Dezembro 2011 / António Lobo Antunes

Todos os meses é proposto um novo autor para leitura e discussão pelos foristas.

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Samwise
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Re: Dezembro 2011 / António Lobo Antunes

Postby Samwise » 15 Nov 2011 19:50

Bugman wrote:Lido o primeiro capítulo do Nao entres tao depressa... e o que se pode dizer é que no mínimo é desconcertante. Vou ter de reler para entrar na coisa, quando começar mesmo a ler, mas já deu para ver que nao vai ser pera doce.


Nem sequer é o teu "baptismo" como ALA... :X

O Explicação dos Pássaros lê-se muito bem. Apesar do emaranhado de tempos e narradores, a leitura é fluída e constante ao longo de grande parte do texto. Ia dizer que não nos obriga a pensar muito, mas se calhar não é boa escolha de palavras! :mrgreen: Em alternativa, digo antes que a reflexão sobre o que lemos fica para depois, sem termos de puxar por ela, e que durante a leitura o que é mais palpável e imediato é o prazer que proporciona, se é que dá para perceber. :angel:
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Re: Dezembro 2011 / António Lobo Antunes

Postby Pedro Farinha » 16 Nov 2011 00:15

Samwise wrote:Em alternativa, digo antes que a reflexão sobre o que lemos fica para depois, sem termos de puxar por ela, e que durante a leitura o que é mais palpável e imediato é o prazer que proporciona, se é que dá para perceber. :angel:


Dá. Mas apenas para quem já leu o livro.

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Re: Dezembro 2011 / António Lobo Antunes

Postby pageHunter » 16 Nov 2011 00:49

Excelente iniciativa abrir esta secção. Vou aproveitar para no início de Dezembro começar a ler o meu "Os Cus de Judas" e juntar-me à "cambada" :cheers:
Read
Mataram o Sidónio!, Francisco Moita Flores
Different Seasons, Stephen king
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Reading
Sunset Park, Paul Auster



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Re: Dezembro 2011 / António Lobo Antunes

Postby urukai » 17 Nov 2011 15:31

Comecei a "Memória de Elefante" e confirmo que encalhei na primeira página. Admito que a razão possa passar por eu não ter capacidade intelectual, literária, cultural, linguística e gramatical para ler Lobo Antunes.
A inexistência de coerência cronológica ou temporal, a utilização de termos que não consigo numa primeira ou segunda leitura contextualizar, as impossibilidades das personagens, a omnisciência de um narrador que não a deveria possuir, a aplicação complexa de pontuação, leva-me a concluir que António Lobo Antunes é um escritor que propositadamente complica a sua escrita. Há aqui uma complexidade gratuita que não me agrada, não me atrai e mais, enerva-me e perturba-me. Isto é um pouco um choque para mim pois tinha lido aqui no fórum, alguns excertos, complexos, mas extraordinariamente simples e legíveis. E esta primeira página do Memória de Elefante revelou-se apenas extraordinariamente confusa e necessitei de arrancar a ferros o pouco enredo que tem.
Vejamos alguns exemplos:

O HOSPITAL em que trabalhava era o mesmo a que muitas vezes na infância acompanhara o pai: antigo convento de relógio de junta de freguesia na fachada, pátio de plátanos oxidados, doentes de uniforme vagabundeando ao acaso tontos de calmantes, o sorriso gordo do porteiro a arrebitar os beiços para cima como se fosse voar: de tempos a tempos, metamorfoseado em cobrador, aquele Júpiter de sucessivas faces surgialhe à esquina da enfermaria de pasta de plástico no sovaco a estender um papelucho imperativo e suplicante:
- A quotazinha da Sociedade, senhor doutor.


Porquê Júpiter? Não percebo a utilização deste termo e já fui à wikipedia.

- A quotazinha da Sociedade, senhor doutor.
Puta que pariu os psiquiatras organizados em esquadra de polícia, pensava sempre ao procurar os cem escudos na complicação da carteira, puta que pariu o Grande Oriente da Psichiatria, dos etiquetadores pomposos do sofrimento, dos chonés da única sórdida forma de maluquice que consiste em vigiar e perseguir a liberdade da loucura alheia defendidos pelo Código Penal dos tratados, puta que pariu a Arte Da Catalogação Da Angústia, puta que me pariu a mim, rematava ele ao embolsar o retângulo impresso, que colaboro, pagando, com isto, em lugar de espalhar bombas nos baldes dos pensos e nas gavetas das secretárias dos médicos para fazer explodir, num cogumelo atômico triunfante, cento e vinte e cinco anos de idiotia pinamaniquesca.


