wrote:Talvez porque é um nadinha mais coerente no enredo. Eu, embora do Camus só tenha lido A Peste (e por culpa do filme) tenho a ideia de que compará-lo ao Kafka, pese embora o absurdismo em ambos, acaba por ser como comparar diamantes com ouro. Não leva a lado nenhum em concreto e serve mesmo para quê? Para mostrarmos o quanto avant-garde somos nas nossas apreciações e gostos literários? ^_^


Outra vez a essa pergunta? (que no âmago é uma sucedânea de: debater a arte serve para quê?)

Sim, serve para mostrarmos o quanto avant-garde somos nas nossas apreciações e gostos literários! :twisted: É como dizer: Aqui o Je já leu isto e aquilo (tudo coisas intelectuais) e até apanhou estes pontos de contacto - o que quer dizer que não é tapado de todo (ou que sabe ir à net, pelo menos)...

Quão pouco interessante seria o mundo se não houvesse troca de ideias sobre... tudo. Comparar é uma das formas de gerar interesse, nos outros e em nós próprios.
«Somos a memória que temos e a responsabilidade que assumimos. Sem memória não existimos, sem responsabilidade talvez não mereçamos existir.» - José Saramago - Diário II

«A alegria é uma queimadura que não se saboreia.»
(...)
«Se há qualquer coisa que se pode desejar sempre e obter algumas vezes, essa qualquer coisa é a ternura humana.» - Albert Camus - A Peste

BBdE-Zine V.II * * * * Lista de filmes 2010
<<

Thanatos

User avatar

Edição Única

Posts: 10053

Joined: 31 Dec 2004 22:36

Location: Cosmos

Post 09 Feb 2010 11:28

Discordo em parte. Comparar é tentar arrumar as prateleiras da nossa mente e rotular para controlar. Abominamos o caos e daí esta tendência para em tudo dizer: se gostas disto provavelmente também gostarás daquilo. É um tendência monolista que tenta quebrar o individualismo de cada um. Camus e Kafka, antes de serem escritores e criadores eram indíviduos. Comparar as obras está muito bem para teses de Literatura nas faculdades. No dia-a-dia serve apenas como tópicos de fórum. Ohhh, espera aí mas isto é um fórum... :P
<<

Pedro Farinha

User avatar

Edição Única

Posts: 2797

Joined: 03 Apr 2005 00:07

Post 09 Feb 2010 16:11

A questão aqui é exactamente essa. Se estamos aqui para falar de livros, mais interessante do gosto / não gosto, é percebermos e discutirmos porque gostamos, porque não gostamos e, pelo menos eu tento, aprender mais alguma coisa sobre literatura, correntes literárias, conhecer autores, etc.

Já não são poucos os autores e livros que li à conta deste fórum e dos seus utilizadores e que entraram na minha top list.

Quanto a Kafka e Camus, julgo que ambos existencialistas (Sandra se estiver a dar alguma calinada grande podes corrigir-me) diferem no entanto (nos dois livros de cada um que li) na forma como a personagem central é colocada. Em Kafka, quer no Processo quer na Metamorfose, o personagem principal em termos acção é um joguete do destino e são os seus pensamentos que dominam o livro e o absurdo.

Em Camus, pelo contrário, os protagonistas agem e tentam forçar o destino ou, como acontece n'O estrangeiro olham para o seu próprio destino como se fosse o de outrem, podendo agir mas alheando-se da sua sorte. N'O processo é exactamente o contrário, o personagem central tenta agir mas é impotente face à "máquina burocrática". Ou seja, em Camus o homem domina, em Kafka é dominado.

Depois, há outra razão para eu achar Camus francamente bom e Kafka medíocre. Que é a escrita. A de Camus, ainda mais contida, mas, talvez por força disso, com uma selecção criteriosa de palavras e de expressões que consegue numa única linha conter uma profusão de informação. Em Kafka não senti essa força da linguagem nem o poder da palavra escrita.

Admito, no entanto, que os tradutores dos livros em questão também podem ter a sua influencia.

