Frei Luís de Sousa [Concluído]

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Frei Luís de Sousa [Concluído]

Postby donduardos » 10 Mar 2015 23:25

Segue uma lista das referências usadas para a conversão desta obra:


A edição 'Gutemberg' não possui as notas do autor que surgem na 'Porto Editora'.

Uma vez que se trata da primeira obra do género teatral, certamente serão necessárias adaptações e mesmo definição de um "caderno de estilo" gráfico para a apresentação em ebook.

---------
Aproveitei esta obra para testar uma ferramenta de 'busca & substituição' bastante utilizada no mundo Unix, o SED (https://www.gnu.org/software/sed/. Apesar do Mac OS-X ter esta ferramenta disponível de base, optei por instalar o original GNU pois é mais estável.
Criei um dicionário de "tradução" para o "Frei Luís de Sousa" que espero poder ajudar em outras obras da mesma época que partilhem uma base semelhante de grafia. Como primeira passagem penso que pode reduzir significativamente o trabalho de conversão. Este dicionário (constituído com os termos do "Frei Luís de Sousa") converte numa só passagem mais de 95% do texto. Claro que aplicando noutro texto este valor será diferente, pelo que quero testar e ver até que ponto será viável ter dicionários por autor ou período. O esforço inicial é bastante grande, mas se for reutilizado q.b. valerá a pena.
O dicionário está na pasta Dropbox da obra (https://www.dropbox.com/s/vgbbpki7qmw0v2l/frei-luis-sousa.sed?dl=0).
Se houver interesse pode abrir-se um tópico sobre esta solução para discutir vantagens/desvantagens e cuidados a ter.

Edit:

Imagens em consideração para a capa


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Re: Frei Luís de Sousa [Em Desenvolvimento]

Postby vampiregrave » 11 Mar 2015 10:06

Vamos então por partes:

Já revi mais de metade do ficheiro que disponibilizaste e, de facto, sendo a primeira obra de teatro que editamos, temos que tomar algumas decisões quanto aos critérios que aplicaremos a este género daqui para a frente. Até à data, em termos de revisão, temos vindo a seguir essencialmente dois caminhos: para poesia, a actualização ortográfica apenas quando essa actualização não tenha impacto na métrica e na prosódia, mantendo elisões, estrutura e, dentro do possível, a formatação do original; para prosa, uma actualização ortográfica quase completa (e aplicação dos critérios de estilo mais modernos), mantendo-se apenas alguns casos em que, sendo admitida uma dupla grafia, costumamos optar pela apresentada no original, muito embora tenha caído em desuso.

Isto para tudo para dizer que, sendo a oralidade um forte componente do teatro, julgo que devemos adoptar uma posição semelhante à da poesia. A edição da Porto Editora segue este caminho (muito embora, por vezes mantenham a grafia de uma palavra e pouco à frente a actualizem, sem qualquer razão aparente...); já a da Areal, que requisitei na biblioteca, sendo uma edição orientada para um público escolar, procede a uma actualização quase total. No caso do Frei Luís de Sousa, uma actualização cega eliminaria pormenores característicos do discurso da época retratada, pormenores que foram intencionalmente introduzidos pelo autor (como evidenciado por certas notas), e que contribuem para a verosimilhança dos diálogos. Qual a vossa opinião neste ponto? Posso dar alguns exemplos se necessário.

Uma vez que se trata da primeira obra do género teatral, certamente serão necessárias adaptações e mesmo definição de um "caderno de estilo" gráfico para a apresentação em ebook.


Quanto à formatação, tenho visto basicamente duas versões no que diz respeito a peças de teatro: a indicação do personagem à esquerda, seguida da fala, ou o nome da personagem centrado, seguido abaixo pela respectiva fala. As edições contemporâneas costumam adoptar a primeira, já o original do Frei Luís segue a segunda. No que diz respeito ao EPUB, não vejo outra forma de reproduzir a primeira senão utilizando tabelas, estando a primeira coluna reservada aos nomes das personagens e a segunda ao texto em si. Não me parece ideal, porque muitos dispositivos têm ecrãs pequenos e, consoante o tamanho de letra seleccionado (e a extensão do nome das personagens), a área dedicada ao texto pode ser bastante reduzida. Portanto, à partida, tenho ideia de seguir a disposição do original.

