Ficções Científicas & Fantásticas - Vários

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Cerridwen
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Ficções Científicas & Fantásticas - Vários

Postby Cerridwen » 14 Jan 2007 16:05

Ficções Científicas & Fantásticas

Editora: Edições Chimpanzé Intelectual
ISBN: 9899526908

Excerto de O Holocausto e o Testamento de Laura Carvalho de David Soares: "Já ouviu falar no Inferno? Eu tenho-o. Tenho-o dentro de mim."

A voz tinha todo o peso de um corpo a ser deposto na sepultura. A profundidade insuspeita escavada pela doença oferecia um acento metálico ao timbre vocal, à guisa de tinir da pá do coveiro. Lisa como linóleo, a pele que cobria a caveira só se apresentava gasta em redor dos olhos e nos cantos da boca. Ele pensou que a velhota devia ter sido uma mulher cheia de alegria. A luz que entrava pela janela do gabinete preenchia os sulcos arrastados na carne pelo uso e abuso do mento. Agarrou a caneta e observou o documento que tinha à sua frente. Entre o odor a papel amachucado, dossiês cheios de facturas agrafadas e livros velhos que conservava no gabinete descobriu um insinuante aroma a canela. Era o suor de Laura Carvalho; esfregado para fora das axilas como um arroto do Outono. "Sim. A doença é uma coisa terrível."

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Re: Ficções Científicas & Fantásticas

Postby Samwise » 16 Jan 2007 11:10

Outro que parece interessante.

Gostei de ler o excerto.

Edições Chimpanzé Intelectual??? :laugh:

Sam
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Thanatos
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Ficções à portuguesa

Postby Thanatos » 04 Dec 2007 00:21

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Ficções Científicas & Fantásticas, Miguel Neto, editor (Edições Chimpanzé Intelectual 978-989-95269-0-8, 150 pgs., capa mole) Capa de João Maio Pinto

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Contos de Terror do Homem-Peixe, Miguel Neto e Pedro Souto, editores (Edições Chimpanzé Intelectual 978-989-95269-2-1, 214 pgs., capa mole) Capa de João Maio Pinto

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A Sombra sobre Lisboa – Contos Lovecraftianos na Cidade das Sete Colinas, Luís Corte Real, editor (Saída de Emergência 978-972-8839-68-0, 464 pgs., capa mole)

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Por Universos Nunca Dantes Navegados – Antologia da Nova Literatura Fantástica em Língua Portuguesa, Luís Filipe Silva, editor (978-989-20-0887-5, 262 pgs., capa mole) Capa de Markus Vogt





A literatura de género em Portugal, e por género refiro-me essencialmente à ficção científica, ao horror e à fantasia, embora naturalmente até o policial coubesse nesta apreciação pessoal, é uma miragem em tudo semelhante à que os afoitos viajantes dos desertos da África do Norte sentem em determinadas horas do dia. E como miragem que é por vezes somos tentados a correr ao encontro dum oásis apenas para descobrirmos que estamos perante uma lagoa de areia seca e inerte.

Assim foi a sensação que me ficou após a leitura de duas colectâneas de contos duma nova editora que em pouco mais de um ano arriscou trazer ao público português os géneros da ficção científica e do terror. A iniciativa em si merece todos os aplausos não fosse a execução final cair tão longe do óptimo e defraudar violentamente as expectativas dos leitores ávidos de produção nacional. Tal como o viajante no mencionado deserto cedemos, mais uma vez, à miragem.

Mas comecemos pelo princípio que é como quem diz pela Ficções Científicas & Fantásticas, colectânea de contos onde vamos encontrar os suspeitos do costume como sejam João Barreiros ou Luís Filipe Silva e outros menos habituais nestas andanças como por exemplo Rui Zink ou Clara Pinto Correia.

A colectânea abre logo com um texto de Rui Zink, Páginas Arrancadas à História, que pretende num misto de humor negro e paradoxo temporal construir um conto que poderia ser uma excelente sátira ao despotismo e à inevitabilidade da história mas que por causa dum tom humorista que nunca se leva demasiado a sério (sim, porque até o humor para ser eficaz precisa levar-se a sério) cai na paródia disparatada. Como conto interessado no paradoxo da avozinha também não apresenta nada de novo ao habituée do género antes se ficando pelas meias-tintas. A bibliografia resumida no final tresanda a presunção bastando constatar que mistura tanto Calvino como James Cameron e a nota à laia de epílogo é duma indigência que faz uma pessoa interrogar-se se ao menos alguma vez Zink se deu ao trabalho de ler uma nota da LUSA para ao menos emular correctamente o estilo das mesmas. Mas claro que num país em que alguns autores laboram sob a máxima “para quem é, bacalhau basta” não podíamos pedir mais. Ou podíamos?

