Livro, José Luís Peixoto

Pedro Farinha
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Livro, José Luís Peixoto

Postby Pedro Farinha » 28 Sep 2010 01:04

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Se desconfiamos de nós próprios, desconfiamos sempre dos outros


Entre 1960 e 1974 um milhão e meio de portugueses emigrou para França. Este livro conta a história de algumas dessas pessoas. Da aldeia de onde partiram. E do Livro que geraram.

Trata-se do quinto romance de José Luís Peixoto e há uma maior maturidade na escrita. Que, se por um lado deu-lhe uma outra dimensão, por outro retirou algumas das peculiaridades da sua escrita insinuante. Mas trata-se, sem dúvida, de um livro muito bem escrito, com uma construção de frases bem conseguida e um entrelaçar de histórias que dá gosto ler, não cansa, e dá corpo a todo o romance.

Até aqui era o que eu teria escrito, só elogios, até chegar à segunda parte do Livro. Onde as coisas pioram sobremaneira, onde apesar da originalidade e do experimentalismo, e ainda das imensas referências literárias, a “coisa” perde-se. Arrasta-se. E quando chegamos ao ponto final, já nos esquecemos um pouco de tão bom que foi ler a primeira parte do livro.

Ainda assim leva um 8/10, mas levaria um 10, facilmente, se tivesse concluído o livro quando chegou ao fim da primeira parte.

urukai
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Re: Livro, José Luís Peixoto

Postby urukai » 28 Sep 2010 01:11

Não me convenceste... Decididamente não me apelam coisas reais e palpáveis e semelhantes ao que já vivo no dia-à-dia. Para isso basta-me a minha vida. Quando leio quero era algo diferente, que não acho nas minhas próprias vivências. Claro que estar bem escrito ajuda e até pode suplantar esta minha necessidade, mas ainda assim vou deixar este passar ao largo...

Thanks pela review Peter Flour.

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Arsénio Mata
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Re: Livro, José Luís Peixoto

Postby Arsénio Mata » 28 Sep 2010 13:54

urukai, então se realmente queres ler algo dele lê o "A Casa na Escuridão", que está cheio de coisas que não encontras no dia-à-dia...
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Re: Livro, José Luís Peixoto

Postby Tzimbi » 28 Sep 2010 14:30

Arsénio Mata wrote:urukai, então se realmente queres ler algo dele lê o "A Casa na Escuridão", que está cheio de coisas que não encontras no dia-à-dia...


:sick:
Sim, não encontras, mas também não me parece que o urukai ficasse muito animado com aquela prosa.
Foi o único que li dele e foi suficiente. Tem um tipo de escrita que me irrita, uma "espécie" de prosa poética que apenas consegue provocar em mim a impaciência. Admito que até possa ter alguma qualidade, mas não fiquei com vontade de voltar a ler outro Livro dele.

S.

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Arsénio Mata
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Re: Livro, José Luís Peixoto

Postby Arsénio Mata » 28 Sep 2010 14:45

Tzimbi wrote:
:sick:
Sim, não encontras, mas também não me parece que o urukai ficasse muito animado com aquela prosa. Foi o único que li dele e foi suficiente. Tem um tipo de escrita que me irrita, uma "espécie" de prosa poética que apenas consegue provocar em mim a impaciência. Admito que até possa ter alguma qualidade, mas não fiquei com vontade de voltar a ler outro Livro dele.

S.


Não me parece que alguém ficasse animado com aquela prosa. :P Para mim a prosa poética é a grande qualidade dele. Mas compreendo que para quem não gosta, seja enervante...
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Re: Livro, José Luís Peixoto

Postby vampiregrave » 18 Oct 2010 21:29

A minha opinião :bbde: :

“(...) sinto, à partida, que um romance, por natureza, não deve ambicionar ser o óbvio que se espera dele. Sinto que este romance é a muitos títulos bastante ambicioso, mas também os anteriores, à sua medida, o eram. Essa ambição é que faz mover o mundo, é que fez os portugueses fazerem aquela viagem, é que faz com que se vá para além do que é expectável.”