Já adicionei os textos introdutórios de Garrett e vou tratar também de incluir as notas que referiste. Quanto a estas últimas, planeio aplicar o critério do costume, estabelecendo hiperligações que permitam ao leitor saltar directamente para a nota (no original elas constam apenas no fim do volume, cada uma precedida pelo excerto a que se refere).

Aproveitei esta obra para testar uma ferramenta de 'busca & substituição' bastante utilizada no mundo Unix, o SED (https://www.gnu.org/software/sed/. Apesar do Mac OS-X ter esta ferramenta disponível de base, optei por instalar o original GNU pois é mais estável.


Parece-me interessante. Dado que, na maioria dos casos, os textos do Project Gutenberg servem de base para o nosso trabalho, e tendo em conta que a sua actualização consomem um tempo considerável, poderia ser uma ferramente importante para agilizar esse processo. Creio, no entanto, que terá mais aplicabilidade na prosa, porque no caso da poesia (e possivelmente do teatro, conforme a decisão que aqui tomarmos) teremos de ter muito mais cuidado nas substituições automáticas.
A criação de dicionários por autor/período faze sentido, porque existem variantes consideráveis consoante a época. Terei de investigar mais o tema, mas creio que, ao longo do tempo, não será difícil estabelecer uma base aplicável de modo genérico.

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Re: Frei Luís de Sousa [Em Desenvolvimento]

Postby vampiregrave » 12 Mar 2015 15:15

Tinha referido por email que não existe uma edição crítica da obra, muito embora esteja em desenvolvimento (Edição Crítica das Obras de Almeida Garrett, coordenada por Ofélia Paiva Monteiro). Aproveito, no entanto, para citar parte da introdução de Ofélia Monteiro (DAS EDIÇÕES CRÍTICAS E DA EDIÇÃO CRÍTICA DAS
OBRAS DE ALMEIDA GARRETT
), porque nos pode guiar nesta nossa discussão:

Na fixação textual, optou-se pela modernização ortográfica, sempre que não apague, porém, “formas que assinalam, num momento em que a grafia não estava submetida ainda a uma sistematização normativa, realizações fónicas distintas das actuais ou devidas a razões estilísticas de diversa índole”; e manteve-se a “subtil pontuação garrettiana, a não ser em casos de necessidade evidente de correcção ou de aconselhável esclarecimento da sintaxe dos textos”. A transcrição textual proposta pela edição tem, pois, “um carácter moderadamente conservador”, que visa facilitar a leitura “pela eliminação de marcas ortográficas oitocentistas irrelevantes” (como as consoantes duplas), mas deseja “manter a ‘cor histórica’ representativa de um certo momento da evolução da língua ou de uma preferência de Garrett, possuidor que era de um apuradíssimo sentido da eufonia, dos valores semântico-estilísticos das palavras, da variedade idiolectal do português do seu tempo”. Como acontece na edição já vinda a lume de O Arco de Sant’Ana, todas as obras que integrarão a edição crítica serão portadoras de uma introdução que, para além de atentar nas questões ecdóticas que lhes são específicas, esclarecerá o lugar que ocupam na produção de Garrett, porá em relevo a sua tessitura formal e semântica e dará conta, quando for caso disso, do marulhar imaginativo que antecedeu a sua “consolidação” num projecto já delineado com alguma consistência.


O primeiro destaque vai de encontro ao que argumentei. Já o segundo é um pouco mais difícil de concretizar. As citações incluídas neste excerto provêm da introdução da edição crítica d'O Arco de Sant'Ana, que vou adquirir para me inteirar melhor dos critérios adoptados neste projecto (podendo também servir de suporte mais tarde, caso venhamos a converter esse romance).

Quanto ao desenvolvimento do nosso processo de revisão, já fiz uma passagem integral pelo ficheiro disponibilizado pelo Victor. Adicionei a introdução, faltando apenas algumas notas. Segui-me estrictamente pela pela edição digitalizada pela BNP.