A peste que estou a começar agora, espero que me venha confirmar a genialidade de Camus. que de autor que nunca tinha lido até há bem pouco tempo, saltou seguramente para o top 10.
<<

Arsénio Mata

User avatar

Edição Limitada

Posts: 1013

Joined: 01 Oct 2009 20:41

Location: Portimão

Post 09 Feb 2010 20:32

Eu acho que comparar é excelente.
"Wake up, fight back, open your eyes and see that we are under attack, take it for granted and they will take it all right back. Right back is where we are going, regression to the Dark Age, open up our present lives and it's another fucking black page" - Animosity - The Black Page

Game Over - O Delfim - José Cardoso Pires
Em fase de degustação - Submundo - Don DeLillo
Próxima vítima - A Obra ao Negro - Marguerite Yourcenar

www.oarseniomata.blogspot.com
<<

Samwise

User avatar

Edição Única

Posts: 11471

Joined: 29 Dec 2004 11:46

Location: Monument Valley

Post 10 Feb 2010 00:51

Pedro Farinha wrote:Quanto a Kafka e Camus, julgo que ambos existencialistas (Sandra se estiver a dar alguma calinada grande podes corrigir-me) diferem no entanto (nos dois livros de cada um que li) na forma como a personagem central é colocada. Em Kafka, quer no Processo quer na Metamorfose, o personagem principal em termos acção é um joguete do destino e são os seus pensamentos que dominam o livro e o absurdo.

Em Camus, pelo contrário, os protagonistas agem e tentam forçar o destino ou, como acontece n'O estrangeiro olham para o seu próprio destino como se fosse o de outrem, podendo agir mas alheando-se da sua sorte. N'O processo é exactamente o contrário, o personagem central tenta agir mas é impotente face à "máquina burocrática". Ou seja, em Camus o homem domina, em Kafka é dominado.


Em resumo, e aproveitando um bom bocado da tua análise, eu diria que o absurdo n' O Estrangeiro vem de dentro (é algo relacionado com o modo como o indivíduo aborda a sociedade e as situações que esta lhe coloca), e em Kafka - em O Processo, O Castelo, e A Metamorfose - o absurdo é aquilo que a sociedade ou algo de exterior apresenta e impõe ao indivíduo, alguém que aos nossos olhos passa por pessoa normal.

Depois, há outra razão para eu achar Camus francamente bom e Kafka medíocre. Que é a escrita. A de Camus, ainda mais contida, mas, talvez por força disso, com uma selecção criteriosa de palavras e de expressões que consegue numa única linha conter uma profusão de informação. Em Kafka não senti essa força da linguagem nem o poder da palavra escrita.

Admito, no entanto, que os tradutores dos livros em questão também podem ter a sua influencia.


Não noto grande diferença no modelo estilístico das traduções entre os dois autores - e não acho nenhum deles particularmente agradável ou apelativo. A escrita, se a isolarmos e analisarmos frase a frase (se retirarmos todo contexto envolvente) é quase vulgar. E é bastante rude, também.
«Somos a memória que temos e a responsabilidade que assumimos. Sem memória não existimos, sem responsabilidade talvez não mereçamos existir.» - José Saramago - Diário II

«A alegria é uma queimadura que não se saboreia.»
(...)
«Se há qualquer coisa que se pode desejar sempre e obter algumas vezes, essa qualquer coisa é a ternura humana.» - Albert Camus - A Peste

BBdE-Zine V.II * * * * Lista de filmes 2010
<<

Pedro Farinha

User avatar

Edição Única

Posts: 2797

Joined: 03 Apr 2005 00:07

Post 10 Feb 2010 01:13

Sam, o Kafka sim, tem uma escrita mole e banal. Mas Camus, ainda que rude e contido, tem uma escrita que dá para saborear. Um exemplo:

Pequenina, mas insistente, havia já uns instantes que a mosca voava no autocarro, cujas janelas estavam todavia fechadas. Ia e vinha sem ruído num voo fatigado. Era frio o ar, e o insecto parecia sentir arrepios a cada rajada de areia que estalava vidraças. O veículo, na luz débil da manhã de Inverno, rolava e avançava a custo, num estardalhaço de eixos e de latas.

in O Exílio e o Reino


Mas ainda hei-de encontrar exemplos melhores.
<<

urukai

Edição Limitada

Posts: 1314

Joined: 07 Aug 2008 23:35

Location: Lisboa

Post 10 Feb 2010 11:20

Em quatro ou cinco páginas do Estrangeiro, gostava que tivesse sido da minha autoria esta metafora para os olhos de um velho:
Pontos de luz baça e sem vida num ninho de rugas.
"Um dia um livro há-de escrever-me."

"Youtube killed all the other stars."
Next

Return to Críticas - Opiniões

Who is online

Users browsing this forum: No registered users and 1 guest

Powered by phpBB © 2000, 2002, 2005, 2007 phpBB Group.
Designed by STSoftware for blacklist.org.