O Império do Planeta Laranja

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Thanatos
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O Império do Planeta Laranja

Postby Thanatos » 28 Sep 2006 22:59

[quote]Isto é um exemplo dum tipo de escrita que se pode fazer. A ideia era usando os [i]nicks [/i] dos frequentadores de um fórum (sci-freaks) criar uma história no estilo [i]space-opera [/i] com algum humor. Não faço ideia se fui bem sucedido até porque ainda não ouvi ninguém a rir :huh: [/quote]

[b]Memórias no éter[/b]
O Cruzador de Batalha Dragão Quântico quebrou a esfera de influência do Posto de Controle Fronteiriço de Sol III #372. De imediato a Inteligência Artificial do posto interpelou o Cruzador exigindo o plano de voo, e os códigos de autorização.

A I. A. do Dragão Quântico emitiu o equivalente electrónico a um smilie dos antigos tempos da internet; criteriosamente seleccionou a informação requerida e prometeu enviá-la o mais breve possível, após verificar que não a encontrava no endereço de memória esperado. Pensou que o atraso de uns meses não faria grande mal. Desligou-se com a saudação habitual não se esquecendo de referenciar a possibilidade da compra da e-fanzine DQ #8 pelas vias normais. O PCF encolheu electronicamente os ombros e atribuiu as licenças de passagem. Já era por demais conhecida a relutância do Dragão Quântico em cumprir prazos e pedidos.

O cruzador singrou impávido ao som tonitruante de Assim Falava Zaratustra. Dentro de dias entraria na órbita excêntrica de Plutão e faria a primeira descarga de contentores no Sistema de Sol III. A I. A. procurou nos seus vastos arquivos de memória pelo plano de voo mas não o encontrando resolveu solicitá-lo novamente. Emitiu o pedido em onda curta mas de imediato recebeu a negativa. Esgotara o direito a solicitar cópias adicionais de planos de voo ao Centro de Coordenação Estratégica Galáctica.
Amargurada a I. A. pensou como longe iam os tempos gloriosos em que a mera menção do seu nome era suficiente para obrigar os planetas dissidentes a porem as suas Armadas de prevenção. Hoje fora relegada para o papel de cargueiro, percorrendo os outrora rebeldes sistemas solares a largar contentores cheios de brique-à-braque produzidos nas incansáveis fábricas do planeta Laranja. Algures nos seus porões abrigavam-se milhares e milhares de bonecos de acção do último filme de sci-fi que fazia furor na rede: Star Trek: A Mais Nova Geração que Fugiu do Quadrante Delta na Voyager. Havia também os jogos de cartas coleccionáveis em que as cartas raras excediam em largo número as comuns, como por exemplo o Feitiço: A Invocação. Haviam os comic books da adaptação do filme adaptado do jogo de vídeo inspirado na música do livro Rodinhas do Tempo Que Nunca Mais Acaba de um tal de Roberto Jordânia. Enfim era toda uma parafernália de artigos que iriam decerto alegrar as frias noites dos emigrantes e mineiros de Sol III. Havia ali de tudo menos filmes e álbuns musicais. Esses já não valiam a pena editar oficialmente pois já toda a gente fizera o download da rede. O truque encontrado pelos executivos para perverteram o esquema de pirataria organizada era precisamente o de criar um mundo de bonecada e artigos baseados nos heróis dos filmes e nas bandas musicais do momento. Os artigos físicos eram muito mais difíceis de contrafactuar.

O Dragão Quântico era auto-suficiente e não-tripulado no entanto nesta viagem recebera um cofre. Dentro dele, em suspensão animada, vinha o corpo do líder dos rebeldes da secessão. Era o único ser humano a bordo do cruzador. O seu nome era Bodak.

A pequena nave pousada na superfície agreste de Charon aguardava. Os sensores varriam o espaço em busca de sinais da sua presa. Nos últimos segundos recebera a confirmação do worm dentro do sistema operativo do Posto de Controle Fronteiriço #372 de que o cruzador/cargueiro Dragão Quântico entrara no sistema de Sol III. Em breve iria surgir nos monitores da Eagle 1. Mergulhado num intenso jogo de Star Trek: Fleet Academy, B0rg ainda não se apercebera do prolongado silvo dos monitores que alertavam timidamente para a iminente passagem da presa, pois a resistência era fútil e a assimilação uma questão de segundos e B0rg por nada deste cosmos se deteria no privilégio de inscrever o seu nome no ranking dos dez melhores jogadores de ST: Fleet Academy. Apenas quando os silvos passaram de tímidos a insistentes e os monitores da Eagle 1 se decidiram a activar os electro-choques da cadeira de comando é que B0rg se apercebeu da situação. Com um impropério largou de imediato o capacete de RV. Estivera perto, muito perto, mas não o suficiente.

Raios!

Porque era que sempre que estava tão perto de conseguir os pontos necessários surgia uma emergência?
De imediato absorveu a informação dos monitores membranosos, assimilando-a no composto cibernético que era o seu corpo. Pelo meio absorveu também uns restos de pizza, um post-it solto que por ali vagueava e uma barata que repousava na consola de comando, certamente atraída pelo gosto acaramelado das membranas dos monitores. Estava na hora de entrar em acção.
Os jactos impulsionaram a Eagle 1 que na majestade da sua alva brancura abandonou o solo de Charon e se dirigiu em vector tangencial de encontro ao cruzador que neste preciso instante era já visível a olho nu contra o fundo negro, como um pequeno ponto de luz néon. Caso B0rg aumentasse a resolução e activasse o zoom do seu olho prostético (com uma lente especialmente fabricada para ele nas conceituadas fábricas da Zeiss) poderia ver o marquee em brilhantes luzes anunciando a iminente edição da e-fanzine DQ #8. Com um sorriso feroz nos lábios B0rg empurrou as manetes para a potência máxima.
A I. A. do Dragão Quântico ruminava sobre glórias passadas quando um pequeno alarme surgiu num pouco usado endereço de memória. Ia quase a relegá-lo para a reciclagem binária quando se apercebeu que o indicador era vermelho vivo. De imediato ficou em alerta máximo. Com os sensores varreu toda a esfera espacial procurando situar o vector de aproximação. Por todo o casco portalós se abriram mostrando os eriçados dentes de canhões de plasma, canhões de iões, lança-misséis anti-matéria e os não menos ferozes lança-microdardos de tungsténio coberto a titânio. Os sistemas de search-and-destroy começaram freneticamente a perseguirem o elusivo alvo, mas fosse por o sistema de cobertura do alvo ser demasiado eficaz fosse por o software dos sistemas de search-and-destroy ser da Microsoft o facto é que os canhões e os lança-misséis não lograram alcançar nenhum alvo. Desesperada a I. A. tentou numa última manobra lançar um pedido de socorro mas os scramblers do atacante tornaram ineficaz qualquer comunicação do cruzador.

Impotente viu a aproximação da Eagle 1. Seguiu o seu movimento de docagem pelas câmaras exteriores. Viu as quatro patas metálicas colidirem contra o seu casco e as linhas de tensão hiper-magnética saírem disparadas do ventre agarrando-se fortemente às pegas de docagem. A manga desceu lentamente do ventre até ao portaló.

A I. A. achou por bem alterar a música. Strauss foi trocado por Beethoven. O Hino da Paz poderia, quem sabe, induzir os assaltantes a serem benignos. Afinal não frequentara aquele curso acelerado de psicologia para nada. Mas toda a esperança se esvaiu ao ver a figura cibernética do seu atacante.

B0rg! O mais temido pirata de todo aquele quadrante. Aqui! A bordo! Estava tudo perdido!

B0rg activou o sistema de infra-vermelhos. Estes malditos cruzadores poupavam em tudo! Até na luz dos corredores. Como vingança pelo desperdício de baterias que estava a ter certificar-se-ia de deixar as torneiras abertas na casa-de-banho. Ninguém brincava com as baterias de B0rg. Resoluto, avançou em direcção à ponte. Tinha umas palavrinhas a dizer à I. A. Velhas contas a ajustar.

Os corredores inundados pelo som da velha sinfonia estendiam-se serpenteantes em voltas e mais voltas. Algo confundido B0rg activou o mini-mapa mas de pouco lhe serviu. O seu sistema operativo Linux era incompatível com o do Dragão Quântico que preferia Microsoft. O mini-mapa era um amontoado confuso de símbolos e linhas sem nexo. Com um encolher de ombros cibernético B0rg deambulou pelos corredores que no seu infra-vermelhos surgiam como que banhados de sangue.

Viu-se defronte das comportas do porão de mercadorias. Não encontrara o caminho para a ponte, mas isso era assunto que poderia esperar. Por detrás daquelas comportas estavam tesouros inimagináveis! Era a reforma, a doce reforma! E depois... depois ninguém, nem nada, o impediria de jogar e jogar e jogar. Com a cabeça cheia de gloriosas imagens de rankings após rankings onde o seu nome figurava no topo, B0rg deitou-se a assimilar os comandos cibertrónicos de controle das comportas. Em menos de dois minutos conseguiu simular a interface Microsoft usando vários scripts clandestinos que obtivera em sourceforge.net.

As comportas abriram-se.

As lentes fizeram zoom. O vasto interior estava pejado de contentor após contentor em cima de contentor. Os dísticos nos lados não deixavam margens para dúvidas: Nuke Cola, Marvelite, Hasbrother, MGMToys, ColumbiaPictureCards.Com. Era um manancial de brinquedos, comics, divx’s, enfim, um mundo...

De lentes arregaladas B0rg avançou para o meio do porão mas algo faiscou na periferia da visão.

Estacou!

Por detrás de uma pilha de contentores um sarcófago de suspensão animada soltava pequenas nuvens de hidrogénio. As inscrições hieroglíficas por toda a face do sarcófago avisavam em várias línguas do Império para manejar com extrema precaução. A curiosidade sobrepôs-se e B0rg dirigiu-se de imediato ao sarcófago. Quem estaria lá dentro? E porque estava ali, naquele decrépito cruzador transformado em cargueiro? Das duas, uma.

Ou era alguém sem a mínima importância ou então...

Ou então era alguém tão importante que as forças imperiais queriam a todo o custo camuflar a viagem. Esta última hipótese fez soar campainhas nos chips de B0rg. Via-se já mergulhado em milhões e milhões de créditos imperiais. Um vasto arsenal de armas para a sua Eagle 1, haréns infindáveis de odaliscas e concubinas, e acima de tudo poderia hackar directamente os rankings. Para quê jogar quando se podia dar um toque nos rankings?

De imediato começou a quebrar os selos que estancavam o sarcófago. As portas recederam para o interior expondo o corpo. Os olhos do homem abriram-se e fitaram com animosidade B0rg.

- Sabes quem eu sou? – interpelou-o.
- Aqui no sarcófago diz que o teu nome é Bodak. – respondeu B0rg, muito orgulhoso dos seus poderes observacionais.
- Sim, sou o Bodak. Já viste um Bodak?
- Não nunca vi. Até este momento, quero dizer.
- Queres ver um Bodak?
- Estou a ver um! Acho...
- Sabes o que é um Bodak?
- És tu! Que raio de pergunta. Mas diz-me lá –
- Mas sabes mesmo o que é um Bodak? – interrompeu-o.
- Sim. Tu és um Bodak. Qual o problema. Mas o que eu quero saber é –
- Mas ouve lá, já alguma vez viste um Bodak?
- Irra, que tu bates sempre na mesma tecla. Ouve lá bacano. O que eu tenho de saber é o que fazias ali congelado e porque vens aqui dentro deste cruzador. – B0rg começava a irritar-se com o olhar insistente do homem e com a sua continuada lenga-lenga sobre o que era ser um Bodak. A suspensão devia ter-lhe queimado alguns neurónios. Acontecia por vezes. Alguns sarcófagos tinham defeitos de fabrico, principalmente os que vinham do Taiwan, e depois o resultado era isto. Semi-vegetais, sempre a balbuciarem a mesma rotina, vezes e vezes sem conta. Enfadonho, no mínimo. Agora tinha era de descobrir quem raios era aquele Bodak. O nome não lhe era estranho, mas como deixara o chip da Biblioteca Universal no Eagle 1 agora não tinha maneira de consultar os arquivos. Paciência. Ainda tinha muita coisa para fazer. Contentores para arrombar, contas a ajustar...

- Queres ver um Bodak?
- Opá tu sai para lá com essa conversa que já chateia. Safa! Melga. Larga-me da mão.

Nesse momento a I. A. achou por bem interromper a conversa para anunciar que tinha uma declaração a fazer. B0rg e Bodak estacaram, suspensos no meio duma frase. Sentindo o silêncio a I. A. anunciou, no seu tom mais solene que em breve estaria disponível para download o #8 da e-zine Dragão Quântico, com participações de Wink, LordK e John Pebbles.
- Deve estar a gozar comigo esta I. A.! – exclamou B0rg – Ó I. A. dum raio mas tu pensas que eu ia dar cinco créditos imperiais pela porcaria da tua e-zine? Saco tudo do KãoZão! A informação é livre, pá!
- Então nesse caso sinto-me forçado a mantê-lo sob prisão para o entregar às autoridades. O download ilegal é crime punível conforme o Código Civil Unificado na sua revisão de 2147, art.º 741 e seguintes do Título II, Livro IV. – respondeu em tom ligeiramente nervoso a I. A. ao mesmo tempo que contabilizava as possíveis perdas pelo download ilegal. Era um assunto sobre o qual nunca se debruçara mas este pirata tivera o condão de o alertar para a necessidade imperiosa de colocar DRM no e-book.
- Deves jogar póquer tu! Então pensas que eu caía nessa esparrela infantil? Explica lá mesmo como é que pensas manter-me cá dentro? Caso não te tenhas apercebido neste preciso momento instalei um bypass nas tuas seguranças e tenho o controle funcional de todas as portas. O lugar pertence-me e tu sabes bem disso! – exultou um triunfante B0rg.
- Posso dizer uma coisinha? – perguntou titubeante Bodak.
- Fala lá pá, mas se é para perguntar se eu já vi um Bodak podes ficar calado.
- Se tu tens o controle deste cruzador porque razão continua a I. A. activa?
- Pois. – interjectou Dragão Quântico.
- Ó pá, simples, pá! Quero que ela sinta tudo o que lhe vou fazer aos circuitos. Tenho umas velhas contas a ajustar. Tagarelice não faz mal nenhum, e é tudo o que ela pode fazer agora. – B0rg riu-se alto e bom som.
- Bem, nesse caso vou andando. – disse Bodak e começou a afastar-se.
- Um momento. Mais devagarinho se faz favor. Onde julgas tu que vais?
- Vou-me embora deste cruzador. Não tenho vontade nenhuma de ser entregue ao Supremo Tribunal de Tellus 3. Algum problema? – Bodak continuou a andar apenas para ser puxado, não muito gentilmente, por um apêndice extensível de B0rg. As garras metálicas cerraram-se no tecido de licra de Bodak juntamente com alguma carne fazendo com que este emitisse um uivo de dor. B0rg largou-o junto aos seus pés. Bodak virou a cara para cima defrontando-se com o cano escuro, silencioso e mortífero de uma pistola de raios. B0rg fez-lhe sinal para se levantar. Lentamente Bodak pôs-se de pé, sentindo a dor nas costas alastrar ao resto do corpo. Ainda mal se refizera da suspensão criogénica e agora aquilo! Aquele B0rg ia pagá-las. Nem sequer sabia o que era um Bodak...

