Ficções Científicas & Fantásticas - Vários

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Ray_of_Darkness
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Re: Ficções à portuguesa

Postby Ray_of_Darkness » 21 Dec 2007 21:37

itsfullofstars wrote:
Ray_of_Darkness wrote:O problema é que o reforço positivo neste país não faz andar para a frente.


Não? Mas alguém neste país perde tempo a fazer reforço positivo, por acaso?



Se achas que somos todos muito injustos e que não temos razão, porque não aproveitas para fazer esse reforço positivo? Se em vez de andares a comentar as opiniões dos outros, fizesses a tua apreciação do panorama português talvez fosse melhor para todos os users do fórum. É só perder tempo a fazer reforço positivo...

Thanatos, depois de ler as tuas opiniões dos vários contos (distinguindo por autor) e das duas colectâneas talvez vá a uma fnac procurá-las para ler... Infelizmente, neste momento não estou em condições de comprar (lá se foi o meu reforço positivo...), mas agora até gostava de ver se concordo contigo. Claro que andas há muito mais tempo do que eu nestas andanças, mas acho que tenho direito à minha opinião (digo eu...).
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Re: Ficções à portuguesa

Postby pco69 » 21 Dec 2007 21:37

82€ ?????

Posso vender o meu mais barato....... 80€!!!!

Pegar ou largar!!!!!!!!!!!!! :rolleyes:

P.S.) Com esse dinheiro, já vou poder comprar os livros do Eragon e da série da Roda do Tempo.............
Fenómenos desencadeantes de enfarte do miocárdio

Esforços físicos, stress psíquico, digestão de alimentos, coito, tempo frio, vento de frente e esforços a princípio da manhã.

Ou seja, é extremamente perigoso fazer sexo ao ar livre com vento de frente, após ter tomado o pequeno almoço numa manhã de inverno...

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Re: Ficções à portuguesa

Postby Steerpike » 21 Dec 2007 22:01

Sim, em vez de incentivar a produção literária nacional com o meu dinheiro, vou começar a pagar os livros que compro com festinhas e biscoitos para cão . . .

Sinceramente, estamos a falar do quê? Um editor não é uma instituição de caridade. Não é um animal irracional, embora às vezes dê toda a aparência disso e mereça ser tratado como tal. Não é, nem deve ser, uma criancinha que faz birra e amua quando recebe críticas negativas. Eu já faço mais do que a minha obrigação quando lhes encho os bolsos, mesmo quando estes não merecem, comendo e calando muitas das vezes, não tenho agora de andar com paninhos quentes para não ferir os delicados sentimentos de quem despeja cá para fora trampa sem o mínimo respeito pelo leitor/consumidor.

Voltando a um caso concreto, se achas que o "Mariquices" não é o exemplo emblemático do que está errado com o _Ficções Científicas e Fantásticas_ em particular e com a Chimpanzé Intelectual em geral, é contigo. Para mim, contudo, é sinal revelador da ingenuidade e incompetência do editor num livro que (modestamente, é certo) se anuncia arauto de "uma eventual mudança de cenário" em que os livros eram apresentados com "um mínimo de qualidade aceitável". É ainda, para cúmulo, o volume de apresentação de uma nova editora que pretende apostar num género que tudo indica não conhecer ou conhecer mal. Uma editora que nem sequer sabia o que publicar no seguimento do seu primeiro tomo: o _Homem Peixe_ foi mais encomenda da CTLX do que outra coisa, e terá sido por desespero que o João Barreiros saiu na altura em que saiu, já que o plano original dos autores consistia na publicação de todas as três partes da _Bondade dos Estranhos_ num único volume.

O resultado desta atitude ingénua e displicente está à vista: o _Ficções Científicas e Fantásticas_ é um livro vergonhoso que deixa mal vistos não só a Chimpanzé Intelectual, o Miguel Neto e a Clara Pinto Correia, mas o próprio género como ele é entendido neste país. Erros graves merecem críticas severas, não por sadismo dos críticos, mas porque estes não querem que tais asneiras se voltem a repetir. A defesa em Portugal de um género tão vilipendiado e incompreendido quanto este não se pode limitar ao incentivo da produção em quantidade, mas em qualidade também.

