Mulheres que lêem são perigosas

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Cerridwen
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Mulheres que lêem são perigosas

Postby Cerridwen » 28 Apr 2007 13:10

«O acesso do sexo feminino à leitura, captado na tela dos pintores ou pela lente dos fotógrafos, deu origem ao álbum Mulheres que lêem são perigosas, organizado por Stefan Bollmann e que a editora Quetzal publica na quarta-feira.

O volume propõe uma viagem por pinturas, fotografias e desenhos que, do século XIII ao XXI, reflectem a relação das mulheres com os livros, através dos quais elas se apropriaram de "conhecimentos e experiências que não lhes eram destinados", como se lê na obra.

Stefan Bollmann revisita pintores como Rembrandt, Vermeer, Fragonard, Van Gogh, Manet, Matisse e Hopper, e recorda a fotografia que Eve Arnold fez de Marilyn Monroe a ler o romance "Ulisses" de James Joyce, tentando chegar à verdade sobre esta imagem.

O livro está dividido em seis capítulos, o primeiro dos quais retrata as "leitoras abençoadas", seguindo-se as "leitoras fascinadas", as "autoconfiantes", as "sentimentais", as "apaixonadas" e as "solitárias".

Ao longo de cerca de 150 páginas, o álbum mostra mulheres de várias épocas e estratos sociais concentradas na leitura ou no instante imediato em que fecham o livro, lendo no recolhimento do quarto ou no espaço aberto de um jardim, sozinhas ou acompanhadas.

"Desde há vários anos que colecciono imagens de mulheres que lêem, uma delas está pendurada em cima do sofá onde eu própria me sento a ler: é uma pintura de Harald Metzkes e mostra o que, quanto a mim, é uma jovem mulher que lê como se disso dependesse a sua vida", escreve a jornalista e escritora alemã Elke Heidenreich no prefácio.

Além do texto introdutório de Heidenreich, o escritor e editor Stefan Bollmann, que coligiu as imagens, contextualiza cada pintura, desenho ou fotografia através de breves comentários em que explora o provável significado da leitura para cada uma das mulheres representadas e se interroga acerca do livro que as absorve.

O livro surge aqui como sinal de fé, como objecto proibido e espaço de privacidade na vida da mulher, como conquista da sua liberdade de pensamento ou como forma de esta escapar à vida doméstica para alcançar os conhecimentos do mundo dominado pelos homens.

"Uma mulher que lê em silêncio cria um vínculo com o livro e foge ao controlo da sociedade e da comunidade que a rodeia", pois "começa a criar a sua própria visão do mundo que não corresponde necessariamente à da tradição", salienta a editora.

A Quetzal descreve "Mulheres que lêem são perigosas" como "uma homenagem ao poder libertador da leitura e uma reflexão acerca do papel que esta tem assumido ao longo dos tempos".

Stefan Bollmann, o organizador do volume, nasceu em 1958, estudou Germânicas, Teatro, História e Filosofia e é especialista em Thomas Mann, dedicando-se actualmente à escrita e à edição de livros em Munique.»

Fonte: Agência LUSA

jeffer
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Re: Mulheres que lêem são perigosas

Postby jeffer » 29 Apr 2007 02:57

Eu falaria de maneira diferente:

"Mulheres que lêem são preciosas".
<!--coloro:#006400--><span style="color:#006400"><!--/coloro-->...::: <a href="http://www.jefferson.blog.br" target="_blank">www.jefferson.blog.br</a> :::...<!--colorc--></span><!--/colorc-->

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Re: Mulheres que lêem são perigosas

Postby Thanatos » 29 Apr 2007 15:48

E que dizer das que escrevem?
Não importa como, não importa quando, não importa onde, a culpa será sempre do T!

-- um membro qualquer do BBdE!

Pedro Farinha
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Re: Mulheres que lêem são perigosas

Postby Pedro Farinha » 29 Apr 2007 23:54

Eu diria apenas Mulheres são perigosas, mas que é da vida sem o perigo ?

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Re: Mulheres que lêem são perigosas

Postby Samwise » 30 Apr 2007 09:55

Pedro Farinha wrote:Eu diria apenas Mulheres são perigosas, mas que é da vida sem o perigo ?


:lol2:

Não desfazendo este teu pensamento (com o qual concordo 100%), e continuando a onda de quotes que se vai fazendo, eu diria que as mulheres são precisosas.

Sam
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My taste is only personal, but it's all I have. - Roger Ebert

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Re: Mulheres que lêem são perigosas

Postby Cerridwen » 31 May 2007 09:38

<!--sizeo:3-->[size=100]<!--/sizeo-->Perigosas de tanto lerem...<!--sizec-->[/color]<!--/sizec-->

Perigosas, elas, as mulheres, porque lêem? Perigosas porquê? Porquê elas e não eles? O livro Mulheres Que Lêem São Perigosas (Quetzal/Círculo de Leitores) lança o debate. Autor: Stefan Bollmann, doutorado com uma tese sobre Thomas Mann. Prefácio: Elke Heidenreich, escritora e autora do programa televisivo Lesen!.

Lançamento: Hoje, às 18.30, na Livraria Bertrand Picoas Plaza (Rua Tomás Ribeiro, 65) na mão de quatro mulheres apresentadas pela editora como "perigosas": Helena Vasconcelos, Maria João Seixas, Maria Teresa Horta e Paula Moura Pinheiro.