Adiante.

Segue-se O Holocausto e o Testamento de Laura Carvalho pela mão de David Soares e que provavelmente é o conto que permite o rótulo Fantástico estar presente na capa do livro. Para quem me conhece da anterior opinião ao livro de contos do autor, Os Ossos do Arco-Íris, sabe que não morro de amores pela escrita de Soares. E talvez por isso este conto me tenha surpreendido pela positiva porque, de facto e logo à partida, não esperava nada de mais, e tendo em conta o início pouco auspicioso da colectânea digamos que todas as expectativas estavam em baixo. Os protagonistas do conto, Laura e o advogado estão suficientemente bem caracterizados para ganharem vida no papel e a presença epistolar de Daniel é sempre suficientemente ambígua por forma a que durante a leitura eu esperasse um desfecho que não se concretizou, pelo que, e mais que não fosse só pela mestria demonstrada em conseguir subverter as expectativas, eu colocaria este conto entre uma das melhores e mais honestas prestações da colectânea.

Uma Noite na Periferia do Império de João Barreiros é um conto já bem conhecido do público português que segue este autor de perto. Para quem o leia pela primeira vez será, decerto, uma agradável surpresa na relativa aridez de FC que encontramos nesta colectânea que se diz de FC. E isto porque Barreiros escreve sem vergonha e sem pudores uma FC descaradamente humorista mas que, ao contrário de Zink, nunca resvala para a paródia inane antes mantendo um punho forte num estilo marcadamente sarcástico, sombrio e pontuado amiúde com referências cinéfilas e literárias enquanto mergulha de cabeça nos melhores e mais conhecidos tropos da FC anglo-saxónica. Isto já para não falar da conhecida fobia ao Poupas da Rua Sésamo que Barreiros nunca se cansa de humilhar, degradar e matar com o “máximo de prejuízo” para usar uma expressão muito sua.

Temos neste conto uma Lisboa degradada, à beira do colapso civil, em que os bairros são autênticas zonas de guerra e à qual chega um embaixador cultural dos Croap’tic coadjuvado pelo seu ajudante lemuriano que mediante uma ligação neuronal serve de intérprete e mãos do embaixador. Envolvido numa verdadeira teia de burocracia, mal-entendidos, taxistas desonestos e greves selvagens o embaixador vê-se sorvido numa espiral fatal que traz à memória os melhores contos de R. A. Lafferty ou Howard Waldrop.

Infelizmente os dois contos anteriores representam o zénite da colectânea e a partir daqui será (quase) sempre a descer até ao abissal conto de Manuel João Vieira que a encerra.

(continua)
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Re: Ficções à portuguesa

Postby Steerpike » 05 Dec 2007 13:14

Logo havias de interromper na parte mais interessante (que é como quem diz, sangrenta), já vi que dominas a arte do cliffhanger. Espero é que não te fiques por aqui, para não ser como uma certa crítica num certo blogue de certa pessoa que está prometida há vários meses.

Abraços,
Luís
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Re: Ficções à portuguesa

Postby Thanatos » 05 Dec 2007 13:30

Tu és mesmo mauzinho pá. Então não eras tu que achavas que ele devia direccionar os esforços para algo mais produtivo? :mrgreen4nw: Provavelmente repensou e chegou à conclusão que o mal já está feito. Espero é que comece os artigos (longamente prometidos) sobre a FC portuguesa, isso sim que faz cá falta no burgo, não é meia dúzia de bocas foleiras como as minhas ou estatísticas tipo conta-feijão de quantos livros fulano editou ou sicrano traduziu.