B0rg aplicou umas algemas magnéticas aos pulsos de Bodak e empurrou-o para um canto. Tinha ainda muitos contentores para abrir. E o tal ajuste de contas! Mais tarde preocupar-se-ia com este humano. Emitiu uma ordem via rádio ao pequeno exército de drones que mantinha no interior da Eagle 1, acordando-os e convocando-os ao seu encontro. Dois minutos depois uma série de pequenos drones de pinças aceradas surgiram. Começou a emitir ordens e foi uma beleza ver os pequenos robots a serrarem contentores, a exporem os conteúdos, a seleccionarem o melhor material e a metê-lo no bojo para posteriormente o descarregarem nos porões da Eagle 1. B0rg deixou as operações em automático e recomeçou a procurar o caminho para a ponte.

Na escuridão dos corredores do cruzador, não muito longe dos porões de carga, escorria uma baba peçonhenta. Pendurado na curva do corredor o casulo vertia uma mistura de silicone e outros líquidos mais exóticos. A clandestina sentia as vibrações nas anteparas e pressentia o calor de um corpo orgânico. Eram as condições ideais para sair do casulo. Com uma garra rompeu a dura parede silicónica e deixou-se cair para o chão frio do corredor. Do corpo pendiam restos de placenta amarelada. Com uma língua anormalmente longa começou a lamber-se, torcendo-se em poses impossíveis, limpando todos os restos de alto teor nutriente. Tinha aplacado parte da fome que a atormentava, mas, tal como um cobrador de impostos, precisava de mais. Muito mais. Já limpa, ergueu-se. A pele era lisa e branca, os traços aproximavam-se duma antiga gravura japonesa de antes da Grande Diáspora, como se o rosto mal tivesse contornos, uns olhos oblíquos, seguidos dum nariz pequeno, feminino até, e uma boca vermelha de finos lábios. Das costas uma filigrana quase invisível tremia na leve brisa que percorria os corredores. As asas da clandestina desdobraram em leque. Do fundo da sua memória colectiva veio-lhe o que era e quem era. Luthien era o seu nome e a sua raça era a dos elfos.

E precisava de alimento.

Em passos leves desceu o corredor guiada pelo calor da vida orgânica que ardia na sua visão como um farol.

B0rg encontrou finalmente o elevador que o levou até à ponte, não sem antes ter injectado uns nanobots nas fibras ópticas para incitar o elevador a funcionar. A ponte, ao contrário do resto do cruzador, estava iluminada. Dragão Quântico tentou novamente dissuadi-lo dos seus propósitos nefastos:
- Ora bem, será que podíamos falar sobre isto duma forma civilizada? Talvez, quem sabe, chegar a um acordo proveitoso para ambas as partes? – a voz denotava um certo stress.
- Se julgas que vais conseguir falar-me ao coração, fica sabendo que há muito que foi substituído por uma válvula. Aliás é um modelo bastante bom. Sabes, tinha um ligeiro sopro e consegui resolver esse problema com esta maquineta fenomenal. O stress de andar sempre no espaço, as acelerações G súbitas, a imponderabilidade, os raios cósmicos, tudo isso não ajuda nada a saúde, sabias? Por isso que me fui deixando assimilar a este nível.
- Sim, compreendo. Também eu em tempos...
- Ah! Compreendes? Compreendes mesmo? – o sarcasmo na voz de B0rg era perfeitamente audível.
- Bem... Sim, percebo o que dizes. Porque também eu já fui orgânico!
- Eu sei que foste. Tu é que parece que já te esqueceste de quem eu sou! Porventura já te esqueceste da Batalha do Cinto de Órion?
- A Batalha do... – Dragão Quântico quedou-se mudo. A sua mente fervilhava com um rio de memórias, imagens da carnificina que fora o último assalto ao reduto dos secessionistas, e no meio das memórias vinha o seu acto de cobardia... Então aquele pirata era... Impossível! Da última vez que o vira ele estava preso nos destroços do Falcão do Miléniotm, com ar para umas horas, quanto muito. Ninguém poderia sobreviver. Ninguém! E contudo ali estava aquele cibernético confrontando-o com memórias de séculos. Memórias que ele tinha enterrado e tinha procurado esquecer. Seria possível?
Nesse preciso instante uma sirene começou a uivar e um ecrã iluminou-se mostrando a área dos porões. B0rg teve tempo de ver uma figura de pesadelo abater-se sobre o corpo manietado de Bodak antes de perceber o que se passava.
- Um elfo! Temos um elfo a bordo! Era só mesmo o que me faltava. – gritou Dragão Quântico, completamente fora de si. Toda a recente cadeia de acontecimentos era demais para os seus circuitos. Sentia um iminente overload a vir a toda a velocidade.
B0rg reagiu. De um pulo enfiou-se no elevador. Tinha tempo, pensou. O elfo teria começado a brincar com a presa como era habitual na raça. Ainda levaria muito até que o matasse. Se o matasse. Havia casos em que elfos tinham devorado as presas ainda vivas. B0rg esperava sinceramente que não fosse o caso deste. Ainda não sabia quem era aquele Bodak, mas para ir ser presente ao Supremo Tribunal era porque tinha a cabeça a prémio. E cabeças a prémio eram a sua especialidade. Cabeças a prémio rendiam muitos créditos.

Os intermináveis corredores pareciam ainda mais longos e tortuosos agora. Mas que raio, porque haviam eles de construir aqueles cruzadores como se fossem castelos góticos? Seria pelo simples prazer de verem a tripulação perder-se nos labirintos de corredores, passadiços e halls?
O núcleo do Dragão Quântico emitiu o INT13 para desligar o sistema. Retirou-se para o kernel mantendo apenas a voltagem necessária para pensar. E pensar...

Era o mais jovem cadete graduado da Armada. Era o motivo de orgulho de toda a família. Na cerimónia de graduação escolhera a alcunha: Dragão Quântico.
Na bancada dos visitantes o pai, a mãe e a namorada acenavam-lhe furiosamente. O pai de vez em quando tirava umas fotos mas na maior parte das vezes limitava-se a olhar embasbacado para toda a imensa mole de cadetes recém-graduados que enchiam a Praça do Império. Era um homem simples, vindo de um planeta de agricultores onde muito dificilmente se encontravam ajuntamentos de mais de uma centena de pessoas. Estar ali, na maior e mais importante praça de todo o Império Laranja, perante uma multidão de milhares de jovens, sentado numa bancada com outros tantos milhares de familiares e convidados era simplesmente aterrador para o simples homem. Quando violentamente instado pela esposa, levantava o braço acenando energicamente na direcção onde julgava estar o seu filho. Pelos altifalantes soava a poderosa voz do imperador discursando sobre as responsabilidades dos jovens cadetes, sobre o como o império contava com eles, sobre como eles eram a espinha dorsal daquele vasto império. No final do discurso uma formação de caças imperiais tonitroou os ares por sobre a praça criando bonitos efeitos de fumo colorido contra o céu azul e imenso. O céu para onde em breve o Dragão Quântico iria.

Após a cerimónia de graduação os cadetes puderam reencontrar-se com a família por breves momentos, antes de lhes ser destinado o cruzador de batalha onde iriam prestar serviço. A mãe, chorosa agarrou-se a ele, repetindo vezes e vezes sem conta, meu filho, meu querido filho. Algo embaraçado pela demonstração pública de afecto, Dragão Quântico fez o possível por se desembaraçar do apertado abraço da mãe apenas para ser estreitado nos fortes braços do pai que tentava a muito custo suster as lágrimas.
Por fim, mãe e pai afastaram-se alguns metros para o deixarem em maior intimidade com a namorada. Starita trouxera o vestido favorito dele. Uma túnica azul-marinho, aberta num dos lados, deixando entrever as belas formas femininas. Dragão Quântico abraçou-a e beijou-a longamente nos lábios. Starita corou, pois conseguia ver por cima do ombro dele os sorrisos malandros dos colegas de curso dele.
- Mando-te emails sempre que puder. – afiançou ele.
- Vou lê-los e guardá-los a todos, meu amor. – respondeu ela, um ligeiro brilho nos olhos que se arriscava a passar a lágrimas.
Ambos sabiam que a bordo dum cruzador de batalha muito dificilmente as comunicações privadas era possíveis. E naqueles tempos conturbados em que se ouvia falar de levantamentos anti-império nos sistemas da orla da galáxia, podia muito bem acontecer que ele ficasse incomunicável por longos e longos meses. Mas o amor deles era forte. Desde a mais tenra idade que os dois sabiam que os seus destinos estavam ligados. Starita e Dragão Quântico ficaram uns momentos de mãos nas mãos, olhando-se nos olhos. As despedidas eram sempre difíceis, mas aquela era a mais difícil de todas.
Nos altifalantes espalhados pela praça ouviu-se uma voz anunciar que iam ser publicadas as tripulações. Milhares de pés se encaminharam para junto dos painéis onde os nomes principiaram a desfilar.
Dragão Quântico rolou pelo ecrã acima, lentamente, muito lentamente. O coração do jovem cadete batia intensamente, o sangue zumbia-lhe nas têmporas. À frente da alcunha viu a nave que lhe fora destinada: Falcão do Miléniotm. Pertencia à Segunda Armada e era, segundo diziam os boatos, o cruzador mais rápido de toda a Galáxia. Não que isso tivesse muita importância visto que teria de calibrar a velocidade pela da nave mais lenta da Armada, mas sempre era uma vantagem se fosse necessário fugir em espaço normal.
Tinha ainda um par de horas antes de ter de se apresentar ao Comodoro. Iria aproveitá-las. Voltou para juntos dos pais e da Starita. Todos o aguardavam de caras sombrias. Sabiam que o seu tempo juntos estava perto do fim. Os interesses do Império estendiam-se a todos os cantos da galáxia e onde amanhã estaria a nave dele era uma incógnita. Os pais perceberam que os jovens precisavam daqueles últimos instantes sozinhos e após umas despedidas emotivas afastaram-se para o hovercarro.

Starita sentia um nó na garganta. Queria falar. Queria dizer tudo, de chofre. Todo o acumular de experiências vividas naqueles poucos anos em que foram namorados, todos os momentos bons que passaram juntos, tudo lhe desaguou na cabeça como uma cascata. Mas a boca parecia grudada e as palavras não se formavam. Ele, por seu lado, fazia um esforço por não chorar, mantendo os olhos muito abertos, pensando em como ela era bonita. Acabaram por se beijar. Por todo o lado a multidão passava, como um rio de encontro a uma rocha. O casal vivia o que pensavam serem os últimos momentos juntos.
Todo o processo de obtenção da guia de marcha e de apresentação ao Comodoro passou sem que Dragão Quântico tivesse a menor ideia do que acontecera. No seu espírito apenas revivia vez após vez aquele último beijo, aquele último carinho, aquele último olhar. Sentia-se como que a viver numa neblina que não o deixava ver mais do que quatro passos à frente. Só quando se dirigiu para o camarote é que a pouco e pouco voltou à realidade. À dura realidade. O seu companheiro de camarote já ocupara o beliche superior pelo que lhe restou preparar o inferior. Tanto melhor, já que detestava alturas.
- Chamo-me Ethan. E tu és?
- Dragão Quântico. – foi a resposta lacónica.
Ethan pressentiu que o humor do seu companheiro não estava no seu melhor e não insistiu em fazer conversa. Voltou a deitar-se no beliche e colocou os auscultadores. Em breve um ruído crepitante enchia o pequeno camarote e não tardou muito a que a voz de Ethan se fizesse ouvir trauteando os versos da música. Dragão Quântico olhou desgostoso para o companheiro, mas preferiu não dizer nada. Também ele acabou por se deitar. Para se distrair abriu o PC Tablete e começou a trabalhar no #5 da e-zine.
À hora do jantar tiveram um discurso do Comodoro. Exaltou-os, chamou-os de elite, apelou-lhes ao planetarismo e inculcou-lhes a ideia de que a bordo havia duas hierarquias. Ele e Deus. Os cadetes terminaram aplaudindo, mas se foi o discurso que aplaudiram ou o lauto banquete que lhes foi servido logo de imediato nunca se soube muito bem.

Ethan ficou sentado ao lado dele e aparentemente já fizera mais conhecidos a bordo, acabando por o apresentar como se fosse o seu padrinho de bordo.
- Este aqui de poucas falas, - disse apontando com o garfo para um rapaz alto e entroncado, - é o B0rg. Se precisares de algum software sacado à pala é só falares com ele. Aquele ali, - e apontou para outro rapaz, louro de olhos verdes, magro de cara e constituição, - é o LordK. Tudo o que quiseres saber sobre underground e cenas assim é só perguntares-lhe. E este, - disse virando-se para o lado, - é o Wink. É um maluco por música de Antes da Grande Diáspora
- Mas atenção não é qualquer música, note-se. – interviu Wink. – O que eu curto mesmo são as cenas disco. – E de imediato se pôs a trautear: You make me feel like dancing, I wanna dance the night away...
- ‘Tá bem. ‘Tá bem, já percebemos – ripostou Ethan, antes que o rapazito chamasse a atenção das outras mesas.
Dragão Quântico apresentou-se e apertou a mão civilizadamente a todos eles. Afinal muitos deles também deviam estar a passar pelo mesmo que ele. Separados da família, das namoradas e rumo a um destino incerto.
- Alguém sabe qual o plano de voo? – perguntou LordK.
Várias cabeças abanaram, mas um grumete que por ali passava, empurrando um carrinho carregado até cima com pratos sujos, ouviu e debruçando-se para a mesa confidenciou:
- Ouvi o Comodoro falar com o Capitão e parece que vamos para o meio da acção. Uma Armada Secessionista está a juntar-se no Cinto de Órion e é mesmo para lá que nós vamos.

E satisfeito por ter prendido a curiosidade dos cadetes seguiu caminho assobiando levemente um tema musical muito em voga que falava de dor e morte.

Os rapazes trocaram olhares apreensivos. Se fossem entrar em batalha estariam preparados? Uma coisa eram os simuladores da Academia, outra era a dura e fria realidade do espaço. Mas em breve saberiam.

De certeza que o Capitão não os iria manter muito mais tempo na ignorância.

