Dezembro 2011 / António Lobo Antunes

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Re: Dezembro 2011 / António Lobo Antunes

Postby Bugman » 04 Dec 2011 22:23

Acho que se prende mais com um variante da primeira razão. O que se me deparava é que para além da riqueza da prosa, havia a forma como ele compunha as ideias, com as alternâncias quase cinematográficas, e isso fazia com que "eh pá, tenho de passar agora este trecho seguinte para contextualizar". Ou não?
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Re: Dezembro 2011 / António Lobo Antunes

Postby Samwise » 05 Dec 2011 12:02

Pedro Farinha wrote:Sim, e com Lobo Antunes é frequente por duas razões. Primeiro porque os parágrafos são extensos e colam-se uns aos outros parecendo sempre que mais uma frase ajuda, ainda mais, a compor o extracto de prosa. Depois... porque ele escreve tão bem que dá vontade de cita-lo todo.


Sim também daqui ( ;) ) - e é algo que me acontece frequentemente com o Saramago. Com outros autores não tenho verificado um grau tão elevado de "deslumbramento constante" pelo uso das palavras e noto que só num ou outro local sinto a vontade de "registar" excertos.
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Re: Dezembro 2011 / António Lobo Antunes

Postby Pedro Farinha » 10 Dec 2011 00:54

Acabei de ler A morte de Carlos Gardel, podem ver os meus comentários aqui: http://www.bbde.org/viewtopic.php?f=159&t=6314&p=118125#p118125

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Re: Dezembro 2011 / António Lobo Antunes

Postby grayfox » 31 Dec 2011 10:59

Eu não passei do segundo capitulo d'Os Cus de Judas, simplesmente não tenho paciencia para aquilo nesta altura. Daqui a uns anos pego-lhe de novo.
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Re: Dezembro 2011 / António Lobo Antunes

Postby Bugman » 01 Jan 2012 13:37

Fiquei ainda longe do meio do Não entres tão depressa nessa noite escura. Gostava de dizer que se deveu exclusivamente às leituras paralelas que foram surgindo (The Gathering Storm, The Hobbit, O Pauzinho do Matrimónio, reler a colectânea Frenzy), mas a verdade é que a escrita do ALA é particularmente densa nesta obra e obriga a reler blocos de capítulos. No caso, tenho relido de três em três capítulos sensivelmente.

No entanto a releitura não ocorre por um tipo de escrita maçuda. Gostava muito de poder dizê-lo, mas a verdade é que, uma vez que penetramos no livro, a escrita revela-se simples, despretenciosa, mas incidindo sobre demasiadas camadas luminosas. Sim, é verdade, luminosas! O tradicional obscurantismo de ALA, apesar de patente aqui e ali, não lança o manto escuro sobre (o que li d') esta obra, tornando possível uma leitura deste livro num ambiente claro, luminoso, com pássaros a chilrear nas árvores.
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Re: Dezembro 2011 / António Lobo Antunes

Postby Pedro Farinha » 01 Jan 2012 18:49

Ainda que nem todos tenham aderido e que dos que aderiram nem todos tenham terminado os seus livros, a verdade é que acho que foi uma boa iniciativa, houve várias pessoas que "descobriram" Lobo Antunes e pudemos trocar algumas impressões sobre a sua obra. :tu:

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Re: Dezembro 2011 / António Lobo Antunes

Postby pageHunter » 01 Jan 2012 19:04

Pedro Farinha wrote:Ainda que nem todos tenham aderido e que dos que aderiram nem todos tenham terminado os seus livros, a verdade é que acho que foi uma boa iniciativa, houve várias pessoas que "descobriram" Lobo Antunes e pudemos trocar algumas impressões sobre a sua obra. :tu:

Eu fui um dos que o descobriu. Ainda pretendo ler outro livro do autor em breve, o Memória de Elefante. Acho que embora tenha passado o mês do autor, a discussão pode e deve continuar :)
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Re: Dezembro 2011 / António Lobo Antunes

Postby grayfox » 01 Jan 2012 20:48

eu tentei ler Os Cus de Judas mas simplesmente não funcionou. chegava constantemente ao fim de uma página aperecebendo-me que tinha passado os olhos pelo que lá dizia enquanto pensava noutras coisas. ou seja, a minha mente começava a divagar quando o ALA o fazia, o que é quase sempre.
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Re: Dezembro 2011 / António Lobo Antunes

Postby Bugman » 02 Jan 2012 01:06

Discordo da ideia de que o ALA divague. Pode ocorrer na obra em questão, é certo, mas penso que aquilo que se assemelha a divagar não o é.