É verdade que sou negativo nos meus comentários, mas também é verdade que sou tão ou mais impiedoso comigo mesmo quando cometo erros (e que são muitos), não sendo por isso que deixo de fazer as coisas que faço --- antes, tento fazê-las melhor. As delicadezas não são comigo, portanto, e deixa lá que pela tua atitude também não és a pessoa mais indicada para pontificar sobre o assunto. Outros que se encarreguem de lavar com água de rosas o rabinho da incompetência.

Abraços,
Luís
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Re: Ficções à portuguesa

Postby itsfullofstars » 21 Dec 2007 22:11

Thanatos wrote:Ahhh e esqueci-m de comentar o tal apanhado de nomes que andam por aqui e supostamente provam à sagacidade que já não é sempre a mesma coisa. É que falta lá mostrar a quantidade (já que da qualidade é difícil) de material que esses nomes todos produziram.


Usando o (incompleto e provavelmente cheio de erros) Bibliowiki como guia:

Rui Zink - 3 contos
David Soares - 12 contos (e pelo menos mais um romance que não consta lá)
João Barreiros - 1 romance e 26 contos, mais 1 romance e 2 contos em colaboração
Miguel Vale de Almeida - 1 romance e 4 contos
Clara Pinto Correia - 1 coisa ilegível do tamanho de 1 conto
Luísa Costa Gomes - 1 conto e mais 1 em colaboração
Miguel Neto - 1 conto
Luís Filipe Silva - 2 romances e 24 contos, mais 1 romance e 2 contos em colaboração
Manuel João Vieira - 1 conto
Baptista-Bastos - 1 conto
Possidónio Cachapa - 1 conto
Pedro Martins - 1 conto
João Tordo - 1 conto
João Seixas - 14 contos
Guilherme Trindade Filipe - 1 conto
António de Macedo - 6 romances e 13 contos
Fernando Ribeiro - 2 contos
Rogério Ribeiro - 1 conto
Safaa Dib - 1 conto
João Henrique Pinto - 1 conto
José Manuel Lopes - 1 conto
Yves Robert - 7 contos
Vasco Curado - 14 contos
João Ventura - 24 contos
Wolmyr Alcantara - 1 conto
Octavio Aragão - 1 conto
Jorge Candeias - 34 contos e mais um em colaboração
Gabriel Boz - 3 contos
Telmo Marçal - 8 contos
Carlos Orsi - 3 contos
Carlos Patati - 1 conto
Sofia Vilarigues - 1 conto
Maria Helena Bandeira - 4 contos
António Candeias - 4 contos e mais um em colaboração
Carla Cristina Pereira - 2 contos e mais um em colaboração

Ao todo, 11 romances e 223 contos. Mais alguma coisa?

Thanatos wrote:Atenção que esta diatribe é mais direccionada ás hostes nacionais já que os brasileiros têm, no geral, uma muito maior dinâmica e empenho, já para não falar de que não têm problema em aparecerem seja onde for, desde zines a livros de editoras de mérito. São um caso à parte e um exemplo a seguir, na minha opinião. Pelo menos fazem barulho mas também têm obra feita para mostrar.


Também concordo que os brasileiros têm uma atitude muito mais positiva quanto a tudo isto. Parte dessa atitude é não passarem a vida em recriminações, queixas e lamúrias, a apontar defeitos a tudo em que conseguirem encontrar defeitos e a inventar defeitos quando não conseguirem encontrá-los. Assim vale a pena. E assim chega-se a algum lado.