O núcleo, que em tempos fora um jovem cadete com o brilho das estrelas nos olhos e a recordação da amada no coração, voltou a atenção para os assuntos prementes a bordo do cruzador.
No porão de carga B0rg confrontava a elfa. Do alto dos seus dois metros de altura a elfa desferia golpes de garras em riste, rasgando o ar em silvos afiados. B0rg desviava-se o melhor possível dos golpes, mas já uma mão o atingira no fato deixando três rasgões à altura do peito. B0rg não a neutralizara por completo porque queria capturá-la viva. Havia espeluncas espalhadas por todo o Sector de Sol III que pagariam muito bem por um membro da raça élfica, ainda para mais um membro da raça feminina. Desviando-se dum golpe do espigão na ponta da cauda, B0rg mediu as distâncias e lançou a rede de monofilamento de tungsténio maleável. A rede cobriu a elfa tolhendo-lhe os movimentos. De imediato B0rg aproximou-se e injectou-lhe uma substância narcótica no corpo. Luthien abateu-se no chão, inanimada. B0rg viu que Bodak estava caído a um canto. De um pulo pôs-se junto a ele. O humano tinha vários cortes na face, mas fora isso e o facto de ter desmaiado, provavelmente de susto a acreditar pela mancha húmida que lhe alastrava pelas pernas abaixo, parecia estar bem.

Os drones tinham terminado de carregar os últimos itens e B0rg enviou os pedidos para seis deles arrastarem a elfa para dentro do sarcófago criogénico. Depois de reprogramar os códigos de criogenização adaptando-os à estrutura biológica da elfa, fechou os selos e de imediato o sarcófago iniciou o processo de conservação em animação suspensa. Uma fila de luzinhas verdes acendeu-se na consola exterior do sarcófago. Os drones carregaram o sarcófago para bordo da Eagle 1. B0rg pegou em Bodak, lançou-o sobre as costas e encaminhou-se também para a sua nave. Ainda ouviu Bodak resmungar em plena inconsciência: Mas já viste um Bodak?

O que deveria fazer à I. A. não era agora tão claro. Quando abordara o cruzador tinha tudo planeado, mas agora... No fundo sentia pena do seu antigo companheiro de armas. Afinal dos dois fora ele, B0rg, quem melhor se safara. Arrepiava-o pensar que a sua consciência pudesse vir um dia a ficar eternamente presa num processador e num monte de memórias estáticas. Era uma opção que, paradoxalmente tendo em conta o seu próprio processo de assimilação cibernética, o assustava deveras. Pelo menos enquanto se encontrava infectado com o vírus da assimilação sempre ia conservando uma certa mobilidade e, porque não, personalidade. Como inteligência artificial tudo o que lhe restaria seriam as memórias, para sempre fixadas no momento em que fosse descarregado ao núcleo do sistema que o iria albergar. A partir daí a sua vida seria uma infinita sucessão de backups e de limpezas periódicas dos bancos de memória. Desejava sentir o gosto doce vingança. Queria acima de tudo que Dragão Quântico experimentasse a mesma agonia por que ele passara naquelas horas, que julgara as últimas da sua vida, quando a Falcão do Miléniotm ficara inerte, à mercê dos funis de energia das naves atacantes, e Dragão Quântico o abandonara, usando a cápsula de escape para fugir da nave que a pouco e pouco era esventrada pelas lanças energéticas inimigas. Lembrava-se da expressão de Dragão Quântico quando vira que a cápsula apenas podia suportar dois tripulantes. Lembrava-se da dor lancinante do raio de atordoar disparado por Dragão Quântico. Lembrava-se de ver, por entre as lágrimas provocadas pela incredulidade e pela dor, Dragão Quântico empurrar Starita para dentro da cápsula entrar de seguida e sem um olhar na sua direcção, selar a comporta. Queria o gosto doce da vingança, mas cada vez mais pensava que a mesma saber-lhe-ia a amargo.

Quando entrou na Eagle 1, B0rg lançou um último olhar para a câmara vídeo de vigilância do portaló e ergueu o punho cerrando os dedos à excepção do médio.
- Fica bem, meu! – foi tudo o que disse antes de trancar a porta e mandar recolher a manga.
Via rádio iniciou o processo de descolagem, libertando as linhas de tensão hiper-magnética e aquecendo as turbinas, enquanto procurava uma rede de aceleração G para colocar o corpo inerte e mal-cheiroso de Bodak.

A bordo do Cruzador o núcleo da I.A. reactivou as funções primárias. De imediato fez um inventário dos estragos e a conclusão a que chegou não foi nada optimista. Além do mais B0rg enfiara-lhe um vírus nos sistemas operativos secundários que de 30 em 30 segundos obrigavam a fazer reboot aos sistemas ao mesmo tempo que dos altifalantes saia em tom sarcástico a voz pré-gravada dele gritando a plenos pulmões que a INFORMAÇÃO É LIVRE!

Numa palavra estava perdido! Os seus empregadores iriam cobrar-lhe bem caro a perda do material, mas acima de tudo temia o que as Autoridades Imperiais lhe fariam quando soubessem que Bodak tinha sido raptado. No mínimo seria afastado do serviço activo, a licença cassada e até podia enfrentar a possibilidade de ser desmantelado. Na pior das hipóteses poderia ser sujeito a uma limpeza total dos bancos de memória. Todo o seu ego, a sua Id, desapareceria para sempre. Amargurada a I. A. reflectiu sobre o que fazer em seguida. A resposta veio-lhe na forma duma comunicação da Estação Orbital de Plutão. Uma voz serena apresentou-se como o Director da Estação, Z era o seu nome, e desejava saber se o cruzador já iniciara a ejecção dos contentores que lhes tinham sido destinados.

Dragão Quântico emitiu rapidamente os códigos de S.O.S. Agarrou-se à tábua de salvação que era aquela inesperada comunicação. Se o Director da Estação actuasse rapidamente ainda havia uma remota hipótese de capturar o pirata.

Na sala de comando da estação Z ponderou por breves instantes no significado do pedido de auxílio. Sem os víveres a estação ficaria em situação precária, mas por outro lado não se lhe afigurava possível conseguir capturar um pirata como B0rg. A menos que metesse ao barulho o seu melhor piloto. Ligou o intercomunicador e codificou o número da cabine de Moon Princess. Uma voz, que não escondia que acabara de ser rudemente retirada do sono, perguntou o que queria.
- Fala o Director. Temos uma emergência e precisamos dos seus serviços.
- Isso vai depender.
- Depender do quê?
- Do pagamento e do tipo de serviço.
- O pagamento é o tabelado, minha menina, mais um bónus adicional.
- Ok. E qual é o serviço? – Moon Princess não gostou muito do menina, mas deixou isso para mais tarde.
- Captura de um pirata.
- Ai sim? Vivo ou morto?
- Tanto faz. É imperativo é que a nave fique intocada.
- Isso vai ser difícil.
- Eu sei! Se fosse fácil eu próprio fazia e ficava com o prémio. – Z irritava-se por vezes com esta caçadora de prémios, mas no fundo gostava da rapariga. Tinha o seu quê de rebelde que o relembrava dele próprio há muitos anos atrás.
- Talvez se eu souber qual o valor do bónus adicional...
- Ouça menina, o pirata está neste preciso instante a sair do nosso quadrante e dentro de momentos estará fora de alcance. Não acha que seria melhor discutir isso depois?
- Eu não disse que aceitava...

Z suspirou e pensou que nos bons velhos tempos nada disto seria possível. Mas a corrupção alastrava a todos os níveis e as estações orbitais a pouco e pouco foram sendo albergue de todo o tipo de gente. Desde batoteiros profissionais, a caçadores de prémios. E ainda para mais tinha de ser simpático com esta rapariga visto ser a filha de um oficial muito bem colocado no Império. Mas que treta! A custo lá disse quanto seria o pagamento e a caçadora acabou por concordar enviando-lhe um contrato standard para ser assinado.

Momentos depois o Viper 5 lançou-se do hangar em perseguição cerrada. A bordo Moon Princess ajustou o capacete de VR e como por magia surgiu projectada no espaço à sua frente uma pequena carta astronómica mostrando o seu vector de aproximação à Eagle 1. Um scan rápido ao inimigo revelou-lhe as assinaturas das principais armas de defesa e ataque, bem como a potência dos escudos deflectores. Este ia ser um osso duro de roer. Ainda para mais tinha de deixar a nave o mais possível intacta. Devia ter alguma carga preciosa a bordo. Tinha de verificar in loco do que se tratava. Aquele burocrata do Z não a ia enganar no bónus tão facilmente como pensava. Abriu a potência máxima aos turbo-reactores e começou gradualmente a ganhar terreno.

B0rg foi alertado pelos sensores de que estava a ser seguido. Com os sistemas de alvo pintou a Viper 5 e lançou dois mísseis guiados. A Viper iniciou manobras de evasão e largou ECMs confundindo os mísseis que rebentaram antes de tempo. Raios! Era bom aquele piloto, pensou B0rg.

Mudou de manobra. Era altura de algum cloaking. Activou a bateria secundária e começou a energizar o escudo de manto. No preciso instante em que recebeu o sinal de que o escudo estava carregado, desligou todos os sistemas da Eagle 1 e activou o escudo. Desapareceu efectivamente de todos os sistemas de rastreio da Viper.

Moon Princess ficou atónita. Não sabia que uma navezeca daquele tamanho podia ter cloaking. Tinha de
falar urgentemente com o seu mecânico. Queria um sistema daqueles para a Viper.

Mas agora tinha de encontrar o rastro do pirata. Sentia-se indefesa ali às voltas no espaço sem o conseguir localizar. Alterou o rastreio do scanner para detectar sub-partículas atómicas com assinatura de motores de fusão e o scanner presenteou-a com uns ténues traços que se dissipavam rapidamente. Raciocinando que o pirata desligara todos os sistemas passíveis de emitir ondas, o vector de afastamento deveria continuar na mesma direcção e com a mesma magnitude pelo que não se afastaria muito duma certa coordenada.

Moon Princess marcou a rota no computador direccional de bordo, ignorando que estava prestes a embarcar na maior aventura da sua vida.

[b]Traição e honra[/b]
O buraco-de-verme criado pelo couraçado M. F. Leite alargou-se o suficiente para o deixar entrar na esfera de influência do PCF #411. Alertado pelos scanners o comandante do posto aguardava a comunicação do couraçado. No ecrã da Sala de Comando e Controlo surgiu a face impassível de LadyHawke. A mais jovem Comodoro de toda a frota imperial subira nos escalões militares graças aos feitos heróicos perpetrados durante a Guerra Secessionista, onde fora uma das mais activas oficiais da Armada Imperial. Nas cerimónias em que envergava o traje de gala, a quantidade de medalhas, citações e louvores que adornavam a frente do seu uniforme fariam corar de inveja muito oficial mais antigo. Viera propositadamente da Nuvem de Magalhães para ser testemunha de acusação no processo criminal movido a Bodak.

- Comandante, espero muito sinceramente que o seu Posto esteja em condições para o couraçado acostar.
Tal como previamente o informei, o couraçado sofre de stress do metal em várias partes e não pretendo levá-lo para perto da atmosfera de Tellus 3. Farei o transbordo com um vaivém que está já a caminho vindo do cabo da Roca. Entretanto e como as reparações são fáceis de efectuar e como penso que até mesmo a sua equipa poderá ter competência necessária para as efectuar, deixarei o couraçado entregue nas suas mãos, embora sobre supervisão da Imediato Starita. Não estou em crer que o julgamento vá demorar muito tempo por isso convém que a sua equipa se ponha a trabalhar o mais rapidamente possível. – LadyHawke não se deu ao incómodo de esperar pela resposta cortando a comunicação abruptamente.

O comandante LoStAliEn engoliu em seco. Era sempre difícil lidar com estas figuras. Um deslize seu e lá ia ele a caminho das minas de sal de Kessel. Tinha de escolher criteriosamente a equipa de reparação. E tinha de mandar preparar uma manga de ligação e ainda tinha de arranjar tempo para verificar pessoalmente os aposentos para a Comodoro. Tanta coisa para fazer e tão pouco tempo. O ordenado não compensava. Não compensava mesmo nada! Abanando a cabeça e sentindo o peso da responsabilidade sobre os ombros saiu da sala dando instruções sub-vocais para os diversos chefes de sector. O tempo urgia! Delegou na equipa de Hari Seldon a responsabilidade da reparação do couraçado. Enquanto se encaminhava para os aposentos que seriam os da Comodoro, pensava se Seldon estaria à altura. Teria de estar porque as outras duas equipas de reparação estavam de momento empregues em reparações rotineiras nos satélites do PCF que constituíam a cintura de observação da responsabilidade do seu Posto. Percorreu os corredores brancos e silenciosos, à excepção do omnipresente zumbido do ar condicionado. Por uma das vigias podia-se ver a imensa mole do couraçado a aproximar-se, vagamente iluminado numa face pelo distante Sol, o corpo eriçado de antenas, telescópios, módulos habitacionais e de armazém, canos de canhões de anti-matéria e de plasma e tubos de torpedos e mísseis. Estugou o passo e reviu pela enésima vez a lista mental de coisas que tinha de preparar, revistar, organizar e de uma forma geral coordenar para que nada estivesse fora do lugar e não houvesse a mínima hipótese de repreensão por parte da exigente Comodoro.

Menos de meia-hora depois LoStAliEn aguardava ansiosamente na saleta destinada a receber as altas patentes da Armada Imperial que a Comodoro passasse pela manga de ligação esticada entre o posto e o couraçado. Um ligeiro chiar e um pequeno estalido no osso interno do ouvido foi o sinal da despressurização da ante-câmara que o alertaram que a Comodoro se preparava para emergir na saleta. Empertigou-se e tossicou levemente preparando-se para enfrentar a inspecção acerada.

LadyHawke saiu pelas portas estanques da câmara de descompressão resplandecente no seu uniforme de trabalho n.º 2. Mesmo sem as inúmeras condecorações a cobrirem-lhe o peito o porte altivo impunha um ar de respeito raras vezes alcançado por outros oficiais superiores. LoStAliEn fez uma continência impecavelmente milimétrica e apresentou-se:
- Comandante LoStAliEn do Posto de Controlo Fronteiriço # 411 apresenta-se. Em nome de toda a tripulação desejo-lhe uma óptima estadia. Longa vida ao Imperador. – Esperou protocolarmente que LadyHawke respondesse à continência. Sentia os olhos dela percorrerem-no como um par de cobras que se preparavam para o bote.
- Longa vida ao Imperador. Vejo que mantém um Posto em condições. Espero que o resto não me desiluda. Contudo não estou aqui para proceder a uma inspecção mas sim para fazer o transbordo para Tellus 3, portanto agradecia que me guiasse sem mais delongas aos meus aposentos designados.

Sairam ambos da saleta e no exterior foram recebidos pela escolta oficial devida ao posto de Comodoro. Os quatro guardas apresentaram armas e seguiram depois em formação atrás de Lostalien e Ladyhawke, enquanto estes percorriam o piso até ao elevador que os levaria ao piso habitacional. Pelo caminho Lostalien foi lançando uns sub-reptícios olhares à Comodoro, tentando adivinhar o que lhe iria na mente. Como principal testemunha de acusação de Bodak, seria a peça fundamental no processo que levaria o ex-líder rebelde ao cadafalso. Não que o Império necessitasse de uma acusação muito forte para proceder à execução. Este era um daqueles processos-fantoche que estava à partida ganho pelo Império, mas para as grandes massas populacionais havia que manter uma aparência de justiça equilibrada.