O álbum reúne imagens de mulheres que lêem, vestidas ou nuas, meninas, jovens ou sem idade, sentadas, deitadas ou recostadas, absorvidas, apaixonadas ou seduzidas pelo poder mágico dos livros que acumulam, como escreveu Marguerite Yourcenar, "reservas contra os invernos do espírito", ou do talvez corpo, quando a vida se torna semelhante ao deserto e as palavras trazem consigo a presunção sublime da suspensão, ainda que por instantes, do peso entediante dos dias.

Ler não é, afinal, diferente de existir, tal como diz Rui Magalhães em Infinito Singular/O não literário: Podemos ler um texto, podemos ler um corpo: podemos viver um texto ou um corpo. Ler um corpo: recuperar, na visão incerta, a plenitude da fragmentação e da pluralidade.

É essa dimensão da inseparabilidade entre vida e arte (ideia passível de aplicar-se também à escrita) que encontramos num esboço, de nenhuma forma exaustivo e nem sempre preciso, em Mulheres Que Lêem São Perigosas. Que ressalta, afinal, deste livro em que nos aproximamos da profunda intimidade da leitura, sem qualquer sentido de ameaça, como quem descobre o mistério de mundos outros? A revelação de que a beleza dir-se-ia representativa do triunfo da arte enquanto acto de paixão.

Façamos então uma viagem por dentro do livro, uma viagem provocatória pela mão da feminista Elke Heidenreich, autora que tem o atrevimento de dizer: Com o passar dos anos, os livros tornam-se por vezes mais importantes do que os homens. Ou saltemos paras as páginas do ensaio, mais reflexivas portanto, e das legendas de Stefan Bollman, que considera a leitura intensiva um desafio à liberdade criativa.

Pinturas, desenhos, fotografias, imagens recolhidas ao longo do tempo, do séc. XIII ao séc. XXI, reflectem a relação entre as mulheres e os livros. Observe-se a Anunciação, de Simone Martini (1333) em que Maria - dominando a arte comum entre as mulheres cultas na Idade Média, a da leitura em silêncio - exprime desagrado, aconchegando o manto ao peito, quando o anjo, inoportuno, interrompe a sua leitura.

Ou veja-se, mais tarde, no séc. XVII, apaziguada, a criada de costas viradas para o leitor, no quadro de Pieter Janssens Elinga. Libertando-se das incómodas socas, suas ou da dona da casa, e do peso ordenado das tarefas domésticas, entrega-se ao prazer do livro que a luz indirecta torna iluminante, enquanto se esquece, alheada, da fruteira, posta de parte em cima da cadeira.

Mais adiante, Katie, cabelo longo e encrespado, devora, absorta e com paixão, a lenda sangrenta de S. Jorge, que luta com o dragão e o mata, tema impróprio no século XIX para raparigas. Sir Edward Burne Jones começou a pintar este quadro tinha a menina do desacer- to quatro anos e, quando o termi-nou, já havia completado os oito.

Não falta, por outro lado, nestas páginas, a mulher, retratada por Ramón Casas Carbó, que cai exausta, no sofá, vinda do baile, de livro na mão, como se fosse possível fazer prolongar, naquele breve momento, o prazer de um corpo ainda em movimento de outros saberes/sabores da vida. A fotografia de Eve Arnold, exibindo Marilyn, ao tempo da rodagem de Os Inadaptados, lendo o Ulisses, revela a mulher na sua total fragilidade. Quando se encontraram, ela e a fotógrafa, a actriz já estaria a ler a obra de James Joyce. E assim foi captada pela máquina num flash luminoso que nega o estereótipo.

Há, no entanto, que entender este belo volume à luz da breve história da leitura que nos é oferecida por Stefan Bollman. Lance-se, pois, um olhar rápido sobre a história da cultura e verifique-se o silêncio a que a mulher foi votada ao longo dos tempos, vedando-se-lhe o direito à instrução e ao trabalho, sem esquecer o texto áspero e divertido de Elke Heidenreich: "Quem lê fica a reflectir, quem reflecte forma uma opinião, quem tem uma opinião pode dissidir, quem se torna dissidente passa a ser inimigo." Só assim pode integrar, nesta obra, a designação "leitura perigosa", sobretudo a partir da evolução histórica, social, cultural.

Bollman explica, por outro lado, que as mulheres que aprendiam a ler (referindo-se aos finais do século XVII) eram, na época, consideradas perigosas: É que a mulher que lê adquire um espaço a que só ela e mais ninguém tem acesso, o que a leva a desenvolver um estado independente de auto-estima. Além disso, cria a sua própria visão do mundo, não necessariamente correspondente à transmitida pela tradição, nem à dos homens. Claro que nada disto significa ainda a sua libertação da tutela patriarcal, mas abre a porta que conduz à liberdade, comenta.

Já no século XVIII, Mary Wollstonecraft, mãe de Mary Shelley (autora de Frankenstein) escrevia: Não só a virtude, mas também o conhecimento devem ser iguais em natureza, e mesmo em grau. Nesse sentido, pode dizer-se que a mulher, usando a expressão de Ana Hatherly, foi tomando a palavra ao longo dos tempos. Usando os livros como aliados.

Com eles, as mulheres deste livro amam, vivem vidas outras, a ficção e o sonho, o perigo e a paixão. Eles são o vício e a virtude, a sageza e o refúgio, caixa de ressonância da interioridade das suas fiéis leitoras.

Fonte: Diário de Notícias


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