O segredo da Cartuxa - Paulo Moura e Nacho Doce

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Cerridwen
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O segredo da Cartuxa - Paulo Moura e Nacho Doce

Postby Cerridwen » 24 Dec 2007 15:46

O segredo da Cartuxa
Paulo Moura e Nacho Doce


Editora: Pedra da Lua

Por uma vez na vida, não foi preciso ser monge para entrar no Convento da Cartuxa, em Évora: o lançamento de um livro abriu as portas de um mundo de silêncio, clausura e despojament

O recolhimento habitual do único mosteiro contemplativo masculino do país foi perturbado num fim de tarde frio para os irmãos cartuxos abrirem as portas da sua casa e darem as boas-vindas a estranhos curiosos para desvendar os rituais e o sentido do seu modo de vida.

O pretexto para tanta agitação é, afinal, a revelação de O Segredo da Cartuxa, um livro do jornalista Paulo Moura e do repórter fotográfico Nacho Doce lançado na quarta-feira, fruto de seis anos de visitas à Cartuxa, apesar dos repetidos «não» ouvidos tanta vez da boca do padre mestre Isidoro.

«Até hoje, nunca percebi porque nos deixaram entrar», admite Paulo Moura, repórter do jornal Público autor do texto, recordando as várias vezes em que o responsável máximo do convento tentou demovê-lo e a Nacho Doce de continuarem a pesquisar material para o livro.

Foi o mesmo padre Isidoro que hoje, perante cerca de sessenta convidados, admite sorridente que os dois autores são «muito simpáticos, naturais e conseguiram fazer o que queriam, um bom livro».

O barulho no convento é «excepcional, mas uma vez na vida não faz mal», refere, compreendendo a curiosidade dos visitantes e reconhecendo que a vida de um monge pode ser «desconhecida e incompreensível», especialmente para «a gente que vive acostumada ao hedonismo».

Questionado sobre se a presença de tanta gente intimida, responde prontamente: «não me faz confusão nenhuma, afinal eu e vós somos iguais»

Para um leigo, parece haver nos monges um orgulho do seu silêncio. Falam da sua escolha com serenidade, alegria e sem deslumbramento, como se estivessem completamente certos de que foi a correcta.

Mas há uma diferença entre todos os convidados e os doze homens que habitam o convento: por muita fé que se tenha, é preciso uma dedicação total para se deixar o mundo «lá fora» para trás e aceitar que se está num convento para toda a vida.

A vida de um monge cartuxo no claustro de Évora é «austera, pratica-se a solidão, a Cartuxa edifica pelo silêncio», explica o padre Isidoro.

Apesar de poder parecer uma boa maneira de fugir do mundo e da vida, é um modo de vida que não se recomenda aos introvertidos, avisa o padre mestre.

A introversão «muito forte» acaba por ser inimiga da solidão e um «defeito psicológico», afirma o padre Isidoro, acrescentando que para ser monge é preciso «um equilíbrio psicológico muito forte, para conseguir suportar a austeridade e o silêncio».

Quando questionados sobre as saudades do que deixaram para trás, responde que «o coração reclama dos seus ao princípio», mas contrapõe que as saudades passam e a recompensa é «a permanente alegria espiritual» em que vive.

Oração, trabalho e descanso são os três eixos fundamentais da vida dos monges. Embora as horas de trabalho correspondam a um expediente normal, das nove da manhã às cinco da tarde, é difícil apontar a hora exacta a que começa o dia de um monge.

Começando pelo fim, o recolher é às oito e meia da noite, mas à meia-noite, todos estão a pé para cantar e rezar até às três da manhã.

Depois, voltam às celas para dormir até às seis e meia, quando se levantam e se reúnem novamente para a missa.Na maior parte do tempo, estão sozinhos a trabalhar ou recolhidos nas celas, onde podem ler qualquer dos oito mil livros que têm na biblioteca.

«A solidão não é assim tão forte», ressalva o padre Antão, explicando que pelo menos aos domingos, os monges comem juntos e têm a tarde reservada para conversar.

Durante uma tarde de semana, saem também juntos para passear pela propriedade. «Vivemos independentes e auto-suficientes», refere, acrescentando que procuram a «sensação de viver como os antigos eremitas» que estiveram na génese da ordem, fundada por São Bruno há mais de nove séculos.

Uma condição fundamental para viver assim, refere o padre Isidoro, é acreditar que «Deus é o ser único, é o único que existe, os outros só vivem».

Ao seu lado, o irmão Bruno, norte-americano de origem que adoptou o nome do santo fundador da Ordem Cartusiana, mantém-se silencioso até que lhe é dirigida uma pergunta: se corresponde ao perfil de «solitário obediente» com que os monges são descritos no livro.