De qualquer forma claro que vou continuar. Estou em aturada pesquisa adjectival para poder alterar ligeiramente a opinião sobre o conto da Clara... é que afinal de contas sou moderador por aqui e não ficava nada bem usar vernáculo. :devil2:

E também estou a reler na diagonal o Sombras... para refrescar a memória sobre os pontos fracos e fortes. Estou a chegar à conclusão que é injusto usar a mesma bitola de apreciação para amadores e profissionais. Com prejuízo dos profissionais. :lol2:

Onde estou mesmo satisfeito (no sentido maquiavélico) com a escrita da opinião é na segunda colectânea do Chimpanzé. Enfim esta noite concluo a limpeza à Ficções & Fantástico e vou tentar meter aqui.
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Re: Ficções à portuguesa

Postby annawen » 05 Dec 2007 15:42

We can hardly wait :devil2:

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Re: Ficções à portuguesa

Postby Steerpike » 05 Dec 2007 18:40

Thanatos wrote:De qualquer forma claro que vou continuar. Estou em aturada pesquisa adjectival para poder alterar ligeiramente a opinião sobre o conto da Clara... é que afinal de contas sou moderador por aqui e não ficava nada bem usar vernáculo. :devil2:


Não precisas de recorrer a palavrões para descrever o conto dela. Aliás, o conto da Clara Pinto Correia não pode ser descrito com base apenas em palavrões porque isso seria eufemístico. O conto da Clara Pinto Correia é um atentado. O conto da Clara Pinto Correia é tão mau que provoca cancro. O conto da Clara Pinto Correia é mau até como conto da Clara Pinto Correia. O conto da Clara Pinto Correia é um dos cavaleiros do apocalipse. O conto da Clara Pinto Correia é a razão pela qual se acrescentou um décimo círculo ao inferno. O conto da Clara Pinto Correia *é* o décimo círculo do inferno. O conto da Clara Pinto Correia não seria tão vergonhoso se tivesse sido plagiado. Agora que me lembro bem, o conto da Clara Pinto Correia é baseado numa anedota. O conto da Clara Pinto Correia é uma anedota. O conto da Clara Pinto Correia é uma anedota de mau gosto. O conto da Clara Pinto Correia, se comparado numa escala de vários microorganismos infecciosos, continua a não valer nada. O leitor desta antologia paga sete ou oito euros pelo livro e outros milhares em terapia para ultrapassar o trauma de ter lido o conto da Clara Pinto Correia. O conto da Clara Pinto Correia não veio do fundo da gaveta, veio do fundo do caixote do lixo. O caixote do lixo da casa de banho. O conto da Clara Pinto Correia é tão mau que todas as palavras que ela usou para o escrever terão de ser expurgadas da língua portuguesa. O conto da Clara Pinto Correia é a prova de que Deus não existe. O conto da Clara Pinto Correia é uma merda---

Bolas, perdi.

Abraços,
Luís
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Re: Ficções à portuguesa

Postby Tzimbi » 05 Dec 2007 18:57

Agora é a minha vez de dizer "Bolas!", Steerpike. Assim não vale, conseguiste despertar o meu interesse pelo conto... :biggrin:
Parece-me que tenho de ir à FNAC e passar lá uns minutos a ler o dito cujo, já que não me apetece gastar dinheiro neste livro.
E ainda fico à espera da tua crítica, Thanatos... :clap:

S.

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Re: Ficções à portuguesa

Postby J_Adonis » 05 Dec 2007 19:03

Bolas. Tenho de ler esse conto!!!
Com um martelo na mão, tudo nos parece a cabeça de um prego. <br /><img src="http://www.stickergiant.com/Merchant2/imgs/125/mcs87_125.gif" border="0" class="linked-sig-image" />

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Re: Ficções à portuguesa

Postby acrisalves » 05 Dec 2007 22:19

Eh pah, le o resto, mas nao leias o da CPC... concordo. é pessimo. E Steerpike - no meio disso tudo, coitados dos cavaleiros do apocalipse, serem comparados a...a.... àquilo.

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Re: Ficções à portuguesa

Postby Thanatos » 05 Dec 2007 23:36

Um dos defeitos desta edição é a completa falta de informação sobre o historial de publicação dos contos, pelo que só com algum trabalho é que o interessado pode descobrir se está perante contos novos ou reedições. Essa falta sentia-a mais profundamente com Evolução de Miguel Vale de Almeida. Conhecendo o autor pelo romance Euronovela, publicado em 1998 ao ler Evolução fiquei a pensar se não estaria na presença duma juvenília tal o carácter infantil do mesmo em completo contraste com a memória que guardo do romance. Se é ou não um conto tirado do fundo da gaveta este leitor desconhece. Que é um original à colectânea parece não haver dúvidas.