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Re: Frei Luís de Sousa [Em Desenvolvimento]

Postby donduardos » 15 Mar 2015 12:14

Começo por dizer que o meu conhecimento da língua não é muito académico, mas sim como utilizador (engenheiro de formação e profissão). Por isso não consigo dar um grande contributo à discussão em termos técnicos. Feito o disclaimer segue a minha opinião.

Estou plenamente de acordo que os traços de oralidade são muito importantes no género teatral, contudo acho que limitar a conversão aos elementos de grafia mais fortes (por exemplo corrigir as duplas consoantes) pode levar a alguns equívocos.
A título de exemplo manter "ingano" em vez do actual "engano" para todas as personagens indistintamente, para um público leitor que ainda está em formação (ensino básico e secundário), pode gerar a dúvida de qual a forma correcta. Eu entendo que essas marcas funcionam como elemento distintivo/identificativo entre personagens, usualmente para marcar regionalismos ou a diferença entre classes sociais. Quando aplicadas a toda a obra perde-se essa marca/elemento estilístico.
Fica a marca da época claro mas, coloco aqui a questão, as conversões das obras devem manter esses traços de época ou procurar ir de encontro a uma linguagem contemporânea? Pelo exemplo das peças que vou assistindo, quer teatro quer ópera, a tendência das encenações é reduzir os elementos "de época" ao mínimo usando figurinos e cenários contemporâneos, talvez para levar o público a questionar o texto. Mas já estou a divergir...

Por outro lado manter "d'outro" em vez de "de outro" parece-me bem pois acentua o ritmo do discurso.

Quanto à formatação, estou de acordo que funciona melhor a identificação ao centro, evitando assim problemas com os diferentes dispositivos.
Gráficamente agrada-me a formatação que aplicaste: leve e clara.

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Re: Frei Luís de Sousa [Em Desenvolvimento]

Postby vampiregrave » 15 Mar 2015 12:53

donduardos wrote:Começo por dizer que o meu conhecimento da língua não é muito académico, mas sim como utilizador (engenheiro de formação e profissão). Por isso não consigo dar um grande contributo à discussão em termos técnicos. Feito o disclaimer segue a minha opinião.


Eu sou da área de gestão, também não me posso gabar de elaborados conhecimentos nestas matérias :mrgreen: Daí a minha tentativa de encontrar sempre boas edições de suporte.

Estou plenamente de acordo que os traços de oralidade são muito importantes no género teatral, contudo acho que limitar a conversão aos elementos de grafia mais fortes (por exemplo corrigir as duplas consoantes) pode levar a alguns equívocos.
A título de exemplo manter "ingano" em vez do actual "engano" para todas as personagens indistintamente, para um público leitor que ainda está em formação (ensino básico e secundário), pode gerar a dúvida de qual a forma correcta. Eu entendo que essas marcas funcionam como elemento distintivo/identificativo entre personagens, usualmente para marcar regionalismos ou a diferença entre classes sociais. Quando aplicadas a toda a obra perde-se essa marca/elemento estilístico.


Estás a partir do princípio que a publicação é orientada para um público exclusivamente em idade escolar, o que não é o caso (muito embora eu ficasse bastante satisfeito se as nossas publicações tiverem vindo a ser úteis nesse sentido). Acho igualmente drástica a actualização total do texto, porque apaga não só as marcas do discurso da época a que se refere a obra, mas também certas marcas do estilo do autor. Só não percebi esta parte:
«Quando aplicadas a toda a obra perde-se essa marca/elemento estilístico». O critério seria aplicado segundo o original, ou seja, não iríamos alterar de propósito grafias modernas para as versões arcaicas. Neste sentido, o Frei Luís não é grande exemplo (excepção feita talvez a coisa/cousa), mas já tratámos algumas obras em que os autores utilizam dupla grafia em diversas palavras, em grande medida para demarcar a posição social de personagens, ou para efeitos poéticos.

Gostaria de ouvir mais opiniões. Afinal, esta é uma questão que terá repercussões em futuros lançamentos de obras de teatro.

Por outro lado manter "d'outro" em vez de "de outro" parece-me bem pois acentua o ritmo do discurso.


Sim, no caso das elisões, procuramos adoptar sempre a contracção correspondente.