Para ser divagar teria de se afastar do assunto que versa. Normalmente ele muda de ponto de vista.

Será divagar ir introduzindo desenredando o novelo?
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Re: Dezembro 2011 / António Lobo Antunes

Postby grayfox » 02 Jan 2012 10:57

se calhar não divaga, mas como não encontro o ponto comum entre as linhas de pensamento, parece-me que o faz.
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Re: Dezembro 2011 / António Lobo Antunes

Postby Bugman » 23 Feb 2012 15:31

croquete wrote:
Bugman wrote:nada ali soa a falso e colado para parecer provinciano


Sim, também concordo. Mas tem uma escrita muito mais bonita que o ALA.
O ALA castiga o leitor como que a perguntar " Então gostas de ler ? Então toma lá disto."


Discordo plenamente que a escrita do ALA seja uma escrita castigadora. O que encontro em ALA é uma rara capacidade de nos transportar bem para o meio das emoçoes que as personagens sentem. O que a escrita de ALA tem, que raramente se encontra, é o transformar o leitor em personagem; ali nao estás a conhecer uma pessoa, nao estás a ler o relato, estás lá dentro, estás a viver o que se passa. Isso é raro. Uma narrativa do ALA torna-se densa por te transportar, de forma quase literal, de uma personagem para outra, até que no final estás fisicamente esgotado. É toda uma dimensao à parte! ;)

Para o seu tempo, Júlio Dinis terá uma escrita nova, mais simples, mais terra-a-terra. Lembremo-nos que o país literário (e estavam longe de ser todos quem ia à escola...) estava habituado aos amores exagerados de Simoes e Teresas e companhia (i)limitada... Júlio Dinis é simples, acessível e fala-nos do que percebemos. Um pouco como Torga...
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Re: Dezembro 2011 / António Lobo Antunes

Postby croquete » 23 Feb 2012 15:56

A ideia que tenho deste autor é a de que compraz-se em tornar-se complicado.
Parece que tomou como modelo o livro " As alucinações de um drogado".
E não acho que o facto de ser complicado seja uma qualidade nem que a acessibilidade seja um defeito. Já que os grandes escritores, para mim conseguem tornar o que é complicado em algo aparentemente simples.

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Re: Dezembro 2011 / António Lobo Antunes

Postby Bugman » 23 Feb 2012 16:20

O problema fundamental da escrita em ALA é que está algures entre a prosa e a poesia. Uma obra dele, salvo raras exepçoes, deve ser encarado da mesma forma como se encara um poema: sem formalismos. Todo o texto tem uma estrutura e um rumo que as alucinaçoes do drogado nao têm. Nenhum drogado conseguia passar suavemente entre personagens como ALA faz.

A única coisa de complicada em ALA é encontrar esse ritmo de poesia para ler o poema. A questao "lobantúnica" é que a narraçao dele nao é feita e uma ou duas dimensoes, há ali quatro a funcionar em simultâneo e quando digo quatro, estou a incorporar o tempo, estou a incorporar essa dimensao do pensar no que foi, no encadear raciocínios e chegar ao agora a caminho do amanha.
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Re: Dezembro 2011 / António Lobo Antunes

Postby croquete » 23 Feb 2012 16:36

Bugman wrote:A única coisa de complicada em ALA é encontrar esse ritmo de poesia para ler o poema. A questao "lobantúnica" é que a narraçao dele nao é feita e uma ou duas dimensoes, há ali quatro a funcionar em simultâneo e quando digo quatro, estou a incorporar o tempo, estou a incorporar essa dimensao do pensar no que foi, no encadear raciocínios e chegar ao agora a caminho do amanha


Por outras palavras.Não se quer fazer entender.
É limitado.

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Re: Dezembro 2011 / António Lobo Antunes

Postby urukai » 23 Feb 2012 16:37

Mas depois o gajo diz que se inspira em Hemmingway e Fitzgerald e Faulkner.

Quanto ao último não sei mas os dois primeiros têm uma escrita simples, aliás, o Hemmingway esforçava-se para tornar os seus textos o mais simples possíves, reduzidos à sua essência básica.

Não é nada disso que vejo em Lobo Antunes.


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