Júlia
Fecho os olhos e vejo a primeira vez que te vi, há cinquenta anos, e juro que bastava o olhar para perceber como a tua pele era sedosa. Bastou um olhar para saber que essa seda um dia roçaria na minha pele, áspera, fazendo ambas a simbiose perfeita. Vejo aquele teu sorriso envergonhado e percebo agora que não era vergonha, era certeza. Vejo o azul dos teus olhos e desejo beijá-lo, só mais uma vez.
Fecho os olhos e vejo a primeira vez que fizemos amor, meu amor. Depois do nosso casamento. A tua beleza foi a calma que me fez dizer-te: tem calma. E eu dentro de ti e tu dentro de mim. Um só já muito depois de o sermos.
Fecho os olhos e vejo a última vez que te vi e beijo o teu rosto enrugado uma última vez e vejo uma lágrima cair-te na face, uma última parte minha em ti. Sempre disseste que querias ir antes de mim, que não saberias o que fazer se algo me acontecesse. Eu também não sei Júlia. Quase te ouço dizer: tens os miúdos. Mas os miúdos já não são miúdos e têm os seus próprios miúdos. E eu só tenho é medo e saudade.
Fechei os olhos pela última vez.
A knife to the eye of modern day times
Exactly what you've worked for.
A price for the pride
I can feel the distance coming
The holes in my lungs
Won't let me take this anymore.
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