Fica a marca da época claro mas, coloco aqui a questão, as conversões das obras devem manter esses traços de época ou procurar ir de encontro a uma linguagem contemporânea? Pelo exemplo das peças que vou assistindo, quer teatro quer ópera, a tendência das encenações é reduzir os elementos "de época" ao mínimo usando figurinos e cenários contemporâneos, talvez para levar o público a questionar o texto. Mas já estou a divergir...


Não é algo totalmente assente. Posso dizer-te que, quando o projecto começou, o normal era pegarmos no texto original (proveniente do Gutenberg, por exemplo) e actualizar graficamente, mantendo apenas uma ou outra grafia, caso esta, apesar de ter caído em desuso, fosse ainda aceite (oiro/ouro, por exemplo).

O processo, no entanto, evoluiu bastante desde então. Primeiro, para poesia, onde compreendemos que essa actualização cega teria efeitos indesejados, como alteração de métrica (certas actualizações introduzem sílabas), alteração da prosódia, etc. Decidiu-se, portanto, actualizar apenas quando essa actualização não tivesse impacto nos pontos referidos, e seguir o original em termos de estilo, mesmo quando há desrespeito pela prontuário (outro exemplo, a utilização (ou não) de maiúsculas em certas palavras, como é o caso das estações, dos meses, etc.).

Eventualmente, passámos também a escolher uma edição como base (a 1.ª ou, se possível, a última editada em vida do autor), e a comparar o nosso texto, na íntegra, com a edição escolhida, o que veio a tornar o processo muito mais moroso mas que garante, creio eu, um nível de fidelidade (e porque não dizer também, de qualidade) bastante superior. Com este desenvolvimento, começámos a procurar edições críticas, que são muito mais elaboradas que as edições usuais, para utilizar como suporte à nossa revisão, e daí fomos extraindo alguns critérios.

Isto tudo para dizer que a tendência tem vindo a ser cada vez mais o respeitar ao máximo o original, tanto em termos de pontuação como de grafia. É uma posição que, como todas, tem vantagens e desvantagens: por um lado conserva-se as marcas que temos vindo aqui a debater e, aos mais interessados, é possível constatar as diferenças consideráveis na forma de pontuar, na forma de escrever, dos séculos passados; por outro, como não acrescentamos nenhum introdução explicativa, a manutenção de certas grafias pode ser tomada como erro por parte do leitor.

No fundo, procuramos ir mais além do que o Gutenberg, cujas edições tentam ser cópias exactas dos originais, o que no caso de obras com vários séculos desmotiva a maioria dos leitores (basta verificar o número de downloads de certas obras, embora nisso também tenha influência a falta de promoção e um design pouco atractivo), tornando as obras mais acessíveis mas mantendo dentro do possível as marcas que com o tempo se foram perdendo.

Apesar disto, não existe ainda qualquer imposição neste sentido. Já tivemos casos em que os revisores preferiram optar por modernizar a pontuação; é um caminho que prefiro evitar devido a falta de conhecimentos para garantir que o faço de forma correcta, ou seja, aos possíveis erros de conversão, acrescentaria ainda a possibilidade de efectuar incorrectamente essa modernização.

Quanto à formatação, estou de acordo que funciona melhor a identificação ao centro, evitando assim problemas com os diferentes dispositivos.
Gráficamente agrada-me a formatação que aplicaste: leve e clara.


Ok, este ponto fica então resolvido.

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Re: Frei Luís de Sousa [Em Desenvolvimento]

Postby Bugman » 16 Mar 2015 10:02

A questão do oiro/ouro manifesta-se praticamente em todos os usos do ditongo "ou" no meio de palavras e o facto de o mesmo autor na mesma obra recorrer às duas grafias não ajuda (mais detalhes quando enviar a Morgadinha para o vampire).

Penso que a questão do quão radical se deve ser tem de ser enquadrada com a obra. Uma obra de poesia, como o vampire disse, pode sofrer bastante com uma modernização cega. Já no teatro isso pode-se verificar ou não. Na prosa será provavelmente onde tal terá menos impacto.