Como sabe o narrador (filho) o que pai pensava?
Se rematava ele (o pai) então já estava a falar com o porteiro? Ou ainda pensava?
O que raio é o Grande Oriente da Psichiatria? Será uma alusão à Maçonaria? Pagam-se quotas na maçonaria? Porquê a comparação?

O olhar intensamente azul do porteiro cobrador, que assistia sem entender a uma marébaixa de revolta que o transcendia, embrulhavao num halo de anjo medieval apaziguante: um dos projetos secretos do médico consistia em saltar a pés juntos para dentro dos quadros de Cimabue e dissolverse nos ocres desbotados de uma época ainda não inquinada pelas mesas de fórmica e pelas pagelas da Sãozinha: lançar mergulhos rasantes de perdiz, mascarado de serafim nédio, pelos joelhos de virgens estranhamente idênticas às mulheres de Delvaux, manequins de espanto nu em gares que ninguém habita. Um resto agonizante de fúria veio girarlhe ao ralo da boca:
- Senhor Morgado, pela saúde dos seus e meus tomates não me lixe mais com o caralho das quotas durante um ano e diga à Sociedade de Neurologia e Psiquiatria e amanuenses do cerebelo afins que metam o meu dinheiro enroladinho e vaselinado no sítio que eles sabem, obrigadíssimos e tenho dito ámen.


Porquê aqueles dois pontos a seguir a "apaziguante" e qual a relação da frase que se segue com o que era dito antes? Ou com o que é dito depois? Esta frase parece-me totalmente desconexa e não a entendo.

O porteiro cobrador escutava-o respeitosamente (este gajo deve ter sido na tropa o pide favorito do sargento, descobriu o médico) reinventando as leis de Mendel à medida do seu intelecto de dois quartos com serventia de cozinha:
- Topase logo que o senhor doutor é filho do senhor doutor: uma ocasião o paizinho amandou o fiscal fora do laboratório pelas orelhas.


O que é um intelecto de dois quartos com serventia de cozinha? Se for um cérebro de 2/4 é metade de um cérebro mas se quartos forem divisões (conforme parece indicar a presença de uma cozinha) então é uma casa normal e não percebo a crítica à inteligência.
De repente o porteiro já fala com o filho? e que são aqueles dois pontos depois da fala do porteiro. Que laboratório? Que fiscal? Qual a ligação disto tudo? :pissed:

Enfim, vou ler mais umas páginas mas se isto continuar assim irei desistir e concluir o porquê do Saramago ter um Prémio Nobel e o Lobo Antunes não. Por esta amostra ele não é um bom contador de histórias. Não enriquece os livros que escreve. Ele limita-se a construir um edíficio disconexo, cheio de salas e mais salas, encavalitadas, bonitas (concedo) mas sem entradas ou saídas e onde não se pode morar.
Há-de haver quem goste mas não contem comigo. Sei que é redutor o que estou a dizer, até porque li uma única página, mas também me disseram que este é o mais fácil dele.

croquete
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Re: Dezembro 2011 / António Lobo Antunes

Postby croquete » 17 Nov 2011 15:52

:rotfl:

Tzimbi
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Re: Dezembro 2011 / António Lobo Antunes

Postby Tzimbi » 17 Nov 2011 16:14

urukai wrote:Enfim, vou ler mais umas páginas mas se isto continuar assim irei desistir e concluir o porquê do Saramago ter um Prémio Nobel e o Lobo Antunes não. Por esta amostra ele não é um bom contador de histórias. Não enriquece os livros que escreve. Ele limita-se a construir um edíficio disconexo, cheio de salas e mais salas, encavalitadas, bonitas (concedo) mas sem entradas ou saídas e onde não se pode morar.
Há-de haver quem goste mas não contem comigo. Sei que é redutor o que estou a dizer, até porque li uma única página, mas também me disseram que este é o mais fácil dele.


urukai, não concordo mesmo nada contigo na parte onde dizes que ele "não enriquece os livros que escreve". Se os livros dele pecam por algo, é por serem demasiado ricos, a todos os níveis. Percebo essa tua ideia do "edifício disconexo", também tive essa sensação quando li o meu primeiro livro dele, mas todas as salas têm portas comunicantes, talvez fechadas à chave, é certo, mas só precisas de encontrar a chave para abrires essas portas.
ALA não é um autor fácil, é a chamada leitura exigente, desde a forma (sintaxe, vocabulário) até ao conteúdo (normalmente não há uma linha narrativa direitinha, tens saltos no tempo, saltos de perspectivas).

