Onde está o ALA?

Todos os meses é proposto um novo autor para leitura e discussão pelos foristas.

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Pedro Farinha
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Onde está o ALA?

Postby Pedro Farinha » 08 Dec 2011 22:20

Excerto 1
Nessa noite ele estava simultaneamente excitado e nostálgico. Uma estranha mistura de estilos sentimentais, pensava Theodor, com um certo gozo.
A janela tornava-se, naquele momento, a intermediária da contradição. Uma forte energia puxava, por um lado, Theodor para fora da janela, e dava-lhe ordem para descer as escadas e para rapidamente procurar companhia. Procura pêlos púbicos, Theodor, uma compensação púbica, murmurava ele com um sorriso perverso. O mundo tem a obrigação de me compensar pelos dias maus.


Excerto 2
Com a grande chave, Domingos Mau-Tempo abriu a porta. Para entrar, tiveram de curvar-se, isto não é nenhum palácio de altos portões. A casa não tinha janela. À esquerda era a chaminé, de lareira rente ao chão. Domingos Mau-Tempo petiscou lume, soprou um punhado de palha e pôs-se a girar o fugaz archote para que a mulher visse a nova habitação. Havia lenha ao canto da chaminé. Isso bastava. Em poucos minutos, a mulher deitou o filho a um canto, juntou gravetos e achas, e o lume estalou, abriu-se sobre a parede de cal. A casa então ficou habitada.


Excerto 3
- O que desejam os senhores?
Não pelos lábios, pela maçã de adão visto que a apertar o guiador de lábios selados, escancararam-se no momento em que a mira de uma pistola do exército lhe rasgou a bochecha e a quantidade de dentes meus irmãos que o pavor traz consigo, caninos, pré-molares, molares e uma porção deles sem nome que ignorávamos existirem, o pinoca quis tirar o lenço da algibeira mas filaram-lhe o cotovelo
- Não somos senhores somos pretos


Excerto 4
Prepara-se para começar o dia. Pousou na cadeira húmida o jornal dobrado – é o da véspera, alastram borrões em negruras de Rorschach, logo secarão – e vê de observar, vista rasante, a superfície da piscina, procurando captar aquela película liminar, com tendência a franzir em minúsculos arrepios e que dá apoio a umas bichezas rebarbativas, chamadas pelo povo “alfaiates”, e que são sempre sinal de águas deficientemente tratadas… Fere a massa líquida o sol de través, confirmam-se refracções e paralaxes, reflectem-se no fundo, entre estrias simétricas, uns borbotos escuros, concêntricos, moventes a uma mínima aragem.


Quatro excertos de quatro livros de outros tantos autores portugueses. Excertos tirados de forma aleatória, isto é, não escolhidos. Será que agora que decorre o mês Lobo Antunes no BBdE todos conseguem identificar o seu estilo. E já agora, alguém consegue identificar os outros ?

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Re: Onde está o ALA?

Postby pageHunter » 08 Dec 2011 22:27

Penso que o estilo dos dois últimos excertos é bastante "compatível" com o livro que li do ALA. Voto no 4º!
Read
Mataram o Sidónio!, Francisco Moita Flores
Different Seasons, Stephen king
The Great Gatsby, F. Scott Fitzgerald

Reading
Sunset Park, Paul Auster



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Re: Onde está o ALA?

Postby João Arctico » 08 Dec 2011 23:36

Está lá a "assinatura": é o nº 3.
"É isto o que, de todo em todo, pretendia o autor? Não sei; é a opinião do leitor que eu dou." Jean-Paul Sartre
"Mas mesmo aquilo que a gente não se lembra de ter visto um dia, talvez se possa ver depois de algum viés da lembrança" Chico Buarque in Estorvo

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Re: Onde está o ALA?

Postby Tzimbi » 09 Dec 2011 00:29

O nº 2 é Saramago, mas também não era difícil, com o nome Domingos Mau-Tempo...

S.

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Re: Onde está o ALA?

Postby Samwise » 09 Dec 2011 02:46

2º Saramago, 3º Lobo Antunes

Os outros arrisco... 1º Gonçalo M. Tavares; 4º João Tordo (é completamente ao calhas, este último :P )
Guido: "A felicidade consiste em conseguir dizer a verdade sem magoar ninguém." -

Nemo vir est qui mundum non reddat meliorem?