JLP em entrevista para a revista Ler


No seu mais recente romance, cujo título é simultaneamente o nome do narrador personagem, José Luís desprende-se do registo surreal de Nenhum Olhar e Uma Casa na Escuridão. O romance divide-se em duas partes, apresentando a primeira uma perspectiva realista, que se foca no tema da emigração portuguesa, enquanto que a segunda é de natureza experimental, bastante diferente em termos de tom e estrutura, transformando a percepção que o leitor tem do livro.

“O Ilídio continuava a rir-se. Então, houve um momento em que ficaram parados. O sorriso de um crescia e puxava o sorriso do outro, que também crescia. Era como se fosse o sol, um sol, que crescesse e essa luz os iluminasse de novo com os seus próprios nomes, com Ilídio e com Josué, e assim voltassem a ser o melhor de tudo o que tinham sido quando estavam juntos, criança e homem, rapaz e homem, homem e homem. Apagava-se a despedida, a falta dissolvia-se.”


Livro evidencia uma maior destreza narrativa por parte do autor, que alterna entre a ruralidade portuguesa e o ambiente urbano de Paris, contraste estabelecido não só em termos da diferença de costumes, mas também a nível de linguagem, ora nos brindando com expressões populares, ora introduzindo alguns dos estrangeirismos originados pela mistura de culturas, aspecto que considera ser uma marca importante da história de um povo.
Apesar da referida predominância do realismo, Peixoto recorre pontualmente ao fantástico, como na inclusão de uma mulher-lobo na viagem dos emigrantes, uma simbólica representação do aproveitamento de que são alvo por parte dos passadores.

“Ao fixar o reflexo dos meus olhos no espelho, já me pareceu muitas vezes que está outra pessoa dentro deles. Observa-me, julga-me, mas não tem voz para se exprimir. Será talvez eu com outra idade, criança ou velho: inocente, magoado por me ver a destruir todos os seus sonhos; ou amargo, a culpar-me pela construção lenta dos seus ressentimentos. Seria melhor se tivesse palavras para dizer-me, mas não. Só aquele olhar lhe pertence. É lá que estou prisioneiro.”


A segunda parte marca uma mudança drástica relativamente à primeira, dado que José Luís procura fazer com que o romance fale de forma directa com o leitor, assim como atingir, dentro do possível, uma condensação de várias tradições literárias. Mas, se esses objectivos são atingidos, a extensão desta secção experimental acaba por desviar a atenção das principais ideias que povoam a parte que a antecede. Tal não é, no entanto, suficiente para manchar a excelência atingida nas primeiras 204 páginas.

Diz Miguel Real no Jornal de Letras que, “com Livro, se inicia a maturidade literária de um grande escritor”. Eu diria que se denota uma maior confiança e ponderação, mas também me parece que com este romance se desvanece, em grande parte, a magia que envolvia os seus primeiros trabalhos. Um José Luís Peixoto diferente, é certo, mas que sem dúvida vale a pena conhecer.

“Prefiro ignorar aquilo que toda a gente está a ler. Para o bem e para o mal, tenho tempo. Acalento a imagem de leitor solitário, único leitor de páginas que as multidões já esqueceram. Concedo-me o direito de fruir as minhas ilusões, se for por consciência, não é por ingenuidade.”

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Re: Livro, José Luís Peixoto

Postby Bugman » 22 Jun 2015 20:05

Não consigo concordar com todos os grandes elogios que leio a esta obra e são muitos. Não consigo concordar porque o que vi foi uma obra que podia ter sido grande e se perdeu em si mesma. Começa mal, acaba mal, mas o meio é bom.

Vamos então ver se consigo alinhar aqui umas linhas. Quem acompanhou (ou for agora comparar) o que escrevi no tópico do autor percebe porque acho que começa mal. Não me refiro a toda a primeira secção do livro, mas sim ao início propriamente dito, as primeiras vinte ou trinta páginas. Sim, a narrativa vai evoluindo em regressão (quem tiver nomes técnicos, bote-os aí) de uma forma muito bem estruturada, mas com demasiado detalhe. Quero com isto dizer que temos grandes saltos temporais entre capítulos com o autor então a regredir na narrativa e a contar-nos como chegámos a aquele momento. No entanto há uma praga que infesta as páginas nesta fase, e essa praga são as frases sem sentido. Temos uma entrada que parece tirada de um livro de aforismos para facebook e de seguida chamadas de atenção para detalhes que não acrescentam nada à narrativa, não ajudam a caracterizar personagem ou tempo ou espaço, simplesmente estão lá.

