Arsénio Mata wrote:@ Rui: Compreendo o que dizes, mas mais uma vez digo que esse tipo de argumento pode servir de justificação a certos actos. Obviamente que não digo que concordes com eles. Mas não me parece que seja válido dizer: "ele não sabia o que estava a fazer, por isso é compreensível, ele até se acreditava que era o melhor e mais correcto a ser feito". Não tenho dúvidas que o Hitler se acreditasse que os judeus, pretos, ciganos, etc eram raças inferiores, mas não será isso que tornará os seus actos justificáveis ou até compreensíveis. O que ele e os Nazis fizeram será sempre moralmente condenável, independentemente da moral em vigor ou do ponto de vista de cada um. Da mesma forma, durante muito tempo foi aceite que a escravidão era normal, era regra geral, aceite pela sociedade dessa altura. Mas isso não muda nada em relação a esse ter sido um dos períodos mais negros da raça humana. São apenas exemplos, e com isto não estou a querer dizer que defendes estas posições, como é óbvio. Apenas estou a tentar dizer que a moral não pode ser adaptada aos tempos, sítios ou sociedades e que as vezes temos mesmo que fazer juízos de valor, até para podermos evoluir. Não podemos sempre respeitar ou sequer tentar entender as posições de outros indivíduos ou sociedades. Às vezes temos mesmo que ser inflexíveis e dizer: "não, estás errado". Mas é só a minha opinião.
Esses actos são condenáveis porque a sociedade que venceu os acha condenáveis (e ainda bem que fomos nós que vencemos), caso contrário estaríamos a discutir outro tipo de actos condenáveis.
Arsénio Mata wrote:@ croquete: Eu acredito-me mesmo que somos maus por natureza, que há algo dentro de nós que nos faz ser, como tu dizes, egoístas, vaidosos e tantos outros adjectivos com os quais se poderia classificar a humanidade. Mas juntando esses adjectivos não teremos então a definição de maldade, no seu sentido mais puro? É óbvio que há excepções, e ainda bem. Mas como eu já disse aqui, tenho uma visão muita negra da humanidade.
Deixa-me dar-te um exemplo: imagina que nasceste e cresceste na selva sem contacto com outros seres humanos e de repente és convidado para ir comer à casa do presidente. Se ninguém te ensinou regras vais usar as mãos em vez de talheres, vais lamber os pratos, comer directamente da travessa, cuspir e urinar para todo lado e se estiver por ali alguma mulher na ovulação vais tentar copular com ela e depois da confusão gerada vais-te simplesmente embora, sem sentires remorsos ou necessidade de pedir desculpa pelo teu comportamento, ou agradecer pelo jantar e pelo momento de prazer com a mulher do presidente.
Não estou a dizer que é desculpável este comportamento estou apenas a dizer que não foi maldade que o motivou. O que o motivou foi a tua vontade egocêntrica (todos nós em criança passamos por essa fase), o teu lado animal. Como não sabes viver em sociedade, limitaste a satisfazer as tuas necessidades.
Claro que terias que responder pelos teus actos. Existem leis que nos protegem da barbárie. Terias que ser preso e domesticado e quem sabe solto um dia.
Ora depois de uns anitos na prisão, a lidar com outros prisioneiros e sujeito às regras sociais, quando saísses em liberdade e visses uma mulher a passar na rua e a violasses, aí já seria um acto de maldade, pois já sabias que o que estavas a fazer era errado.
Noções de bem e de mal são conceitos abstractos criados para que exista ordem social, são conceitos criados para nos protegerem e que têm vindo a evoluir connosco (há custa de muito sofrimento, tortura e morte).
Com a ajuda da globalização, a internet, filmes, séries, livros e outras formas de comunicação os conceitos de bem e mal tendem a uniformizar-se. As próprias religiões fazem esforços para se aproximar e aceitarem melhor as diferenças (apesar de ainda existir muito fanatismo por aí): é o chamado Ecumenismo
A ONU faz esforços (pelo menos é o que tentam parecer) para que a justiça, educação e saúde cheguem ao máximo de sítios possível. Actualmente, existe uma Carta de Direitos da Humanidade (constantemente a ser violada, mas existe), quando há menos de dois séculos, os direitos eram só para os poderosos.
Todos estes exemplos são uma prova que o Homem tenta ser mais justo, mais bondoso..
Mesmo os vilões, não podem ser completamente desprovidos de bondade, caso contrário os seus pares acabariam por os matar. Exemplo: assassinos e criminosos vulgares revoltam-se quando sabem da existência de um pedófilo ou de um psicopata solitário e sentem vontade de os eliminar da face da Terra.
Quantos mafiosos são bons homens de família, amados e respeitados pelos seus súbitos ,e no entanto, mandam matar e torturar os inimigos. Platão no século V a.C. já falava disto.
Isto para dizer que não concordo que o Homem seja intrinsecamente mau e que a sociedade o molda. Se fossemos todos maus, a sociedade nunca iria ter a capacidade de ter valores bons, uma vez que ela foi feita por nós e não o contrário.
Na minha muito humilde opinião, o Ser Humano é por natureza social e instintivamente vai procurar a companhia dos seus pares.
Exemplo: Quando conheces alguém e percebes que esse alguém é semelhante a ti, sentes uma espécie de euforia (ou não?), ficas realmente feliz por teres feito um/a amigo/a. E vais querer que essa sensação dure, logo, tratas de perceber o que é preciso fazer para manter essa relação. Nascem as noções de bem e mal por tentativa e erro. Percebes que este comportamento afasta o outro, tentas dar a volta e descobres que assim conquistas a sua amizade de volta. Isto é bom, aquilo é mau. Começas a fazer uma lista. Ao fim de uns anitos passas essa lista de descobertas aos teus filhos. Eles descobrem que afinal essa lista não é perfeita e procuram melhorá-la. Depois vão passar a nova edição da lista aos seus descendentes e estes voltam a alterar, acrescentar e até inovar, ou (também acontece) regredir e assim por milhares de gerações até aos dias de hoje.
Resumindo, somos o acumular de milénios de tentativas e erro mais as nossas próprias experiências pessoais.
No caso do Senhor das Moscas, os miúdos eram maus porque já tinham sido educados segundo valores que condenam os actos que eles tomaram e tinham consciência do mal que faziam.