My taste is only personal, but it's all I have. - Roger Ebert

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Re: Onde está o ALA?

Postby Arsénio Mata » 09 Dec 2011 04:13

Ao fim de meio livro do ALA, aquele 3º excerto não engana ninguém. :)

E como a Tzimbi diz, um homem chamado Domingos Mau-Tempo só podia ser "filho" do Saramago.
Only in the bloodline is this terror exposed
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Exactly what you've worked for.

A price for the pride
I can feel the distance coming
The holes in my lungs
Won't let me take this anymore.

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Re: Onde está o ALA?

Postby Bugman » 09 Dec 2011 10:34

Excerto 3.

O 4 nao é Cardoso Pires?
A PENA online | O Bug Cultural

Normalcy was a majority concept, the standard of many and not the standard of just one man. Robert Neville
O homem que obedece a Deus, não precisa de outra autoridade. Petr Chelčický
Ao mesmo tempo que ali estava tudo igual, não estava você lá, não está teu passado, não está nada. Quer dizer: só você sabe que esteve ali. A parede, os prédios, não guardam a gente. Nós só nos guardamos a nós mesmos. Só valemos nós connosco. Fora daí é literatura, é poesia, é arte. Ferreira Gullar
Yes, I am a woman of the law. And there are lots of laws. But if they don't offer us justice, then they aren't laws! They are just lines drawn in the sand by men who would stand on your back for power and glory. Sartana
"No, Señoría, no es lo mismo estar dormido que estar durmiendo, porque no es lo mismo estar jodido que estar jodiendo". Camilo Jose Cela

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Re: Onde está o ALA?

Postby Samwise » 09 Dec 2011 12:40

Bugman wrote:O 4 nao é Cardoso Pires?


Também podia ser - do CP do Delfim... :tu:
Guido: "A felicidade consiste em conseguir dizer a verdade sem magoar ninguém." -

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Re: Onde está o ALA?

Postby Tzimbi » 09 Dec 2011 14:28

Samwise wrote:Também podia ser - do CP do Delfim... :tu:


Podia ser, mas não é. :P Também não adivinharia o 4ª, até porque nem acho que a passagem seja muito típica do autor em questão, ou seja, podia ser de quase qualquer autor que vocês mencionaram.
Dos excertos colocados pelo Pedro, só um tem mesmo "assinatura" e parece-me ser o do ALA. No caso do Saramago, se tirarmos o nome, também se torna difícil identificar, na minha modesta opinião.

S.
Last edited by Tzimbi on 09 Dec 2011 16:38, edited 1 time in total.

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Re: Onde está o ALA?

Postby Sharky » 09 Dec 2011 16:21

Excerto 4- David Soares? :mrgreen:

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Re: Onde está o ALA?

Postby Bugman » 09 Dec 2011 16:37

Sharky wrote:Excerto 4- David Soares? :mrgreen:


David Soares com aquele léxico pobrezito? Devia estar com febre coitado...
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Ao mesmo tempo que ali estava tudo igual, não estava você lá, não está teu passado, não está nada. Quer dizer: só você sabe que esteve ali. A parede, os prédios, não guardam a gente. Nós só nos guardamos a nós mesmos. Só valemos nós connosco. Fora daí é literatura, é poesia, é arte. Ferreira Gullar
Yes, I am a woman of the law. And there are lots of laws. But if they don't offer us justice, then they aren't laws! They are just lines drawn in the sand by men who would stand on your back for power and glory. Sartana
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Re: Onde está o ALA?

Postby Anibunny » 09 Dec 2011 16:44

Bugman wrote:
Sharky wrote:Excerto 4- David Soares? :mrgreen:


David Soares com aquele léxico pobrezito? Devia estar com febre coitado...


e não tem palavras em latim ou francês x)

Pedro Farinha
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Re: Onde está o ALA?

Postby Pedro Farinha » 09 Dec 2011 22:19

Bem acertaram em tudo menos no excerto 4.

O ALA era fácil de reconhecer e era o excerto 3, foi retirado de "O meu nome é legião"

O excerto 2 era do Saramago e foi retirado do "Levantado do chão"

O primeiro excerto é do Gonçalo M Tavares e foi retirado do "Jerusalém".

