O Nome da Rosa - Umberto Eco

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Samwise
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O Nome da Rosa - Umberto Eco

Postby Samwise » 27 May 2005 10:25

Europa, séc. XIV.

Numa época pautada por graves convulsões sociais, o clero debate-se para encontrar um meio de conseguir unir/unificar forças.
De um lado está um Papa com vontades ditatoriais e uma grande sede de poder, do outro está Pedro, governante de França e auto-proclamado Imperador. Pedro não reconhece a autoridade cristã no Papa vigente.
Várias ordens religiosas procuram apoio junto da facção que melhor defende os seus interesses. Há as menoritas, ordens que praticam a pobreza de Cristo (e que são a maior ameaça ao poder do Papa); há o clero secular, que vive nas grandes cidades, afastado da realidade rural, e que concentra a maioria do poder autoritário seguindo uma hierarquia que descende do Papa; há as ordens dominicais independentes, que vivem espalhadas um pouco por todo o lado em conventos autónomos, orgulhas da sua auto-suficiência e opositores ao domínio dos seculares; e há, ainda, a Igreja do Santo Ofício (a Inquisição), que não é mais que um instrumento usado pelo Papa para impor a ordem da maneira que entende.
Entre estas várias forças em oposição, é combinado um encontro numa abadia independente, considerada "terreno neutro", de modo a que todos se sintam em segurança. Interessa discutir ideias e demonstrar argumentos.
O frade Guilherme de Barkerville (um franciscano) e um seu aprendiz, Adso de Melk, chegam ao local alguns dias antes do encontro. Guilherme é um dos convocados de peso, orador pela causa menorita.
A Abadia em questão é um ponto de referência de sábios e escribas, devido à sua famosa biblioteca. Diz-se que é a mais vasta colecção de livros do ocidente cristão e que encerra obras há muito dadas como desaparecidas. O acesso, no entanto, a tais escritos, e restrito e controlado, não vá a obra do diabo chegar às mentes dos fracos de espírito.
Neste ambiente claustrofóbico uma série de crimes misteriosos vai abalar a credibilidade do encontro. Guilherme é encarregado, pelo Abade, de desvendar a verdade dos factos. O Abade, no entanto, não lhe confere autorização para entrar na biblioteca.

Se esta é a história presente no livro, não é à custa dela que podemos retirar a totalidade do prazer literário da obra. A história é um pretexto para outras coisas mais ... eruditas, digamos assim.
Em primeiro lugar temos o absoluto domínio e confiança com que Eco escreve as suas linhas. É uma prosa intrincada e pesada, mas que flúi nas nossas (línguas?) mentes como mel do mais puro. As palavras e a frases são colocadas como se fossem alicerces para a construção de uma estrutura minuciosamente planeada. É agradável assistir à construção e, claro está, desfrutar do conforto do resultado final.
É um deleite seguir o fio do texto e pensar nos vários pontos de vista com que podemos abordar as ideias nele expressas. E quase sempre encontramos indícios da mais fina ironia. Conseguimos imaginar o autor a sorrir com a sua criação.
Outro pilar inabalável da obra, diz quem sabe, é um enquadramento histórico imaculado. Podemos ficar com uma noção aproximada do clima de terror que se vivia na época. Somos confrontados com o mais inacreditável dos cenários sociais. As lutas de poder dentro do clero explicam facilmente o completo abandono e pobreza das populações. A força que deveria ser a maior protectora dos direitos dos fracos está mais interessada em garantir riqueza e poder para si própria. “Medieval” é mesmo o que nos vem à cabeça…
E depois temos "a literatura". A trama central da obra gira em torno de livros! Fala-nos de como tais coisas podem servir como meio para espalhar o conhecimento e de como o homem se serve deles para o impedir. Fala-nos de como um mesmo livro pode servir o bem e o mal. Fala-nos de livros que falam de outros livros e de como é dessa teia de referências que se constrói o conhecimento. Fala-nos da soberba individual versus sabedoria partilhada.
A existência de uma biblioteca-maravilha na abadia, que encerra um labirinto assustador, é uma festa-homenagem-parábola ao mundo literário.
O modo como todas estas vertentes encaixam uma nas outras é deveras notável. Um livro inesquecível.

Já estou a pensar no próximo que quero ler do Umberto Eco.

SamW

P.S. Coloquei aqui, na zona "Romance", a minha opinião, não a pensar no sentido que lhe dá o mote ("As mais belas histórias de Amor") mas no sentido/definição de Romance Literário, i.e:
"género narrativo ficcional em prosa, mais longo que a novela e o conto, em que as personagens são apresentadas com maior densidade psicológica, e o tempo e o espaço são categorias mais elaboradas"
Não sabia ao certo onde o colocar, por isso... :blush:
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Re: O Nome da Rosa

Postby Enthilza » 03 Sep 2006 23:53

Eu só vi mesmo o filme e foi aos bocados em várias aulas de musica. Achei o filme interessante, apesar de ter umas partes maçudas e como já vi o livro na biblioteca municipal tou a pensar ir lá requisitar.

