O Homem Duplicado - José Saramago

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Samwise

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Post 12 Dec 2011 13:22

O Homem Duplicado - José Saramago

Tertuliano Máximo Afonso, professor de história, descobre acidentalmente, ao ver um filme alugado no video-clube, que há uma pessoa que partilha dos seus exactos traços fisionómicos. O choque é de tal maneira forte que o lança numa espiral de desespero, imaginando que pode haver um duplicado de si, ou que é ele o duplicado de outra pessoa, deixando, em qualquer dos casos, de poder contar com a segurança inabalável, até então, da individualidade. A sua vida particular, profissional e amorosa altera-se radicalmente - a monotonia repetitiva do quotidiano, ainda que pacífica, torna-se agora obsessiva, e a sua prioridade é saber quem é este duplo, e encontrar-se com ele para confirmar o grau de semelhança.

O ponto de partida é este, e Saramago repete uma fórmula que já tinha usado anteriormente noutras obras (Todos os Nomes, História do Cerco de Lisboa, O Ano da Morte de Ricardo Reis, por exemplo): um homem às voltas com a solidão do isolamento quotidiano a quem um dia o destino prega uma partida - um pequeno desajuste inusitado na ordem das coisas, uma impossibilidade aparente que vai implicar uma demanda pelo conhecimento e uma consequente redefinição do seu papel enquanto individualidade neste mundo. O pretexto serve, também como é habitual, para Saramago dar largas às suas ideias filosóficas sobre Homem, sobre as relações humanas, sobre a situação do mundo, e sobre a aquilo que é a forma como a Palavra tudo liga, para melhor nuns casos, para pior noutros - a linguagem é ao mesmo tempo aquilo que nos une e aquilo que nos leva a separar, a fonte de coesão e de discórdia. Por exemplo, o nome do protagonista serve, logo à cabeça do romance, para uns quantos comentários sobre o significado e a implicância social de cada palavra que o forma. À narrativa principal, ao desenrolar da acção espacial e cronológica em que Tertuliano procura descobrir o seu outro (e o seu "outro eu"), contrapõem-se uma meta-narrativa que neste livro chega a ocupar mais linhas de texto. O narrador - Saramago, invisível à história - torna-se frequentemente presente, e quando não fala pela sua voz utiliza outras forma para "meter a colher" - os diálogos entre Tertuliano e o "senso-comum", que fala com ele através da consciência, são exemplo disso.

Se por um lado considero que a ideia que serve de base ao romance é interessante o suficiente para prender um leitor à história, já o desenvolvimento dessa ideia não me convenceu por aí além - a paranóia obsessiva instalada não só sobre o protagonista, mas também sobre as pessoas que aos poucos vão sabendo dos detalhes,fazem dos processo envolvidos gestos desumanizados, servindo os propósitos da ficção para lá de um limite que trai o seu propósito (representar o Homem). É uma característica de Saramago, é certo, mas aqui é levada a um extremo que causa desconforto, mas que escolhemos suportar porque as ideias subjacentes nos agarram ao livro.

Já no que toca ao fim, é das poucas vezes que posso dizer que fico satisfeito com o desenlace de um Saramago, e com os nós com que ata as pontas soltas. Contudo, e continuando na linha de raciocínio anterior, é um final que parece apropriado a um "conto", a uma ficção curta e rápida, e não a um romance.

7/10
Guido: "A felicidade consiste em conseguir dizer a verdade sem magoar ninguém." -

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Pedro Farinha

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Post 12 Dec 2011 22:34

Neste mês, aqui no BBdE, tem-se falado muito do António Lobo Antunes e existe uma aparente unanimidade quanto à evolução da sua escrita, da dificuldade na leitura, que a mesma foi adquirindo ao longo do tempo. E em que eu, pessoalmente, penso que foi melhorando até cair em rupturas gramaticais e estruturais que retiraram o prazer e o entendimento à leitura.
No caso de Saramago sinto a mesma curva de qualidade: uma melhoria gradual até atingir um clímax e depois uma pioria. Só que no caso de Saramago a tendência da escrita não foi para se complicar mas sim para a sua simplificação aparente. O Homem duplicado, a meu ver, é dos primeiros livros onde se começa a denotar a perda de um certo tipo de escrita, mais elaborada e que eu preferia, a par, também, de uma história singela e, não fora os diálogos escritor-leitor, o livro tornar-se-ia (quase) insípido.
Mas ainda assim, é um grande livro. Apenas, como disse o Sam a propósito do ALA, nestes escritores fora de série a comparação é feita com a sua própria obra e não com os plebeus que os rodeiam.
Se o livro fosse assinado por um José Silva aposto que o Sam não lhe dava 7 mas 10.
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Arsénio Mata

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Livro Raro

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Post 12 Dec 2011 22:42

Por acaso este foi o primeiro livro que li do Saramago e gostei bastante, mas não me lembro do final. E é sempre mau quando se esquece a primeira vez. :mrgreen:

Mas lembro-me bastante bem desses diálogos escritor-leitor e lembro-me que na altura o livro foi um murro no estômago. Aliás, este foi o primeiro livro mais "adulto" que li.
Only in the bloodline is this terror exposed
A knife to the eye of modern day times
Exactly what you've worked for.

A price for the pride
I can feel the distance coming
The holes in my lungs
Won't let me take this anymore.

http://umhomemsimpatico.tumblr.com/
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Samwise

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Post 13 Dec 2011 01:36

Pedro Farinha wrote:Mas ainda assim, é um grande livro. Apenas, como disse o Sam a propósito do ALA, nestes escritores fora de série a comparação é feita com a sua própria obra e não com os plebeus que os rodeiam.
Se o livro fosse assinado por um José Silva aposto que o Sam não lhe dava 7 mas 10.


É um pouco assim.

Mas se fosse assinado por um José Silva qualquer, diria que estávamos na presença de um autêntico "duplicado", e que pelo descaramento de copiar, com 100% de fidelidade, o estilo de Saramago levaria uma "nega". :D
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