«Se assim não fosse, faltava-me vocação», argumenta. O irmão Bruno Maria sentiu a «chamada da Cartuxa» há 23 anos, depois de uma passagem pela ordem dos monges trapistas com que não se deu bem: «eles não falavam de todo e isso era anormal», explica.

Abre as portas da sua cela e fala sem restrições, mesmo quando recorda a «diarreia horrível» que há algum tempo lhe valeu uma estadia de duas semanas no hospital.

A sua cela, semelhante à de todos os outros monges, tem um compartimento à entrada onde se guardam instrumentos de trabalho.

Cruza-se outra porta e está-se numa espécie de sala de estar, com uma salamandra e uma cadeira e uma prateleira com uma estatueta de Fátima e um retrato do papa Bento XVI, iluminada por uma lâmpada nua.


Duas portas contíguas dão acesso aos espaços mais íntimos da cela: o quarto, com um armário, uma cadeira e uma cama de ferro, e o oratório, decorado com alguns ícones religiosos.

Afirma preferir a vida no convento em Évora, em que a pequenez da comunidade - doze monges - permite viver «como uma família», ao contrário de outros conventos da ordem que visitou, em que é «difícil conhecer as pessoas».

A casa da ordem em Évora foi construída no fim do século XVI e dedicada à Virgem. Foi-lhe dado o nome de «Scala Coeli», a Escada do Céu.

Em 1834, quando o regime liberal extinguiu as ordens religiosas, os monges foram expulsos e os seus bens nacionalizados.

O convento passou a ser Hospício das Donzelas Pobres de Évora, foi escola de agricultura e foi comprado ao Estado pela família Eugénio de Almeida, que em 1960 acabou por o devolver à ordem.

O edifício é hoje propriedade da Fundação Eugénio de Almeida, que assegura a sua conservação. Viver em clausura não significa que os monges não continuem a ter os olhos postos no mundo. «Nós informamo-nos, sempre serve para animar as conversas», afirma o espanhol padre Antão, o mestre-de-cerimónias do convento.

As notícias relacionadas com a igreja e «os cataclismos» são tópicos de especial interesse para os monges, que preferem ler jornais - assinam um único diário, o Público - a ver televisão ou ouvir rádio.

«Com a imprensa escrita, temos a liberdade de escolher o tema e o momento, a televisão e a rádio impõem o seu horário», afirma.

Enquanto ao toque do sino uma fila indiana de monges encapuzados caminha encostada à parede até à pequena capela onde costumam rezar a oração da tarde, as vésperas, o padre Bruno, norte-americano de origem, distraiu-se na conversa com os visitantes: «eu já devia estar com eles, nem sabia que já aí vinham», desculpa-se, bem disposto.

A capela onde se rezam as vésperas é demasiado pequena para tantos visitantes. No exterior ouvem-se os monges a cantar, num sussurro melódico que repetem várias vezes por dia, todos os dias.

A sua vida tem já um plano traçado, dia a dia, para sempre.

Mesmo depois do fim não deixarão o convento: no centro do claustro, dominado por ciprestes e laranjeiras, há um pequeno cemitério com oito cruzes negras. Austeras, como se quer no Convento da Cartuxa, tanto na vida como na morte.

Fonte: Lusa/SOL

Convento da Cartuxa: E do Segredo fez-se luz (video)

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Re: O segredo da Cartuxa

Postby Lord Wimsey » 26 Dec 2007 02:55

Fascinante. A crónica de sábado de Pedro Mexia, no público, é sobre a sua visita ao mosteiro ( era um dos 60 convidados, penso eu), reúne o que de importante ha a dizer sobre o assunto.

Cerridwen, o livro já foi publicado?

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Re: O segredo da Cartuxa

Postby Thanatos » 26 Dec 2007 08:25

Também nesta linha deixem-me referir o documentário, disponível para aluguer pelos clubes de video do país, Into Great Silence de Philip Groning, que retrata a vida dos homens no Mosteiros de Grand Chartreuse nos Alpes.

Não me recordo o título em português mas fica aqui o link para o DVD na Amazon já que a capa é igual: http://www.amazon.co.uk/Into-Great-Silence...d=3UCJIO7G863VW
Não importa como, não importa quando, não importa onde, a culpa será sempre do T!

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Re: O segredo da Cartuxa

Postby Cerridwen » 26 Dec 2007 12:42

Lord Wimsey wrote:Cerridwen, o livro já foi publicado?

Foi publicado no final da semana passada.


Nota: Aquando da publicação da reportagem de Gomes e Marujo (resultado de uma visita ao Convento da Cartuxa em Évora) o Público disponibilizou uma entrevista a Philip Gröning que pode ser lida aqui: Procuro Deus, não sou turista de mosteiros


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