Desafio: Vida de um parafuso

User avatar
Gaminha
Edição Limitada
Posts: 1363
Joined: 10 Jun 2009 16:53
Location: Porto
Contact:

Desafio: Vida de um parafuso

Postby Gaminha » 11 Jan 2010 16:25

No meu caso, serão pregos em vez de parafusos.

Os choros são abafados e sufocados. O sol torra o chão vermelho de terra, por onde pés descalços se arrastam. Cansados e sem alma sobem lentamente num cortejo fúnebre.

Numa mão suada e rude vários pregos seguem para o momento alto da sua existência. Pelas frinchas dos dedos apenas vêem vermelho. Chão vermelho de terra árida, capas vermelhas e limpas sobre os ombros de homens grandes, sangue vermelho a cair em grossas pingas.

Vários murmúrios se ouvem em redor. Lamentos, medos e incertezas. Pouco à frente homens semi-nus chegam ao cimo do monte.
O momento chegou. O momento pelo qual todo o prego anseia. Aos primeiros segundos da sua vida, em que começa a tomar forma por entre as chamas que aquecem o ferro, o prego entende a sua função. Deseja ardentemente reencontrar-se com o martelo que o ajudou nascer e que o verá a morrer.

Os pregos são pousados no chão poeirento, enquanto as mãos vão trabalhar as cordas. Pulsos e pés são presos à dura e áspera madeira. Ouvem-se gritos de dor, enquanto os martelos caem sobre outros pregos no cimo do mesmo monte.

Uma das mãos agarra o martelo, a outra pega no primeiro prego.
O prego sente a superfície quente de uma mão por baixo da sua ponta. Com um zumbir do ar o martelo cai-lhe em cima com força, obrigando-o a entranhar-se por entre pele, músculos e osso. Vários lamentos se ouvem por entre os que assistem. Vários pregos são usados naquele homem. A cruz de madeira é levantada, os pregos sustentam o homem preso à madeira, enquanto o céu escurece e as nuvens tapam o sol.

"Pai perdoa-lhes, eles não sabem o que fazem."

Return to “Gaminha”




  Who is online

Users browsing this forum: No registered users and 1 guest

cron