The Deer Hunter

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Samwise
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The Deer Hunter

Postby Samwise » 10 May 2010 01:50

(porque há determinadas conversas que resultam em saudades de ver filmes...)

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ilustração de Jamie Brown

Ao contrário daquilo que sucede na esmagadora maioria dos filmes norte-americanos produzidos nas décadas de 70 e 80 sobre a Guerra do Vietname, realizados numa altura em que as dolorosas feridas da nação mal haviam começado a sarar, The Deer Hunter - O Caçador foge à (quase) imperiosa necessidade de erguer a narrativa em torno de uma continuada encenação bélica e centra atenções no desenho do traço psicológico do soldado, da sua "família", e da comunidade em que vive, num retrato tripartido em que não se estabelecem divisórias entre os seus elementos (a dor do soldado determina a dor dos que o rodeiam, que por sua vez determina a dor da comunidade, que por sua vez...) e que espelha de forma localizada o drama de todo um país.

A singularidade deste filme completa-se, por acréscimo, ao considerarmos a abrangência da panorâmica do espaço e do tempo: é todo um círculo geográfico e cronológico que é percorrido, pois nem somos largado abruptamente no terreno de acção, como sucede, por exemplo, em Platoon - Os Bravos do Poletão, nem somos poupados aos horrores físicos mais explícitos, e lembremos que em Gardens of Stone - Jardins de Pedra nunca chegamos sequer a sair de território americano, nem, para terminar, nos cortam a janela para a acção na altura em que determinado episódio - um episódio em torno do qual se constrói o fio narrativo - atinge a sua conclusão, como acontece em Apocalypse Now, ou quando o fundamental da mensagem já foi passado, se pensarmos em Full Metal Jacket - Nascido para Matar.

Em The Deer Hunter, um filme de compartimentos (e de compartimentos dentro de compartimentos, e aí, então, podemos encontrar episódios), há um antes da guerra, um durante a guerra e um depois da guerra. De notar que o antes e o depois coincidem geograficamente - uma a pequena cidade/comunidade de raízes soviéticas (!) perdida e esquecida no interior da América - mas não cronologicamente, e que o "compartimento Vietname" que se lhes interpõe, e em que apenas participam activamente três membros, Michael (Robert de Niro), Nick (Cristopher Walken) e Steven (John Savage), vai dissolver a cola que unia e mantinha coesos os elementos estruturais dessa comunidade, vai desregular todo o sentido de pertença e de aparente conforto que uma rotina diária há muito tinha estabelecido. É importante referir, contudo, o caso de Michael, a personagem agregadora e central do filme, para quem este regresso à "normalidade comunitária" se torna na sua motivação principal (porque todas as referências se perderam no Vietname, e também porque esta normalidade significa obter o amor da mulher que até aí não o amava) mas que é contrária àquela com que inicia o filme, antes da guerra: a elevação espiritual, a separação entre o seu ser e a mediocridade pantanosa daquela "terreola", objectivo este que levava a cabo através da actividade que dá o nome ao filme, a caça de veados - é ele o Deer Hunter.

Apesar da violência desconcertante e insuportável das curtas cenas no Vietname (provavelmente as sequências de guerra mais intensas e difíceis de "encaixar" que alguma vez presenciei no cinema), e que não tenho dúvidas que permanecerão para sempre na história da sétima arte, é na encenação do sentido de mudança comunitária - e mais concretamente na incapacidade de Michael para tornar a criar os laços que anteriormente o definiam como pessoa e que o ligavam, ainda que por vias tortuosas, a essa comunidade - que The Deer Hunter firma os seus argumentos. Cimino utiliza toda a primeira hora do filme (que dura três horas) para garantir que o espectador se torne parte daquele grupo de amigos, um objectivo que alcança com eficácia e que tem por consequência o estabelecimento das personagens como pessoas aos nossos olhos - é que há uma diferença entre o dizer que aquilo são pessoas e o demonstrar o que as define como tal, tarefa que implica sermos colocados no centro dos seus processos de vida, que implica que vivamos com eles alguns momentos importantes (entre alegrias e tristezas, entre rotinas e escapes, entre códigos de celebração comunitária ancestral e motivações individualistas), e que, pois claro, exige tempo de fita, porventura um tempo que hoje em dia não teria sido concedido de boa vontade ao realizador (aliás, depois do desastre ruinoso de Heaven's Gate nada mais foi concedido de boa vontade ao realizador). Resultado: não só fica criado um patamar emocional e um efeito proximidade que afasta o filme do habitual flash rotineiro de dois ou três minutos de apresentações, como também ficam solidificadas as bases para toda a construção "hormonal", física e psicológica da comunidade. E daqui se parte para a dor e para o silenciamento dessa dor, para o sentimento incomensurável de perda, para a alienação social e humana (veja-se o caso de Steven e de Nick), para incapacidade em criar laços afectivos, e sobretudo para a mais completa desorientação espiritual, o desagregar dos processos constituintes da consciência individual e colectiva.