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Re: O Nome da Rosa

Postby Samwise » 04 Sep 2006 13:08

Hmmmm... achaste o filme maçudo nalgumas partes?

O filme é um escorrega "placa-de-ferro" untado com azeite, em comparação com o livro. Mas tenta, quem sabe...

Sam

P.S. Viste o filme nas aulas de música? Mas isso foi parte do conteúdo programático? ou viste-o às escondidas (:mrgreen4nw:)?
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Re: O Nome da Rosa

Postby Enthilza » 04 Sep 2006 15:56

Não , foi o professor que não tinha mais nada que fazer então pô-lo para encher chouriços :tongue:

Achei-o um bocado maçudo sim, mas diga-se de passagem que o que eu queria era que a aula acabasse, portanto pode ser que mais descontraída não ache o livro. Vamos ber..

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Re: O Nome da Rosa

Postby Beatrice » 26 Jun 2007 16:43

Eu devorei, literalmente, este livro. Li aquela edição que saiu no Público com umas letras minúsculas, mas amei. É um dos livros que quero voltar a ler.
<i><!--sizeo:1--><span style="font-size:8pt;line-height:100%"><!--/sizeo-->We should read to give our souls a chance to luxuriate. <br /><!--sizec--></span><!--/sizec--></i><i><b><!--sizeo:1--><span style="font-size:8pt;line-height:100%"><!--/sizeo-->Henry Miller<!--sizec--></span><!--/sizec--></b></i>

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Re: O Nome da Rosa

Postby Rekoa_Meton » 04 Feb 2008 12:21

Foi o último livro que li. Penso que se calhar o fiz de forma demasiado apressada para poder "ler" a obra como deve ser, e um dia haverei de reler com a devida atenção (e com um qualquer tradutor de latim ligado).
Sinceramente, será um livro muito bom, mas apenas para quem tiver paciência e não tiver, de momento, outras coisas mais prementes em que pensar (como declives e ordenadas na origem, norma de vectores, métodos indirectos do estudo do interior da terra, volumes e massas molares).
A história é muito recheada com teorias e dilemas filosóficos, daí a necessidade de paciência e concentração na leitura. Para quem esperar ler pelo enredo, leiam outra coisa qualquer. Não digo que a perseguição do assassino na abadia, o decorrer das negociações e as incursões na biblioteca (o melhor do livro todo, aquele fascínio pela biblioteca vedada) não sejam interessantes, mas tudo isto se encontra bastante diluído noutros assuntos.
Não querendo descortinar o final, digo que gostei, provavelmente mais do último capítulo que o resto do livro todo.

Título de um dos capítulos:«Onde, para resumir as revelações prodigiosas de que aqui se fala, o título deveria ser tão longo como o capítulo, o que é contrário aos costumes.»
«Guilherme devolveu a sua hostilidade sorrindo-lhe de modo exageradamente cordial dizendo-lhe:
- Há bastante tempo que desejava conhecer um homem cuja fama me serviu de lição e de aviso para muitas importantes decisões que inspiraram a minha vida.
Sentença sem dúvida elogiosa e quase aduladora, para quem não soubesse, como porém Bernardo sabia, que uma das decisões mais importantes da vida de Guilherme tinha sido a de abandonar o ofício de inquisidor.»
<!--sizeo:2--><span style="font-size:10pt;line-height:100%"><!--/sizeo-->«Nat achava-se superior às outras pessoas. Lia livros, e coisas assim.»<!--sizec--></span><!--/sizec--> <!--sizeo:1--><span style="font-size:8pt;line-height:100%"><!--/sizeo-->em<!--sizec--></span><!--/sizec--> "<!--sizeo:1--><span style="font-size:8pt;line-height:100%"><!--/sizeo-->Os Pássaros", de Daphne Du Maurier<!--sizec--></span><!--/sizec-->

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Re: O Nome da Rosa

Postby Sibylla » 21 Mar 2008 23:26

Sinceramente, será um livro muito bom, mas apenas para quem tiver paciência e não tiver, de momento, outras coisas mais prementes em que pensar (como declives e ordenadas na origem, norma de vectores, métodos indirectos do estudo do interior da terra, volumes e massas molares).


Como te compreendo... :rolleyes:
Aconteceu me exactamente a mesma coisa. Comecei a ler e o que o li ate ao momento gostei bastante, mas o livro e um tanto ou quanto complicado e exige muita concentração e paciencia. Com derivadas, ciclo mitoticos, energias, reacçoes quimicas tem sido um bocado dificil. Vou tentar aproveitar as ferias da pascoa para terminar, se bem que outras leituras ja se impuseram pelo meio...

