Dezembro 2011 / António Lobo Antunes

Todos os meses é proposto um novo autor para leitura e discussão pelos foristas.

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Re: Dezembro 2011 / António Lobo Antunes

Postby urukai » 23 Feb 2012 16:40

Mas realmente os dois favoritos dele são o Faulkner (que tem o stream of counsciousness) e o Céline que, pelo que li na wikipedia, tb devia ser díficil de ler como os raios...

O Hemmingway está ali só para enganar...

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Re: Dezembro 2011 / António Lobo Antunes

Postby Bugman » 23 Feb 2012 17:06

croquete wrote:
Bugman wrote:A única coisa de complicada em ALA é encontrar esse ritmo de poesia para ler o poema. A questao "lobantúnica" é que a narraçao dele nao é feita e uma ou duas dimensoes, há ali quatro a funcionar em simultâneo e quando digo quatro, estou a incorporar o tempo, estou a incorporar essa dimensao do pensar no que foi, no encadear raciocínios e chegar ao agora a caminho do amanha


Por outras palavras.Não se quer fazer entender.
É limitado.


:blink: Como? O facto de não se poder abrir o livro ao calhas e acompanhar a leitura a partir de um qualquer ponto são sinónimos do que destaquei? É que daqui a nada ainda vais dizer que verso livre não é poesia e quem o pratica é limitado...

Como dizia Pessoa através de Alvaro de Campos: "O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo./O que há é pouca gente para dar por isso."
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Re: Dezembro 2011 / António Lobo Antunes

Postby croquete » 23 Feb 2012 17:13

Estou-me nas tintas para o Pessoa.
Quem não se quer fazer entender é pior do que quem não se entende.
É limitado.

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Re: Dezembro 2011 / António Lobo Antunes

Postby Bugman » 24 Feb 2012 09:46

Isto começa a tornar-se monótono e ainda nao percebi muito bem se nao estás a mangar comigo...

Nao sei onde vais buscar a ideia que ALA nao se quer fazer entender. O facto de nao o compreenderes nao lhe retira expressividade, que está lá. Aliás é de tal forma expressivo que o leitor quase vive as experiências do personagem, quase que lhe entra na pele, acompanha-lhe as flutuaçoes de humor, conhece-lhe o passado, naqueles instantes em que lê, nao está simplesmente a ler, está a viver.

Claro que há quem prefira a clareza da Margarida Rebelo Pinto e seus sucedâneos, isso sim leitores expressivos e nao limitados, mas a mim nao me enchem as medidas. Nao é por comer no Burger King que considero os seus hamburgers melhores que os do Halifax...
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Re: Dezembro 2011 / António Lobo Antunes

Postby urukai » 24 Feb 2012 12:54

Ok Bugman,

tens razão mas depois faz confusão quando em todas as entrevistas do ALA ele diz que o seu objectivo é narrar bem uma história como os Americanos fazem.

Já o disse aqui e volto a dizer, ele é um péssimo narrador de histórias. Admito que possa descrever exemplarmente e de forma original os sentimentos e relaçoes dos personagens, pode ter uma abordagem tb aliciante à cronologia das histórias mas ele não é um bom contador de histórias porque a história em si perde para o formato e para o conteúdo emocional da coisa.

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Re: Dezembro 2011 / António Lobo Antunes

Postby Bugman » 24 Feb 2012 13:24

urukai wrote:Ok Bugman,

tens razão mas depois faz confusão quando em todas as entrevistas do ALA ele diz que o seu objectivo é narrar bem uma história como os Americanos fazem.

Já o disse aqui e volto a dizer, ele é um péssimo narrador de histórias. Admito que possa descrever exemplarmente e de forma original os sentimentos e relaçoes dos personagens, pode ter uma abordagem tb aliciante à cronologia das histórias mas ele não é um bom contador de histórias porque a história em si perde para o formato e para o conteúdo emocional da coisa.


Mas vai uma grande distância entre dizer-se que ele nao é um contador de histórias e que ele nao se faz entender, que ele nao se expressa, que ele escreve mal ou que ele é limitado.