The Deer Hunter resultou num sucesso de bilheteira , de crítica e de público, e arrecadou em 1978 cinco Oscares da Academia: melhor filme, melhor realizador, melhor actor secundário (Cris. Walken), melhor montagem e melhor som. Ficaram por entregar as estatuetas a Robert de Niro e a Meryl Streep, nessa altura os melhores actores da sua geração, e neste filme dando provas concretas desse estatuto.

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Re: The Deer Hunter

Postby Tzimbi » 10 May 2010 10:25

No sábado não senti, mas agora fui eu que fiquei com saudades... :bow:

S.

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Re: The Deer Hunter

Postby Madame Butterfly » 10 May 2010 11:34

Assim que tiver o meu leitor de DVD, vou cobrar-te a promessa de me emprestares o filme :angel: :blush:

Com isto, tenho dois filmes agendados para os próximos tempos ;)

Jinhos

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Re: The Deer Hunter

Postby annawen » 10 May 2010 11:47

Não tenho dito nada, mas é excelente esta secção "fotogramas". Qualquer dia também coloco qualquer coisinha.

On-topic: "O Caçador" é realmente muito bom.

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Samwise
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Re: The Deer Hunter

Postby Samwise » 11 May 2010 03:00

(continuação)

Pela quantidade de vezes que usei a palavra "comunidade" nos parágrafos acima quase dava para adivinhar que deixei de fora um factor importante na definição do tom emocional do filme: a cidade, a sua estreita relação com as gentes, e a maneira como a fotografia lhe capta e imprime as tonalidades. Esse tom/tonalidade emocional mostra sobretudo melancolia e resignação. É o cinzento dos fumos da fábrica que se junta ao céu nebuloso contra o verde das montanhas (em contraste com o amarelo-dourado acolhedor dos espaços interiores).

A Clairton, Pennsylvania de O Caçador é uma pequena cidade interior, distante e isolada dos grandes centros urbanos, rodeada por escarpas montanhosas cobertas de árvores e onde se acumulam grandes formações de nuvens; adivinha-se um clima húmido e frio, Invernos rigorosos e Verões em que poucos dias se vê o Sol. As construções habitacionais, pré-fabricados em madeira, predominantemente, foram erguidas em redor de um gigantesco complexo siderúrgico, e este emprega a quase totalidade da população masculina local, que trabalha por turnos. Talvez a oferta de trabalho na Siderurgia tenha atraído inclusivamente alguns membros de pequenos agregados populacionais próximos. Por efeitos deste pólo industrial, o silêncio no vale é frequentemente perturbado pela chegada e partida de composições férreas e camiões de transporte. Há pouca oferta de emprego para as mulheres e a maioria dedica-se a cuidar do lar. Nos tempos livres, os homens reúnem-se nos bares da cidade para beber, falar de desporto e jogar snooker. É neste momento de lazer e convívio que se soltam os únicos sorrisos e gargalhadas do quotidiano. Alguns espíritos mais arrojados reúnem-se de vez em quando para uma caçada nas montanhas - o ponto alto das suas vidas insignificantes. Nada mais há que fazer para (des)ocupar o ócio. De noite, na escuridão, a silhueta do complexo industrial fica recortada pelos inúmeros cartazes de néon luminoso que assinalam bares e motéis. Os hábitos e tradições mostradas na primeira hora de filme denunciam a ascendência soviética dos habitantes, tal como as particularidades da cerimónia de casamento e a própria estrutura arquitectónica da igreja, a única construção a rivalizar com a siderurgia em termos de altura. Apesar disso, todos se consideram cidadãos americanos. Nesta cidade em que toda a gente se conhece, cada dia é igual ao anterior e a população envelhece indiferente à passagem do tempo...

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João Arctico
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Re: The Deer Hunter

Postby João Arctico » 11 May 2010 22:27

Vale a pena conversar sobre filmes contigo, SAM :tu:
Excelentes imagens, soberba abordagem :bow:
"É isto o que, de todo em todo, pretendia o autor? Não sei; é a opinião do leitor que eu dou." Jean-Paul Sartre
"Mas mesmo aquilo que a gente não se lembra de ter visto um dia, talvez se possa ver depois de algum viés da lembrança" Chico Buarque in Estorvo

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Re: The Deer Hunter

Postby Samwise » 11 May 2010 22:44

João Arctico wrote:Vale a pena conversar sobre filmes contigo, SAM :tu:


;)

Sempre tinhas razão quanto ao tema "Can't Take My Eyes Off You", é cantado uma segunda vez, durante a festa de casamento de Steven e Angela, por um dos amigos convidados.
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