E de que trata o conto? Basicamente é uma fantasia daquelas inseridas na linha da science-fantasy, tipo Flash Gordon em que um antropólogo duma raça hermafrodita descobre que provavelmente perdida algures no mundo existe uma raça em que os sexos estão separados. Toda a potencialidade para um conto extraordinário em que a exploração duma sociedade hermafrodita poderia relembrar os melhores momentos dum Jack Vance ou onde eterno conflito entre dogma, religião e ciência poderia gerar momentos de reflexão filosófica é desperdiçada num conto sem vida que se arrasta como um cadáver putrefacto de cena em cena, com breves relances do que poderá ser ou não a “nossa” Terra (o autor nunca se resolve a desambiguar esta questão) a servirem à laia de fundo cénico para um drama cuja resolução se adivinha logo à segunda página. Um autêntico bocejo a prenunciar o abrupto deslizar para o nadir que surge logo a seguir pela mão de Clara Pinto Correia.

Conhecida internacionalmente como CPC (de Copy Paste Correia) por via de alguns artigos que parecem ter extremas semelhanças com alguns outros publicados no The New Yorker, é com Mariquices que passará a ser conhecida nacionalmente nos meandros do fandom de FC (sorte a dela que o tal fandom consista de meia dúzia de gatos-pingados, mas isso é outra história). Desde Universal, Limitada de Isabel Cristina Pires ou Três Lágrimas Paralelas de Artur Portela que não me sentia assim ao ler um conto. Eu vou tentar explicar a sensação que se sente com a leitura do texto mas antes deixem-me fazer uma sinopse muito rápida sobre o mesmo. Como refere logo a linha inicial do texto trata-se duma "fábula animal de proveito e exemplo", remetendo-nos assim para aqueles contos moralistas que vinham nos cadernos da primária do tempo do outro senhor cheios de virtude e valor, querendo impregnar nas doces alminhas das criancinhas puros e bons valores cristãos. É num misto de prosa new age, eivada de toques de La Fontaine que vamos assistindo à descrição do carácter moralmente rígido e intocável de três elefantes africanos. Sim, leu bem! Três elefantes africanos. Mas espere, tem mais! Estes três elefantes que nutrem entre si uma amizade descrita como sólida e profunda (e aqui admito que o meu lado perverso imaginou que tipo de amizade pode estar ao alcance duma tromba) recebem a visita da entidade protectora dos elefantes que lhes concede durante uma tarde todos os desejos.

Se eu tomasse LSD misturado com aspirina e Coca-Cola e começasse a ouvir cores e ver sons tenho a impressão que o sentimento de embasbacamento que senti ao ler o conto não poderia ser maior. A cada linha que lia uma vozinha interior perguntava: mas o editor chegou a ler isto? A resposta invariavelmente tendia para a negativa. Sim, porque não acredito que ninguém no seu perfeito juízo pudesse aceitar publicar tal chorrilho de parvoíces e mais ainda que aceitasse publicá-lo numa colectânea dita de FC e Fantástico. Isto porque de FC estamos conversados. Como fantástico só se pensarmos que é de facto fantástico que em pleno século XXI ainda haja quem escreva como se se dirigisse a um bando de imbecis mentais, tomando por parolos os leitores, revisores e editores e tendo a soberana lata de enviar um texto que parece ter sido escrito com o único intuito de gozar com a cara do pessoal. De facto se lermos na contracapa as intenções do editor que escreve: “[A FC e o Fantástico] têm sido literaturas marginalizadas e consideravelmente ignoradas pelo público. (…) foi precisamente com o intuito de modestamente contribuir para uma eventual mudança de cenário que [a editora] resolveram levar à estampa estas [colectânea]” e seguirmos de imediato para as Mariquices o que nos resta senão considerar que a CPC nos escarrou na cara? Isto é como se o editor nos estivesse o tempo todo a perorar sobre haute cuisine e no fim nos metesse um prato com bosta fumegante (de elefante africano) à frente.

