O Homem Duplicado - José Saramago
Tertuliano Máximo Afonso, professor de história, descobre acidentalmente, ao ver um filme alugado no video-clube, que há uma pessoa que partilha dos seus exactos traços fisionómicos. O choque é de tal maneira forte que o lança numa espiral de desespero, imaginando que pode haver um duplicado de si, ou que é ele o duplicado de outra pessoa, deixando, em qualquer dos casos, de poder contar com a segurança inabalável, até então, da individualidade. A sua vida particular, profissional e amorosa altera-se radicalmente - a monotonia repetitiva do quotidiano, ainda que pacífica, torna-se agora obsessiva, e a sua prioridade é saber quem é este duplo, e encontrar-se com ele para confirmar o grau de semelhança.
O ponto de partida é este, e Saramago repete uma fórmula que já tinha usado anteriormente noutras obras (Todos os Nomes, História do Cerco de Lisboa, O Ano da Morte de Ricardo Reis, por exemplo): um homem às voltas com a solidão do isolamento quotidiano a quem um dia o destino prega uma partida - um pequeno desajuste inusitado na ordem das coisas, uma impossibilidade aparente que vai implicar uma demanda pelo conhecimento e uma consequente redefinição do seu papel enquanto individualidade neste mundo. O pretexto serve, também como é habitual, para Saramago dar largas às suas ideias filosóficas sobre Homem, sobre as relações humanas, sobre a situação do mundo, e sobre a aquilo que é a forma como a Palavra tudo liga, para melhor nuns casos, para pior noutros - a linguagem é ao mesmo tempo aquilo que nos une e aquilo que nos leva a separar, a fonte de coesão e de discórdia. Por exemplo, o nome do protagonista serve, logo à cabeça do romance, para uns quantos comentários sobre o significado e a implicância social de cada palavra que o forma. À narrativa principal, ao desenrolar da acção espacial e cronológica em que Tertuliano procura descobrir o seu outro (e o seu "outro eu"), contrapõem-se uma meta-narrativa que neste livro chega a ocupar mais linhas de texto. O narrador - Saramago, invisível à história - torna-se frequentemente presente, e quando não fala pela sua voz utiliza outras forma para "meter a colher" - os diálogos entre Tertuliano e o "senso-comum", que fala com ele através da consciência, são exemplo disso.
Se por um lado considero que a ideia que serve de base ao romance é interessante o suficiente para prender um leitor à história, já o desenvolvimento dessa ideia não me convenceu por aí além - a paranóia obsessiva instalada não só sobre o protagonista, mas também sobre as pessoas que aos poucos vão sabendo dos detalhes,fazem dos processo envolvidos gestos desumanizados, servindo os propósitos da ficção para lá de um limite que trai o seu propósito (representar o Homem). É uma característica de Saramago, é certo, mas aqui é levada a um extremo que causa desconforto, mas que escolhemos suportar porque as ideias subjacentes nos agarram ao livro.
Já no que toca ao fim, é das poucas vezes que posso dizer que fico satisfeito com o desenlace de um Saramago, e com os nós com que ata as pontas soltas. Contudo, e continuando na linha de raciocínio anterior, é um final que parece apropriado a um "conto", a uma ficção curta e rápida, e não a um romance.
7/10
O ponto de partida é este, e Saramago repete uma fórmula que já tinha usado anteriormente noutras obras (Todos os Nomes, História do Cerco de Lisboa, O Ano da Morte de Ricardo Reis, por exemplo): um homem às voltas com a solidão do isolamento quotidiano a quem um dia o destino prega uma partida - um pequeno desajuste inusitado na ordem das coisas, uma impossibilidade aparente que vai implicar uma demanda pelo conhecimento e uma consequente redefinição do seu papel enquanto individualidade neste mundo. O pretexto serve, também como é habitual, para Saramago dar largas às suas ideias filosóficas sobre Homem, sobre as relações humanas, sobre a situação do mundo, e sobre a aquilo que é a forma como a Palavra tudo liga, para melhor nuns casos, para pior noutros - a linguagem é ao mesmo tempo aquilo que nos une e aquilo que nos leva a separar, a fonte de coesão e de discórdia. Por exemplo, o nome do protagonista serve, logo à cabeça do romance, para uns quantos comentários sobre o significado e a implicância social de cada palavra que o forma. À narrativa principal, ao desenrolar da acção espacial e cronológica em que Tertuliano procura descobrir o seu outro (e o seu "outro eu"), contrapõem-se uma meta-narrativa que neste livro chega a ocupar mais linhas de texto. O narrador - Saramago, invisível à história - torna-se frequentemente presente, e quando não fala pela sua voz utiliza outras forma para "meter a colher" - os diálogos entre Tertuliano e o "senso-comum", que fala com ele através da consciência, são exemplo disso.
Se por um lado considero que a ideia que serve de base ao romance é interessante o suficiente para prender um leitor à história, já o desenvolvimento dessa ideia não me convenceu por aí além - a paranóia obsessiva instalada não só sobre o protagonista, mas também sobre as pessoas que aos poucos vão sabendo dos detalhes,fazem dos processo envolvidos gestos desumanizados, servindo os propósitos da ficção para lá de um limite que trai o seu propósito (representar o Homem). É uma característica de Saramago, é certo, mas aqui é levada a um extremo que causa desconforto, mas que escolhemos suportar porque as ideias subjacentes nos agarram ao livro.
Já no que toca ao fim, é das poucas vezes que posso dizer que fico satisfeito com o desenlace de um Saramago, e com os nós com que ata as pontas soltas. Contudo, e continuando na linha de raciocínio anterior, é um final que parece apropriado a um "conto", a uma ficção curta e rápida, e não a um romance.
7/10
Guido: "A felicidade consiste em conseguir dizer a verdade sem magoar ninguém." - 8½
Nemo vir est qui mundum non reddat meliorem?
My taste is only personal, but it's all I have. - Roger Ebert
- Monturo Fotográfico -
Nemo vir est qui mundum non reddat meliorem?
My taste is only personal, but it's all I have. - Roger Ebert
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