O Sujeito lá de cima (II)

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Gaminha
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O Sujeito lá de cima (II)

Postby Gaminha » 14 Oct 2009 18:17

<div align="center">O Sujeito-Lá-de-Cima</div>


Era sábado e a noite ainda era uma menina, Rita e Maria relaxavam no carro depois de uma semana infernal. Rita ao volante bem-disposta olhava para o retrovisor observando os faróis de um carro que teimava em se chegar demasiado à traseira do seu.

- Imbecil. – Resmungava Rita meia a brincar meia a sério.

- Deixa lá o gajo, vamos é beber um copo e ter lá com o resto da malta. – Maria olhava para a parte de trás; confiava cegamente na Rita ao volante, mas não era adepta da velocidade.

Rita acelerava para se distanciar, saindo por fim da via rápida para fazer o resto do percurso até ao bar da praia, o outro carro seguia-as levando Rita a fazer manobras apertadas para se distanciar dele. Maria agarrou-se ao assento fechou os olhos e começou a rezar.

- Deixa-te disso, Mia. – Resmungou Rita.

Um estouro de metal e plástico seguido foi a última coisa que Maria ouviu.



Maria abriu os olhos e viu um céu lilás cheio de pequenos cavalos-marinhos verdes que dançavam em bandos, soltando ligeiros ruídos como notas soltas tocadas por buzinas. Ergueu-se assustada e olhou em seu redor, Rita encontrava-se deitada com os olhos abertos a cerca de 2 metros dela.

- Rita?

- Ah! Acordaste finalmente – Rita levantou-se e aproximou-se de Maria, pondo-se de cócoras – estás bem?

- Sim, bem acho que sim. Mas estou confusa…

Maria olhava em seu redor tentando perceber onde se encontrava. Estavam ambas numa minúscula ilha coberta de areia branca com duas palmeiras, rodeadas por um vasto mar vermelho tinto. Inúmeras ilhas do mesmo formato encontravam-se à cerca vinte metros de distância umas das outras. Algumas dessas ilhas encontravam-se com pessoas. Algumas deitadas, outras de pé, a maioria sozinhas…

- Marcaram entrevista daqui a sete minutos. – Os olhos da Rita brilhavam de malícia.

- Entrevista? O que é que me deste para fumar… que merda é esta? Fonha-se Rita, já te disse que não me dou a experimentar essas…

- Oh Mia, estás meia histérica hoje, pá. – Rita cortara a palavra de Maria - Não te dei nada. Ainda nem tínhamos chegado a lado nenhum… Não te lembras do que aconteceu?

A voz de Rita tinha baixado um pouco. Maria abanava a cabeça negativamente olhando para a areia branca. Rita sentara-se na areia olhando para as outras ilhas.

- Bem, deixa lá… vamos lá esperar pela entrevista.

- Mas que entrevista? – Maria começava a ficar aborrecida com aquilo. – Onde é que estamos?

Rita sorria e continuava a olhar para as outras pessoas.

- Já vais ver…



- Olá, posso convidar-vos para um chá?

A voz surgira nas costas delas. Onde antes só se viam duas palmeiras, agora encontrava-se uma mesa posta para o chá, com uma mulher vestida de seda colorida. Com um amplo gesto convidava-as a sentarem-se. Maria e Rita sentaram-se nas cadeiras e olhavam para a mulher enquanto ela servia a bebida.

- Como é que nos dirigimos a si? – a voz da Rita era ligeiramente trémula, tentando ganhar confiança.

- Como desejarem.

- A sujeita lá de cima!

Os olhos de Maria esbugalharam-se a olhar para Rita. Nem podia acreditar no que a Rita estava a dizer, tinham tido aquelas conversas demasiadas vezes, e agora ali, num sitio estranho, com mar vermelho, céu lilás e cavalos-marinhos voadores a sua melhor amiga dizia que estávamos perante Ele? Ou melhor Ela! Afinal deus era uma mulher. Maria olhava agora incrédula ou para uma ou para outra.

- Pode ser, com certeza. Vamos então conversar sobre como vai o mundo lá em baixo. Contem-me novidades? – A Sujeita lá de cima mexia tranquilamente o seu chá, enquanto olhava para elas.

- Co-... co-... como? – Maria não acreditava no que ouvia. Olhando agora para Ela. – Quer saber o que se passa \"lá em baixo\", quer dizer, no mundo? É isso?

A Mulher, a Sujeita ou lá o que fosse, riu-se. A luz do sol azul-cerúleo fazia brilhar os seus dentes magníficos. Embora... aqueles caninos não pareciam muito reconfortantes. Maria mexeu-se na cadeira como se tivesse a roupa desarranjada, sabem como é, quando os elásticos se metem por onde não devem.

- Pensei que era suposto ser omnisciente. Aliás, somos instados a orar, baseando-se esse apelo no pressuposto de estar sempre a ouvir-nos!

- Minha querida Mia... posso chamar-te assim, não posso? Querida Mia, sou uma pessoa tremendamente ocupada. Eu ouço as vossas preces mas não é naquela horinha precisa em que se ajoelham para rezar. Tenho um voice-mail para isso, percebes?