E finalmente, o 4º, também é de um autor português, o livro chama-se "Fantasia para dois coronéis e uma piscina" e é do Mário de Carvalho.

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Re: Onde está o ALA?

Postby Sharky » 10 Dec 2011 00:22

Bolas, não li nenhum desses <_<

Pedro Farinha
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Re: Onde está o ALA?

Postby Pedro Farinha » 10 Dec 2011 02:08

Uma segunda volta... desta vez não houve acasos. Quatro autores portugueses descrevem uma cena sexual, qual deles é o Lobo Antunes? E alguém reconhece algum dos outros?

Texto 1
E eu, sempre com aquele pedaço de coxa na ideia, olhava-a como um rafeiro com cio olha o traseiro de uma cadela na praça, via-lhe o cabelo sem ganchos, a saia em desordem, a canela mordida até ao osso, e então obriguei-a a estender-se no tapete, de ventre para cima, e larguei o relógio dos anjinhos de bronze para lhe separar as pernas, rindo das suas exclamações, dos seus protestos e dos seus murros insignificantes de mulher, e no momento em que a penetrava, castigando-a com um tabefe pelos seus beliscões nas minhas costas e pela sua incansável resistência de enguia, recusando a minha língua, as minhas carícias e o meu ansioso peso de homem no seu peito


Texto 2
Então a mulher casada agarrava-se de braços e pernas ao Galopim. Queria engolir-lhe a boca. Concentrada nas palmas das mãos, pescoço, ombros, peito, encostava-se a uma secretária e sentava-se. Em algum momento, rápido, a mulher casada baixava a mão direita sobre as calças do Galopim e já sabia que ia encontrar um vulto duro, amaciado pela fazenda. Abria-lhe os botões e, mesmo antes de agarra-lo, sabia que iria senti-lo pulsar, como se quisesse crescer ainda mais. Não o segurava muito tempo porque ficava ansiosa, tinha pressa.
Com a saia levantada até à cintura, nos dias sôfregos, afastava as cuecas e enfiava-o logo dentro de si. Cheia, respirava de outra maneira. Nos outros dias também sôfregos, baixava as cuecas e ficava de pernas abertas, aberta, a esperar durante um instante. Esse instante era feito de impossível.


Texto 3
Aysha agarra-a pelo sexo, leva-o à boca, engole-o por completo. Alguém grita. Ninguém ouve nada. Ninguém quer ouvir uma palavra que seja. Não existe ninguém, mais nada para além dos corpos que se vão fazendo lentamente e depois muito depressa numa súbita aflição. Um ao outro. Um com o outro. Um dentro do outro. Aysha é o nome que repete silenciosamente. Aysha, meu amor, minha querida. A primorosa cicatriz no corpo de Aysha. O inconfundível sabor do sexo. Da flor aberta. A água fresca a correr pela garganta. O sabor dos figos a saciar a fome. O mel derramado sobre os lábios. O recomeço de tudo. O começo do mundo. O não querer acabar nunca. O incompreensível prazer.


Texto 4
O corpo aos pés da cama subiu e encontrou as minhas pernas; subiu um calor com ele. Depois senti as mãos treparem pelas coxas e procurarem o cinto das calças. Lentamente desapertaram-no. A fivela tilintou na escuridão; procurei uma nesga de luz mas nada encontrei. A perna latejava-me, mas uma das mãos ternas pousou sobre ela, sossegando-a. Parei de tremer. Os movimentos começaram: uma boca húmida que se colou ao meu sexo e, em gestos treinados, uma ginástica praticada muitas vezes despertou um tempo esquecido. Fechei os olhos; era inútil mantê-los abertos. A criatura que me interrompera o sono continuou a mover os lábios e a língua sinuosa e eu permaneci imóvel, respirando devagar, compassadamente, uma respiração forte, uma respiração de resistência. Segurei o lençol da cama com os dedos das mãos. Havia sons gorgolejantes dentro do quarto, como a água entornada de uma garrafa de vidro; havia um gemido constante, como a ânsia de um animal com fome. Depois tive um orgasmo e os sons cessaram; não foi um orgasmo previsto mas uma ocorrência inesperada, como um soluço ou uma contracção involuntária.


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