Frei Luís de Sousa [Concluído]

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Re: Frei Luís de Sousa [Em Desenvolvimento]

Postby Bugman » 17 Mar 2015 17:09

Ui calma lá com isso!

Entendemos aqui por edição filológica a edição especializada que procura trazer a público o texto de difícil lição – tipicamente, o texto antigo.

Focaliza-se, ainda, a edição filológica dirigida a um público especializado: o lingüista, ou estudioso da história da língua. Neste tipo de edição, a finalidade da pesquisa lingüística confere à edição a responsabilidade pela máxima fidedignidade e integridade do texto editado.

O trabalho de edição filológica neste sentido vem se desenvolvendo em grande volume e qualidade no âmbito da língua portuguesa, em especial, nas décadas recentes, graças ao reavivamento do interesse nos estudos da história da língua em Portugal e no Brasil.


Acho que estamos todos de acordo que o nosso público-alvo não são filólogos mas sim o público em geral. Assim sendo a minha opinião é a contrária, que se estamos perante um arcaísmo caído em desuso (e não sei se não estou a ser redundante) devemos actualizá-lo.

So não sei se isto choca com as indicações do Projecto, mas face à discussão que estamos a ter talvez sejam omissas.
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Re: Frei Luís de Sousa [Em Desenvolvimento]

Postby vampiregrave » 17 Mar 2015 17:29

Bugman wrote:Ui calma lá com isso!

Entendemos aqui por edição filológica a edição especializada que procura trazer a público o texto de difícil lição – tipicamente, o texto antigo.

Focaliza-se, ainda, a edição filológica dirigida a um público especializado: o lingüista, ou estudioso da história da língua. Neste tipo de edição, a finalidade da pesquisa lingüística confere à edição a responsabilidade pela máxima fidedignidade e integridade do texto editado.

O trabalho de edição filológica neste sentido vem se desenvolvendo em grande volume e qualidade no âmbito da língua portuguesa, em especial, nas décadas recentes, graças ao reavivamento do interesse nos estudos da história da língua em Portugal e no Brasil.


Acho que estamos todos de acordo que o nosso público-alvo não são filólogos mas sim o público em geral. Assim sendo a minha opinião é a contrária, que se estamos perante um arcaísmo caído em desuso (e não sei se não estou a ser redundante) devemos actualizá-lo.

So não sei se isto choca com as indicações do Projecto, mas face à discussão que estamos a ter talvez sejam omissas.


Calma lá 2 :P!

Esse projecto é (e as edições críticas em geral também), direccionado para um público mais restricto, não contesto. Mas a «máxima fidedignidade e integridade do texto editado» tem vindo a tornar-se cada vez mais num dos objectivos do projecto. Não quer isto dizer que estamos a tentar competir com as referidas edições, até porque essas têm todo um aparato crítico, incluindo anotações, variantes e análises comparativas que nós não proporcionamos.

Tenho vindo a apoiar-me mais nestas edições porque, desde o início do Adamastor, tendo utilizado as mais diversas fontes como suporte, notei que, em muitos casos, as edições tradicionais denotam um descuido censurável, tal o desrespeito (se consciente ou inconsciente, por vezes não é claro) pelo original. Apanhei casos em que a edição impressa é mera transposição de texto disponível gratuitamente online; outros em que o editor parece fazer alterações a seu bel-prazer, alterando (ou mesmo cortando) palavras, sinal que, muito provavelmente, não confrontou o texto com o original, limitando-se a perpetuar os erros de edições posteriores (ao original, claro está).

A actualização que temos vindo a efectuar é um passo importante para tornar as obras mais acessíveis, comparativamente, por exemplo, às do Project Gutenberg, mas, confesso, causa-me um certo desconforto quando nos sobrepomos ao autor, não só porque nem sempre confio nos meus conhecimentos para me aventurar nesse sentido, mas porque me parece que apagar certas marcas características da escrita do mesmo acaba por contribuir um pouco para o facilitismo que tem vindo a invadir a literatura e o ensino da língua portuguesa.

P.S.: Bem, para não dispersar, que fique claro que a questão aqui é a da grafia. Existem nesse projecto outros critérios que já temos vindo a utilizar, por exemplo:

Uniformiza-se o uso da pontuação de acordo com as normas atuais – mas apenas nos aspectos técnicos, como por exemplo o uso de aspas seguido de ponto final. Mantém-se o uso de vírgulas, pontos finais, pontos de exclamação, etc.:
“texto com aspas”. ► “texto com aspas.”