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Re: Ficções à portuguesa

Postby Steerpike » 21 Dec 2007 22:26

Diria mesmo mais: tivessem as críticas negativas surgido imediatamente aquando da publicação original do _Ficções Científicas e Fantásticas_, talvez não tivessem cometido o erro de mais tarde distribuir o livro com o Público, manobra que saiu cara à editora em termos de dinheiro e de reputação, e apenas serviu para consolidar a imagem de indigência literária associada ao género.

Se este país tem um problema, não é a negatividade das críticas, é haver quem não as saiba ouvir ou não saiba o que fazer com elas.

Abraços,
Luís

PS: Editei o post para corrigir o português. Pode ser, shotôr?
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Re: Ficções à portuguesa

Postby Thanatos » 22 Dec 2007 15:31

Ray_of_Darkness wrote:Thanatos, depois de ler as tuas opiniões dos vários contos (distinguindo por autor) e das duas colectâneas talvez vá a uma fnac procurá-las para ler... Infelizmente, neste momento não estou em condições de comprar (lá se foi o meu reforço positivo...), mas agora até gostava de ver se concordo contigo. Claro que andas há muito mais tempo do que eu nestas andanças, mas acho que tenho direito à minha opinião (digo eu...).


A ideia destas opiniões é mesmo essa. Irmos à descoberta por nós próprios. Até porque fale-se bem ou mal sempre desperta a curiosidade. No meu caso até sou daqueles que mais me aguça a curiosidade quando só leio a dizerem mal. :mrgreen4nw:

E para os distraídos a Cerridwen já colocou no tópicos dos concursos um promovido pela Saída de Emergência para literatura fantástica. Leiam mais info aqui.
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Re: Ficções à portuguesa

Postby acrisalves » 23 Dec 2007 13:47

Foi por aqui que se falou de livros do terrarium a ... um preço estranho?? nao entendo... na feira do livro do avante, estao la sempre todos, o dos brinquedos, o terrarium , o do LFS; a preços completamente normais... :S

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Re: Ficções à portuguesa

Postby Thanatos » 26 Dec 2007 09:46

acrisalves wrote:Foi por aqui que se falou de livros do terrarium a ... um preço estranho?? nao entendo... na feira do livro do avante, estao la sempre todos, o dos brinquedos, o terrarium , o do LFS; a preços completamente normais... :S


E por acaso encontrei na Byblos dois Futuro à Janela do LFS. A preço atrativo.

De qualquer forma a Festa do Avante é um acontecimento muito localizado e de curta duração e penso que obriga a pagar entrada. Ora se formos lá apenas para comprar livros... :dry:

O que me faz pensar que seria agradável haver uma linha editorial que resgatasse os autores nacionais do oblívio permanente a que estão condenados por força do mercado editorial. Há gerações de leitores que nunca tiveram contacto ou sequer conhecimento de gente como Romeu de Melo só para citar um.
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Re: Ficções à portuguesa

Postby acrisalves » 26 Dec 2007 16:48

:tongue: eh pah, pelo preço que ali tava em cima, entras no avante, pagas o livro e ainda te sai mais barato.... o meu Terrarium é recente e custou 15 euros... oFuturo à Janela, 5...

E agora, fazendo uma pergunta antes de me esconder nalgum buraco nao vá alguem atirar-me alguma coisa... Romeu de Melo?

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Re: Ficções à portuguesa

Postby Thanatos » 26 Dec 2007 17:28

fazendo uma pergunta antes de me esconder nalgum buraco nao vá alguem atirar-me alguma coisa... Romeu de Melo?


