Porto - HGSA [2]

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Gaminha
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Porto - HGSA [2]

Postby Gaminha » 11 Jan 2010 13:00

Neva no Porto. O frio aperta de tal modo que sinto os pés molhados, como se os tivesse molhado em poças. As luvas parecem molhadas tal como os pés. Aperto-me contra o banco do táxi com as mãos dentro dos bolsos do casaco e escondo parte do rosto no cachecol.
Pela janela vejo flocos brancos a caírem. Muitos e rápidos como não imaginava que a neve fosse por cá. Caem e desfazem-se assim que tocam no vidro. Defronte à escadaria de pedra o táxi pára e eu saio. Não noto diferença de temperatura entre o interior do carro e cá fora. Subo e encontro a entrada do hospital estranhamente vazia, sem agitação nem o barulho habitual.

Sigo pelos corredores que me são familiares até a enfermaria M. Desta vez vou pausadamente e já não me espanto ao ver as portas fechadas. Como todos os dias, ainda estão a dar banho aos doentes, ainda falta limpar o chão e ainda temos de esperar. Como sempre ficamos à espera, do lado de fora, sem podermos ver os nossos. Como sempre olho para os que esperam como eu e nada nos distingue. Ali, naquele momento não interessa quem somos, e o que fazemos fora dali. Ali naquele momento somos "visitas" e aos olhos dos enfermeiros e auxiliares, somos todos iguais. Mais uma vez esperamos mais de uma hora pela autorização para entrar. A pequena janela da porta, permite-nos olhar para as camas. Vejo-o deitado a olhar para a televisão, algumas cortinas encontram-se fechadas e ao lado vejo uma cama vazia. Penso no senhor que foi internado ontem naquela cama e penso no pior. Olho para trás e vejo as visitas dele à espera. "Será que não sabem?" penso. Afasto-me e encosto-me a parede e vejo-os a aproximar da porta, em camera lenta vejo-os a avançar, a olhar. A cara da senhora muda drasticamente e começa a falar com o filho. O rapaz afasta a mãe com a mão e encosta-se à porta à procura. A senhora chora e eu sinto o meu chão a fugir. "Oh Deus, permite-me que isto nunca me aconteça."

- Calma mãe, calma. Ele está ali! Olha.

Sentado num cadeirão baixo junto à cama, o marido repousa meio adormecido.

Nestes corredores de pedra tenho descoberto diferentes tipos de medos e sensações. Não existe apenas um tipo de medo! Existem receios, preocupações e picos de adrenalina. Mas existe aquele medo frio que nos pica a barriga, que nos deixa zonzos e que prolonga os segundos, fazendo-os parecer horas.
Não conseguimos controlar as sensações e os pensamentos! Não conseguimos proteger os que amamos, não conseguimos simplesmente fazer muita coisa que damos por vezes como certo na nossa vida.

MGL, Porto - Hospital S. António, 10 de Janeiro 2010
Last edited by Gaminha on 11 Jan 2010 15:58, edited 1 time in total.

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Re: Porto - HGSA [2]

Postby Gaminha » 11 Jan 2010 15:32

Agora o texto já está completo. B)


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