De resto, tudo depende do que se entende por uma "história" ou o modo como esta narraçao decorre. Podemos no entanto concordar, sem grande dificuldade, que ele se afasta do American Way of Telling... Que se afasta tanto que nem dá para comparar!
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Re: Dezembro 2011 / António Lobo Antunes

Postby urukai » 24 Feb 2012 13:42

Mas segundo as 15 entrevistas entre 70 e 86 ele tenta mimetizar esse story-telling... :blink:

E já estamos a falar de livros como As Naus e os Cus de Judas. :)

Agora que ele escreve bem isso escreve, mas não é um autor para a cultura e compreensão médias em Portugal.
Sinceramente não sei como teve tanto sucesso em Portugal mas presumo que muitos dos que o compraram não o leram... :angel:

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Re: Dezembro 2011 / António Lobo Antunes

Postby Bugman » 24 Feb 2012 16:25

urukai wrote: Agora que ele escreve bem isso escreve, mas não é um autor para a cultura e compreensão médias em Portugal.
Sinceramente não sei como teve tanto sucesso em Portugal mas presumo que muitos dos que o compraram não o leram... :angel:


Em relaçao ao destacado: Hell Yeah! :P

Pá, está bem, eu sei que somos um país de analfabetos funcionais e até acredito que muitos papem livros como eu papo gomas, mas passo a vida a esquecer-me disso... :mrgreen:
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Re: Dezembro 2011 / António Lobo Antunes

Postby croquete » 24 Feb 2012 17:43

Bugman wrote:Isto começa a tornar-se monótono e ainda nao percebi muito bem se nao estás a mangar comigo...


Um bocadinho. Mas tu também estás a provocar. ^_^
Não tenho qualquer problema em admitir que pode ser falta de cultura minha e que é problema meu se compreendo as complicações do ALA como desnecessárias.
Também já o disse que tal como existem leitores que preferem ler apenas o que é simples por preguiça também existem outros que parecem julgar que sobem a patamares superiores intelectuais porque julgam compreender a idiossincrasias de um misantropo qualquer.

Podes preferir um quadro por analogia:
A diferença entre um remédio um veneno está na dose. Correcto?
Um poema poderia ser o remédio aceitável, os textos que já li do ALA são uma palete de comprimidos tomadas de uma só vez.(E multidimensional pelos vistos...)
:cheers:

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Re: Dezembro 2011 / António Lobo Antunes

Postby Samwise » 24 Feb 2012 18:01

croquete wrote:
Bugman wrote:Isto começa a tornar-se monótono e ainda nao percebi muito bem se nao estás a mangar comigo...


Um bocadinho. Mas tu também estás a provocar. ^_^


:mrgreen: :bow:

Não tenho qualquer problema em admitir que pode ser falta de cultura minha e que é problema meu se compreendo as complicações do ALA como desnecessárias.
Também já o disse que tal como existem leitores que preferem ler apenas o que é simples por preguiça também existem outros que parecem julgar que sobem a patamares superiores intelectuais porque julgam compreender a idiossincrasias de um misantropo qualquer.
Podes preferir um quadro por analogia:
A diferença entre um remédio e um veneno está na dose. Correcto?
Um poema poderia ser o remédio aceitável, os textos que já li do ALA são uma palete de comprimidos tomadas de uma só vez.(E multidimensional pelos vistos...)
:cheers:


A isto tudo chama-se "camada estilística". Por outras palavras, a visão artística do autor. Não creio que seja apenas uma questão de cultura (embora também passe por aí), mas também de distânciamento (ou não) que há entre o modo como o autor pretende exprimir o que sente, e aquilo que o leitor está disposto a aceitar enquanto dimensões imaginárias da realidade. Se o que se pretende é uma história bem narrada, de preferência que entretenha, então não se procure o ALA...
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Re: Dezembro 2011 / António Lobo Antunes