Isto tudo torna claro (ainda mais), a necessidade de desenvolver um guia de edição, por mais sucinto que seja, para orientar novas revisões. Vou pensar na melhor forma de o fazer, e compilar, assim que possível, alguns dos critérios que estão praticamente assentes dada a sua aplicação ao longo destes dois anos de actividade do Projecto Adamastor.

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Re: Frei Luís de Sousa [Em Desenvolvimento]

Postby Bugman » 17 Mar 2015 18:20

Quando vi aquilo devo ter ficado como tu quando leste livro n'O Gato Preto! :P

Fidelidade ao texto pode ser cópia pura e simples de vocábulos, mas pessoalmente penso que devíamos levar a actualização um pouco mais além. Até onde? Vamos ver.

A questão vocabular não me parece ser uma rendição ao facilitismo, uma vez que não deve ser feita indiscriminadamente, devendo ser pensada, ou seja, na mesma obra haver espaço para actualizar uns e manter outros. O caso dos giolhos, por exemplo. Confrontados com tal escolha será mais simplista "traduzir" ou manter?

Outra questão que me norteia é se poderemos estar perante um termo comum na altura que entretanto foi sendo actualizado (sinónimos) ou de um termo que efectivamente desapareceu (it is no more, it has ceased to be, it's expired and gone to meet its maker). Isto é mais evidente até em obras "pré-Norma de 45", após a qual me parece que congelámos... durante 45 anos quer na ortografia quer no vocabul'ario (e se calhar o livro único não é inocente no meio disto tudo...). A questão então. Confrontados com um vocábulo desaparecido ou remetido para as catacumbas da utilização, actualiza-se ou deixa-se a obra no século pré-XX onde foi feita? Não é de resposta fácil pois aquilo de que estamos a falar é da acessibilidade da obra ao seu público alvo. Ou seja, adoptamos a postura de fieldade ao texto pelo texto, mesmo que esse texto tivesse por finalidade ser acessível a todos e portanto de compreensão imediata, ou mantemo-nos fiéis ao propósito do texto, actualizando o mesmo para manter a sua compreensão generalizada? Não me parece que seja facilitismo aquilo de que estamos a falar. ;)
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Re: Frei Luís de Sousa [Em Desenvolvimento]

Postby vampiregrave » 17 Mar 2015 18:24

O pior é que, no caso das expressões que se perderam no tempo, por vezes não existe sequer equivalente. Na próxima passagem que fizer ao Frei Luís, tento recolher mais exemplos; é sempre mais fácil discutir à vista de casos concretos.

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Re: Frei Luís de Sousa [Em Desenvolvimento]

Postby silvana » 17 Mar 2015 22:23

Boa noite a todos!

Eu tenho uma versão no meu livro de Português do 11º ano. Foi leitura obrigatória e vinha a obra completa no livro. Posso ver alguma coisa que queiram.
Abraço.

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Re: Frei Luís de Sousa [Em Desenvolvimento]

Postby vampiregrave » 18 Mar 2015 10:13

Olá Silvana. Se puderes dar uma vista de olhos nos exemplos que dei na página anterior e dizer-nos como aparecem na tua edição, seria óptimo. Para facilitar a sua localização, podes fazer pesquisa no ficheiro Word da obra que se encontra no nosso Dropbox.

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Re: Frei Luís de Sousa [Em Desenvolvimento]

Postby Bugman » 18 Mar 2015 16:19

Para quem é dropoexcluído, onde é que se arranja isso mesmo?
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Re: Frei Luís de Sousa [Em Desenvolvimento]

Postby vampiregrave » 18 Mar 2015 16:25

Bugman wrote:Para quem é dropoexcluído, onde é que se arranja isso mesmo?


Como a estrutura de pastas é fixa, podes encontrar sempre as versões mais recentes neste link (neste caso, o ficheiro «Frei Luis de Sousa_0.1 [Ricardo Lourenço]», mas também podes encontrar lá o restante material de apoio).

