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A tua mãe

Posted: 04 Jul 2009 00:30
by Aignes
This is the story of your mum’s life.

A tua mãe não sabia o que era estar grávida. A tua mãe sentou-se um dia ao lado de um homem sem querer no autocarro para casa e apaixonou-se. Todos os dias o homem estava lá, todos os dias ela corria para a paragem para conseguir apanhar aquele autocarro, sentar-se naquele lugar, e esperar o homem que haveria de entrar na paragem seguinte. Uns dias depois, o homem já lhe sorria quando entrava no autocarro, mais uns dias e dizia-lhe adeus discretamente quando ela saía do autocarro antes dele, outros tantos dias e ele tinha a mão na perna dela, ela na casa dele, ele em cima dela. A seguir a isso ele não apareceu mais e uns dias (muitos) depois, ela tinha uma barriga que requeria ajuda para entrar no autocarro.

A tua mãe tinha a mania que era uma grande coisa, em criança. Era daquelas que se passeava sempre com uma amiga tonta atrás, que sem querer de propósito se esquecia que estava de saia quando fazia o pino, que tinha sempre os melhores lanches. Era uma criança feliz, daquelas que vivem às custas do que pensam dela e que não se importa minimamente com nada verdadeiramente. A adolescência não foi fácil. Uma coisa é esconder que por muito que diga não percebe o que é que é suposto ela fazer com um namorado, outra coisa diferente é esconder que é a última a precisar de usar soutien e a única que continua a parecer um cabide. O fascínio dela definhou, devagar, e quando deu por isso era já uma pessoa anónima e vulgar num transporte público a caminho de um emprego terrivelmente banal e chato.

A tua mãe teve de sair de casa quando engravidou de ti, e nunca mais falou à mãe dela (tua avó) desde aí, apesar de todos os anos telefonar ao pai no dia de anos e no natal. A tua mãe alugou uma casinha pequenina perto de onde trabalhava e deixou de andar de autocarro, só de metro. Teve-te em silêncio, e chorava às vezes para cima de ti quando te tinha ao colo. Vivia para te ver chegar da escola e dar-te um brinquedo novo, fazer os trabalhos contigo, fazer-te comidas deliciosas para o jantar.

A tua mãe estava lindíssima no teu funeral. Se calhar porque quase nunca se veste de preto, de repente a pele dela era branca como quando era pequena e os olhos eram grandes e profundos, apesar das lágrimas que os encobriam. O cabelo semi-grisalho dela tocou a madeira do teu caixão quando se debruçou por momentos, perdida. Ela não sabe ser mais nada, a tua mãe. De repente percebeu que nem sequer ser tua mãe soube ser, ou não estarias longe dela para sempre.


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Isto tem uma história. Encontrei algures a moda dos Lyttle Lytton. This is the story of your mum’s life foi a frase vencedora de 2004 e sinceramente não me parece um mau início de livro. Tentei provar isso, mas pronto.. fica a intenção. :rolleyes:

Re: A tua mãe

Posted: 04 Jul 2009 00:35
by Pedro Farinha
Muito bom Aignes. Gostei da maneira como a história está contada. Da repetição que dá ritmo. E da maneira como ficamos a conhecer a personalidade e a evolução da mesma ao longo da vida.

:notworthy: :notworthy: :notworthy:

Re: A tua mãe

Posted: 04 Jul 2009 13:19
by azert
Está muito bonito, Aignes, fizeste um óptimo trabalho com a frase proposta.  :thumbsup:

Re: A tua mãe

Posted: 04 Jul 2009 16:46
by Sofiushka
Muito, muito bonito :thumbsup:

Re: A tua mãe

Posted: 28 Sep 2009 17:11
by Gaminha
Gostei, triste e bonito é assim que gosto das short stories.

"Ela não sabe ser mais nada, a tua mãe. De repente percebeu que nem sequer ser tua mãe soube ser, ou não estarias longe dela para sempre." :crying:

Re: A tua mãe

Posted: 29 Sep 2009 13:11
by Aignes
Obrigada, Gaminha. Não era preciso ficares deprimida.. :mrgreen4nw: