Lord of the Flies / O Deus das Moscas (William Golding)

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croquete

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Post 06 Jan 2011 20:13

Re: Lord of the Flies

quote="Arsénio Mata"]Aliás, eu até acho que nascemos todos com um estado de espirito maldoso[/quote]

A sério?
Eu chamar-lhe-ia "egoísta".

Penso que a própria cooperação entre indivíduos a que chamamos de civilização pode ser vista como um estado mais sofisticado de "egoísmo". Eu coopero contigo na esperança de que retribuas da mesma forma, as "varas" da lei e as cenouras da "religião" são demasiado finas para serem tomadas a sério.
Por exemplo, se uma multidão entra em pânico é capaz de matar muitos dos seus membros, a "necessidade", o "egoísmo" do instinto sobrepõe-se a tudo o resto. Não existe maldade, apenas "vontade".

Peço desculpa mas a maldade, tal como Rui Ramos muito bem indica, não existe num estado tão puro.
Mas existe, se calhar, e talvez confundida com maldade, o egoísmo, a vaidade, o desprezo, a obsessão, a noção do que é o Bem, a noção do que é o Mal, a noção de Deus, etc. etc. etc.

No fundo, tudo aquilo que nos torna tão diferentes um dos outros.

Não é preciso ler filósofos alemães meio doidos para compreender que a moral é muito discutivel.
O paraíso dos lobos não será o inferno dos cordeiros?

Em relação ao filme em particular (gostava de ler o livro), o desenrolar da história parece-me completamente arbitrário, correu assim, poderia correr de uma forma completamente diferente. Não existe qualquer coisa que determine a história para lá da imaginação do autor.
O egoísmo, afinal, pode tomar muitas formas.... :)
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Arsénio Mata

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Livro Raro

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Post 07 Jan 2011 00:15

@ Rui: Compreendo o que dizes, mas mais uma vez digo que esse tipo de argumento pode servir de justificação a certos actos. Obviamente que não digo que concordes com eles. Mas não me parece que seja válido dizer: "ele não sabia o que estava a fazer, por isso é compreensível, ele até se acreditava que era o melhor e mais correcto a ser feito". Não tenho dúvidas que o Hitler se acreditasse que os judeus, pretos, ciganos, etc eram raças inferiores, mas não será isso que tornará os seus actos justificáveis ou até compreensíveis. O que ele e os Nazis fizeram será sempre moralmente condenável, independentemente da moral em vigor ou do ponto de vista de cada um. Da mesma forma, durante muito tempo foi aceite que a escravidão era normal, era regra geral, aceite pela sociedade dessa altura. Mas isso não muda nada em relação a esse ter sido um dos períodos mais negros da raça humana. São apenas exemplos, e com isto não estou a querer dizer que defendes estas posições, como é óbvio. Apenas estou a tentar dizer que a moral não pode ser adaptada aos tempos, sítios ou sociedades e que as vezes temos mesmo que fazer juízos de valor, até para podermos evoluir. Não podemos sempre respeitar ou sequer tentar entender as posições de outros indivíduos ou sociedades. Às vezes temos mesmo que ser inflexíveis e dizer: "não, estás errado". Mas é só a minha opinião. :D

@ croquete: Eu acredito-me mesmo que somos maus por natureza, que há algo dentro de nós que nos faz ser, como tu dizes, egoístas, vaidosos e tantos outros adjectivos com os quais se poderia classificar a humanidade. Mas juntando esses adjectivos não teremos então a definição de maldade, no seu sentido mais puro? É óbvio que há excepções, e ainda bem. Mas como eu já disse aqui, tenho uma visão muita negra da humanidade.
Only in the bloodline is this terror exposed
A knife to the eye of modern day times
Exactly what you've worked for.

A price for the pride
I can feel the distance coming
The holes in my lungs
Won't let me take this anymore.

http://umhomemsimpatico.tumblr.com/
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Rui Ramos

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Post 07 Jan 2011 01:49

Arsénio Mata wrote:@ Rui: Compreendo o que dizes, mas mais uma vez digo que esse tipo de argumento pode servir de justificação a certos actos. Obviamente que não digo que concordes com eles. Mas não me parece que seja válido dizer: "ele não sabia o que estava a fazer, por isso é compreensível, ele até se acreditava que era o melhor e mais correcto a ser feito". Não tenho dúvidas que o Hitler se acreditasse que os judeus, pretos, ciganos, etc eram raças inferiores, mas não será isso que tornará os seus actos justificáveis ou até compreensíveis. O que ele e os Nazis fizeram será sempre moralmente condenável, independentemente da moral em vigor ou do ponto de vista de cada um. Da mesma forma, durante muito tempo foi aceite que a escravidão era normal, era regra geral, aceite pela sociedade dessa altura. Mas isso não muda nada em relação a esse ter sido um dos períodos mais negros da raça humana. São apenas exemplos, e com isto não estou a querer dizer que defendes estas posições, como é óbvio. Apenas estou a tentar dizer que a moral não pode ser adaptada aos tempos, sítios ou sociedades e que as vezes temos mesmo que fazer juízos de valor, até para podermos evoluir. Não podemos sempre respeitar ou sequer tentar entender as posições de outros indivíduos ou sociedades. Às vezes temos mesmo que ser inflexíveis e dizer: "não, estás errado". Mas é só a minha opinião. :D


Esses actos são condenáveis porque a sociedade que venceu os acha condenáveis (e ainda bem que fomos nós que vencemos), caso contrário estaríamos a discutir outro tipo de actos condenáveis.