Quanto às tuas dúvidas em relação ao próprio texto, acho que se pensares um pouco consegues percebê-las. ;) Então, achas que a expressão "intelecto de dois quartos com serventia de cozinha" significa intelecto normal? Nem eu acredito que tu pensas isso... Não "ouves" a ironia na voz do narrador? :P

Mas se isso te consolar alguma coisa, depois de ter lido o Eu hei-de amar uma pedra, quase jurei que não voltaria a ler o ALA. Nunca ninguém me tinha feito sentir tão estúpida como ele, cheguei à página 200 (+/-) e nem percebia quem estava a falar. <_< Só me reconciliei com ele (ele, autor) quando li a Memória de Elefante.

S.

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Re: Dezembro 2011 / António Lobo Antunes

Postby urukai » 17 Nov 2011 16:31

Nesta altura da minha vida não tenho cultura, disponibilidade mental e outras (quiçá inteligência) para leituras demasiado exigentes.

Como disse vou dar-lhe mais uma hipótese mas desta primeira página não tenho uma única frase que diga: Porra, que frase magnifica, tem sentido, é bonita, tem ritmo, e cria uma imagem gloriosa na minha cabeça!
Há frases bonitas mas sem sentido. Há frases ritmadas mas não bonitas. Há imagens gloriosas na minha cabeça mas não provieram de frases ritmadas.

Quanto ao enriquecer, ok admito que o texto é estupidamente rico. Esta frase por exemplo:

um dos projetos secretos do médico consistia em saltar a pés juntos para dentro dos quadros de Cimabue e dissolverse nos ocres desbotados de uma época ainda não inquinada pelas mesas de fórmica e pelas pagelas da Sãozinha: lançar mergulhos rasantes de perdiz, mascarado de serafim nédio, pelos joelhos de virgens estranhamente idênticas às mulheres de Delvaux, manequins de espanto nu em gares que ninguém habita.


Mas é uma riqueza sem propósito como um homem que está no meio do deserto com um euromilhões premiado com 200 milhões de Euros. Tanto dinheiro e tudo o que ele queria era um copo de água... :bash-combo:

Como disse, há quem goste, eu não. Para mim as coisas têm de fazer sentido e ser claras. Saramago é complexo, faz frases longas e sinuosas mas tem sentido, tem purpose, tem objectivos.
António Lobo Antunes escreve esta frase para justificar/emoldurar a recusa de um médico em pagar quotas:

um dos projetos secretos do médico consistia em saltar a pés juntos para dentro dos quadros de Cimabue e dissolverse nos ocres desbotados de uma época ainda não inquinada pelas mesas de fórmica e pelas pagelas da Sãozinha: lançar mergulhos rasantes de perdiz, mascarado de serafim nédio, pelos joelhos de virgens estranhamente idênticas às mulheres de Delvaux, manequins de espanto nu em gares que ninguém habita.


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Re: Dezembro 2011 / António Lobo Antunes

Postby Tzimbi » 17 Nov 2011 16:58

urukai wrote:Mas é uma riqueza sem propósito como um homem que está no meio do deserto com um euromilhões premiado com 200 milhões de Euros. Tanto dinheiro e tudo o que ele queria era um copo de água... :bash-combo:


:D :D :D
Confessa aqui perante todos, urukai, tu tens um problema com o jogo, não tens??

Lê o Golding e esquece o ALA. E (parecem pragas estes "e" :mrgreen: ) de caminho, evita Faulkner, Joyce, Proust, Woolf, e mais uns tantos. Se não gostares do Golding, aí sim, dou-te como perdido para sempre.

:hug:
S.

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Re: Dezembro 2011 / António Lobo Antunes

Postby urukai » 17 Nov 2011 17:34

Estou a ler Golding em inglês e pensei que fosse mais fácil.

Mas pelas 5 páginas que li vê-se que temos ali Escritor. Tem aquela temporização própria de quem sabe o que escreve e não precisa de jogar os trunfos todos da primeira vez. Ao longo das primeiras páginas apenas temos como descrição da primeira personagem "Fair Boy". Só na quinta página é que ele descreve mais a criança com um docinho de um frase que junta sombras de palmeira a deslizar num corpo nu... :bow:

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Re: Dezembro 2011 / António Lobo Antunes

Postby Samwise » 17 Nov 2011 17:57

urukai wrote:Comecei a "Memória de Elefante" e confirmo que encalhei na primeira página. Admito que a razão possa passar por eu não ter capacidade intelectual, literária, cultural, linguística e gramatical para ler Lobo Antunes.