Compreendo que a senhora tenha asco pelo género. Não é a primeira nem será a última pessoa a usar pinças e luvas ao tocar nesta literatura. Compreendo até que tivesse aceite o convite para participar na colectânea de ânimo leve e irreflectidamente. Mas, bolas! Não poderia depois, quando os vapores das substâncias alterantes se tivessem dissipado, a racionalidade se tivesse reinstalado e a segunda leitura do texto estivesse terminada, pegar no telemóvel e conversar com o editor? Custava muito retirar-se com o rabo (de elefante, suponho) entre as pernas e abandonar o projecto para bem do sossego mental dos pobres leitores incautos? Eu até imagino o teor da conversa:

- Está lá, Neto? És tu, pá?
- Sou eu, sim Clara, diz lá rapariga.
- Epá, olha estive aqui a pensar pá e como abomino essas coisas da ficção científica, pá, é que tu sabes pá, eu cá é só mesmo ciência, não gosto de saladas russas, cada macaco no seu galho e coiso e tal…
- Sim…
- Pois olha estive a escrever uma coisa mas, olha aquilo é mesmo mauzinho e afinal vou roer a corda. Desculpa lá pá, mas não contes comigo.
- Ó, que pena, mas de certeza que não queres fazer outra tentativa?
- Não pá, desta vez vou ser honesta e de qualquer forma já perdi a pachorra para traduzir coisas. Agora com isto da internet sabes como é pá, já toda a gente lê tudo e mais alguma coisa, uma pessoa vê-se de aflitos pra encontrar cenas que sejam desconhecidas, if you get my drift…
- Sim, pois, tens razão Carla. Olha, tenho pena que não tenha dado certo. Fica prá próxima, ok?

E com este pequeno gesto se tinham salvo uns valentes metros cúbicos de pasta de papel.

Quando se chega ao nadir, diz-nos a astronomia, está-se no ponto inferior da esfera celeste. Será de pressupor que tendo alcançado o ponto mais inferior desta colectânea agora só reste melhorar. Puro engano! O conto seguinte é a prova cabal de que quando se chega ao nadir não se tem forçosamente de sair de lá.

O Trono e o Domínio de Luísa Costa Gomes tem ao menos a honestidade de, no final, indicar a ascendência e caracterizar-se como juvenília. Ainda assim volta de novo a tal vozinha impertinente a sussurrar: eles leram isto? Eles leram isto?

No meio de muitos anjos e demónios e um Deus a descansar deixando o governo dos Céus e Infernos a cargo de burocratas podíamos ter um perfeito exemplo de sátira, à semelhança do texto de Zink que prometia muito mas deu nada, desde que a matéria fosse trabalhada duma forma menos pesada, confusa e, em última análise desinteressante. Aqui e ali vislumbrei toques de génio mas não passavam de raios de Sol no manto de obscuridade, logo abafados pela mão pesada da escritora que infundiu o conto de demasiados rodriguinhos e maneirismos a tal ponto que os parágrafos finais são um completo lamaçal de nomes, hierarquias, voltas e reviravoltas fazendo com que este leitor se desligasse por completo e deixasse os olhos em piloto automático. Já tiveram aquela sensação de ler e não captar nada do sentido mas estranhamente vão avançando ao longo da página? Pois foi o que me aconteceu ao longo das duas ou três últimas páginas deste conto que, misericordiosamente, até não é dos mais longos.

Como um mal nunca vem só até o editor se lembrou de contribuir com um conto. Poderia pensar-se que dado o desequilíbrio da colectânea em desfavor da FC ele viesse ao menos tentar equilibrar os pratos da balança, mas não. Somos com Na Pele do Talhante sujeitos a mais um conto de pseudo-FC, daqueles em que o autor pensa que o embrulho, neste caso as nanotecnologias e afins, é o bilhete de entrada suficiente para rotular um texto inane como FC.

Perante um homicídio o detective encarregado do caso decide reviver os últimos momentos da vida do assassinado para num desfecho totalmente idiota descobrir o assassino. O motivo não faz sentido, o ambiente futurista duma Lisboa improvável tresanda a retro-noir, as referências ao fandom de FC lusitano passarão perfeitamente despercebidas de tão obscuras e datadas e os antagonistas são figuras de papier-maché feitas à imagem e semelhança do Fu Manchu. Se Miguel Neto pretendia ser divertido e parodiar inteligentemente o género ficou-se longe do alvo. Se pretendia afundar ainda mais a FC como literatura válida junto do público curioso sobre a mesma, aplausos porque acertou na mouche.