Arsénio Mata wrote:@ croquete: Eu acredito-me mesmo que somos maus por natureza, que há algo dentro de nós que nos faz ser, como tu dizes, egoístas, vaidosos e tantos outros adjectivos com os quais se poderia classificar a humanidade. Mas juntando esses adjectivos não teremos então a definição de maldade, no seu sentido mais puro? É óbvio que há excepções, e ainda bem. Mas como eu já disse aqui, tenho uma visão muita negra da humanidade.


Deixa-me dar-te um exemplo: imagina que nasceste e cresceste na selva sem contacto com outros seres humanos e de repente és convidado para ir comer à casa do presidente. Se ninguém te ensinou regras vais usar as mãos em vez de talheres, vais lamber os pratos, comer directamente da travessa, cuspir e urinar para todo lado e se estiver por ali alguma mulher na ovulação vais tentar copular com ela e depois da confusão gerada vais-te simplesmente embora, sem sentires remorsos ou necessidade de pedir desculpa pelo teu comportamento, ou agradecer pelo jantar e pelo momento de prazer com a mulher do presidente.

Não estou a dizer que é desculpável este comportamento estou apenas a dizer que não foi maldade que o motivou. O que o motivou foi a tua vontade egocêntrica (todos nós em criança passamos por essa fase), o teu lado animal. Como não sabes viver em sociedade, limitaste a satisfazer as tuas necessidades.

Claro que terias que responder pelos teus actos. Existem leis que nos protegem da barbárie. Terias que ser preso e domesticado e quem sabe solto um dia.

Ora depois de uns anitos na prisão, a lidar com outros prisioneiros e sujeito às regras sociais, quando saísses em liberdade e visses uma mulher a passar na rua e a violasses, aí já seria um acto de maldade, pois já sabias que o que estavas a fazer era errado.

Noções de bem e de mal são conceitos abstractos criados para que exista ordem social, são conceitos criados para nos protegerem e que têm vindo a evoluir connosco (há custa de muito sofrimento, tortura e morte).

Com a ajuda da globalização, a internet, filmes, séries, livros e outras formas de comunicação os conceitos de bem e mal tendem a uniformizar-se. As próprias religiões fazem esforços para se aproximar e aceitarem melhor as diferenças (apesar de ainda existir muito fanatismo por aí): é o chamado Ecumenismo

A ONU faz esforços (pelo menos é o que tentam parecer) para que a justiça, educação e saúde cheguem ao máximo de sítios possível. Actualmente, existe uma Carta de Direitos da Humanidade (constantemente a ser violada, mas existe), quando há menos de dois séculos, os direitos eram só para os poderosos.

Todos estes exemplos são uma prova que o Homem tenta ser mais justo, mais bondoso..

Mesmo os vilões, não podem ser completamente desprovidos de bondade, caso contrário os seus pares acabariam por os matar. Exemplo: assassinos e criminosos vulgares revoltam-se quando sabem da existência de um pedófilo ou de um psicopata solitário e sentem vontade de os eliminar da face da Terra.

Quantos mafiosos são bons homens de família, amados e respeitados pelos seus súbitos ,e no entanto, mandam matar e torturar os inimigos. Platão no século V a.C. já falava disto.

Isto para dizer que não concordo que o Homem seja intrinsecamente mau e que a sociedade o molda. Se fossemos todos maus, a sociedade nunca iria ter a capacidade de ter valores bons, uma vez que ela foi feita por nós e não o contrário.

Na minha muito humilde opinião, o Ser Humano é por natureza social e instintivamente vai procurar a companhia dos seus pares.

Exemplo: Quando conheces alguém e percebes que esse alguém é semelhante a ti, sentes uma espécie de euforia (ou não?), ficas realmente feliz por teres feito um/a amigo/a. E vais querer que essa sensação dure, logo, tratas de perceber o que é preciso fazer para manter essa relação. Nascem as noções de bem e mal por tentativa e erro. Percebes que este comportamento afasta o outro, tentas dar a volta e descobres que assim conquistas a sua amizade de volta. Isto é bom, aquilo é mau. Começas a fazer uma lista. Ao fim de uns anitos passas essa lista de descobertas aos teus filhos. Eles descobrem que afinal essa lista não é perfeita e procuram melhorá-la. Depois vão passar a nova edição da lista aos seus descendentes e estes voltam a alterar, acrescentar e até inovar, ou (também acontece) regredir e assim por milhares de gerações até aos dias de hoje.

Resumindo, somos o acumular de milénios de tentativas e erro mais as nossas próprias experiências pessoais.