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Re: O Nome da Rosa

Postby Sibylla » 21 Mar 2008 23:30

Qualquer coisa correu mal... :dry: mas era suposto fazer referencia ao que disseste...

Inda sou uma novata nesta coisa dos foruns :blush:

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Re: O Nome da Rosa

Postby Ordie » 21 Mar 2008 23:32

curiosamente, o que me parou de o ler pela primeira vez foi o latim. metia-me nervos não perceber partes do livro, e parei. ainda não lhe voltei a pegar, mas quero. e desde então vi o filme e li o fim do livro. :shut:
He who thinks greatly must<br />err greatly.

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Re: O Nome da Rosa

Postby Sibylla » 21 Mar 2008 23:35

sim essa e outra coisa que enerva...quando me aparecem essas partes em latim espero ansiosamente que de seguida apareça a traduçao, como as vezes acontece...mas pronto...acho que a soluçao e comprar um dicionario e tentar perceber alguma coisa...

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Re: O Nome da Rosa

Postby Nela » 01 Jul 2008 19:33

Este foi livro que li e reli, e de ambas as vezes devorei. Maçudo, sim, eventualmente, mas muito interessante e com uma fundamentação histórica e representação da época que me deixou abismada e ainda mais interessada em história medieval.

Quanto às horas canónicas em latim... aprendi-as a ler o livro, o que é muito útil para quem faz palavras cruzadas como eu. :tongue:

Já agora, o guião do filme está muito bem adaptado. Os aspectos mais tenebrosos e macabros foram deixados um pouco de fora mas ainda assim faz um retrato bastante fiel do que o autor pretende transmitir... temática sobre a qual não me vou debruçar que tenho de ir andando para casa. :wink:

Cheers!
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Re: O Nome da Rosa

Postby pcosta » 07 Sep 2008 03:20

Adoro os livros do Umberto Eco. Adorei este livro, tal como baudolino.

Para tudo, Umberto Eco é sempre uma opção. Seja qual for a área/título...

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Cerridwen
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Re: O Nome da Rosa

Postby Cerridwen » 15 Nov 2011 16:06

A editora Gradiva vai lançar uma nova edição de O Nome da Rosa, de Umberto Eco.

Páginas: 616
ISBN: 978-989-616-454-6
Data de publicação: 21 de Novembro

Sinopse: «Primeira edição em todo o mundo da versão revista pelo autor. Numa nova tradução, admirável, do Professor Jorge Vaz de Carvalho que acaba de ser galardoado com o Prémio PEN Clube Português 2010 na categoria de ensaio, com a obra Jorge de Sena: "Sinais de Fogo" como Romance de Formação.»

Umberto Eco é um escritor e homem de letras italiano nascido em 1932. Doutorou-se pela Universidade de Turim, com uma tese sobre "O Problema Estético em S. Tomás de Aquino". Desempenhou funções de editor cultural, na televisão RAI, entre 1954 e 1959. Foi professor nas universidades de Turim, Milão e Florença e no Instituto Politécnico de Milão. Mais tarde foi nomeado professor catedrático de Semiótica pela Universidade de Bolonha. Contribuiu para várias publicações com artigos. Publicou diversas obras, incluindo estudos académicos sobre Estética, Semiótica e Filosofia, destaque para La Definizione Dell'Arte (1968), Le Forme Del Contenuto (1971), Trattato Di Semiotica Generale (1976), Come Si Fa Una Tesi Di Laurea (Como Fazer Uma Tese de Doutoramento - 1977), Arte E Bellezza Nell'Estetica Medievale (1986) e História da Beleza. Em 1980 foi publicado o seu primeiro romance, Il Nome Della Rosa (O Nome da Rosa), obra que foi adaptada para o cinema, em 1986, pelo realizador Jean-Jacques Annaud. Os outros romances da sua autoria são Il Pendolo Di Foucault (O pêndulo de Foucault - 1988), L'Isola Del Giorno Prima (A Ilha do Dia Antes - 1995) e Baudolin (Baudolino - 2000).

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Re: O Nome da Rosa - Umberto Eco

Postby Forbidden » 28 Mar 2014 22:20

Li na net que o livro tem varias sequencias de latim - nao traduzidas. Que lindo, eu que nao sei nadinha de latim! :rolleyes:

Secalhar os livros deste senhor nao sao mesmo pra mim...
"I took a deep breath and listened to the old brag of my heart: I am, I am, I am."

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Re: O Nome da Rosa - Umberto Eco

Postby MAGG » 29 Mar 2014 00:39

Vos can semper requiremus Google Translator. :mrgreen:


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