(continua)
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Re: Ficções à portuguesa

Postby Thanatos » 07 Dec 2007 22:35

Decerto está familiarizado com os medidores de ritmo cardíaco que tantas vezes aparecem nas séries televisivas melodramáticas mostrando uma linha ininterrupta que simboliza o final dos sinais vitais. E de repente, um pico rasga o monitor. É a vida que regressa ao paciente. O mesmo se passa com esta colectânea quando se começa a leitura de A Vida da Minha História de Luís Filipe Silva. É uma brisa fresca que entra no quarto bafiento, é um raio de luz que rasga as nuvens, é, enfim, um conto de FC na verdadeira acepção da palavra, engenhoso, bem escrito e suficientemente interessante para, por uma vez, prender-me às páginas. Embora não seja dos melhores textos que Silva já escreveu, longe disso, nesta companhia, e exceptuando os contos do Soares e do Barreiros, faz figura imponente.

No conto um rapaz sonha com o seu futuro. E a cada dia que sonha o seu eu adulto rejuvenesce. Assim o futuro não lhe reserva surpresas e tudo parece estar já pré-determinado. Ou não estará? O conto é uma extraordinária reflexão sobre a vida, o envelhecimento, as opções que tomamos a cada minuto da nossa vida e a procura da felicidade. Consegue ainda ser uma bela história de amor que não envereda pela lamechice antes sendo tocada por uma rara sensibilidade pouco vista dentro da produção de FC nacional.

Atrevo-me a dizer que em conjunto com o conto de David Soares (o do Barreiros não é inédito e facilmente se encontra online) este momento justifica à risca o preço do livro.

Se a colectânea ficasse por aqui poderia dizer-se que fechava com chave de ouro. Infelizmente temos ainda de suportar o insuportável humor escatológico de Manuel João Vieira. Este é um daqueles casos muito recorrentes no underground lusitano de um gajo a quem meia dúzia de inadaptados acharam um dia muita piada e vai daí o homem auto-convenceu-se que era um humorista. Esquecendo-se que para ter humor convém, pelo menos, provocar o riso nas pessoas.

As Fantásticas Aventuras de Luís Mendonça é daqueles contos que não tem ponta por onde se lhe pegue. Não tem início, não tem meio e como seria de esperar, não tem fim. A melhor maneira de o descrever é dizer que é daqueles tipos de piadas racistas/homofóbicas/de mau gosto que entram a 100 e saem a 200 nos ouvidos de gente com um mínimo de categoria. Nos outros, decerto, provocará, nas palavras de um amigo alentejano, uma “barrigada de riso”. Mas será daquele riso alarve e boçal típico de gajos que acham o cúmulo dos cúmulos atar latas aos rabos de gatos e pegar-lhes fogo depois de os regarem com líquido de isqueiro. A linguagem é brejeira q.b. servindo uma prosa tipo marialva da Madragoa com tiques de engatatão das dúzias, daqueles que ainda metem brilhantina no cabelo, usam a unha do mindinho longa (também conhecida como unhaca), cachucho de ouro de imitação no dedo, camisa aberta e medalhão a refulgir sob os pêlos suados do peito, enquanto frequentam os bailes da colectividade do bairro atirando piropos estafados às meninas saídas da catequese.

E assim vamos estando servidos nesta miragem da FC e Fantástico em terras lusas.

Teve a fortuna a circunstância de por uma mera casualidade fazer com que logo após a leitura da colectânea acima eu metesse mãos a uma outra da mesma editora com o título pouco sugestivo de Contos de Terror do Homem-Peixe, onde, qual maldição saída da tumba, vamos deparar com os suspeitos habituais e alguns outros novos que mais uma vez confirmam a ideia de que de boas intenções está o Inferno cheio. Mas adianto-me. Convém esclarecer as razões que levaram a surgir esta colectânea.

(continua)
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Re: Ficções à portuguesa

Postby Tzimbi » 10 Dec 2007 13:40

Bem, levada pela curiosidade, lá fui eu ler (na diagonal, é certo) o conto da CPC... Passei pela FNAC do Chiado e lá estava o dito livro em destaque. Agarrei na obra-prima, procurei o conto e li...
Só tenho um comentário a fazer:

Mas o que é aquilo?????? :blink: :blink:

Juro que pensei que o Thanatos e o Steerpike estava a exagerar nas críticas deles. Perdoem-me!

S.

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Re: Ficções à portuguesa

Postby Steerpike » 10 Dec 2007 14:09

O ye, of little faith.

Abraços,
Luís
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Re: Ficções à portuguesa

Postby Thanatos » 16 Dec 2007 15:44

Para os interessados existem disponíveis online opiniões/críticas a A Sombra sobre Lisboa e na revista Os Meus Livros a Contos de Terror do Homem-Peixe.
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