Penso que terá de se começar a pensar mesmo em introduções explicativas por parte do conversor/revisor.
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Re: Frei Luís de Sousa [Em Desenvolvimento]

Postby vampiregrave » 16 Mar 2015 10:07

Para facilitar a análise desta questão, deixo aqui alguns exemplos, com destaques a bold:

Exemplo 1
TELMO.

— É... delgadinha, é. Há-de inrijar. É tê-la por aqui, fora daqueles ares apestados de Lisboa; e deixai, que se há-de pôr outra.


Exemplo 2
MADALENA.

— Para essa houve poder maior que as minhas forças... D. João ficou naquela batalha com seu pai, com a flor da nossa gente. (Sinal de impaciência em Telmo.) Sabeis como chorei a sua perda, como respeitei a sua memória, como durante sete anos, incrédula a tantas provas e testemunhos de sua morte, o fiz procurar por essas costas de Berberia, por todas as séjanas de Fez e Marrocos, por todos quantos aduares de Alarves aí houve... Cabedais e valimentos, tudo se impregou; gastaram-se grossas quantias; os embaixadores de Portugal e Castela tiveram ordens apertadas de o buscar por toda a parte; aos padres da Redenção, a quanto religioso ou mercador podia penetrar naquelas terras, a todos se incomendava o seguir a pista do mais leve indício que pudesse desmintir, pôr em dúvida ao menos, aquela notícia que logo viera com as primeiras novas da batalha dʼAlcácer. Tudo foi inútil; e a ninguém mais ficou resto de dúvida...


Exemplo 3
MADALENA.

— Pois tens: melhor. — E és tu que andas, continuamente e quasi por acinte, a sustentar essa quimera, a levantar esse fantasma, cuja sombra, a mais remota, bastaria para inodoar a pureza daquela inocente, para condenar a eterna desonra a mãe e a filha... (Telmo dá sinais de grande agitação.) Ora dize: já pensaste bem no mal que estás fazendo? — Eu bem sei que a ninguém neste mundo, senão a mim, falas em tais cousas... falas assim como hoje temos falado... mas as tuas palavras misteriosas, as tuas alusões frequentes a esse desgraçado rei D. Sebastião, que o seu mais desgraçado povo ainda não quis acreditar que morresse, por quem ainda espera em sua leal incredulidade! — esses contínuos agouros em que andas sempre de uma desgraça que está iminente sobre a nossa família... não vês que estás excitando com tudo isso a curiosidade daquela criança, aguçando-lhe o espírito — já tão perspicaz! — a imaginar, a descobrir... quem sabe se a acreditar nessa prodigiosa desgraça em que tu mesmo... tu mesmo... sim, não crês deveras? Não crês, mas achas não sei que doloroso prazer em ter sempre viva e suspensa essa dúvida fatal. E então considera, vê: se um terror similhante chega a entrar naquela alma, quem lho há-de tirar nunca mais?... O que há-de ser dela e de nós? — Não a perdes, não a matas... não me matas a minha filha?

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Re: Frei Luís de Sousa [Em Desenvolvimento]

Postby Bugman » 16 Mar 2015 10:24

Exemplos clássicos do que sempre, sempre, que tinha de ler estas coisas na escola me perguntava: mas alguma vez alguém falou assim?

O primeiro caso remete-me invariavelmente para as velhas da aldeia a peneirarem o feijão ao vento e as conversas que tinham. No segundo exemplo duas situações distintas. A primeira o caso de duas palavras seguidas em que a ligação se faz através de um "e". Oralmente há a tendência de juntar os dois o que soa um pouco a "i" (simplificadamente, e+e='i). Ou seja, em termos de soar, soaria a s'impregou (se empregou) e s'incomendava (se encomendava) e aí aceita-se a grafia com i (quer por arcaísmo quer por métrica, uma vez que a clara dicção de ambos os e's forçaria a uma pausa no discurso). Já o desmintir parece-me mais fruto de um arcaísmo do que forçosamente oralidade. E neste caso, actualizar para desmentir não altera nem a métrica nem a dicção do texto.

