Post 22 May 2011 04:07

Overdose

Ela não queria estar assim. Quer dizer, se calhar até queria, nem que fosse pelo entusiasmo e pela antecipação de algo aprazivelmente desconhecido.

A multidão à sua volta amotinava-se contra ela, dizendo-lhe que tinha agido mal com ele, que não tinham um bom padrão comportamental e todas as coisas depreciativas que as pessoas com a mentalidade movida pelas massas e não pela vontade própria costumam papaguear.

Ela não se arrependia, nem acreditava ter errado. Ele não era pertence de ninguém, ao contrário do que as formalidades da sociedade ditavam, só porque ele mantinha contactos íntimos ocasionais com a outra. Ele não pertencia a ninguém. Era um espírito livre, rebelde, sarcástico, artístico, boémio, intelectual, pervertido, desembaraçado, manipulador, encantador. Ele não lhe pertencia, nem a ninguém, mas ela queria permanecer no panorama da sua vida pelo menos mais alguns momentos. Sentia no seu intimo que muito faltava para ser feito e dito entre os dois, entrevia todos os momentos libertinos e prazerosos que podiam partilhar e que talvez não pudessem concretizar senão um com o outro.

Ela não acreditava no amor, nem na fidelidade, nem na eternidade, mas acreditava no orgasmo da liberdade, no calor da paixão, no climax da loucura, da libertação da selvageria. Isso ela conhecia, isso ela conseguia sentir, aproveitando-o como apenas uma quantidade diminuta de seres humanos conseguem.

Ele... ele conhecia tudo isso e adorava essas todas essas coisas da mesma forma sádica e infernal que ela. Por isso ela ficou assim... Naquele estado de obsessão, de apaixonamento animal. Ela não queria ficar assim, não queria estar demente por ele, ansiando por beber da sua pele novamente. Mas sabia, sabia indubitavelmente que havia muito ainda por experienciar. E ele sabia. Ele tinha-lhe dito. Dissera-o por palavras variadas vezes, mas dissera-o mais intensamente ainda no seu olhar de animal selvagem fascinado, nos seus gestos agressivos e obsessivos, nas suas mãos imparáveis e açambarcadoras, nos seus suspiros de calor e prazeroso desespero durante toda aquela pantomina interminável e extasiante.

Ela não era uma romântica, não buscava nele o amor de um companheiro, apenas procurava saciar o seu vicio, acalmar o leão que rugia no seu ventre de cada vez que pensava nos momentos que tinham passado. Precisava da sua droga, aquilo que sempre a aliciara e marcara mais que tudo, a sua adição por emoções fortes, por aqueles momentos com uma carga simbólica e emocional tão pesada que a esmagavam durante tempos sem fim depois de os ter experienciado, deixando-a sempre num estado de deleite latente e imenso. Ele tinha-lhe proporcionado uma dose da sua droga privada que quase a levara à overdose e, como qualquer dependente, ela precisava de testar os seus limites cegamente, de experimentar uma dose mais forte, só mais uma dose...
<!--coloro:#800080--><span style="color:#800080"><!--/coloro--><b><!--sizeo:3--><span style="font-size:12pt;line-height:100%"><!--/sizeo--><i><!--fonto:Book Antiqua--><span style="font-family:Book Antiqua"><!--/fonto-->"We are all in the gutter, but some of us are looking at the stars" - Oscar Wilde<br /><br />"I have promisses to keep and miles to go before I sleep." - Albert Frost<br /><!--fontc--></span><!--/fontc--></i><!--sizec--></span><!--/sizec--></b><!--colorc--></span><!--/colorc-->