Vera no Cimo das Escadas

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Re: Vera no Cimo das Escadas

Postby Samwise » 17 Oct 2006 09:33

Em biquinhos de pés, isto começa a entrar nos domínios do sobrenatural... :smile:

Sam
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Re: Vera no Cimo das Escadas

Postby Thanatos » 17 Oct 2006 12:29

Aignes wrote:Sim, também gosto..e isto de ler textos como quem vê novelas irrita ligeiramente.. :sk:

( :ohmy: há um smile do songonku superguerreiro... :rolleyes:....ok, ignorem.. :mrgreen4nw: )


Tens razão Aignes. E eu que até já comentei precisamente isso a outro membro do fórum... ai, ai, faz o que eu digo não o que eu faço. Só volto a meter aqui mais alguma coisa quando estiver tudo completo, prometo. :wink:

E quanto ao smile son-gokuu basta dizer que um dos admins é o Gokuu penso que está tudo dito! :biggrin:
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Re: Vera no Cimo das Escadas

Postby Thanatos » 17 Oct 2006 21:35

Adoro quebrar promessas :devil: Prontos para quem não quiser ler aos bochechos basta ver se o post indica (continua) e ignorar até que venha um post com o termo FIM :wink:

----------------------
(continuação)

Outro dia, outra miserável e infindável sucessão de actos rotineiros. Hoje então é dia de check-up com o palhaço do médico-baleia. Pode ser que com sorte o gajo não me queira ver o sangue. Se há coisa que detesto é ser espetado para me tirarem o sangue. Já bem basta o que me chupam da reforma, ainda chuparem-me o sangue, pois, pois. Uma coisa boa do check-up é que vou ter uma oportunidade de estar com a enfermeira. Tenho de falar com ela. Não é que eu não tenha gostado de falar ontem com a gaiata mas daí a tornar isso um evento social com hora marcada vai um grande passo. Além do mais se a miúda contar á mãe que se encontra comigo às tantas da noite não vai demorar muito à gaja a somar dois com dois e ficar com tabaco. E então é que fico de quarentena na certa. Isto quando um gajo chega a velho é como quando é puto. Tem uma data de gente a pensar que manda nele. Por alguma coisa dizem que é a segunda infância. É que não é para menos. Temos mulheres a mudar-nos as fraldas, a dar-nos a papa à boca, a limpar-nos o queixinho a ajeitar-nos a caminha. É do caraças!

Como isto é um lar de luxo não temos nós de ir para uma salinha de espera aguardar enquanto o senhor doutor nos atende um a um no consultório. É o gajo que vem ter connosco ao quarto. Um luxo, digo-vos! Claro que é tudo pago, e com língua de palmo. Mas se pensarmos bem para que queremos nós velhos jarretas o dinheiro? Para o deixarmos aos cabrões dos descendentes que não dão um peido por nós? Ao menos sempre o vamos queimando em nosso proveito. Ah, se eu pudesse queimava-o todo. Os faraós é que a sabiam toda. Estouravam o tesouro real em brutos túmulos e ainda levavam com eles a criadagem toda e os cavalos. Para os lorpas só ficava uma pirâmide como quem diz: Queriam? Pois tomem!

À hora marcada lá entra o baleia mais a nazi. Pela primeira vez em quase dois anos reparo melhor na cara da mulher e leio com atenção a placa do nome. A. Fátima. O A. deve ser de Assunção, esta tem mesmo cara de vir duma daquelas famílias todas religiosas que vão anualmente a Fátima em peregrinação e de preferência de joelhos e nada como ter um dois-em-um nos nomes. Já a cara nada tem de beatífico. É daquele tipo de caras capaz de fazer o leite azedar e não me admirava nada que volta e meia fosse mesmo o que sucedia tal o gosto do café com leite da manhã que aqui servem. Por mais que procure não encontro traços familiares com o rosto da Vera. Mas que pode isso querer dizer? Nada. Na volta a miúda sai ao pai. Dou voltas à cabeça de como começar a conversa mas entretanto já o baleia me mandou tirar a camisa do pijama para me auscultar. O gajo começa a lenga-lenga do inspire, expire e vai mudando o raio do estetoscópio de lugar em lugar. Porra que bem podiam aquecer esta merda antes de a encostarem no pessoal. A Fátima nazi está por perto com aquela cara severa de quem só espera uma ordem de eutanásia para executar sem cerimónias mais um velho. Com o meu ar mais cândido pergunto: “Então a sua filha não teve dificuldades em dormir o resto da noite?” A mulher olha para mim como se me tivessem acabado de nascer um par de cornos e uma cauda bifurcada. Mas depressa se compõe e responde: “O senhor Américo hoje está bem disposto já estou a ver.” E milagre dos milagres esboça um sorriso. Só pode estar a disfarçar por causa do médico. Posso estar velho e caquético mas ainda estou lúcido e percebo que devo ter acabado de meter a pata na poça. Vai na volta as regras do lar proíbem a presença de familiares nas instalações. E eu ia desmascarando a mulher. Bem, está na hora de representar o velhinho senil. “Ó desculpe, querida, estou a fazer confusão. Ontem estive a ver aquela série e já ando a confundir tudo. Sabe, aquela que também tem uma enfermeira. Bem, se calhar não sabe... deixe lá... não importa...”

Coitada da mulher parece que ainda ficou mais confusa. Quando a apanhar mais logo à tarde a jeito explico-lhe tudo.

Depois do check-up é o regresso à rotina mais rotineira possível. Passeiozinho no jardim, conversas da treta com os outros mortos-vivos cá do sítio, cada um com grandes dissertações sobre futebol e política como se por causa da idade estivessem da posse da chave da sabedoria e mal sabendo que pode-se ser velho sem se saber nada. Basta ver os analfabetos. Chegam a velhos e não é por isso que aprendem subitamente a ler e escrever. A sabedoria aprende-se não é algo genético-temporal. Mas que fazer. Deixá-los alegres e contentes a discursar sobre tudo e mais alguma coisa com a certeza de quem sabe as respostas todas. E alguns velhos aqui têm cá um egocentrismo que se o egoísmo fosse merda tinham de ter uma ETAR só para eles. Enfim. Depois do passeiozinho higiénico – é mesmo assim que vem descrito na brochura de apresentação do lar, passeio higiénico – segue-se a passagem pela sala comum enquanto esperamos que sirvam a forragem, perdão o almoço. Neste entretanto não vejo a enfermeira em lado algum. Deve andar ainda nas rondas com o médico-cachalote. Mal contados somos uns cinquenta e alguns já em tão mau estado que um check-up é coisa de demorar. Penso escapulir-me ao andar de cima para ver se encontro a Vera mas aquilo deve estar cheio de administrativas e é um bocado zona interdita aos velhadas. De qualquer maneira tenho de raciocinar que a miúda deve estar é na escola. Provavelmente a mãe leva-a de manhã pelo portão que fica nas traseiras, um portão apenas destinado ao pessoal. As visitas essas entram pelo portão principal como se fossem VIPs, mas lá atrás do casarão passando os jardins fica um portãozinho que dá para uma estrada de gravilha. Numa das minhas voltas nocturnas ainda cheguei a pensar em sair por ali já que o portão principal é fechado a cadeado todas as noites, para nossa protecção dizem eles, mas mais na certa para que a nenhum velhadas com esquizofrenia lhe desse na bolha fugir do lar, mas desisti da ideia assim que vi o estado da estradinha. O mais certo era meter o pé nalgum buraco e acabar com um entorse ou, pior, uma fractura. Isso explica o facto de eu nunca ter visto a rapariga. E além disso deve ser mesmo uma das regras da casa não terem cá família. Se bem que não faça sentido. Se a enfermeira está cá de permanência como é que a administração espera que ela faça coma filha? Se calhar eu é que estou a confundir tudo. Mas a quem perguntar? Não posso concerteza ir aos escritórios falar com o gerente do lar e perguntar qual a política em relação ao pessoal. Ou posso? Custa-me pensar que ainda acabava entalando a enfermeira. A mulher embora pareça uma nazi nunca me fez mal algum e é até bastante profissional. E se há coisa que admiro é o profissionalismo. Não, o melhor que tenho a fazer é falar com ela mais discretamente. Realmente não sei o que me passou pela cabeça para desatar a falar dela com o médico presente. É daquelas coisas, um gajo nem pensa nas consequências. Pensar nas consequências faz-me sempre voltar a pensar na Sofia. E quando penso nela fico entre o melancólico e o nostálgico. Porra fico triste é o que é!