Maria fitou-a com ar perfeitamente incrédulo enquanto Rita se deixava escorregar no cadeirão de palhinha, rindo a bandeiras despregadas.

- Mia, pá... só tu! Estamos onde nunca pensámos, diante da Sujeita-lá-de-Cima cuja existência tanto discutimos e tu preocupas-te em saber se ela ouve as orações? Impagável! És... és impossível! – as lágrimas saltavam já dos olhos de Rita, presa num frenesi de riso.- Ai, ai... é melhor despacharmos esta história da entrevista. Tenho algumas perguntinhas para fazer também! Que quer saber ao certo?

De novo o sorriso luminoso.

- Digam-me, têm aparecido novos profetas lá em baixo?

- Como assim profetas? Gajos como Jesus, Maomé, Buda, etc ? Ou doidos varridos como o que mandou um urso comer um bando de criancinhas que gozou com a careca dele?

- Rita! – Maria engasgou-se. – Não fales de Jesus dessa maneira!

- Olha que porra, Mia! Deixa-te de mariquices! Andaste boa parte da tua vida, se calhar a melhor, enfiada num colégio de freiras a aprender sobre um Deus omnipotente, omnisciente, único e invisível. A seguir batemos as botas e vimos parar aqui, não diante de um velho de barbas com ar majestoso mas de uma sujeita com um aspecto normalíssimo! E que se fores a ver bem parece-se com a tua tia!

- Senhora, perdoe-lhe... ela não faz por mal – Maria tinha um ar terrivelmente mortificado. – Lá em baixo, inquiríeis vós, não sabemos de novos profetas. Mas têm surgido guerras provocadas por quem se diz enviado pelo seu Deus. Senhora, senhora... são o diabo encarnado, não são? Falsos profetas como as Escrituras predisseram!

- Eu não sei o que dizem as Escrituras que leste, Mia. Sabes, apenas uma parte contém de facto coisas que eu disse, que recomendei aos meus seguidores da altura. O resto foi ampliado, repetido, cortado, exagerado, sei lá! Há ali muita coisa que não tem nada a ver com o que eu instruía.

- Bom, mais alguma pergunta, Senhora Sujeita? – era a voz meio trocista de Rita. – Algo que queira de facto saber? Ou apenas fazer-nos andar meio à nora até nos convencermos que não vamos entrar em céu nenhum?

O sorriso esmoreceu.

- Rita, não sei porque dizes isso. Não estou aqui para vos fazer perder tempo pela simples razão que o tempo aqui não existe. O tempo como vocês o conhecem, pelo menos. Encontro-vos aqui e aproveito para vos perguntar pelas novidades lá de baixo.

- Peço desculpa – disse Rita. – Mas há-de concordar que isto parece um bocado estranho, não?

- Bem, minhas queridas, e que chás novos tem vocês por lá?

- Como? Chás? Devo estar a ouvir mal, só pode. Estão a gozar-me. – Rita levantara-se e quase entornara as chávenas. – Milhares de pessoas a morrer de fome, mulheres a sofrerem violência por parte dos maridos, crianças roubadas aos pais, guerras após guerras, tudo piora lá em baixo. Os ricos a ficarem cada vez mais ricos, os pobres a viverem na miséria. E estou eu aqui a dar-te informação sobre chás.

- E o que fizeste tu lá em baixo para melhor isso? – A Sujeita lá de cima mantinha-se inalterada a beber o chá.

- Eu? Eu vivo sem prejudicar ninguém, eu vivo a minha vida, eu, eu… - Rita começava a chorar grossas lágrimas, sentindo-se exausta e deixando-se cair na cadeira – Eu não sei… eu, eu morri.

Maria muito atrapalhada, levantou-se e aproximou-se de Rita e abraçou-a com força.



Maria abriu os olhos e viu um tecto branco, olhou para o lado e viu Rita deitada numa cama com tubos e vários aparelhos ligados.

- Ela está bem, já esteve acordada, mas tem vários ossos partidos. Como te sentes?

Reconheceu a voz da sua mãe de imediato e olhando-a começou a chorar, tentando-a abraçar.

- Oh mãe, também morreu?

- Oh filha que disparate, ninguém morreu.

<div align="right">MGL/RC 14 Out. 2009

Parte 1 Aqui</div>

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Re: O Sujeito lá de cima (II)

Postby Gaminha » 14 Oct 2009 18:34

Notas: a parte assinalada a itálico é a preciosa contribuição da Ripley para esta viagem.


O outro conto pode ser encontrado em: AQUI

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Re: O Sujeito lá de cima (II)

Postby Ripley » 15 Oct 2009 11:52

Gaminha, recomendo-te o chá de Marrocos, da Lipton ... aroma de caramelo e alcaçuz. :wink:
"És a metade que me é tudo." [Pedro Chagas Freitas]
---§§§---
"O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende." [Miguel Esteves Cardoso]

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Re: O Sujeito lá de cima (II)

Postby Gaminha » 15 Oct 2009 11:54

Ripley wrote:Gaminha, recomendo-te o chá de Marrocos, da Lipton ... aroma de caramelo e alcaçuz. :wink:


:rofl:


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