De seguida, quando a fase da inutilidade narrativa terminou começou a fase em que se aprecia a escrita. Escorreita, fluída, magnética, quase que a antítese do que deixa para trás. Não que haja um momento em que se decida ser assim, simplesmente evolui. Este é o momento ao qual se retorna sempre que se pensa(r) nesta obra, é onde se vê o que o autor pode ser, o que consegue fazer. Os trechos que nos levam desde as apresentações na aldeia, até ao nascimento do narrador em Paris são uma história de amores desencontrados entre Portugal e os subúrbios de Paris nas décadas de 60/70, uma narrativa de encontros e desencontros, de saudades da terra, de jargão tão provinciano que aquela conversa poderia estar a ocorrer num café do interior, se os cafés do interior não estivessem abandonados. Só que sabe a pouco... O autor perde metade do livro a caracterizar personagens e depois mata a narrativa dessas personagens em meia dúzia de linhas. Sabe a pouco... Queremos saber mais. Depois do trabalho que há a caracterizar as personagens, depois de frases inúteis, depois de desventuras estéreis, depois de um suave encostar ao fantástico, queremos e desejamos que aqueles encontros e desencontros dêem mais voltas, queremos mais frases que tocam directamente nos sentidos, de tal forma que sentimos o ar da manhã numa quinta em Espanha ou o peso nas costas vergadas num abrigo em Champigny, queremos mas acabam-se por aí as frases magnéticas.

Acabam as frases magnéticas e começa um exercício literário que tenta tornar a obra uma enorme refererência circular. Falha não falhando. De facto confere uma circularidade à obra, mas a escrita perde as suas virtudes. O exercício não passa de um exercício quase que de snobismo. Quebra a leitura, quebra a apreciação que se faz obra por destoar dela. Rouba, qual filho, tempo e espaço ao que foi a narrativa anterior e faz-nos de facto retornar a um tempo em que as frases se limitam a estar lá, não cumprem função nenhuma, não caracterizam personagens, não nos localizam no tempo, apenas nos fazem folhear o livro à espera de ver o seu fim.

Quando releio o que escrevi acima penso como consigo avaliar positivamente o Livro. Páro e penso «como» e sem muito esperar a resposta surge-me à frente: porque quando é bom, Livro é muito bom e quando é mau, há muito piores exercícios de vacuidade literária.
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Re: Livro, José Luís Peixoto

Postby vampiregrave » 23 Jun 2015 08:54

Bugman wrote:No entanto há uma praga que infesta as páginas nesta fase, e essa praga são as frases sem sentido. Temos uma entrada que parece tirada de um livro de aforismos para facebook e de seguida chamadas de atenção para detalhes que não acrescentam nada à narrativa, não ajudam a caracterizar personagem ou tempo ou espaço, simplesmente estão lá.


JLP sempre pecou nesse sentido, mesmo nos tempos do realismo mágico. Atenção que, eu nem sou da opinião que todas as frases têm de avançar a narrativa ou contribuir para a caracterização; o problema, para mim, é que muitas dessas frases são vazias de conteúdo, mero artifício para impressionar o leitor, ou uma tentativa de tornar o texto mais «literário». E isto só se agrava à medida que se vão acumulando essas frases, especialmente quando, por vezes, a própria narrativa já não têm muito «sumo».

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Re: Livro, José Luís Peixoto

Postby Bugman » 23 Jun 2015 14:18

É um sentimento esquisito. Confesso que pensei muito bem antes de o escrever, já por um par de vezes, dessa forma. Dei comigo a pensar se toda a palavras escrita tem de ter uma função. De certeza que se for ler outros autores, alguns mesmo de renome, encontrarei frases que apenas estão lá a fazer número, no entanto isso nem me saltou à vista nem me incomodou como neste livro.
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Re: Livro, José Luís Peixoto

Postby pco69 » 24 Jun 2015 08:04

Bugman wrote:(...)De certeza que se for ler outros autores, (...), encontrarei frases que apenas estão lá a fazer número, (...)

Nunca tinha visto José Rodrigues dos Santos tão bem descrito como escritor! :rotfl:
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Ou seja, é extremamente perigoso fazer sexo ao ar livre com vento de frente, após ter tomado o pequeno almoço numa manhã de inverno...


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