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Re: Frei Luís de Sousa [Em Desenvolvimento]

Postby vampiregrave » 24 Mar 2015 21:52

Já tenho comigo as edições que referi. Ainda não tive tempo para analisar com o devido detalhe, mas deixo-vos aqui a transcrição dos critérios da edição crítica d'O Arco de Sant'Ana (relativa à ortografia, recuperando também o excerto que já aqui havia partilhado):

Na fixação textual, optou-se pela modernização ortográfica, sempre que não apague, porém, “formas que assinalam, num momento em que a grafia não estava submetida ainda a uma sistematização normativa, realizações fónicas distintas das actuais ou devidas a razões estilísticas de diversa índole”; e manteve-se a “subtil pontuação garrettiana, a não ser em casos de necessidade evidente de correcção ou de aconselhável esclarecimento da sintaxe dos textos”. A transcrição textual proposta pela edição tem, pois, “um carácter moderadamente conservador”, que visa facilitar a leitura “pela eliminação de marcas ortográficas oitocentistas irrelevantes” (como as consoantes duplas), mas deseja “manter a ‘cor histórica’ representativa de um certo momento da evolução da língua ou de uma preferência de Garrett, possuidor que era de um apuradíssimo sentido da eufonia, dos valores semântico-estilísticos das palavras, da variedade idiolectal do português do seu tempo”. Como acontece na edição já vinda a lume de O Arco de Sant’Ana, todas as obras que integrarão a edição crítica serão portadoras de uma introdução que, para além de atentar nas questões ecdóticas que lhes são específicas, esclarecerá o lugar que ocupam na produção de Garrett, porá em relevo a sua tessitura formal e semântica e dará conta, quando for caso disso, do marulhar imaginativo que antecedeu a sua “consolidação” num projecto já delineado com alguma consistência.

[...]

Ortografia
A nossa intervenção no texto consistirá, essencialmente, na actualização e normalização ortográfica. O projecto de edição crítica das Obras de Almeida Garrett estabelece, como critério geral, que não serão modernizadas as formas em que a divergência gráfica corresponda a uma realização fónica distinta da actual ou a uma intenção estilística (efeito arcaizante, reprodução da pronúncia popular, etc.).
Esta última situação tem particular pertinência n’O Arco de Sant’Ana, onde deparamos com significativa presença de um vocabulário medievalizante, associado à linguagem coloquial popular (co’a, arrefém, não no, etc.). Conservam-se, por conseguinte, essas formas, assinalando apenas os casos duvidosos.

No que respeita às variantes fónicas, observa-se em princípio a mesma regra — a lição do texto-base — salvo nos casos em que se justifique outro procedimento. Assim, mantém-se a grafia de termos como dezenove, siquer, inda, idea, alâmpada, similhante, vivirei, San’João, peior, passeiar, etc., bem como de estrangeirismos ainda não fixados na época (polka, cahoutchou). Um número de casos significativo diz respeito a palavras começadas ou compostas por in ou im > en, em (intender, interter, ingano, impunhar, desenvolver, desembargo…); na verdade, Garrett foi muito sistemático em relação a estas grafias nas edições impressas, embora os manuscritos revelem frequentes flutuações.
Respeitam-se igualmente as oscilações em variantes equivalentes (Douro / Doiro) ou de formas que tanto podem aparecer desdobradas como contraídas (de uma / duma). Em alguns casos a contracção afecta termos com maior autonomia — des’que (desde que), até’qui —, que também se conservam.

Actualizam-se porém as formas que, reflectindo a memória etimológica, não constituem necessariamente variantes fónicas em relação à pronúncia actual: é o caso de palavras começadas por st ou sp > est (splendor, spectáculo, stridente, stilo) e de ex / es em lexemas como extendido, excomungado, em que se verifica oscilação.

Nota de rodapé:
Conserva-se, em determinados contextos, a grafia extranho em lugar de estranho, uma vez que Garrett, numa das suas notas finais, as distingue semanticamente: «Extranho é o que vem do exterior em relação ao país e outras circunstâncias externas; estranho o que nos surpreende, o que nós estranhamos por desusado, inesperado, etc.» No entanto, o Autor não usou um critério consistente ao longo do texto, surgindo quase sempre a forma extranho.


Quanto à edição da Caixotim, vou ter que ver com mais calma, mas pela análise de uns quantos casos, posso afirmar com relativa certeza que procederam a uma actualização quase total, chegando mesmo a desenvolver as formas com apóstrofo e a actualizar a grafia nas citações poéticas. Ou seja, é precisamente o oposto da crítica. Uma convergência de critérios em ambas as edições foi esperar de mais pelos vistos :mrgreen:

Edit:
A questão do oiro/ouro manifesta-se praticamente em todos os usos do ditongo "ou" no meio de palavras e o facto de o mesmo autor na mesma obra recorrer às duas grafias não ajuda (mais detalhes quando enviar a Morgadinha para o vampire).


Como podes ver, nas críticas costumam reger-se pelo texto-base, mesmo quando existem variações.

O "quasi" é exemplo claro que uma evolução linguística que vem do latim. Neste caso acho que a adopção do quase não altera em nada e é mesmo capaz de corresponder ao que já era tradição oral.


Para não me limitar a indicar apenas critérios de edições críticas, veja-se o que consta na edição d'A Confissão de Lúcio, da Assírio & Alvim.

A ortografia é actualizada, excepto nos casos em que a actualização altera a representação fonológica das palavras. É o caso de «inegualável» e de «quasi».

Do mesmo modo, mantêm-se as elisões por apóstrofo («complicações d'alma», por exemplo), dado que são efectuadas por razões rítmicas precisas.

A pontuação original é respeitada, e mantém-se a maiúscula a seguir aos dois pontos.

As gralhas evidentes são corrigidas.


Esta última é bastante sucinta (sintetizando, no fundo, o que é referido no excerto que transcrevi d'O Arco de Sant'Ana), e um bom exemplo a seguir caso queiramos adicionar este género de explicações às nossas edições.

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Re: Frei Luís de Sousa [Em Desenvolvimento]

Postby vampiregrave » 31 Mar 2015 20:01

Mais dois contributos para esta discussão, assim como algumas considerações minhas tendo em conta o que até agora foi dito aqui. A primeira é um excerto duma recensão crítica à edição de «A Vida em Lisboa», de Júlio César Machado, publicada pela Angelus Novus; nem a propósito, dá um exemplo de incorrecção em termos de manutenção de grafia, que foi efectuado precisamente por Fernando Cabral Martins, editor d'«A Confissão de Lúcio», cujas notas citei num post anterior, o que só prova que mesmo no melhor pano cai a nódoa:

"Da edição Diogo de «A Vida em Lisboa» [crítica a 'A Vida em Lisboa', de Júlio César Machado]" / Luís Prista. In: Revista Colóquio/Letras. Notas e Comentários, n.º 155/156, Jan. 2000, p. 359-369.

As práticas de ortografia falham por vezes no propósito de actualização estipulado no Prefácio. Veja-se duas palavras recorrentes, os nomes de duas personagens. Em Melitão foi mantida a grafia do original, apesar de se tratar de forma gráfica para o nome para que hoje está convencionada a grafia «Militão». Ou quis o editor manter a grafia por pensá-la significativa? Nem mesmo pela fonética, porque, a não ser em hipercorrecções (os «ministros», «responsabilidade», etc., dos jornalistas a lerem pelo teleponto ou dos políticos a fazerem-se vernáculos), estes <i> gráficos correspondem a e «mudo»: a pronúncia para a grafia «Militão» é igual à de «Melitão». (Se fosse preciso testemunho de que à época havia hesitações naquela grafia, e de que a forma com <e> não correspondia a uma identificação especial, teríamos a comédia A Vida em Lisboa, sucedâneo teatral da outra, onde o que vemos grafado é Militão, com <i>.) E relevar características gráficas que não eram funcionais no original é proceder exactamente ao contrário da atitude, de conservação, que o editor tinha em mente. Quanto a Estêvão, que aparece sempre sem o acento circunflexo, não vou dizer que a manutenção gráfica se deveu a ter-se lido como aguda a palavra do original, e creio que houve apenas desconhecimento da ortografia actual.

Nota: Em outras edições recentes tenho encontrado a mesma opção que creio injustificável. Assim, na sua edição dos Poemas Completos de Mário de Sá-Carneiro (Lisboa, Assírio & Alvim, 1996), Fernando Cabral Martins anota ter mantido a forma inegualável porque a «grafia de hoje, inigualável, implicaria uma alteração fonológica» (p. 278), não se apercebendo de que o <e> de inegualável representa o fonema /i/, que o <i> afinal identicamente significaria. Não só portanto a grafia conservada se torna supérflua, como há o risco de inculcar ao leitor uma pronúncia virtual (com e «mudo» ou com /e/).


Nem sempre uma alteração de grafia implica uma alteração fonológica, pelo que a decisão entre manter ou não dada grafia não é tão simples como pode parecer.

Passando à segunda citação, desta vez da edição de «O Que Fazem Mulheres», também da Caixotim:

Não se tratando de uma edição crítica, não se justifica o registo em rodapé de variantes verificadas no confronto entre a 1.ª e 2.ª edições. Como norma geral, procedeu-se à actualização da grafia, mantendo embora os traços fonéticos e fonológicos que representam realizações da época da escrita ou traços específicos do idiolecto camiliano. tal como já efectuado para títulos anteriores, conservaram-se formas como dous, douda, noute, amoldurar, soledade, etc., mesmo que por vezes, em paralelo com outras, alternantes (caso de dois, coisa, noite), pois correspondiam a realizações fonéticas ainda não uniformizadas na língua-padrão ou no uso do próprio autor. Corrigiram-se os lapsos evidentes, resultantes das condições de escrita ou de revisão cometidos pelo Autor ou por quem, em seu lugar, procedeu à correcção das provas tipográficas.