Postby Bugman » 21 May 2012 14:23

Não entres tão depressa nessa noite escura

Seis meses depois terminei a obra, só que a obra nunca termina. Qual orgia de palavras, um desfile de letras, um caos de personagens perdidas
(seremos ricos? seremos pobres? de quem serão as camionetas e a quinta de Tomar?)
esta obra deixa os apreciadores do autor tontos, obriga-os a voltar atrás, obriga-os a parar, obriga-os a pensar
(quem faz isso nos dias de hoje?)
obriga-os a saírem
mete-os na pele das personagens
(as dores delas são as dores do leitor, quando elas choram é o leitor que se entristece, quando elas se revoltam, é o estômago do leitor que se contorce, quando um saco com o cadáver de um lá dentro, é o leitor que fica com as entranhas revoltas)
leva-os a serem os ricos, a serem os pobres, a filha do contrabandista
que estava doente
não, estava com a amante,
não é contrabandista
o bastardo
a criança ao colo da Adelaide
a Maria Clara que é o homem da casa
já não cheira a pobre
não sou Clarinha, não sou Maria Clara, sou Clara, a mãe das minhas filhas, não mais o homem da casa.

Sou uma obra que nunca termina, é certo, sou uma obra que podia ser tu, podia ser o teu vizinho, podia ser o que nunca foi, mas olha para o lado quando esperas para entrar nos Cuidados Inten ivos para ver o teu pai, o teu avô, o cão decepado dos pescadores de armas para os pretos, e vês que estou ali ao teu lado

-Olá

sentada à tua espera, a escrever no meu diário essa crónica do que fomos
ou será que nunca o fomos?
aquilo que gostarímos de ser
-Menina...

E no fim não saber se fui mesmo eu quem o escreveu, terei sido eu quem o leu? O que se retira? Que noite é essa?

A pobreza,
A morte,
A vida que nunca foi,

Tantas, tantas noites...


Se leram até aqui, merecem alguma da clareza que é negada ao leitor. Merecem a clareza de quem não quer, não tem tempo para ler os parágrafos duas, três vezes, parar, beber uma cerveja gelada e pensar neles. Gostei do livro. É uma obra que cansa fisicamente, que nos obriga a tornar atrás, reler. Ler outra e outra e outra vez. E no final, quando percebemos, desfazer essa ideia idiota que tinhamos de uma famíilia do Estoril. Existiram? Nunca o foram?

E voltamos atrás para :bbde: outra vez!
Last edited by Bugman on 21 May 2012 22:16, edited 1 time in total.
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Re: Dezembro 2011 / António Lobo Antunes

Postby Sharky » 21 May 2012 19:01

Ando cá com uma vontadinha de ler o Nº 4 " Explicação do Pássaros ". É que já li os anteriores :rolleyes:

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Re: Dezembro 2011 / António Lobo Antunes

Postby Samwise » 24 May 2012 11:14

Bugman wrote: Se leram até aqui, merecem alguma da clareza que é negada ao leitor. Merecem a clareza de quem não quer, não tem tempo para ler os parágrafos duas, três vezes, parar, beber uma cerveja gelada e pensar neles. Gostei do livro. É uma obra que cansa fisicamente, que nos obriga a tornar atrás, reler. Ler outra e outra e outra vez. E no final, quando percebemos, desfazer essa ideia idiota que tinhamos de uma famíilia do Estoril. Existiram? Nunca o foram?


:tu:

O ALA é mesmo para ler com tempo, e, mais do que isso, com atenção constante. E sim, cansa fisicamente - já passei por essa "dor" algumas vezes.

Sharky wrote:Ando cá com uma vontadinha de ler o Nº 4 " Explicação do Pássaros ". É que já li os anteriores :rolleyes:


Tens, ou queres um empréstimo? ;)
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Re: Dezembro 2011 / António Lobo Antunes

Postby Sharky » 24 May 2012 13:32

Samwise wrote:
Sharky wrote:Ando cá com uma vontadinha de ler o Nº 4 " Explicação do Pássaros ". É que já li os anteriores :rolleyes:

Tens, ou queres um empréstimo? ;)


Tenho os primeiros sete B)


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