Isto não passa de bullshit, urukai, talvez de bullshit segregada inconscientemente pelas glandes recônditas dos centros de decisão que governam a tua vontade, para te convenceres a ti próprio a desistir de uma leitura que à primeira vista/página ( :mrgreen: ) te deixou perplexo, baralhado e irritado. Até podes não ter bases culturais para apanhar todas as referências e ligações que o ALA vai buscar (será que alguém tem?), mas não é isso que te vai impedir de ler este livro, ou é?

Quanto ao resto, revejo-me um pouco naquilo que dizes (e naquilo que a Tzimbi diz) sobre o choque da primeira experiência com o ALA. Passei por momentos em que só me apetecia enfiar o livro (Eu Hei-de Amar uma Pedra) na lareira, cheguei a ter visões dessa hipótese nos momentos de maior "aflição", na batalha que estava a perder contra aquele "atentado à escrita", e a sorrir de satisfação ao imaginar o livro aberto em triângulo, de cabeça para baixo sobre as labaredas, as folhas a tornarem-se incandescentes, e depois negras, e as fagulhas a saírem disparadas pelo cano acima para se perderam no espaço sideral (ou nos pinheiros do quintal do vizinho).

Depois, passou. De um momento para o outro, sem que tenha tido uma noção consciente do como ou porquê, passou. E o "passou" não tem aqui o significado que normalmente lhe costumamos atribuir - não foi um "passar" de esquecer um acontecimento, de deixar de lhe atribuir importância - , foi antes um "passar" de "mutação", de "inversão", de "renascimento", como se uma Fénix tivesse então furiosamente surgido no local da minha memória onde antes havia aquela fabricação fictícia das cinzas do livro. Como diz o ALA, nessa altura "apanhei a doença da sua escrita".

O Memória de Elefante também não foi fácil para mim, apesar de bastante diferente e mais simples no "português" (sim, sim) do que o outro. Mas a "batalha" compensa. Aquilo que vais ganhar com a insistência, se tiveres força e paciência para tal, compensa largamente o esforço e a frustração do primeiros momentos. O que está em perspectiva não é apenas gostares ou não gostares de um livro: é ganhares um autor para vida.

A inexistência de coerência cronológica ou temporal, a utilização de termos que não consigo numa primeira ou segunda leitura contextualizar, as impossibilidades das personagens, a omnisciência de um narrador que não a deveria possuir, a aplicação complexa de pontuação, leva-me a concluir que António Lobo Antunes é um escritor que propositadamente complica a sua escrita. Há aqui uma complexidade gratuita que não me agrada, não me atrai e mais, enerva-me e perturba-me.


É verdade e falta acrescentar outras coisas, como a adjectivação excessiva e a utilização de figuras de estilo à laia das bombas alemãs durante o Blitz de Londres: nem sabes de onde vêm tantas em tão pouco espaço utilizável. A "complicação" é propositada, mas não é gratuita - é tudo calculado com um propósito específico.

Não esperes que o tom mude lá mais para a frente, porque vai ser assim até ao final do livro - o estilo dele representa um sufoco constante para o leitor, apoiado nos excessos possíveis do uso das palavras.

Mas como te disse, o esforço compensa.
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Re: Dezembro 2011 / António Lobo Antunes

Postby urukai » 17 Nov 2011 18:17

Eu já disse que vou insistir e dar-lhe mais uma hipótese...
Escritores mais reconhecidos (e clássicos) que ele não conseguiram estar à altura desta segunda hipótese.
Vamos ver como se safa o ALA! :twisted:

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Re: Dezembro 2011 / António Lobo Antunes

Postby Samwise » 17 Nov 2011 18:21

urukai wrote:Eu já disse que vou insistir e dar-lhe mais uma hipótese...
Escritores mais reconhecidos (e clássicos) que ele não conseguiram estar à altura desta segunda hipótese.
Vamos ver como se safa o ALA! :twisted:


Desde que "mais uma hipótese" não seja expressão equivalente a "mais uma página", por mim está tudo bem. :devil:
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Re: Dezembro 2011 / António Lobo Antunes

Postby urukai » 17 Nov 2011 18:30

Vai ser mais do que uma página certamente. Esta leitura da primeira página foi no intervalo de almoço de um movimentado centro comercial.