A hora do almoço vem e vai e o gado depois segue, arrastando-se e ruminando os restos, para a sala comum. O grupo de zombies habitual das cartas desafia-me para uma jogatana e eu, mais para passar o tempo que outra coisa, aceito o desafio. Pelo canto do olho vou vendo se vejo a enfermeira a passar pelo corredor. Mais hora menos hora deve vir aqui espreitar à sala a ver se está tudo nos conformes não se vá dar o caso de um de nós morrer sem avisar.

O tempo passa e nada. O que precisava agora mesmo era dum cigarrinho. Podia dar um pulo à casa de banho... mas depois a mulher passa por aqui e eu perco a chance de a interceptar. Além disso como é que ia ao quarto buscar os cigarros? Estamos vigiados e quase proibidos de ir aos quartos durante o dia. Os tipos devem pensar que algum de nós ainda lhe dá um fanico para lá e fica ali horas a apodrecer. Morrer com testemunhas é sempre melhor. Iliba o lar de acções em tribunal por grossa negligência. Também não é o fim do mundo se não conseguir falar com a mulher. Aliás nada me obriga a ir ter com a miúda mais logo à noite. Por acaso sempre me achei um homem de palavra mas há limites. Não vou ficar para aqui a remoer o faltar a um compromisso que a bem ver nem sequer assumi. A miúda é que pensou que eu ia aparecer e sumiu-se. Nem me deu tempo a responder. Tecnicamente não estaria a faltar à minha palavra.

E enquanto racionalizo tudo isto sei, no fundo do coração, que à hora marcada lá estarei. A curiosidade é que matou o gato segundo dizem. Verdade, verdadinha é que esta quebra na rotina é muito bem vinda e a miúda impressionou-me favoravelmente. Tem uma certa aura o raio da gaiata. Por alguma razão tenho passado o dia todo a pensar nela. E quanto mais penso nela mais impaciente fico com o passar das horas. Que melaço do caraças! E que raios se passa comigo que pareço um adolescente a tremer antes do primeiro encontro? Isto há com cada coisa. Agora depois de velho... vê lá se te acalmas ó velhadas, ainda tens outra trombose aqui no meio da sala comum. Isso é que era! Muito mais interessante que a telenovela da TVI, ó se era. Se há coisa que os velhos gostam de ver é outros a marcharem à frente deles. Dá-lhes a sensação de terem escapado por pouco. É como se o Ceifeiro andasse aqui no meio da maltesga e volta e meia, zás! Lá vai um, e sempre que esse um calha a não sermos nós... que alívio do caraças!

As horas vão passando lentas, como alcatrão a escorrer. É o jantar, é o serão, é o comprimidinho das horas, é o recolher aos quartos. E finalmente parece que começo a reviver. Ter uma vida dupla deve ser assim, durante o dia usa-se uma máscara, à noite usa-se a face real. Quando tinha uma amante, de quem muito provavelmente a minha esposa sabia mais do que eu, tive um indício do que seria uma vida dupla mas depressa me cansei de toda aquela correria e das desculpas esfarrapadas de parte a parte e acabei por me divorciar. Nunca fez o meu estilo estar preso a uma pessoa nem ter de dar grandes satisfações e de facto para mim o casamento era pouco mais que uma prisão. Engraçado que depois do divórcio também larguei a amante que já se vinha colando demais para o meu gosto. Coitadas, nenhuma delas faziam sombra à Sofia. Da parte de cima do armário puxo o maço de tabaco, tiro um cigarro e o isqueiro que meto dentro do bolso do roupão e sento-me na borda da cama à espera que os velhadas caiam no sono e o vigilante se aconchegue no cubículo.