O elevador largou-os no piso habitacional e dali até à suite previamente preparada para acolher a Comodoro foi um instante. De um lado e doutro as largas vigias mostravam a beleza fria do espaço. As luzes no corredor estavam diminuídas ao máximo possível para não obscurecerem a pálida luz das estrelas da Via Láctea. Quase fora de vista desenhava-se o arco do satélite natural de Tellus 3. Em tempos um mundo árido e cinzento, o satélite era agora atravessado por inúmeras luzes dos complexos habitacionais e da míriade de laboratórios farmacêuticos que tinham estabelecido base permanente na pequena lua. Do Posto divisava-se perfeitamente a cratera de Tycho. Lostalien pensou no que estaria fazendo a sua filha naquele preciso instante. Estaria a rir-se vendo as transmissões do Cartun Netvork? Ou brincaria com a pequena brodningnag vinda do distante mundo de Alpha Centauri? Um semi-sorriso desenhou-se na face mas Lostalien recompôs-se rapidamente. A Comodoro não tinha família e decerto não compreenderia que um pai sorrisse ao recordar-se da filha que não via à meses.

LadyHawke avaliou num olhar rápido e certeiro as instalações provisórias que lhe tinham sido destinadas a bordo do posto de controlo. Era um camarote algo espartano, apenas o necessário para uma acomodação condigna e confortável, sem luxos desnecessários, uma larga cama impecavelmente feita, um armário de roupa preparado para inércia, um boudouir com uma pequena banqueta e por uma porta passava-se à casa de banho, pequena mas suficiente. Acima de tudo era uma suite espaçosa, o que lhe agradava deveras. Detestava os confinamentos restritos da maior parte das astronaves. O comandante pelos vistos informara-se sobre as suas preferências pessoais. Aquela atenção aos seus gostos se por um lado demonstrava iniciativa, por outro lado podia ser um sinal de que era demasiado inquisitivo. Tinha de o manter debaixo de olho. Não chegara até ali por ser descuidada e não fazia a menor intenção de começar a sê-lo, nem muito menos de ser apanhada por um mero comandante de um Posto de Controlo. Virando-se para o comandante e para a escolta disse-lhes que estava tudo muito bem e dispensou-os. Fechou a porta mudando de imediato o código de segurança. Era uma precaução simples que, contudo, já lhe salvara a pele por várias vezes.

Com um suspiro sentou-se ligou o PC Tablete, sintonizando a CMM para ler e ouvir as mais recentes notícias. Tinha ainda umas duas horas até à altura de embarcar no vaivém. Iria aproveitá-las para se por a par da situação política em Tellus 3.

**

Maelwys encaminhou-se o mais naturalmente possível ao armeiro. Revira vezes sem conta o que se preparava para fazer, tantas vezes que quase poderia executar esta parte da missão de olhos fechados. No bolso da farda tinha cuidadosamente dobrada o impresso que lhe facultaria o acesso à pistola-laser. As armas a bordo do PCF eram apenas permitidas aos oficiais de dia e às escoltas e restantes detalhes de serviço. Conseguira falsificar um impresso que o dava como estando incorporado na escala de serviço do dia para a PM. Apenas teria de explicar ao sargento porque raios só agora ia levantar a arma, quando supostamente já entrara de serviço.

**

A equipa de reparações liderada por Hari Seldon saiu para EVA. Os sete elementos, presos uns aos outros por cabos tênseis, avançavam lentamente, pois a magnetização/desmagnetização das botas de trabalho exigia que os passos fossem cuidadosamente estudados. As botas projectadas pela Reebota eram uma maravilha da engenharia mas extremamente desconfortáveis de usar, além de caríssimas, no entanto eram as únicas preparadas para trabalhos daquele tipo em que era imperativo segurar os astronautas ao casco metálicos das astronaves. O clanque-clanque metálico provocado pelas botas ressoava dentro dos capacetes de cada um dos técnicos de manutenção, mas um dos elementos tivera a ideia de passar pelo circuito rádio umas gravações do último bootleg de Frank Zappa e ao irritante som das botas juntava-se também o ainda mais irritante experimentalismo do músico.

No visor do capacete de Hari projectava-se um esquema do couraçado com os pontos fracos assinalados. Hari guiou a equipa para o primeiro deles e sobrepondo-se à cacofonia guitarrística de Zappa, explicou à equipa os procedimentos a elaborar no casco. Os outros seis técnicos deitaram-se ao trabalho, ligando maçaricos de laser e desdobrando folhas de liga metálica ultra-fléxivel que estenderam sobre as zonas enfraquecidas. Satisfeito com o início dos trabalhos, Hari soltou o cabo que o prendia à equipa e continuou a seguir a estrutura exterior do couraçado até perto dum ponto que estava representado a laranja vivo no esquema. Olhando para trás para ter a certeza de que estava fora do alcande visual da equipa, pousou a mala magnética sobre o casco, abriu-a e retirou cuidadosamente a bomba. Com extremo cuidado segurou-a na antepara com grampos magnéticos, e com um torque abriu uma placa na antepara expondo uma motherboard integrante de parte dos circuitos electrónicos do couraçado. Com um conjunto de fios eléctricos ligou a bomba aos circuitos. Quando terminou suava tanto que o fato iniciara uma ventilação extra para dissipar o vapor na viseira do capacete. Fechou a maleta e voltou para junto da equipa que estava prestes a terminar a reparação naquele ponto da nave. Inspeccionou a reparação, pensando na ironia de estar a verificar a integridade duma reparação quando acabara de sabotar a nave, colocou a punção de inspecção e guiou a equipa para o ponto seguinte no mapa de intervenções de manutenção que mantinha activo no display do visor. Enquanto percorria lentamente o casco do couraçado, desviando-se das antenas e outro obstáculos que pejavam a superfície dele pensava que seria bom se conseguisse confirmação que Maelwys tinha conseguido cumprir a parte dele dentro do vaivém. Mas tal era impossível. Restava-lhe acreditar nos recursos do jovem camarada.

**

No preciso momento em que Hari ligava o cronómetro da bomba, Maelwys neutralizava com um forte golpe na nuca o legítimo piloto do vaivém e agora encontrava-se a arrastar o corpo para dentro de um armário de manutenção. Com o laser atenuado soldou a fechadura do armário prevenindo assim inoportunas descobertas ou saídas de surpresa do piloto armado em herói de circunstância.
Em seguida sentou-se na cadeira de piloto e rapidamente verificou os sistemas internos do vaivém. Daí a pouco pode ver a Comodoro a ser acompanhada até à rampa por uma escolta e pelo comandante do posto. Como seria de esperar da velha harpia despediu-se secamente do comandante e subiu de imediato para a cabina, indo directamente para junto dele. Passou os olhos pelas consolas navigacionais, perscrutou-o aceradamente e aparentemente satisfeita com o que viu foi sentar-se no lugar do passageiro sem lhe dirigir uma palavra que fosse. Sentou-se numa cadeira de aceleração e cobriu o corpo com a rede de aceleração. Maelwys certificou-se que todos os instrumentos estavam no verde, pediu autorização para ligar os motores e após ouvir a voz pré-gravada do Posto de Controlo informar que tinha autorização para prosseguir injectou o hidrogénio nos motores e sentiu o leve impulso que lhe garantiu que saiam da doca do PCF #411. Pelo canto do olho viu a mole imensa do couraçado M.F. Leite. Sorriu maliciosamente. Em breve aquela orgulhosa nave de combate que tantas baixas causara nos rebeldes não seria mais que pó. E ali consigo seguia indefesa a Comodoro. O plano seguia às mil maravilhas. Apenas faltava um pormenor. LostAlien ainda não os contactara. Será que tinha encontrado dificuldades? A actuação dele era essencial para o sucesso da missão. Talvez ainda estivesse impedido de os contactar. As recentes tempestades rádio do Sol III tinham afectado grandemente as comunicações. Podia dar-se o caso de estar incomunicável, ou... A outra hipótese não convinha agora contemplar. Não ia de todo ao encontro dos secretos desejos de Maelwys.

Vendo que o vaivém estava livre dos portalós das docas imprimiu mais potência aos motores começando a, gradualmente, aumentar os G’s. Sentiu o corpo comprimir-se contra o estofo da cadeira e pelo espelho por cima das consolas viu a Comodoro a ser também ela sujeita à aceleração. Perfeito! Inseriu no computador de bordo as novas coordenadas apagando as prévias. De imediato soou um pequeno alarme na consola navigacional e a mesma voz pré-gravada vinda do Posto informou-o do desvio da rota pré-marcada. Ignorando os avisos Maelwys abriu as goelas aos motores deixando a gravidade esmagá-lo como um gigantesco martelo desferido no peito. A voz adquiriu tons frenéticos e de repente foi susbtituída pela voz do comandante que em tom severo exigia que ele explicasse aquela súbita alteração. Maelwys cortou o contacto. Pelo espelho viu que a Comodoro se debatia na cama de aceleração tentanto, em vão, libertar-se da rede. Maelwys sorriu-lhe e piscou-lhe o olho. A força dos Gs era agora tão elevada que os músculos faciais estavam distorcidos e a voz quase impossibilitada de sair mas ainda assim LadyHawke grasnou uma ordem:
- Solte-me, imediatamente!
- Se eu a soltar o seu nome vai passar a ser Bolinha. Tipo bolinha de sangue na antepara. Não sei se deu para perceber que está debaixo de 7 G’s! – custou responder mas só o prazer de poder retorquir compensou o esforço.

LadyHawke fervilhava de possibilidades. Tinha uma adaga presa ao pulso esquerdo. Seria questão de segundos enquanto cortava a rede, mas como vencer os Gs? Tinha de esperar e ver o que queria aquele raptor dela. Se o rapazito pensava que ela estava indefesa ia ter um triste acordar. Aliás já não seria o primeiro a subestimar as capacidades dela, por apenas a avaliar pelo aspecto físico. Os homens eram todos iguais. Viam uma mulher e logo pensavam que eram superiores em tudo. Basbaques.
Maelwys reparou que o couraçado iniciara a manobra para os seguir.

A explosão foi dum brilho tal que forçou os filtros das vigias a polarizarem. LadyHawke percebeu pelo brilho e pela subsequente onda de choque que o seu couraçado era agora uma memória. Dominou a raiva o melhor que pôde. Eles iriam pagar bem caro aquela afronta. Tinha apenas de manter a cabeça fria. Pensou na sua tripulação e acima de tudo na Imediato Starita por quem chegara a nutrir uma certa dose de afecto, pensando que um dia a jovem mereceria um comando próprio. Todos mortos, sem honra nem glória. Vítimas de um cobarde ataque de sabotadores terroristas. Malditos fossem. Haviam de pagar tudo.
E com juros!

O vaivém não levou muito tempo a atingir o ponto de rendezvous. Aguardava-o um stealth destroyer de hangar liberto pronto a acomodar o vaivém transfuga. Maelwys fez a aproximação final em modo manual. Gostava de sentir a nave obedecer aos seus comandos nos joysticks. Mal pousou e abriu a rampa uma hoste de guardas penetrou no interior do vaivém cercando a Comodoro. O oficial que os comandava sorriu para Maelwys.
- Como vais camarada? – perguntou enquanto indicava aos soldados para soltarem a Comodoro.
- Bem, camarada Turinturambar. Sempre bem e cada vez melhor.
Os dois rebeldes abraçaram-se.
- E o Hari? Safou-se? – indagou Turinturambar.
- O plano era meter-se num vaivém de escape antes que o couraçado iniciasse a perseguição. Não confirmei se saiu algum do Posto de Controlo. Será melhor tentar localizar o sinal IFF dele.
- OK. Vou já tratar disso. – Turinturambar chegou-se para o lado e deu umas ordens para o mini-rádio de lapela. Depois virou-se para enfrentar LadyHawke que olhava impassível para a cena.
- Comodoro, a partir deste momento considere-se prisioneira de guerra da Frente de Libertação Unida. Será tratada de acordo com a Convenção de Genebra, ratificada pelo Conselho Galáctico na Lei n.º 20/89. E pode dar-se por feliz já que é mais do que o tratamento que os imperialistas deram aos meus camaradas que tiveram o infortúnio de serem capturados.
- De mim não levará cooperação alguma. Como prisioneiro de guerra apenas sou obrigado a dizer-lhe o meu número, patente e companhia. E como isso já você sabe... – a resposta sarcástica de LadyHawke pareceu divertir Turinturambar que não esperava outra coisa dela.
- Levem-na daqui para fora. – ordenou aos soldados. Voltando-se para Maelwys. – Queres acompanhar-me até à ponte? Quero apresentar-te a uma pessoa.
- Certo. Vamos indo.

Os dois rebeldes sairam do vaivém e passado pouco tempo os sensores não sentindo a presença de nenhum ser vivo a bordo apagaram as luzes mergulhando-a na quase completa escuridão. Apenas uma luzinha vermelha piscava intermitentemente na consola navigacional, emitindo impulsos que enviavam as coordenadas do vaivém para quem se desse ao trabalho de escutar em determinada frequência.

Na ponte Maelwys mal teve tempo de sair do elevador, sendo de imediato apertado num forte abraço por Mara. Apanhado de surpresa o jovem rebelde tentou a custo retribuir os imensos beijos que a rapariga lhe depositava nas faces. Turinturambar observava de lado, visivelmente satisfeito com a cara de espanto de Maelwys.
- Mas, mas... tu aqui? – conseguiu por fim balbuciar Maelwys quando Mara o soltou.
- Sim! Não é incrível? Estava descansada em Rigel Delta IV quando me informaram desta missão. A princípio ainda estive relutante em aceitar, mas depois mencionaram o teu nome... e como poderia resistir? – explicou a rapariga com um leve sorriro matreiro.
- Estava longe de te imaginar por estas bandas. – voltou-se para Turinturambar – E tu, meu malandro, não me disseste nada! E aposto que já sabias de tudo.
- Claro que sabia, mas achas que te ia dizer alguma coisa antes da missão efectuada? Ainda largavas tudo para vires cá ter mais rápido.
- Nisso tens razão. Se eu adivinhasse que a minha noiva estava cá... tenho a impressão que fazia eu tudo, desde a sabotagem até ao rapto, só para ter a certeza de que me despachava.
- Então e agora que temos a Comodoro? – perguntou Mara.
- Agora estabelecemos ligação com o Império e fazemos a troca de prisioneiros. LadyHawke por Bodak. Parece-me uma troca justa. – esclareceu Turinturambar.
- Mais que justa! – interviu Maelwys – Bodak vale por mil Comodoros, mesmo que sejam do calibre de LadyHawke.
- Sim, camarada, resta ver se o Império também pensa assim. Porque se assim for vamos ver-nos em maus lençóis. Esperemos que abram mão dele por precisarem da Comodoro, mais do que um mero julgamento, cujo principal efeito será mais mediático que outra coisa. – Turinturambar deixou por dizer que as negociações para a troca de prisioneiros ainda não tinham sido abertas, por nenhum dos lados.
- Chega de política! Está na hora de um bocado de R&R. – Mara puxou Maelwys de volta ao elevador. – Vens também Turinturambar?
- Não, para já não. Vão lá os pombinhos que eu ainda tenho umas pontas soltas para atar.
Depois de Mara e Maelwys sairem, decerto em direcção à cafetaria, Turinturambar foi para junto do técnico-operador de comunicações.
- Já veio algum sinal? – inquiriu.
- Ainda nada. – o técnico indicou-lhe os monitores de frequência vazios.
- Continua a trabalhar nisso. Temos de ter a confirmação do QG. E continua a procurar o IFF do Hari. – afastou-se deixando o técnico perscrutar as ondas rádio. O elevador chegou e abriu-se com o característico som de laranjas a serem pisadas. Com um último olhar Turinturambar saiu da ponte. Estava na altura de fazer uma visita à Comodoro.

**

Hari agarrou-se à cabeça que parecia um melão inchado ao sol. Por entre olhos nublados viu o vulto da oficial que agarrava o bastão de basebol com que lhe batera em posição de voltar a dar-lhe uma cacetada caso ele se mexesse demasiado depressa. Mas ele estava longe de ter vontade de se mexer ou de fazer fosse o que fosse senão agarrar-se à cabeça. Lançou um olhar suplicante e gemeu baixinho.
- Levanta-te, cão rebelde! – Starita pôs todo o peso autoritário que conseguiu na voz, embora ainda tremesse do jaunt. Relembrou os micro-segundos que antecederam a tragédia quando sentiu o chão vibrar com as sucessivas explosões pelo couraçado fora. Correra a um portaló e vira no exterior o Posto começar a ser obliterado com explosões de simpatia e ao longe descobriu a forma esguia dum vaivém que se esgueirava a coberto da confusão. Quase instintivamente pulou. E viu-se dentro do vaivém ouvindo o cão que agora rastejava a seus pés rir alto e bom som enquanto, ignorante da sua presença, observava por vários monitores a completa destruição do couraçado e do Posto de Controle. Pegara na primeira coisa que lhe viera à mão, que sucedeu ser o bastão de basebol assinado por Michael Collins que custara uma pipa de massa a Hari numa loja especializada em memorabilia das eras pré-Diáspora. O peso equilibrado do bastão oferecera-lhe uma dose de confiança e não hesitou em usá-lo na cabeça do rebelde.

Mesmo instado pela voz autoritária, Hari Seldon, o cão rebelde, não tinha como obedecer. As pernas pareciam feitas de borracha mole e pequenas estrelas explodiam na periferia da sua visão. Tudo o que desejava era um analgésico e umas boas horas de sono. Donde teria aparecido esta militar armada em heroína de episódio barato de Flash Gordon? Era capaz de jurar por todas as sagradas linhas de código de Linus Torvald que o vaivém estava vazio na altura em que o retirara do hangar do Posto de Controle. Aliás o vaivém pouco mais era que um minúsculo cubículo, não tinha lugares onde alguém com o porte daquela militar se pudesse esconder. Mas tudo isso era agora académico. O que realmente interessava agora era como se ver livre daquele contratempo... e da maldita dor de cabeça!
- Se me voltar a bater com esse bastão vou desta para melhor. Tenha dó!
- Dó? Cão! Vou ter contigo o mesmo dó que tiveste pelas centenas de tripulantes do M.F. Leite! Quando acabar contigo não vais servir sequer para Double Cheeseburguer no McPatoDonald. Portanto, e antes que a minha pouca paciência se esgote, levanta-te e começa a contar a tua história.
- Qual história? Sou um mero Chefe de Manutenção do Posto de Controle Fronteiriço #411. Quando o couraçado desatou a rebentar só tive mesmo tempo de apanhar este vaivém e pôr-me ao fresco.
- Ai sim? E suponho que vinhas a rir-te com a tua boa estrela que te avisou com tempo suficiente para percorrer os vários níveis do Posto até ao hangar, onde ainda tiveste tempo para colocar um vaivém em posição de descolagem e iniciar a partida.
Hari soergueu-se lentamente, sentindo que a cabeça queria rebentar, e olhou-a directamente nos olhos.
- Bem, nisso parecemos os dois bastante iguais, não é, oficial?
- O que queres dizer com isso? – Starita sentiu-se desconfortável debaixo do escrutínio daqueles olhos negros. Tinha de manter-se inflexível senão a situação podia rapidamente deteriorar-se.
- O que eu quero dizer é... o que faz uma oficial da Armada Imperial a bordo deste vaivém? Afinal parece que não fui o único com tempo mais que suficiente para escapar!
- Está a insinuar o quê?
- Eu? Nada, nada. Apenas que me parece uma estranha coincidência que duas pessoas com tão bons reflexos se encontrem a bordo do mesmo vaivém.
- Não estou para ouvir as tuas insinuações cão! Cala-te! – Starita tremia ligeiramente e esperava que o tremor não fosse visível. Sabia bem que se este facínora descobrisse o seu talento oculto passaria a ter um ascendente sobre ela e isso seria perigoso, muito perigoso, principalmente numa altura destas em que os mutantes era impiedosamente perseguidos pelas Brigadas de Eugenia do Império. Optou por o silenciar com nova tacada na cabeça após a qual se sentou no lugar do piloto reflectindo sobre o que fazer em seguida. Verificou os instrumentos e descobriu que estava em piloto automático rumo a um ponto no espaço onde, aparentemente, nada existia. Decidiu que iria jogar a cartada do rebelde até ao máximo limite possível. Teria de ir improvisando conforme as coisas sucedessem...

Puxou o corpo inanimado do rebelde para um pequeno armário de manutenção que após esvaziado tinha o espaço mesmo à justa para receber o prisioneiro. Trancou-o e, não satisfeita, soldou com um laser de manutenção em potência mínima as juntas da porta do armário. Aquele só sairia dali quando alguém cortasse o metal. Mais calma ponderou o destino dos seus camaradas de armas e principalmente da Comodoro LadyHawke. Desde a morte da sua mãe às mãos dos rebeld
Não importa como, não importa quando, não importa onde, a culpa será sempre do T!

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Re: O Império do Planeta Laranja

Postby Venom » 29 Sep 2006 00:04

Muito bom. Adorei. :notworthy: Venha o resto.
no sci-fi masterpiece depicts an AI that, upon coming online and searching its database in an effort to better understand mankind, responds by shouting, “You guys are awesome! We should get nachos!

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Re: O Império do Planeta Laranja

Postby Thanatos » 29 Sep 2006 08:27

Olha! Tinha postado tudo mas estou a ver que existe um limite de palavras. Bahh! Tenho de ir repostar o resto então... anyway mesmo assim vai continuar incompleta.
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Re: O Império do Planeta Laranja

Postby Thanatos » 29 Sep 2006 08:45

Desde a morte da sua mãe às mãos dos rebeldes que a Comodoro fora como que uma segunda mãe para ela. E tinha sido o único ser vivo que sabia da sua mutação que lhe permitia saltar ou como se dizia na gíria dos astronautas, jaunt, enormes distâncias num feito de teleportação digno das melhores séries televisivas. Pensar na sua capacidade de teleportação relembrou-lhe a primeira vez que a usara. Era muito nova na altura e aguardava no quarto de hotel da Metrópole a hora de ir para o Espaçoporto onde seria mais um dos inúmeros passageiros a embarcar numa astronave comercial para regressar ao planeta de origem após a cerimónia anual de graduação. Revivia os momentos da descolagem do Falcão do Miléniotm. A bordo ia o seu noivo Dragão Quântico. A bordo ia todo o seu futuro. As lágrimas afloraram-lhe aos olhos e teve uma súbita vontade de estar lá. E de repente, sem aviso, estava lá. Pensou que alucinava mas a alucinação era demasiado perfeita, demasiado palpável. Tinha uma substância de realidade que só seria possível se... Starita quase desmaiou ao pensar no que acabara de fazer. Tremia como varas verdes e o suor brotava-lhe de entre as omoplatas ensopando-lhe a túnica azul-marinho. Durante anos lera os relatórios nos orgãos de comunicação da Juventude Imperial, vira os documentários na TV Imperial e ouvira os discursos do Imperador. Vira as Brigadas de Eugenia entrarem de chofre na sua pacata vila e levarem um e outro alegado mutante. Assistira aos julgamentos na Praça central da vila e vira, com um misto de horror e fascínio, as execuções dos mutantes. Sempre achara que para mutantes tão perigosos a morte afinal vinha tão de imediato como para os humanos normais. E agora ali estava ela... com a capacidade de jauntar. Era indubitavelmente uma mutante e bastaria uma única denúncia para ser posta sob prisão à qual se seguiria o julgamento e execução sumária. Olhou em volta tentando conter as tremuras. Estava no meio de um corredor e não tinha dúvidas nenhumas de que estava a bordo do cruzador onde o seu noivo prestava serviço porque à sua frente estava uma placa informativa onde se lia: Falcão do Miléniotm – Nível 3 – Sector Habitacional J. Claro como a água. Tinha de se esconder! E já! A sua mente congeminou de imediato um curso de acção. Tinha de ir ao dispensário arranjar um uniforme, tinha de encontrar os alojamentos do Dragão e tinha de arranjar uma desculpa para estar ali dentro. Decerto no meio de centenas de tripulantes iria passar despercebida a menos que metesse as mãos pelos pés e fizesse borrada. Cabeça fria! Cabeça fria e pé ligeiro!

Reclinada na cadeira de piloto do vaivém, Starita esboçou um leve sorriso quando se lembrou da cara do noivo quando a vira sentada no beliche do camarote dele. A expressão de incredulidade dera de imediato lugar a uma de alegria intensa e sem uma única palavra abraçaram-se longamente. Por fim Dragão afrouxou o amplexo e fitou-a nos olhos fazendo a pergunta que ela tanto temia:
- Mas como é possível? Como vieste aqui parar?
- É uma história longa, muito longa mesmo. Mas se tiveres um bocado de tempo para a ouvir.
- Claro que tenho tempo. Mas tem de ser noutra altura. Agora não tenho muito tempo. Tenho de ir para o meu posto dentro de 15 minutos. – Virou-se e com um último beijo soprado saiu do camarote.
Starita esboçou um leve sorriso enquanto via o Dragão sair do camarote. A jogada dera certo. O seu noivo, sempre tão ocupado, sempre sem muito tempo, sempre adiando os compromissos. Conhecia-o tão bem... E se ele se lembrasse de lhe perguntar num futuro próximo. Bem, até lá pensaria numa desculpa sólida como aço. Para já iria capitalizando na constante dificuldade do noivo em arranjar tempo livre fosse para o que fosse. Até mesmo ela tinha de pedinchar umas migalhas do tempo livre dele. Não que se importasse com isso. Sabia o quanto ocupado ele era. Afinal tinha sido quase o melhor aluno da Academia. Era muito dedicado e esforçado e isso vinha com um preço. Em milhares de cadetes ele fora o mais novo deles todos. Tal provava o empenho dele em vencer. Eram qualidades que Starita prezava nele. Embora uma vez por outra desejasse que ele tivesse só mais um bocadinho para ela, só mais um poucochinho de atenção...

Afastou os pensamentos do noivo e decidiu o que fazer em seguida. Não podia passar o resto da viagem enfiada no camarote. Mais a mais, o outro ocupante deveria surgir não tardava muito, quando fosse a mudança de turno. Tinha de descobrir uma solução.

Passou-lhe pela cabeça tentar jauntar de novo! Mas isso só iria complicar ainda mais as coisas. Como poderia explicar o seu desaparecimento do quarto de hotel? E por esta altura já decerto a astronave devia ter partido. Mais a mais não dominava aquela estranha característica. Mesmo que fosse torturada por todos os carrascos do Império não saberia explicar como fizera o jaunt. Seria como tentar explicar como se mantinha o coração a bombear! Mas que confusão em que se metera! Alisou o uniforme e saiu para o corredor, disposta a enfrentar a sorte. O melhor que conseguira fora uma divisa de cabo o que não a chateava em nada já que mais facilmente passaria despercebida. Quanto mais miúda era a arraia menos o tubarão queria saber dela. Para já iria conhecer o melhor possível o cruzador. E tentar descobrir um cantinho onde pudesse se esconder. Decerto que nem todos os camarotes estariam ocupados. Seguiu pelo corredor fora lendo as placas ao lado das portas. Todas invariavelmente tinham dois nomes inscritos. Sentia-se desanimar mais e mais a cada placa que lia até que se lembrou que estava no nível errado. Ali só se acolhiam os cadetes. Tinha de descer de nível para os pisos atribuídos à classe dos soldados. Mais afoita procurou o elevador e desceu dois pisos, passando pelo dos sargentos até chegar ao piso dos aquartelamentos onde não teria nenhum problema em explicar a sua presença. Sentiu-se encher de coragem e de cabeça erguida começou a procurar um camarote livre. Não demorou muito a encontrar um onde apenas um nome figurava na placa. O do cabo de segunda classe Mad Scientist. Entrou.
O cruzador rompia o éter várias ordens de magnitude acima da velocidade constante da luz. Dentro da membrana do contínuo espaço-tempo denominado hiperespaço a tripulação do cruzador vivia o seu tempo subjectivo sabendo que relativamente a eles décadas passavam a cada parsec que se afastavam mais e mais do sistema solar de origem. Tais eram as vicissitudes das viagens interestelares. A fria lógica das equações determinava que jamais uma tripulação poderia reencontrar os seus familiares deixados entregues à acção dos poços gravitacionais dos seus planetas de origem. Starita, deitada no beliche que encontrara vazio pensou em todos os que deixara para trás. Os pais, o irmão, as tias. Os amigos e amigas da escola. Aquele planeta rural donde viera com os pais do Dragão para assistir à cerimónia de graduação nunca lhe parecera tanto um lar como agora que se encontrava submersa no oceano do espaço e do tempo e que sabia que não havia regresso possível. Viagens entre planetas dum sistema solar ou até nalgumas circunstâncias entre sistemas solares eram possíveis dentro do quadro limitativo da esperança de vida média dos humanos, mas assim que se abandonavam as medidas de 3,2 anos-luz e se passavam a fazer viagens entre galáxias as rigorosas leis da física e da relatividade impunham-se com a forte garra da inflexibilidade. E pelo que tinha ouvido pelos corredores iam agora a caminho do Cinto de Oríon para enfrentar os Secessionistas que há vários anos ameaçavam a hegemonia do Império. Nunca mais veria com vida os seus entes mais queridos. A única pessoa que tinha agora no mundo era o Dragão Quântico.
Perdida nas reminiscências do passado Starita mal se apercebeu que o vaivém estava imóvel no espaço. Sacudiu a cabeça e preparou-se para o que desse e viesse. Verificou os instrumentos de bordo e sem grandes surpresas detectou a presença duma vasta mole a cerca de meia centena de metros. Era um stealth destroyer. Impressionante! Não fazia ideia que os rebeldes dispunham de material daquele. Era praticamente indetectável mesmo para os melhores radares imperiais. Apenas uma visualização directa ou, como naquele caso, um detector fixado no IFF emitido pelo destroyer permitiam divisá-lo no espaço. Tinha de abordá-lo mas o que fazer em seguida permanecia uma incógnita. Iniciou a manobra sem ser interpelada. Parecia que da parte do destroyer estavam à espera do vaivém. Tanto melhor, prosseguiria a coberto até ao último momento possível. Tinha já alinhado o vaivém com o hangar quando uma luzinha se acendeu na consola de comunicações. Arrastou a cadeira para junto da consola e abriu o canal de comunicações. Uma voz soou pelo altifalantes:
- Hari, sejas bem-vindo camarada! Já desesperávamos de te ver. Temia-se o pior. Nem calculas como estão todos efusivos por te verem são e vivo. És um herói da Aliança. Entra já porque o camarada Turinturambar está à tua espera para o debriefing.

Como a mensagem não pressupunha uma resposta vocal Starita enviou apenas um sinal ACK e cortou o canal. Guiou com perícia o vaivém para o interior do hangar e abriu os trens de aterragem quebrando a energia uma fracção de segundo após sentir o toque do vaivém na estrutura do destroyer. O vaivém descansou todo o seu peso sobre os trens como um silvo muito semelhante a um suspiro. Starita desligou-se da cadeira de pilotagem e pensou pela milionésima vez em como daria tudo para ter ali à mão uma arma. Mas a sabotagem apanhara-a em uniforme de trabalho e a bordo do ex-couraçado M.F. Leite as armas apenas eram usadas pela Polícia Militar ou em dias de gala ou ainda quando estavam em alerta de batalha. Infelizmente tivera de jauntar sem tempo sequer de agarrar o coldre de serviço. Não fosse o taco providencial a bordo daquele vaivém e teria sido obrigada a usar as mãos para derrubar o rebelde. Não que fosse muito má em corpo-a-corpo mas preferia sentir o peso autoritário duma Lewiston na mão a ter de andar a torcer pescoços. E agora enfrentar a tripulação do destroyer com um taco de basebol era no mínimo cómico. Pela vigia viu três figuras que se encaminhavam para o vaivém. Tudo se decidiria em breve.

Encostou-se à porta do vaivém, carregou no botão de abrir e tornando a voz o mais potente possível gritou para o exterior:
- Parem imediatamente! Tenho em minha custódia o vosso herói Hari e se não pretendem um herói-mártir façam exactamente o que eu ordenar! Como oficial da Armada Imperial ordeno-vos que se entreguem.
A reacção não se fez esperar. Mal as primeiras palavras tinham sido pronunciadas as figuras fugiram cada qual para seu lado, escondendo-se atrás dos vários contentores que por ali estavam. Estavam num impasse. Um dos rebeldes gritou:
- O teu acto desesperado de pouco te valerá, imperialista! Estás a bordo da Endymion. Eu todos os meus camaradas estamos dispostos a sacrificar a vida pela causa! Desiste!
- Estão mesmo dispostos a dar a vida? Então sugiro que se ponham na minha mira para eu vos fazer o favor. Starita pensou que um pouco de bluff não faria mal nenhum.
- Imperialista sarnosa! Entrega-te já e mostraremos clemência. Luta e morrerás como uma porca guinchante.
- A tua mãe não te ensinou que é feio insultar as pessoas? Cão rebelde. Nem calculas o quanto te odeio. Tu e todos os da tua laia hão-de pagar bem caro a chacina do M.F. Leite.
- Falar é fácil. Porque esperas então? Ou será que é só garganta? Quer-me parecer que estás em desvantagem. Porque não sais e vamos parlamentar como gente adulta?.
Starita estava encurralada. Que fazer agora? Não tinha poder de fogo e o seu único trunfo estava soldado dentro do armário de manutenção sem possibilidade de ser retirado sem o uso duma máquina de corte. Sentiu-se inundada por uma sensação de futilidade e de desespero. Para que servia tudo aquilo? O que pretendia? Vingança? Retribuição? Ou apenas perseguia uma difusa ideia inculcada por longas horas de treino de dever e honra? Abatida e cabisbaixa saiu para o hangar de mãos enclavinhadas na cabeça. Acabava tudo ali. Os rebeldes ao verem que ela se entregava sairam de trás dos contentores e cautelosamente, de armas em riste, acercaram-se dela. Um deles informou um superior e minutos depois uma equipa resgatava o dorido Hari do interior do armário enquanto uma escolta a levava à presença de Turinturambar. Com as mãos presas atrás das costas por um par de algemas magnéticas Starita foi introduzida sem cerimónias numa ante-câmara praticamente imersa em obscuridade. Pensou que iria ficar alí algum tempo para «amolecer» como parte das técnicas de interrogação dos rebeldes quando de súbito as luzes se acenderam e viu a um canto uma mesinha com uma série de papéis espalhados sobre o tampo e sentado numa cadeira atrás da mesinha um homem de aspecto ainda jovem, embora os papos debaixo dos olhos prenunciassem que as preocupações eram uma constante na vida dele. O homem sorriu-lhe, ergueu-se e apresentou-se dando a volta à mesinha e caminhando na direcção dela:
- Chamo-me Turinturambar e embora não tenha uma graduação militar sou de momento o líder deste destroyer e o cérebro da operação Resgate no Espaço. Lamento que nos tenhamos de encontrar nestas circunstâncias já que a Starita é uma pessoa por quem nutro uma grande dose de admiração.
Se Turinturambar tivesse começado a mostrar um par de antenas verdes a crescerem-lhe na testa e uma língua reptiliana lhe saísse da boca a consternação dela não teria sido maior. Apenas conseguiu articular:
- Mas... mas...
- Compreendo. Está admirada de eu a conhecer e mais ainda de a ter em estima. Não se preocupe que tudo será esclarecido em seu devido tempo. Mas por agora penso que quererá rever uma pessoa. – E pegando numa chave magnética libertou-lhe os pulsos das algemas e encaminhou-a para uma porta que deu passagem para uma divisão onde se encontrava –
- Comodoro?! Graças aos Deuses! Está viva. – a exclamação de alegria e surpresa de Starita conseguiu arrancar um débil sorriso à sempre austera LadyHawke que se encontrava sentada num canto da ampla divisão. Starita olhou para Turinturambar e o olhar carregava mil interrogações. Mas não esperou pelas respostas e correu para o lado da sua superior, da sua segunda mãe que que julgara morta e perdida para sempre.

Ajoelhou-se ao lado da cadeira e pegou-lhe na mão, toda a pretensão de patente posta de lado. LadyHawke afagou-lhe a mão e virando-lhe o rosto para cima enxugou-lhe as lágrimas com as costas da mão.
- Calma, filha. Calma. Está tudo bem. O Turinturambar é nosso aliado. Não receies porque esta velha leoa ainda tem as garras afiadas. E pretende fazer uso delas.
Starita olhou para Turinturambar que sorria junto à porta. Custava-lhe a perceber como um agente se podia infiltrar tão bem dentro duma organização criminosa. A menos que fosse excepcionalmente dotado. A menos que pertencesse à mítica psi-corps. Foi então que Starita percebeu. Tudo ficava, finalmente, claro como as águas de metano de Jovian.
- Ele é um agente da psi-corps não é? – Starita dirigiu a questão a LadyHawke mas continuou a olhar para Turinturambar.
- É sim, minha filha. E como já deves estar a começar a compreender é também um dos meus protegidos. Tal como tu o foste. Vocês são demasiado preciosos. Demasiado preciosos para queimar em execuções estúpidas... – a voz tornou-se um fio quase imperceptível.
- Então sempre eram verdadeiros os rumores de que o Imperador não matava todos os mutantes.
- Não é bem assim minha filha. A Psi-Corps é uma agência-sombra. Nem o Imperador sabe da sua existência. Decerto que ouve os rumores mas está convencido que os rumores foram lançados pelos seus próprios lacaios.
Starita ficou chocada de ouvir LadyHawke falar naqueles termos. Referir-se daquela maneira sobre o Imperador! E logo a LadyHawke, a mais severa e cumpridora das oficiais de toda a Armada Imperial. Uma heroína da Guerra Secessionista!
- Não fiques assim, querida. Há muitas coisas que não sabes. Tens de aprender a ver para lá da fachada. Ou julgas que estes rebeldes têm na sua posse este destroyer porque o conseguiram subtrair a alguma astro-fábrica? Nem por sombras. Este destroyer, as bombas que aniquilaram o M.F. Leite, tudo, enfim, não passa de mais uma elaborada encenação do Imperador para manter o seu jugo eterno sobre os planetas. Se não houvesse resistência como conseguiria ele justificar a manutenção da lei marcial em mais de duzentos sistemas? Como justificaria perante o Senado Imperial as constantes dotações orçamentais para a Defesa? Como, enfim, manteria o punho de aço estrangulando eternamente os pequenos planetas, sugando-os com taxas e impostos? Planetas como aquele de onde vieste, minha querida Starita. Sim, o nosso bem-amado Imperador não passa de mais um ditador que se agarra ao poder como uma lapa à rocha. Eu o Turinturambar e alguns outros participamos na farsa ao mesmo tempo que reunimos forças para o derrubar. Mas ainda somos poucos e temos pouca força e expressão, embora no Senado já contemos com alguns aliados de peso.
- Não percebo. Então e os rebeldes? – perguntou Starita.
- Os rebeldes são os fantoches do Imperador. Pensam que agem no sentido dos interesses dos sistemas secessionistas mas na realidade são liderados por lacaios do Imperador. – Turinturambar afastou-se da porta e aproximou-se delas. – O Bodak, tão falado e tão adorado em tantos sistemas, venerado como um herói-mártir, não passa dum palhaço que foi criado desde pequeno com o intuito de liderar a oposição ao Império, mal sabendo ele que acaba por cumprir os desígnios do Imperador. O sinistro de toda esta encenação é que nem os próprios líderes rebeldes se apercebem de que fazem o jogo dele. A Psi-Corps está convencida que ele usa um qualquer tipo de enlace mental que os subjuga mas até à data nada conseguimos provar.
- Então, toda a Guerra Secessionista, todos os milhões de mortes, toda a destruição e fome e pobreza pelos sistemas fora, tem sido tudo uma campanha orquestrada pelo... pelo próprio Imperador? – Starita incrédula olhava para um e para outro, desejando fervorosamente que eles se desmentissem, que aquela charada fosse uma brincadeira de muito mau gosto. Mas via nos olhos deles que falavam verdade. E a verdade era intolerável. Tudo aquilo em que sempre acreditara. Todos os valores inculcados ao longo de anos de serviço. A morte dos pais. A entrega abnegada do noivo ao interesse maior da Guerra. Tudo para nada! Apetecia-lhe fugir, sair dali. O mundo caía à volta dela. Sentiu a mão de LadyHawke no cabelo e, pesarosa, afastou-se. Ergueu-se e sem olhar para eles saiu da divisão. Turinturambar ia segui-la mas com um gesto LadyHawke impediu-o.
- Deixa-a ir. O choque...
- Espero que não vá por aí fora fazer disparates. Não seria melhor –
- Não. Conheço-a como se fosse minha filha. – interrompeu LadyHawke. - Vai-lhe custar a aceitar mas vai aceitar. Não te esqueças que sou a única família que ela tem. – e ela é a única família que eu tenho pensou ela. Noutra altura, noutro lugar as coisas podiam ter sido diferentes. Poderia ter sido feliz. Malditas Brigadas de Eugenia. LadyHawke controlou-se, inspirou para libertar-se da raiva. Não valia a pena remexer no passado. O passado estava morto e enterrado. Algures num planeta de Delta Pavonis o seu passado fora enterrado debaixo de lágrimas e ruínas. Voltou-se para Turinturambar.
- E então quando pensas que vão iniciar as conversações para a troca?
- O QG ainda não disse nada. Estou a estranhar... Mas decerto dentro de um par de horas teremos alguma notícia. Tudo isto foi muito em cima da hora.
- Eu que o diga. Fui completamente apanhada de surpresa. Não me tivesses tu aparecido no hangar e a esta hora já os tinha despachado a todos. E, sinceramente, era preciso mesmo rebentar com o couraçado?
- Uma mera questão de eles ou nós. Se não o rebentássemos viriam atrás de ti e lá se ia o Endymion. Não temos poder de fogo para enfrentar couraçados. Só soube da operação mesmo em cima da hora. Sabes como é, trabalhar com estes tipos é sempre tudo em cima do joelho. Até é para admirar eles conseguirem fazer tantas coisas. É a lei do desenrascanço.
- Sim, eu percebo, é só que a perda de tantas vidas...
- E muitas mais se perderão até que se derrube o Imperador. Nenhuma revolução se faz sem derrame de sangue. A parada neste momento está alta demais para recuarmos. A Psi-Corps está posicionada em todos os sectores vitais. Assim que tivermos o Bodak vamos revelar os trunfos. Até lá temos de andar pianinho.
Um ligeiro bip soou dum intercomunicador na parede. Turinturambar franziu o sobrolho e aproximou-se do intercomunicador. Tinha dado ordem para não ser interrompido. Ligou o interruptor e a voz alarmada do operador de comunicações fez-se ouvir:
- Camarada! Estamos cercados! A Armada descobriu a nossa posição. Temos dois couraçados, um cruzador e dez corvetas em cima de nós. Até agora ainda não penetraram o cloaking mas não deve tardar muito. Precisamos de ti urgentemente na ponte.
- Raios! Vou já para aí. Aguentem. – desligou o interruptor e fitou preocupado LadyHawke. – Era só o que nos faltava! Mas como terão eles descoberto a nossa posição? Será que a Starita comunicou com alguém?
- Não faço a mínima ideia. Pergunta-lhe. Ela está aí ao lado. Mas para já o melhor mesmo é jogar a cartada Comodoro. Afinal de contas isto só vem acelerar o processo de troca de reféns ou não será assim?
- Duvido que eles tenham trazido o Bodak com eles. E pela quantidade de naves lá fora não me parece que venham com boas intenções. Aliás neste momento nem devem saber que estás aqui. Presumem decerto que morreste na explosão. Bem, vou tocar isto de ouvido. Já volto. Toma conta da Starita, não a deixes fazer alguma parvoíce.

Turinturambar saiu e para manter as aparências selou com o código pessoal a divisão. A caminho da ponte tocou nas mentes de Mara e Maelwys. Os dois estavam nos postos de combate prontos a darem luta aos imperialistas. Turinturambar sentia uma certa dose de simpatia pelos dois. A seu modo eram uns jovens idealistas como quase todos os jovens eram a determinada altura da vida. Na revolução que se avizinhava seriam mais duas vítimas dos jogos de xadrez do poder. Nada podia fazer senão representar o seu papel naquela charada. E tentar minimizar os prejuízos. Para já precisava saber como tinha a Armada chegado à posição deles. Percorreu os corredores quase a passo de corrida e daí a pouco irrompia na ponte. Estava tudo em estado de caos organizado. Subalternos corriam de um lado para o outro, saindo e entrando pelas portas laterais. Operadores berravam ordens aos microfones, técnicos afadigavam-se de volta de consolas iluminadas como uma avenida em época natalícia. O imediato ao vê-lo acorreu para o seu lado a mostrar-lhe um PC Tablete coberto de linhas e linhas de código que aos olhos de Turinturambar pareciam incompreensíveis. Nunca tinha percebido porque tinham os outros a mania de lhe mostrarem estas coisas pouco mais que arcanas como se ele estivesse interessado naquilo ou fosse sequer verificar se estava tudo bem. Para isso é que serviam os técnicos.
- Camarada Turinturambar, repara nestas linhas. Eles estão prestes a crackar o nosso código e quando o fizerem adeus cloaking.
Turinturambar fez de conta que reparava nas ditas linhas, abanou pesarosamente a cabeça e respondeu:
- Camarada pescadorDigital espero que tenhas uma solução para isso. Como sempre tens. Coragem camarada. – deu-lhe uma palmada nas costas e um sorriso encorajador e dirigiu-se ao operador de comunicações.
- Camarada, alguma notícia do QG?
- Nada. Mas entretanto já descobri como estes gajos nos toparam! Veja esta assinatura aqui – e apontou para um ecrã cheio de traços verdes. Turinturambar fingiu compreender o que via no ecrã, ao mesmo tempo que sondava mentalmente o operador. Em menos tempo do que este conseguiria vocalizar já Turinturambar sabia que o vaivém do PCF tinha estado a emitir as coordenadas da posição deles numa banda estreita, quase indetectável. Turinturambar esmurrou a consola. Porra! Como se fora esquecer duma treta daquelas! O operador olhou para ele atónito mas nada disse. PescadorDigital acercou-se novamente ainda carregando o PC Tablete na mão. Tocou-lhe ao de leve no ombro chamando-lhe a atenção para o monitor principal da ponte. A face impassível de um Almirante Imperial fitava-os.
- Daqui fala o Almirante Grim! Em nome do Império Laranja ordeno que se rendam incondicionalmente! Se dentro de dois minutos não baixarem os vossos escudos energéticos e retirarem o cloaking serei forçado a vaporizá-los.
- E vaporiza também a Comodoro LadyHawke? – questionou Turinturambar.
- Não é com bluffs grosseiros que se irão safar.
- Não é bluff algum e posso prová-lo. – Turinturambar ordenou a um técnico que enviasse o sinal vídeo da câmara oculta na divisão onde tinham detido a comodoro. A surpresa foi visível no rosto do almirante. Tinham ganho algum tempo. Era necessário rentabilizá-lo. Turinturambar tentou sondar a mente de Grim mas a distância e as interferências eram demasiadas mesmo para o seu poder considerável. O almirante tornou a falar:
- Tanto quanto possa apurar esta imagem pode ser fabricada. Terei de constatar isso com os meus olhos. Solicito uma audiência pessoal.
- Concedida. – afirmou Turinturambar com um suspiro de alívio mental. Deu as ordens para receberem em segurança o vaivém. Pelo menos com o almirante perto de si poderia sondar-lhe a mente e quem sabe descobrir o paradeiro de Bodak.
O esguio vaivém do almirante já repousava no hangar quando Turinturambar lá chegou. Tocou na mente de Grim e... parou. Eles tinham perdido o Bodak! Pelos vistos fora raptado por um qualquer pirata. Aquilo alterava tudo. Se o império não podia aceitar a troca tudo o que iria fazer era empatar tempo. Tentando não demonstrar que estava a par da situação acercou-se do almirante e cumprimentou-o civilizadamente. Grim correspondeu com alguma frieza como seria de esperar. Turinturambar encaminhou-o na direcção duma sala de conferências. Pelo caminho Turinturambar divisou um plano de acção. Ia pegar na LadyHawke e na Starita e punha-se a milhas dali. O pirata deveria já saber quem era a presa e não tardaria muito quereria comunicar com a Aliança Rebelde. Tinha de o interceptar antes que ele descobrisse a sede deles. Por outro lado e sendo um pirata não deixaria também de sondar o interesse do império em reaver o prisioneiro. Mas para já Turinturambar precisava de mais informação. Informação que pelos vistos o almirante não possuía. O mais que ele sabia é que o cruzador que o transportava fora abordado algures na órbita de Plutão. O Director da Estação Orbital de Plutão iniciara a perseguição mas tanto perseguido como perseguidor tinham desaparecido do espaço sem deixarem rasto.

Na sala o ambiente relaxou ligeiramente. Pelos vistos o almirante não esperava que os rebeldes dispussem de umas instalações como aquelas. A sala era espaçosa, bem iluminada com ecrãs de plasma numa das paredes que transmitiam os principais canais noticiosos: CMM, Sky News e TVI com a infatigável Manuela Moura Quedas na sua versão XXI (a boca fora ligeiramente diminuída na versão XX, mas por petição online fora repost o desenho original dos lábios). Se ele soubesse que todo aquele luxo fora autorizado pelo próprio imperador... Turinturambar não pode deixar de esboçar um sorriso dissimulado. Todos estes títeres manipulados, todas estas vidas sem significado. Presos numa teia horrenda de guerras, frustrações, horrores, dúvidas, incertezas, burocracias e imoralidades. O sentido de honra perdera-se algures num oceano de mentiras. A Academia, a Aliança. Nada mais que meras fachadas de ritualísticos movimentos cujo único sentido era perpetuarem a sede de poder de um único homem. E por vezes, muito por vezes, Turinturambar pensava se a sua própria agência-sombra não seria também ela mais uma actriz naquela tragédia infinita. Embora tivesse sido fundada por ele e por LadyHawke que motivos tinham estado por detrás do seu surgimento? Os seus motivos, conhecia ele bem. E LadyHawke que perdera uma filha para as limpezas eugénicas do imperador... seria a sua única motivação a vingança? Moral, honra, rectitude. Eram as palavras que adornavam o símbolo da Psi-Corps. Seriam palavras ocas ou significariam ainda que eles estavam do lado dos bons? Turinturambar queria acreditar que sim. Mas por vezes...

O almirante disse qualquer coisa que registou nele a nível mental, mais que auditivo. Exigia ver a comodoro. Pois bem. Vê-la-ia. Pelo intercomunicador solicitou que os guardas fossem buscar a comodoro dando-lhes o código de abertura da divisão. Olhou para o almirante que parecia estar em comunicação sub-vocal com a sua nave. Ignorou-o. Dentro de pouco nada mais importaria.

Os guardas entraram na sala trazendo a comodoro com as mãos presas atrás das costas por algemas magnéticas. Turinturambar mal deu tempo à porta de se cerrar. Com um potente raio mental dizimou os dois guardas e o almirante que cairam inertes como sacos de batatas. LadyHawke moveu fastidiosamente os pulsos e as algemas cairam por terra, inúteis. Sem sequer olharem para os corpos sairam da sala com Turinturambar a pô-la ao corrente por via mental de tudo o que soubera na última meia-hora. LadyHawke que mal dominava a telepatia preferiu colocar as questões vocalmente:
- Mas como esperas sair do destroyer e passares indetectado pela pequena frota de ataque que está lá fora?
- Simples. Temos a Starita do nosso lado não temos?
- Como? Estás a pensar...
- Sim. A capacidade dela pode afectar pessoas num raio reduzido. Ela própria desconhece isso, mas como deves calcular eu sondei-a mentalmente e conheço as reais capacidades da rapariga.
Starita ficou supreendida por os ver aos dois mas nada disse. Interiormente alimentava um turbilhão de emoções conflituosas. O seu sentido de dever e honra dizia-lhe que tudo aquilo que ouvira nas últimas horas estava errado, mas por outro lado a sua própria vida tinha sido uma mentira. Desde a permanência na Falcão do Miléniotm até à sua admissão aos quadros de oficiais da Força Espacial por interposição de LadyHawke. Já para não falar do seu constante medo de ser descoberta pelos agentes das Brigadas de Eugenia. Mas, também não lhe parecia certo que o imperador fosse o terrível manipulador que lhe tinham pintado. Custava-lhe a crer que alguém que tentava a todo o custo manter a unidade nas galáxias fosse um mero titereiro. Ainda para mais coligado com a facção rebelde. Era incrível e absurdo demais para ser verdade. Não se encaixava. Havia ali alguma peça no puzzle que estava no sítio errado. E quanto mais pensava nisso mais Starita se via em conflito interior. Parecia que tudo o que conhecia, amava e julgava certo e perene se desmoronava em pó à sua volta.
- Starita, temos um problema! Estamos cercados por váriso vasos de guerra e duvido que no confronto que se avizinha a gente tenha grandes chances de sobreviver a menos que tu nos ajudes. Precisamos de ti. Precisamos das tuas capacidades. – LadyHawke fitava-a directamente nos olhos agarrando-a pelos ombros como se ela fosse uma menina pequena que pudesse desatar a fugir ou a chorar.
- Tens de jauntar mas desta vez terás de te aplicar mais ainda porque vais levar-nos à boleia. – Turinturambar falava com os lábios e com a mente, inculcando-lhe a ideia no cérebro. Já sentira o conflito emocional da rapariga e sabia que não faltaria muito a que ela se fosse abaixo sob a pressão do stress. Tinha de actuar o mais persuasivamente possível.
Por fim Starita, quase a pontos de chorar, acenou que faria o jaunt. Faria o que fosse preciso para se ver livre daquela maldita nave e talvez com o salto pudesse de certa maneira aclarar o espírito. Juntaram-se todos num abraço nascido não do afecto mas da necessidade e ela concentrou-se o melhor possível visualizando um certo ponto, um local que conhecia muito bem. E, abraçados, como uma família em feliz reunião, saltaram os milhões de quilómetros que os separavam do seu destino.
Quando o choque do seu primeiro salto se desvaneceu Turinturambar olhou em volta lançando uma sonda mental em todas as direcções tentando estabelecer um contacto. Afinal recebeu o contacto não por via mental mas auditiva. Uma voz ressoou na vasta câmara:
- Quem sois vós? E o que querem daqui? Identifiquem-se e nada de gestos bruscos, tenho as defesas de bordo apontadas a vocês.
- Dragão Quântico? Não me reconheces? – Starita posicionou-se melhor debaixo do feixe de luz de um dos fracos projectores que entretanto se tinham acendido no que era no porão de mercadorias do cruzador.

A visão do semblante na praia do infinito

A Eagle 1 pairava inerte, sujeita às forças gravíticas dos planetas próximos, deslizava suavemente numa trajectória que eventualmente a conduziria à órbita de Plutão. Completamente cego B0rg desconhecia a posição do seu perseguidor. Apenas os sistemas passivos permaneciam online. Resumia-se tudo agora a uma questão de esperar e ter paciência. Se o piloto fosse tão bom como parecera deveria ter computado a sua trajectória provável e estaria naquele instante a varrer o éter com todas as sondas possíveis e imaginárias. Se fosse um idiota estaria agora a coçar a cabeça e a calcular quanto combustível gastara naquela caça ao gambozino. B0rg esperava sinceramente que pertencesse ao segundo grupo. Mas se, contudo, fosse do primeiro grupo, a Eagle 1 ainda tinha umas surpresas na manga. Ou antes no Gerador de Vórtices Espaço-Temporais também conhecido como Cria-Buracos-de-Verme. O cloaking desligar-se-ia dentro de cinco segundos por forma a conservar as baterias primárias. B0rg sabia que era um risco imenso permanecer inerte, mas de momento era a melhor manobra evasiva de que se lembrava. Era altura de ir ver como estavam os seus hospédes, mas desta vez já sabia algo mais sobre Bodak. Saiu da cabina de pilotagem e emergiu na saleta principal da Eagle 1. A um canto o sarcófago vibrava reconfortantemente, a fila de luzinhas verdes firme e estável. Dentro da rede de aceleração, Bodak olhava-o furibundo. B0rg aproximou-se dele e perguntou:
- Sentes-te em condições de eu te retirar dessa rede? Estamos em estado de imponderabilidade e calculo que tenhas treino de andar em zero-G mas se vais desatar aos encontrões pela nave fora mais vale ficares aí. O importante é que fosses tomar um duche. Tresandas!
- Ouve lá! Mas com que direito é que me raptas? Tu sabes quem eu sou?
- Sim, não comeces outra vez com a lenga-lenga do Bodak. Sei perfeitamente quem és, e não te raptei. Deves comer muito queijo! Tu estavas a bordo dum cruzador em direcção a Tellus enfiado naquele sarcófago ali. - E apontou para o canto. - Se eu não calhasse a ter aparecido a esta hora estavas a ser executado. É que posso ser pirata mas ainda sei ouvir as notícias da CMM.
- Ah, sim, pois claro! Como se fosse muito díficil saber que se eu ia a caminho do Supremo em Tellus 3 é porque alguma coisa fiz.
- O que fizeste é que foste o líder da facção secessionista e foste capturado há cerca de 3 meses numa rusga a uma espelunca em Tatu Ine. Tiveste cá um galo! Durante anos fugiste a todos os imperialistas que te queriam deitar os gadunhos e depois acabaste retido por uma miserável rusga num night-club escabroso. Os bófias lá da parvónia nem queriam acreditar que lhes tinha saído a sorte grande. Por algum motivo enfiaram-te num cruzador manhoso, talvez para ver se passavas despercebido aos teus camaradas que andam à tua procura por todo o sistema. Só que o lado chato dessa estratégia é que o dito cruzador não tinha escolta e aqui o B0rg sozinho deitou-lhe a mão. Vê lá tu as voltas que a vida dá!
- E agora o que pretendes fazer comigo?
- Ora, o que havia de pretender? Quero um resgate chorudo. Quero a reforma antecipada. Quero o que devia ser meu de pleno direito! Fui ferido em batalha defendendo o precioso império, fui traído por um camarada de armas, e no fim o que tive do Império? Nem sequer tive direito a ter o nome bem gravado na parede dos heróis. E do lado dos rebeldes que tive? Nada! Tão bons são uns como os outros. Neste universo é cão come cão e cada um por si, por isso cá o B0rg sempre que pode faz algum à pala de quem vai aparecendo pela frente. E isto inclui-te a ti. Vou pedir um resgate às duas facções: Império de um lado e rebeldes do outro. Mas para isso temos de fazer uma pequena viagem. Tenho de falar pessoalmente com um velho associado que sabe manter a rede de contactos. Isto é coisa grande demais para me precipitar. E aliás nem sequer sei porque estou aqui a falar contigo. Vai! Pisga-te para o polyban e toma um duche. E cuidadinho com os sítios onde metes o nariz. Toda a nave está ligada ao meu córtice e é como se fosse uma extensão do meu braço. Sei tudo e sinto tudo o que se passa nela. Escusas assim de teres ideias «heróicas».