:mrgreen4nw: Romeu de Melo foi um filósofo português que escreveu dentro do género da ficção científica.

http://bibliowiki.com.pt/index.php/Romeu_de_Melo

Os Melhores Contos de FC ainda se encontram por aí nos alfarrabistas. Este site brasileiro tem as capas deles: http://gatodasletras.blogdiario.com/1122207000/

O site do Carlos de Portugal também o menciona: http://www.geocities.com/carlosdeportugal/...s_de_contos.htm

Como vês não o conheceres, acrisalves, prova aquilo que eu referia do desconhecimento das gerações.
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Re: Ficções à portuguesa

Postby Thanatos » 07 Jan 2008 20:20

O Primogénito de Rogério Ribeiro situa-se na Foz do Tejo em 1200 a.C, altura da ocupação fenícia da península. Abre com uma cena de cariz cinematográfico com a intenção de causar o suspense e criar o necessário ambiente de época mas é tudo descrito em termos mais próximos dos comics do que propriamente do espírito de Lovecraft. A mistura de deuses preocupados com o surgimento duma entidade possivelmente mais poderosa que eles poderia ter resultado interessante não fosse o diálogo entre eles ser vergonhosamente amadoresco sendo o golpe de misercórdia a “apresentação” inacreditável de Nyarlathotep: “ Muito prazer, deus nórdico e humano fenício. Apresento-me: Nyarlathotep, o Caos Rastejante, Arauto dos Deuses Exteriores, servo do mui reverenciado Azatoth, o Barão Demoníaco…” Perante trechos deste teor tirei duas conclusões: 1.ª) o tom jocoso e leve contrasta altamente com as secções mais pomposas e melodramáticas do conto dando uma sensação de gravitas que lembra os piores momentos das bandas Death Power Metal e afastando por completo a ambiência dos contos de Lovecraft e Derleth; 2.ª) Nyarlathotep poderá sempre seguir uma carreira como apresentador de TV ou Mestre de Cerimónias. Aliás não ficaria nada mal na apresentação dos Óscar dum destes anos vindouros. Já vi horrores piores.

Com este começo nada auspicioso seguimos para o conto de Safaa Dib, Vale de Sombras. A acção decorre no tempo de Roderico pouco tempo antes da invasão de Lisboa pelos muçulmanos. No meio das manipulações políticas e teias de intrigas e espiões que viviam na altura na cidade, chega o monge Júlio de Bobbio, amigo de longa data de Leandro de Emérita, antigo companheiro da Ordem de Júlio, chamado a intervir no que se pensa ser uma sucessão de casos de possessão e que se revelam mais tarde serem os inícios dum outro tipo de invasão.

Enunciar aqui tudo o que está mal neste conto ocuparia o mesmo espaço do que já ficou para trás portanto farei uma súmula: o encadeamento temporal é, no mínimo, confuso dando a ideia que autora escrevia aos sacolejos e ao sabor das ideias. O problema é que o leitor às tantas já se perdeu no emaranhado de voltas e reviravoltas. Não há nada de mal com a escrita não linear mas a verdade é que aquilo que resulta extremamente bem no meio visual é muito difícil de transpor para a escrita e essa transposição necessita de mão segura e treinada que, evidentemente, não é o caso da Safaa. Outro problema é que a autora parece não dominar as personagens e descreve-as numa perspectiva de constante descoberta, como se ela própria as fosse criando ao sabor da narrativa. Um exemplo extremo surge na secção da ceia entre o padre Ambrósio, Leandro e Júlio. Ambrósio relata um acontecimento anterior a Júlio e Leandro, conhecedor desse mesmo evento, vai-o ajudando na narrativa. No final da narração assume a postura de alguém extremamente enfurecido com o comportamento do padre no evento. Ora basta parar para pensar que se Leandro já tinha conhecimento prévio da situação aquela súbita fúria é completamente descabida. E isto é só um dos muitos exemplos de falta de pulso narrativo e estrutural da autora. Outros pequenos aspectos são o uso e abuso dos pronomes, seu, sua, seus, suas, derivativos da forma inglesa que na língua portuguesa são na maior parte dos casos totalmente desnecessários, o facto do conto de lovecraftiana ter pouco ou nada mesmo podendo ser um qualquer conto de cariz sobrenatural genérico, dando assim a ideia de que foi ligeiramente manipulado para encaixar na antologia e fazer número. Mesmo o facto de se passar na capital portuguesa durante o reinado visigótico é quase por completo desaproveitado, sendo que a geografia do local é confusa e ineptamente relatada, além de eu não perceber a opção por a chamar de Olissipo quando na altura a cidade era amplamente conhecida como Ulishbona. Dos diálogos também já noutro local desta opinião referi que são ainda e sempre o calcanhar de Aquiles dos autores portugueses (com excepções, naturalmente) e neste caso voltamos a estar perante o mesmo problema. Um pouco menos de grandiloquência nos enunciados faria maravilhas pela congruência do texto.