No caso do Senhor das Moscas, os miúdos eram maus porque já tinham sido educados segundo valores que condenam os actos que eles tomaram e tinham consciência do mal que faziam.
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Bugman

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Post 10 Jan 2011 14:51

Acho que dizer que os miúdos säo maus porque foram educados num clima diferente näo se adequa. Mais... Olhar para a obra e limitarmo-nos a analisá-la no binário bem/mal é extremamente redutor, para uma obra com tantas e diferentes dimensoes.

Penso até que essa näo é a questao central da história. Aliás, no final ambas as facçoes assumem o mesmo comportamento
Spoiler! :
(face ao resgate)
o que até poderia servir de alegaçäo para uma qualquer espécie de loucura temporária. Muitos filhos do regime Nazi tiveram de lidar com a questäo do "como pudemos näo ver", "como pudemos tolerar", etc, de tal forma que ainda hoje esse período da sua História é tratado com luvas e pinças, como se tivessem de viver colectivamente com essa vergonha para sempre.

Quanto ao Lord of the Flies, deveria antes de mais ser encarado de uma forma alegórica. Penso que o facto de o autor ter escolhido crianças como principais protagonistas do conto se deve ao facto de estarem ainda num processo de maturaçäo. Mais, o autor escolhe crianças essencialmente pré-adolescentes, o que leva ao facto de grande parte do grupo estar desprovida de valores e a outra parte apenas os começar a definir. Do ponto de vista da alegórico isto é importante!

Em Lord of the Flies somos confrontados com uma proto-sociedade. Como todos os agrupamentos, há vozes que dirigem e há corpos que seguem e neste ponto somos confrontados, se assim o quisermos ver, com a origem do mal. Se quisermos fugir para lá do mal, o que se vê é um retrato, mais ou menos fiel, do que é o viver em sociedade.

Na lógica do reduzir a discussäo ao confronto do bem com o mal, é täo redutor dizer que o Homem é intrinssecamente bom, como dizer o oposto e isso encontra-se patente na obra. Näo é a maldade que leva os miúdos a agruparem-se. Para a grande maioria, näo é maldade que os leva sequer a separarem-se. No entanto afirmar que é o bem, é esticar um pouco o razoável, pois desde os momentos iniciais que há tensoes e comentários que däo a entender ao leitor que algo ali está "mal" :catfight:

Mais do que discutir as origens do bem e do mal, penso que Golding pretenderia (ou se näo pretendia ele, pretendo eu que ele pretendesse! :devil: ) dar-nos uma alegoria do que é viver em sociedade.
Last edited by Bugman on 03 May 2011 21:25, edited 1 time in total.
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Sharky

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Post 30 Apr 2011 22:22

Gostei do livro, acabei de o ler. A ambição pelo poder destaca-se mais que a própria sobrevivência :mrgreen:
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urukai

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Post 22 Nov 2011 13:05

Samwise wrote:
urukai wrote: e assumi que o Lord of Flies com explosões atómicas e meninos perdidos não seria propriamente não-fantástico...


Quais explosões atómicas? :see_stars:


Ehrmm...

Ontem à noite li isto:
Piggy shook his head, put on his flashing glasses and looked down at Ralph.
"Not them. Didn't you hear what the pilot said? About the atom bomb? They're all dead."


Afinal a minha ideia tinha algum fundamento. Num qualquer recesso da minha memória ressoavam os ecos do poder atómico como génese do enredo... :twisted:
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Thanatos

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Post 22 Nov 2011 14:03

Sim, numa clara alusão à bomba sobre Hiroshima. Ou seja tu falavas em cenários pós-apocalípticos mas como eu e outros referimos passava-se tudo num tempo histórico real com o projeto Manhattan como background. Aliás alegoricamente é precisamente esse o comentário de Golding, como ou porque é que os "bons" cometem atos "maus".
Não importa como, não importa quando, não importa onde, a culpa será sempre do T!

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urukai

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Post 22 Nov 2011 14:14

Thanatos wrote:Sim, numa clara alusão à bomba sobre Hiroshima. Ou seja tu falavas em cenários pós-apocalípticos mas como eu e outros referimos passava-se tudo num tempo histórico real com o projeto Manhattan como background. Aliás alegoricamente é precisamente esse o comentário de Golding, como ou porque é que os "bons" cometem atos "maus".


Thanatos isso agora não interessa nada...
Bomba atómica é bomba atómica... :pissed: :pissed: :pissed: :pissed:

E a radiação? E os ventos radioactivos? :deadhorse: :deadhorse:

:blush:
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Thanatos

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Post 22 Nov 2011 14:16

Sim, bomba é bomba mas pareceu-me, pelo menos a mim, que tu tinhas a ideia dum precursor do The Road do Cormac. Só te tentei ver que não era, de todo, esse tipo de romance.
Não importa como, não importa quando, não importa onde, a culpa será sempre do T!

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urukai

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Post 22 Nov 2011 14:20

Sim,
eu sei.

Eu imaginava uma coisa no meio. Nem tanto de road, nem tanto meninos perdidos numa ilha normal nos anos 50...

Mas estou a gostar!
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