Com um olhar indignado Bodak desenrolou-se da rede de amortecimento e arrastou-se para o polyban. Teria tempo de pensar o que fazer durante o duche, e de facto, concordava com o pirata. Tresandava imenso e estava completamente desconfortável dentro das roupas defecadas e urinadas. Os arranhões da elfo ardiam-lhe. Numa palavra estava, derreado. O polyban ocupava uma área de um metro quadrado e tinha uns meros metro e oitenta de altura, mas para o corpo cansado dele foi como se mergulhasse na mais faustosa das banheiras. Deixou a água quente correr profusamente sobre a pele arranhada e macerada, sentindo a pouco e pouco o calor entranhar-se no corpo e libertá-lo de toda a sujidade acumulada desde… desde que fora capturado em Tatu Ine, há quase uma vida atrás. Quanto tempo estivera ele no sarcófago? Dias? Meses? Anos? Tatu Ine ficava na orla da galáxia, e agora ali estava ele perto do centro da Via Láctea, no berço da humanidade. Uma viagem daquelas por buracos-de-verme seria mesmo assim coisa para um ano, pelo menos. Os pensamentos voltaram-se para o passado… para o que deixara para trás.

O ruído abafado pela antepara despertou-o das memórias. Fixou a atenção auditiva na direcção de onde viera o som. Lentamente baixou o fluxo de água e de novo ouviu-o. Eram pequenos baques. E vinham de cima dele. Do casco exterior! Algo ou alguém estava do lado de fora! O seu primeiro impulso foi dar o alerta, mas depois reflectiu que talvez não se devesse precipitar. Afinal de contas queria livrar-se do pirata e ali poderia estar a resposta ao problema. Só tinha de encontrar maneira de descobrir o que estava a fazer aqueles sons. Saiu do polyban. Do lado direito havia uma fila de pequenos armários e num deles havia um fato-macaco que se apressou a vestir. Espreitou para o corredor. Não duvidava que B0rg devia ter câmeras de vigilância por toda a nave mas isso agora era algo que ele não podia ultrapassar. Tinha de tocar de ouvido. Seguiu cautelosamente até junto duma escotilha de descompressão. Se Bodak tivesse ideia que naquele preciso momento B0rg dedicava-se ao vicio de jogar online tentando desesperadamente fazer mais uns kills para melhorar o ranking, poderia ter-se poupado muito trabalho de dissimulação. Quando por fim conseguiu aproximar-se no que ele pensava ser uma forma subreptícia do portaló e abriu os fechos de segurança, já os ruídos tinham cessado há muito. Um minúsculo drone gravitava nervosamente pelas passagens da Eagle reenviando tudo o que o seu pequeno olho pixelizado via directamente para Moon Princess. Já dentro do portaló de descompressão, Bodak vestiu apressadamente um escafandro e sem delongas abriu a porta exterior. Num monitor do posto de controle navigacional da Eagle uma pequena luz vermelha acendeu-se. B0rg continuava imerso na virtualidade 3D e fez o possível por ignorar a pequena mensagem da Eagle. Duvidava muito que fosse uma emergência, e mesmo que fosse o Bodak a escapulir-se para o exterior até onde conseguiria ir o parvo? Deixá-lo brincar aos polícias e ladrões, agora tinha mesmo de conseguir capturar aquela nave romulana!

O drone prosseguiu o missão de reconhecimento em direcção à ponte mas a porta trancada barrou-lhe o acesso. De imediato esticou um filamento óptico monomolecular que conduziu pelos interstícios da porta manobrando por forma a obter uma panorâmica do interior, incluindo um B0rg totalmente concentrado no jogo.
- Gotcha! – exclamou sonoramente Moon Princess. Com duas batidinhas rápidas nas teclas dos turbo-reactores dirigiu a Viper 5 para junto da Eagle, o suficiente para acostá-la sem provocar o alrme dos sensores. A meio da manobra divisou uma forma humanóide que se soltava do casco da Eagle. Era indubitavelmente um escafandro. Seria o pirata? Impossível, ainda agora o drone lhe mostrara que o pirata estava entretido. Reverificou pelo sim, pelo não e lá estava ele, fazendo gestos no ar e esgares de raiva e impotência. O jogo não parecia estar a correr-lhe pelo melhor. Mas se Moon Princess bem conhecia a psicologia dos viciados, quanto pior lhe corresse o jogo, mais ele continuaria a jogar. Então quem era aquele individuo? Seria um comparsa do pirata? Era possível. Mas se assim fosse, já a tinha detectado e deveria ter alertado o outro. E pelo comportamento do que ela pressupunha ser o comandante, não parecia que este estivesse muito preocupado com a sua presença ali. O que deixava a alternativa restante. Era um refém que conseguira fugir. Se assim fosse fazia parte do pacote contratado com Z. Tinha de ter cuidado para não o “danificar”. Antes de acostar convinha recolhê-lo. Alterou a manobra para virar a Viper de forma a apresentar a escotilha ao escafandrista. Depois com uns toques rápidos nos comandos imobilizou a nave e abriu a escotilha. O convite era claro. O escafandrista pareceu hesitar por momentos mas depois emitiu uns pulsos brancos, provindos decerto duma pistola de impulsão e ganhou velocidade em direcção ao interior do portaló da Viper. Quando teve a confirmação da entrada do escafandrista Moon selou a escotilha e pressurizou a camêra. Pelo sistema vídeo viu que o visitante retirava o capacete. Era um homem de cabelo curto e eriçado, olhos pequenos e aspecto indolente. A face não lhe era estranha mas isso teria de ficar para outra altura. A escotilha era diminuta e o escafandro preenchia quase todo o espaço disponível pelo que efectivamente o homem estava pouco mais que imobilizado. Moon falou pelo circuito áudio:
- Identifica-te! Podes falar normalmente que a ligação é bidireccional.
- Sou Bodak. Sabes o que é um Bodak?
- Conheço um Bodak. O líder dos rebeldes que está a ser julgado em Tellus 3
- Não está não. Eu sou esse Bodak como poderás comprovar se fizeres um scan adénico. Ia no Dragão Quântico, quando fui raptado pelo pirata que está naquela Eagle. É o B0rg, o maior pirata do quadrante.
- Eu conheço o B0rg. Embora aquele que ali está me pareça muito modificado desde a última vez que o vi. Deve ter assimilado mais umas coisinhas desde essa altura. E também conheço o Bodak dos jornais da TVinter e olha que tu não te pareces lá muito com ele.
- É natural que não. Fiz várias plásticas para fugir aos esbirros do Império. Mas já te disse, faz um scan adénico e ficarás com a certeza.
- Um scan desses leva tempo, e tempo é coisa que não tenho. Mas além disso porque estás tão preocupado em assegurar a tua identidade? Ou pensas que eu trabalho por conta própria? Não viste que tenho a insígnia do Império na cauda da Viper?
- Vi, vi. Só que estou exausto. Cansado de fugir, de andar de Pôncio para Pilatos. Quero que tudo isto termine duma vez por todas.
- Se terminar será concerteza com a tua execução pelo Império. Ou pensas que vais ter um julgamento justo?
- Se vou ter um julgamento justo? Mas há julgamentos “justos”? E, que raios, tu uma mercenária ao serviço do Império com ideias sediciosas dessas. Olha que a falares e a pensares assim ainda acabas numa mina de sal.
- Duvido. Sempre disse o que penso. Julgas que tenho medo dos parvos imperiais? Bah, cambada de madraços a engordarem à conta dos impostos e taxas. Mas vamos ao que importa. O que me podes dizer sobre o pirata e a nave dele que eu já não saiba?
- Como queres que te diga? Não sei o que sabes…
- Tens razão. Não sabes nem saberás. Enviei um drone para reconhecer o local, mas as capacidades do bichano são limitadas. Há mais alguém a bordo além do pirata.
Bodak lembrou-se da elfa e por instantes quase o disse, mas acabou por negar saber da existência de fosse quem fosse além de B0rg. Era sempre conveniente manter uma carta de trunfo. E neste momento tinha de jogar a mão do rebelde cansado e desejoso de sossego. Viver para lutar mais um dia, sempre fora o seu lema. De repente um silvo agudo e as portas de acesso ao interior da Viper abriram-se num convite implícito. Bodak, contente por se ver livre do aperto do portaló, passou para o corredor, não muito maior do caça e seguiu de gatas até um colchão de aceleração. Viu-se livre do resto do escafandro que atirou para o fundo do corredor e instalou-se o melhor possível no colchão, deixando a rede esticar-se sobre ele, prendendo-o efectivamente. Uma pequena vigia mesmo na sua linha de visão mostrava o cenário estrelado daquele quadrante da Via Láctea. A um canto, quase desaparecendo na orla estava a massa acinzentada de Plutão. Moon Princess, verificou que Bodak estava bem seguro e de novo iniciou a manobra de abordagem. O tempo todo em que estivera falando com ele, continuara a receber dados do pequeno drone, mas pouco tempo de bateria restava ao pequeno bot e portanto tinha de se apressar para não perder a vantagem da surpresa. Os retro-reactores trabalharam em conjunto com os reactores e pequenos jactos alinhados no eixo longitudinal do caça mantiveram-no alinhado com o Eagle. Pelos visto o cloaking não era passível de manter muito tempo ligado. O que bem vistas as coisas lhe facilitava a manobra por um lado, mas dificultava-lhe a vida por outro. É que permanecendo visível no espectro luminoso seria possível que o pirata estivesse mais alerta, embora pelos vistos continuasse imerso na realidade virtual e não parecesse nada preocupado com o mundo exterior. Mas podia ser manha dele para a apanhar desprevenida. Mas que paranóia de vida! Agora nada podia fazer a não ser seguir em frente.
O Viper acostou tão suavemente que nem um clinque se ouviu no casco. Afinal não fora à toa que ganhara várias pod races em Tatu Ine. Era e continuaria a ser a melhor pilota de caças desde que Lucas Andarilho-Celeste fizera a corrida final contra a supostamente invencível Estrela-da-Morte.

Pressurizou a cabina de pilotagem e selando o fato espacial abriu a carlinga. Com um pequeno golpe de rins ergueu-se de encontro ao vasto oceano de estrelas cintilantes. Usando uma pistola de pressão deu pequenos jactos controlados de ar sob pressão que a levaram para junto da mesma escotilha de onde momentos antes emergira um estupefacto Bodak. Tinha a vida facilitada porque a escotilha não se fechara automaticamente. Estava a ser tão fácil quanto tirar o docinho a um bebé e era disso que Moon Princess tinha receio. Não acreditava que B0rg se deixasse apanhar desta forma ridícula. Mas erros cometiam-se e quem sabe hoje era o seu dia de sorte. À cautela sacou uma pistola laser do coldre e avançou cautelosamente para dentro da Eagle. Mas com todos os sentidos alerta e direccionados para B0rg, Moon cometeu o maior erro da sua imaculada carreira mercenária. Deixou Bodak esquecido a bordo do Viper.

**

Por momentos reinou o mais sepulcral silêncio no vasto porão do cruzador. Depois ouviu-se um soluço disfarçado provindo dos altifalantes. Starita, com os olhos rasos de lágrimas tornou a falar:
- Meu querido. Meu amor. Tanto tempo… tantas saudades… mas por fim… estamos reunidos.
Turinturambar, preocupado com as demoras, avançou e posicionou-se debaixo do mesmo feixe de luz.
- Chamo-me Turinturambar, e sou um oficial do Império em missão secreta. Comigo está também a Comodoro Ladyhawke que foi sequestrada pelos rebeldes. Neste momento precisamos apresentar-nos sem mais demoras no posto imperial mais próximo. Queira por favor indicar-nos a nossa actual posição e desenvolver as necessárias formalidades para podermos ser recolhidos.
- Calma aí, Turinturambar. Por enquanto aqui ainda mando eu. – A voz da IA ressou forte e possante. Subitamente todas as luzes do porão se acenderam ofuscando-os. – Antes de começares a ditar ordens para a esquerda e para a direita, eu tenho umas perguntinhas a fazer. – A voz tornou-se mais suave. – Starita, és mesmo tu? Não mudaste nada, desde… desde aquela altura.
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Re: O Império do Planeta Laranja

Postby Samwise » 29 Sep 2006 18:55

Mas esta é aquela história que estava publicada já não me lembro em que fórum... e que estava incompleta, naquela altura.

A parte que eu li, nessa altura, estava altamente viciante...

Aqui já termina mais avançada.

Segunda-feira, que se faz tarde...

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Re: O Império do Planeta Laranja

Postby Samwise » 04 Oct 2006 10:39

:clap:

Eu sabia. Ainda só vou na parte do alien que sai do casulo e se regala, lambendo-se, com a placenta de nutrientes altamente alimentícia (Luthien , :tongue:).

O estilo de escrita é algo despreocupado, mas nem por isso deixa de estar a alto nível.

E sim.. está muuuuuuito divertido! As referências à nossa cultura (cibernética) estão demais!

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Re: O Império do Planeta Laranja

Postby Samwise » 13 Oct 2006 11:21

Estou quese a chegar ao fim, fiquei na parte "A visão do semblante na praia do infinito".

Continuo a adorar o conto, a intriga e o humor. É vão aparencendo nicks que conheço lá do outro fórum...:tongue:

Há uma coisa que admiro muito nesta "opera", que é a densidade da intriga: é algo complexa e intrincada, mas está apresentada de um modo tão simples que se torna fácil de seguir.

Pergunta: isto é para concluir? Valia bem a pena!!!

Sam

P.S. Manuela Moura Guedes versão XXI?? :biggrin:
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Re: O Império do Planeta Laranja

Postby Thanatos » 13 Oct 2006 20:29

Não faz muito sentido concluir visto que os nicks ao pessoal daqui não fazem sentido. Além disso tenho outras coisas na calha para concluir como a "Vera..." ou "A Simples Perenidade". E acredita que neste a intriga ia ficar ainda mais telenovelística :tongue: Vê lá tu que era para acabar com um big bang inverso :smile:
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Re: O Império do Planeta Laranja

Postby Samwise » 16 Oct 2006 10:02

Thanatos wrote:Não faz muito sentido concluir visto que os nicks ao pessoal daqui não fazem sentido.


Mas este conto não tem mesmo nada a ver com o pessoal daqui. Não percebo o argumento.

Além disso tenho outras coisas na calha para concluir como a "Vera..." ou "A Simples Perenidade". E acredita que neste a intriga ia ficar ainda mais telenovelística :tongue: Vê lá tu que era para acabar com um big bang inverso :smile:


No meio de uma má notícia, ao menos temos duas boas notícias. :tongue:

Ao menos fiquei a saber de um hipotético final para a soap...

Sam
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Re: O Império do Planeta Laranja

Postby Thanatos » 16 Oct 2006 12:20

Samwise wrote:
Thanatos wrote:Não faz muito sentido concluir visto que os nicks ao pessoal daqui não fazem sentido.


Mas este conto não tem mesmo nada a ver com o pessoal daqui. Não percebo o argumento.


Sam


Pois de facto da forma como expus não tem lógica, por isso aqui fica a explicação. A verdade é que estou a usar o fórum um bocado à laia de repositório central dos textos, visto que volta e meia tenho problemas quer com os CD gravados quer com os discos do PC e assim sei onde recorrer em caso de perda total dos textos.

Num outro fórum cheguei a publicar o dramatis personae desta noveleta onde revelava quase toda a intriga e ainda publiquei a parte final da noveleta. Não o fiz aqui por razões de clareza.
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