No final fica-se com a ideia de que este seria um conto com pernas para andar se fosse mais trabalhado e pensado, até porque no meio do amadorismo compreensível pressente-se uma capacidade para recriar ambientes históricos e estabelecer personagens com história e vida anterior que são uma das mais-valias do texto. Apesar disso tanto este como o conto do Rogério que abre a antologia são desnecessários aqui e embora não sendo os únicos maus textos fazem má figura junto de outros bem mais elaborados. E um deles vem logo a seguir.

(continua)
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Re: Ficções à portuguesa

Postby Thanatos » 08 Jan 2008 23:21

Luís Filipe Silva é o primeiro autor profissional a surgir no encadeamento cronológico da antologia. Na minha opinião a mesma só teria a ganhar em ter aberto com a noveleta Aquele que Repousa na Eternidade. Não só é Luís F. Silva um autor já de créditos firmados como este é o seu primeiro trabalho de maior folêgo em muitos anos, o que só por si seria motivo mais que suficiente para não o ter encaixado entre dois contos medíocres, como além disso a noveleta com que nos presenteia é um exemplo da qualidade que seria de esperar dum livro que se apresenta tão ambicioso no panorama português. Silva domina na quase perfeição um estilo muito próprio de contar histórias do qual já se tinha tido um vislumbre em A Vida da Minha História (vd. opinião acima na secção dedicada à colectânea Ficções Científicas & Fantásticas) complementado por algo de verdadeiramente importante para contar. No fundo Silva entende que a escrita do género é acima de tudo um repositório de ideias e sem nada de interesse para contar o escritor está condenado a olhar para o umbigo, ruminando frases e lambendo parágrafos que não levam a lado algum. É até penoso para mim opinar sobre a noveleta num espaço tão reduzido tendo em conta a riqueza de ideias que emerge dela. Sem dúvida que está aqui material a clamar por algo mais extenso. A noveleta abre com uma citação de Lovecraft que é a chave para a descodificação do texto. De facto vamos estar na presença de sonhos dentro de sonhos e como uma cebola que se vai descascando o leitor vai-se apercebendo de que os acontecimentos convergem vertiginosamente para um ponto fulcral que poderá representar a vinda definitiva dos Anciões para o nosso planeta. A noveleta leva-nos desde a viagem de circum-navegação de Fernão de Magalhães aos campos de Mons, na Bélgica durante a I Grande Guerra. Com uma tela de mais de 400 anos, Luís Silva entremeia a história com personagens reais e fictícias num entrosamento perfeito entre factos e ficção. A dramatis personae é impressionante: Fernão de Magalhães e as tripulações das naus Trinidad, San Antonio, Concepción, Victoria, e Santiago, incluindo o escravo Henrique que desempenhou um valioso papel de intérprete durante as viagens e que por si só mereceria uma novela; a eles junta-se o próprio Howard Phillips Lovecraft e Arthur Machen e mesmo no final temos o aparecimento indirecto de Luís Vaz de Camões em que se alude à possibilidade dos Lusíadas mais não serem que a narração ficcionada do despertar de Chtulhu. Como linha que une as diversas tramas temos o mal afamado Necronomicon que mais não é que o dispositivo de criação do portal para a chegada dos Anciões. É talvez este o único ponto fraco de toda a noveleta dado que nunca fica muito claro o papel do livro nem chega a perceber-se o destino das várias cópias que podem ou não ser o mesmo livro em vários estados. Além disso a inversão no terço final da noveleta duma história até então firmemente cravada no território do oculto e sobrenatural para a possibilidade de estarmos perante viagens temporais de gosto marcadamente sci-fi poderá prejudicar um pouco a coesão narrativa. É nesta secção e nas que a precedem até ao clímax que mais se nota a necessidade de à noveleta ser permitido mais espaço para respirar. Duma assentada introduz-se toda uma nova perspectiva, quer sobre uma personagem que pensava eu já não ter segredos bem como uma outra nova que pode ou não ser a encarnação dum viajante temporal. Há por aqui uma certa falta de pulso no material tornando-se confuso perceber o atar das pontas. Apesar de tudo Luís F. Silva é um escritor marcadamente racionalista e que se movimenta com extremo à vontade nos terrenos da ficção científica pelo que não é de todo surpreendente a subversão aos temas lovecraftianos e a sua exploração numa vertente de FC.