Continuamos convictos de que, com estes cuidados, a inteligibilidade do discurso camiliano não sofrerá a mais ligeira quebra e que, por outro lado, ele poderá manter mais íntegro o seu sortilégio, pois com essa discreta e necessária intervenção o leitor não perderá o menor dos efeitos estilísticos que o Autor quis conferir-lhe, pelo cunho inconfundível e tão autêntico das modulações da língua que falava ou que punha na boca das suas personagens, depois de a ter bebido na fonte inesgotável dos clássicos e no vivo linguajar do povo, entre o qual crescera e vivera tão longa parte da sua vida.


Cá está. Dispensam o aparato crítico, mas nem por isso prescindiram da comparação entre as primeiras edições, nem da redacção de alguns parágrafos acerca do processo de revisão, indicando o texto-base e os critérios gerais pelos quais se regeram.

Em resumo, temos portanto duas abordagens possíveis:

A actualização total - relativamente fácil de efectuar, mas que pode apagar marcas características do autor ou da época.

Actualização parcial - apenas quando a actualização não implica alteração fonológica. Mais complexa e, portanto, com maior possibilidade de erros.

O que sugiro, para já, é um meio termo, que consiste nos seguintes pontos:

- A partir de agora, assinalar em comentário, no ficheiro de revisão, estas situações, permitindo assim a sua alteração consoante a evolução dos critérios aplicados no projecto.

- Coligir uma lista de palavras cuja grafia deve ser mantida, que permitirá cobrir a grande maioria dos casos que encontraremos em textos do sécs. XVIII-XIX (casos comuns como dous, dize, oiro, etc.). Para casos em que não é claro se existe ou não alteração fonológica, actualiza-se a grafia. Note-se, no entanto, que existirão sempre situações específicas para cada autor, como, por exemplo, as palavras inventadas; aí, terá mesmo de ser feita uma análise caso a caso.

- Passar a incluir uma breve nota explicativa nas nossas edições, passando a referência ao texto-base a constar nesta, ao invés da ficha técnica.

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Re: Frei Luís de Sousa [Em Desenvolvimento]

Postby vampiregrave » 21 Apr 2016 08:54

Acabei por adoptar uma abordagem menos restritiva, actualizando a ortografia na maioria dos casos. Em breve disponibilizarei uma versão para leitura final, portanto creio ser uma boa altura para começarmos a sugerir imagens de capa para podermos dar início à votação do costume.

Pelo que pude verificar, existe uma adaptação cinematográfica da obra mas, sendo de 1950, não creio que possamos utilizar imagens do filme.

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Re: Frei Luís de Sousa [Em Desenvolvimento]

Postby Jack » 22 Apr 2016 03:17

D. João de Portugal (1863), por Miguel Ângelo Lupi
Spoiler! :
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Re: Frei Luís de Sousa [Em Desenvolvimento]

Postby vampiregrave » 22 Apr 2016 08:56

Caramba, fartei-me de procurar e não consegui encontrar nenhum retrato do D. João de Portugal. Obrigado :tu:

Já adicionei ao post original. Vai ser difícil encontrar algo mais apropriado, até porque o quadro ilustra uma das cenas mais importantes da peça.

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Re: Frei Luís de Sousa [Em Desenvolvimento]

Postby pco69 » 22 Apr 2016 13:27

- Quem és tu Romeiro?
- Ninguém!

Refiro que a peça está em cena no teatro de Almada
Versão completa (2h) :P
Fenómenos desencadeantes de enfarte do miocárdio

Esforços físicos, stress psíquico, digestão de alimentos, coito, tempo frio, vento de frente e esforços a princípio da manhã.

Ou seja, é extremamente perigoso fazer sexo ao ar livre com vento de frente, após ter tomado o pequeno almoço numa manhã de inverno...

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Re: Frei Luís de Sousa [Em Desenvolvimento]

Postby vampiregrave » 22 Apr 2016 13:39

Não estou certo se já vi no teatro quando era mais novo. De qualquer das formas, deve ser das peças mais representadas em Portugal.


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