O "quasi" é exemplo claro que uma evolução linguística que vem do latim. Neste caso acho que a adopção do quase não altera em nada e é mesmo capaz de corresponder ao que já era tradição oral.
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Re: Frei Luís de Sousa [Em Desenvolvimento]

Postby vampiregrave » 16 Mar 2015 10:51

Entretanto vou requisitar esta edição da Caixotim (ou adquiri-la, se necessário) que me parece ser a mais próxima de uma edição crítica que existe no mercado. Devo também estar a receber a edição que encomendei d'O Arco de Sant'Ana. Depois partilho as minhas conclusões, resultantes da análise dos livros referidos.

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Re: Frei Luís de Sousa [Em Desenvolvimento]

Postby camorim » 17 Mar 2015 12:51

Compreendo todas as razões aqui expostas sobre o manter certas grafias a reproduzir a oralidade, mas a minha primeira reacção ao ler a versão com de Frei Luís de Sousa dos Clássicos da Porto Editora foi de grande estranheza.

A propósito, encontrei este documento do Ciberdúvidas - http://www.ciberduvidas.com/pergunta.ph ... e=imprimir , que transcreve as explicações do próprio autor para adoptar as marcas de oralidade e grafia condizente.

"algumas palavras e construções antigas, contribuindo para a verosimilhança da fala das personagens: ingano, inrijar, ilha incuberta, infado, intendia, incostem­nos; quitaram­te; tão bom linhagem (masculino); tamanhinha; O teu coração e as tuas mãos estão puras. (concordância no feminino); faredes; ua; apanhar das flores; e foi quem acabou com os outros (quem persuadiu os outros, acabando com a sua relutância); bem estreado; donzela dolorida; vivirá;"


As achegas de Bugman sobre casos mais ou menos naturais por choque de vogais "e+e" faz todo o sentido, mas tal como é sugerido, é preciso explicar as opções de revisão/ conversão, mesmo sabendo que muitos leitores distraídos atalharam e passarão de imediato à leitura da obra...

Se eu tivesse de decidir sozinha, faria a revisão "cega" como se comenta, considerando apenas as contracções. O trabalho de dar a vivacidade ao texto e ritmo para levar ao palco é do encenador e actores. Não é por acaso que em qualquer texto em prosa (e diria também nos dramas), se usam aspas quando se quer "transcrever" o modo de falar específico de uma personagem.
Estas marcas de "oralidade" de que fala Almeida Garrett são naturais na língua portuguesa e na sequência e ritmo das frases. A família Sousa Coutinho e Vilhena são da alta sociedade, por isso, não há aqui a ideia de traduzir um falar específico. Teoricamente, falariam o português mais erudito e padrão da época.

Por tudo isto, acho que a verosimilhança de que fala Garrett é injustificada no que se refere à alteração forçada da grafia. É querer pôr em texto o que se diz naturalmente ao ler ou dizer esse mesmo texto.

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Re: Frei Luís de Sousa [Em Desenvolvimento]

Postby vampiregrave » 17 Mar 2015 13:19

O que referes recorda-me um dos pontos do «The Elements of Style» (William Strunk Jr. / E. B. White), vagamente relacionado com este tema:

Do not attempt to use dialect unless you are a devoted student of the tongue you hope to reproduce. If you use dialect, be consistent. The reader will become impatient or confused upon finding two or more versions of the same word or expression. In dialect it is necessary to spell phonetically, or at least ingeniously, to capture unusual inflections. Take, for example, the word once. It often appears in dialect writing as oncet, but oncet looks as though it should be pronounced "onset." A better spelling would be wunst. But if you write it oncet once, write it that way throughout. The best dialect writers, by and large, are economical of their talents; they use the minimum, not the maximum, of deviation from the norm, thus sparing their readers as well as convincing them.


Aqui, no entanto, estamos a falar na perspectiva do escritor. Muitas vezes se desaconselha essa tentativa de reproduzir certos sotaques ou expressões populares, alegando-se que basta uma boa caracterização para o leitor, na sua imaginação, adaptar os diálogos à posição social, proveniência e educação das personagens em causa.

No nosso caso, temos necessariamente que discutir da perspectiva do revisor: até que ponto devemos nós divergir da vontade original do autor? Claro está que essa vontade nem sempre é fácil de apurar. No cúmulo, teríamos de consultar o manuscrito (se existente), comparar as diversas edições em vida do autor, analisar a sua correspondência, etc., mas isso é trabalho para uma edição crítica, efectuada por profissionais com acesso a meios que não estão ao nosso alcance.