A escrita de Luís F. Silva é duma fluidez surpreendente e por uma vez estamos perante um escritor com sentido de diálogo em que as toadas deslizam sinceras e honestas da boca das personagens sem aquele tom teatral tão do agrado da maioria dos nossos escritores. A juntar a isso é também extraordinariamente eficaz na criação dos climas e ambiências propícios a cada época retratada e nalgumas das passagens a bordo das naus de Fernão de Magalhães quase senti o cheiro da maresia e o gosto do sal tal a veracidade da escrita.

Como atrás referi se a antologia abrisse com esta noveleta estaria alguns degraus acima na escada da excelência e se fosse possível tê-la encadeado com os contos de João Seixas e João Ventura, de que falarei mais adiante e que no conjunto formam um tríptico alucinante dedicado à alma lusitana e à cidade de Lisboa mais concretamente, bem como uma delirante homenagem aos temas prevalecentes na obra de Lovecraft estaríamos perante uma obra ímpar no género português. Infelizmente logo a seguir ao fantástico e opíparo banquete oferecido pelo Luís Filipe Silva temos uma sobremesa estragada na forma de Um Dia no Cárcere de João Henrique Pinto que, avaliando pela mini-biografia existente no final do livro, foi já vencedor dum 1.º prémio de escrita criativa. Atrevo-me a dizer que a obra proposta a concurso não foi decerto esta que aqui se lê.

(continua)
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Re: Ficções à portuguesa

Postby Steerpike » 09 Jan 2008 10:12

Thanatos wrote:É nesta secção e nas que a precedem até ao clímax que mais se nota a necessidade de à noveleta ser permitido mais espaço para respirar. Duma assentada introduz-se toda uma nova perspectiva, quer sobre uma personagem que pensava eu já não ter segredos bem como uma outra nova que pode ou não ser a encarnação dum viajante temporal. Há por aqui uma certa falta de pulso no material tornando-se confuso perceber o atar das pontas.


Precisamente por isto não considero o conto do Luís Filipe Silva como pertencendo à categoria dos Excelentes. Há um certo descontrolo na parte final, tanto que me levou a pensar que ele não sabia como acabar a história, o que é pena, já que os primeiros dois terços estão tão bem conseguidos. Dizes que o problema é falta espaço para respirar, mas eu cá acho que foi o ter terminado aquilo à pressa.

Thanatos wrote:Apesar de tudo Luís F. Silva é um escritor marcadamente racionalista e que se movimenta com extremo à vontade nos terrenos da ficção científica pelo que não é de todo surpreendente a subversão aos temas lovecraftianos e a sua exploração numa vertente de FC.