Mas hei-de sublinhar tudo o que me parecer inconsequente ou incongruente. E depois venho aqui comentar. E mais, vcs todos escrevem frases:

Estou a ler a explicação dos pássaros.

Estou a acabar os Cus de Judas


Estou a gostar dos Cavalos que fazem sombra ao mar.


Como se comentassem o tempo que faz lá fora. Para isso mais vale não dizerem nada que me afectam o sistema endócrino. :catfight: :catfight: :catfight: :pissed: :pissed: :pissed: :pissed: :catfight: :catfight: :catfight: :see_stars: :see_stars: :see_stars: :see_stars: :deadhorse: :deadhorse: :deadhorse:

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Re: Dezembro 2011 / António Lobo Antunes

Postby Samwise » 17 Nov 2011 19:20

urukai wrote:Porquê Júpiter? Não percebo a utilização deste termo e já fui à wikipedia.


Pela minha leitura, Júpiter, o Deus Romano, que gostava de se disfarçar de humano.

Como sabe o narrador (filho) o que pai pensava?


Aqui só há um narrador, que é o filho. Não interessa se ele sabia ou não o que o pai pensava, interessa a memória que ele tem acerca do assunto e jogo de imaginação que se forma a partir daí.

Se rematava ele (o pai) então já estava a falar com o porteiro? Ou ainda pensava?


A frase de diálogo que surge é do porteiro/cobrador de quotas e está a falar para o filho.

O que raio é o Grande Oriente da Psichiatria? Será uma alusão à Maçonaria? Pagam-se quotas na maçonaria? Porquê a comparação?


Será uma alusão irónica à Sociedade de Neurologia Psiquiatria, e ao seu poder e abrangência sobre os inscritos, a mesma de que faz parte o médico para poder exercer a profissão, e de que também faz parte o porteiro/cobrador de quotas.

Porquê aqueles dois pontos a seguir a "apaziguante" e qual a relação da frase que se segue com o que era dito antes? Ou com o que é dito depois? Esta frase parece-me totalmente desconexa e não a entendo.


Em relação aos "dois pontos", estou solidário contigo: há locais onde parecem estar a ser utilizados de forma "suspeita", aparentemente sem nenhum propósito. Por acaso lembro-me de também ter estranhado esta situação quando peguei no livro. É só aqui no início que sucede, se bem me recordo.

De repente o porteiro já fala com o filho? e que são aqueles dois pontos depois da fala do porteiro. Que laboratório? Que fiscal? Qual a ligação disto tudo?


Sempre falou para o filho neste texto. O "fiscal" e o "laboratório" são referências a uma situação que terá acontecido no passado, com o pai, e de que o porteiro/cobrador de quotas se recorda. A ligação disto tudo é apenas o fluxo de memória do filho, que é o "narrador".
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Re: Dezembro 2011 / António Lobo Antunes

Postby Thanatos » 17 Nov 2011 20:00

Se me permites urukai: há tempos queixavas-te de que achavas algunas autores (David Soares, Dan Simmons) demasiado certinhos e clínicos na escrita faltando-lhes espontaneidade. Se queres que te diga também penso o mesmo da tua leitura. Nota que isto é uma apreciação derivada daquilo que te vejo escrever mas de facto a ideia que se forma no meu cérebro é que não lês descontraído mas com um bloco-notas e lápis ao lado e marcas páginas, sublinhas, escreves nas margens, vais ao dicionário, consultas a Britannica, etc, tudo apenas para tentar compreender uma frase. Para, por assim dizer, quereres penetrar no espírito do escritor. Digo-te já que que raras vezes conseguirás tal coisa. Cada indivíduo tráz à leitura um conjunto de experiências que distorcem, amplificam ou iludem todo e qualquer modo de leitura interpretativa absolutista.

E é nestas alturas que me lembro das imortais palavras de Aquilino Ribeiro que por a memória me falhar não cito mas antes apresento a sua essência: escrevia o grande escritor a propósito do seu conhecido uso e abuso de regionalismos que quando uma parede está bem arquitectada não é a falta dum tijolo aqui ou acolá que a fará ruir.

Entendes? ;)
Não importa como, não importa quando, não importa onde, a culpa será sempre do T!

-- um membro qualquer do BBdE!


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