Estas marcas de "oralidade" de que fala Almeida Garrett são naturais na língua portuguesa e na sequência e ritmo das frases. A família Sousa Coutinho e Vilhena são da alta sociedade, por isso, não há aqui a ideia de traduzir um falar específico. Teoricamente, falariam o português mais erudito e padrão da época.


Poderia ser um português mais erudito, sem dúvida, mas duma época medieval, um português que divergia necessariamente do corrente nos nossos dias.

Já encomendei a edição da Caixotim. Vou estudar os critérios nela aplicados, assim como na edição crítica d'O Arco de Sant'Ana e depois faço um breve apanhado e coloco aqui. Parece-me importante ponderar com calma esta decisão, porque se trata de um problema que se agrava conforme a antiguidade dos textos, especialmente nos medievais, em que a actualização é mais complexa.

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Re: Frei Luís de Sousa [Em Desenvolvimento]

Postby Bugman » 17 Mar 2015 13:42

vampiregrave wrote:
Estas marcas de "oralidade" de que fala Almeida Garrett são naturais na língua portuguesa e na sequência e ritmo das frases. A família Sousa Coutinho e Vilhena são da alta sociedade, por isso, não há aqui a ideia de traduzir um falar específico. Teoricamente, falariam o português mais erudito e padrão da época.


Poderia ser um português mais erudito, sem dúvida, mas duma época medieval, um português que divergia necessariamente do corrente nos nossos dias.

Já encomendei a edição da Caixotim. Vou estudar os critérios nela aplicados, assim como na edição crítica d'O Arco de Sant'Ana e depois faço um breve apanhado e coloco aqui. Parece-me importante ponderar com calma esta decisão, porque se trata de um problema que se agrava conforme a antiguidade dos textos, especialmente nos medievais, em que a actualização é mais complexa.


Eh pá, Álcacer Quibuir já foi na segunda metade do século XVI, portanto o português já não é bem o castelhano de Gil Vicente. Concordo no entanto que andará longe do actual e que, se calhar precisamente por serem da alta sociedade, será diferente daquele que falamos hoje!

[EDIT]Não concordo com a adaptação cega. Os traços de oralidade não ocorrem apenas no teatro ou na poesia. Na prosa, dando o exemplo do trabalho que estou (lentamente) a fazer com a Morgadinha, é importante acrescentar os traços de oralidade para distinguir o falar da aldeia com o falar de Lisboa (ou da cidade). Conquanto o encenador e os actores terão o seu trabalho, há indicações claras que o autor dá no texto para orientar esse trabalho e acho que não devíamos fugir dele.
Last edited by Bugman on 17 Mar 2015 13:45, edited 2 times in total.
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Re: Frei Luís de Sousa [Em Desenvolvimento]

Postby vampiregrave » 17 Mar 2015 13:43

Ui, Gil Vicente vai ser outra dor de cabeça...

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Re: Frei Luís de Sousa [Em Desenvolvimento]

Postby Bugman » 17 Mar 2015 13:46

Gil Vicente vai ser um pesadelo! Tenho o texto (alegadamente original) dos Autos das Barcas lá em casa. O da do Inferno lê-se sem dificuldades de maior, o da do Purgatório fica bera e o da do Paraíso desisti até aprender espanhol a sério!
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Re: Frei Luís de Sousa [Em Desenvolvimento]

Postby vampiregrave » 17 Mar 2015 15:53

Mais um contributo para a discussão, que encontrei aqui:

2.1.4 Léxico e Morfosintaxe
• Mantém-se rigorosamente os arcaísmos lexicais e a morfologia e a sintaxe do texto original, salvo nos casos listados a seguir.

• Casos Específicos:
Nos casos em que se considere que a fronteira entre a variação ortográfica e lexical/morfosintática é tênue, o vocábulo é modernizado; assim,
aſsi ► assim
pera ► para
fezeſſem ► fizessem
fezeram ► fizeram
emparo ► amparo
giolhos ► joelhos


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