O próprio Lovecraft era um escritor eminentemente racionalista, e a esse respeito não sei bem o que há para subverter. As criaturas e manigâncias do Mythos já representam um universo frio e mecanista, de desígnios incompreensíveis e possivelmente inexistentes: tentar encaixá-las numa interpretação racional não faz mais do que o Lovecraft fazia. Aliás, arrisca-se a fazer menos: o Horror de Lovecraft não vem dos monstros, mas da possibilidade do racionalismo não ter encaixe possível naqueles cenários, algo que faz com que muitos dos seus protagonistas (quase sempre académicos, médicos, detectives e pessoas de ocupação mais "cerebral") acabem condenados à loucura. Era das coisas que mais o assustava e, naturalmente, era sobre isso que ele escrevia quando queria meter "medo".

Abraços,
Luís
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Re: Ficções à portuguesa

Postby Thanatos » 09 Jan 2008 13:15

Steerpike wrote:O próprio Lovecraft era um escritor eminentemente racionalista, e a esse respeito não sei bem o que há para subverter. As criaturas e manigâncias do Mythos já representam um universo frio e mecanista, de desígnios incompreensíveis e possivelmente inexistentes: tentar encaixá-las numa interpretação racional não faz mais do que o Lovecraft fazia. Aliás, arrisca-se a fazer menos: o Horror de Lovecraft não vem dos monstros, mas da possibilidade do racionalismo não ter encaixe possível naqueles cenários, algo que faz com que muitos dos seus protagonistas (quase sempre académicos, médicos, detectives e pessoas de ocupação mais "cerebral") acabem condenados à loucura. Era das coisas que mais o assustava e, naturalmente, era sobre isso que ele escrevia quando queria meter "medo".

Abraços,
Luís


Concedo-te alguma razão mas repara que eu menciono os "temas" e não propriamente a prosa do Lovecraft, e por temas refiro-me à posterior criação dos mitos pelo Derleth em que pouco entra do racionalismo. A raiz dos temas lovecraftianos, no meu limitado entender, continua a ser uma mitologia de carácter sobrenatural/ocultista mais ligado aos rituais pagãos do que a uma perspectiva naturalista/científica dos fenómenos que gerariam o panteão de mosntros. Repara acima de tudo que são sempre "horrores" inomináveis, indizíveis, inexplicáveis, que povoam os contos do canon lovecraftiano. Que há ali de análise fria e crua? Mas sobre isto falarei adiante em relação à noveleta do Barreiros se a tanto me chegue a paciência :wink:

Dizes que o problema é falta espaço para respirar, mas eu cá acho que foi o ter terminado aquilo à pressa.


Seja qual fosse a razão o facto permanece que a parte final está confusa. Denota aquele velho problema de metade estar escrito e metade ter ficado na mente do escritor. Nós como leitores e sem acesso à mente dele ficamos em nítida desvantagem. :tongue:
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Re: Ficções à portuguesa

Postby Steerpike » 09 Jan 2008 13:42

Thanatos wrote:A raiz dos temas lovecraftianos, no meu limitado entender, continua a ser uma mitologia de carácter sobrenatural/ocultista mais ligado aos rituais pagãos do que a uma perspectiva naturalista/científica dos fenómenos que gerariam o panteão de mosntros. Repara acima de tudo que são sempre "horrores" inomináveis, indizíveis, inexplicáveis, que povoam os contos do canon lovecraftiano.


Devido ao colapso da razão humana quando confrontada com esses mesmos horrores. O problema não estaria na abordagem racionalista propriamente dita, mas na nossa inferioridade, na "incapacidade da mente humana de correlacionar os seus conteúdos", nas palavras de Lovecraft hisself. É um pouco como tentar descrever radiação ultravioleta em termos de cores visíveis. Arranjava um exemplo melhor, mas vou sair agora para almoçar e não tenho tempo.

Há alguma "análise" (temas de degeneração/desumanização em consequência das vicissitudes do processo evolucionário, como nos Deep Ones que assombram Innsmouth), mas a abordagem de Lovecraft preocupa-se mais em descobrir e brincar com os nossos pontos fracos.

Por falar nisso, tenho de tratar desta fraqueza que sinto . . .

Abraços,
Luís
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