(continua)
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Re: Vera no Cimo das Escadas

Postby Lazy Cat » 17 Oct 2006 22:34

/me rói as unhas enquanto espera pela continuação. =D
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Re: Vera no Cimo das Escadas

Postby Aignes » 17 Oct 2006 23:09

Thanatos wrote:Tens razão Aignes. E eu que até já comentei precisamente isso a outro membro do fórum... ai, ai, faz o que eu digo não o que eu faço. Só volto a meter aqui mais alguma coisa quando estiver tudo completo, prometo. :wink:

E quanto ao smile son-gokuu basta dizer que um dos admins é o Gokuu penso que está tudo dito! :biggrin:



Prefiro que vás colocando em novelas do que termos de esperar por tudo... :mrgreen4nw:

E já aprendi a escrever Son-gokku :cool:

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E pronto, rendi-me ao inevitável. Já me ri nesta parte. :blush:
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Re: Vera no Cimo das Escadas

Postby Samwise » 18 Oct 2006 09:29

Aignes wrote:E pronto, rendi-me ao inevitável. Já me ri nesta parte. :blush:


Espero que tenhas consciência que não estás a agir em conformidade com os desígnios do autor (lol).

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Re: Vera no Cimo das Escadas

Postby Thanatos » 18 Oct 2006 17:34

Ha ha ha, very funny Mr. Samwise... :devil:

A secção seguinte é quando, como dizem os ingleses the shit hits the fan, a partir de agora as coisas vão começar a ficar mais negras.

-------------------------------------------------
(continuação)


Já lá está à minha espreita. É pontual pelos vistos. “Hoje falei com a tua mãe.” - Digo eu à laia de cumprimento. Ela sorri e responde: “Não sejas tonto, Américo. A enfermeira Fátima não é a minha mãe. Mas como somos amigos eu vou contar-te uma história.” Devo estar com cara de parvo tal a careta que ela faz enquanto me pega na mão e puxa escadas acima. Eu lá vou enquanto me interrogo como raios é que a gaiata sabe destas coisas todas. O meu nome, a minha ideia de que a enfermeira teria de ser a mãe dela... até parece que andou a seguir-me o dia todo e, pior que isso, consegue ler os pensamentos. Daí a pouco dou por mim a subir as escadas em direcção ao sótão e, contrariamente ao que pensava, não existem cá em cima nenhuns quartos. É um amplo espaço, quase com a área total do lar e um pé direito enorme que dá para nem sequer ver o telhado. Umas vigas de madeira suportam-no, assentes por sua vez em pilares. O chão está poeirento e alguns fios de aranha agarram-se-me aos cabelos. A Vera puxa-me ainda mais para o fundo do sótão. O pouco luar que entra pelas clarabóias dá para ver o chão mas pouco mais. Aqui e ali vejo umas formas mais escuras que suponho serem os trastes que se vão sempre acumulando nos sótões de todas as casas. Chegamos a um canto e ela puxa uma cadeira para uma zona mais iluminada. Sento-me agradecido. Subir dois lances de escadas deixou-me sem fôlego. Ela senta-se no chão, ajeitando a camisa de noite em volta das pernas. Se eu pensasse um bocado decerto acharia toda esta cena um bocado estranha e fora do comum mas que fazer. Sou um curioso e sempre serei e agora estou com vontade de ouvir o que a miúda tem para me contar.

Com um ar sério que noutra altura qualquer me daria vontade de rir mas agora apenas acentua a estranheza da situação, a rapariga começa a falar:

A HISTÓRIA DA VERA

Tinha uns nove anos quando os meus pais vieram trabalhar para os Condes de S. Nessa altura não passava duma fedelha escanzelada, que comia uma refeição quente por dia e o resto do tempo passava-o a ver se surripiava alguma coisa da cozinha do solar e aos pinotes sem destino. A minha mãe entrou para criada de quarto e o meu pai era jardineiro. Na vila onde vivêramos até essa altura a notícia de que vinham trabalhar para o solar dos condes foi recebida como se nos tivesse sido granjeado um enorme favor. Mas a verdade é que tanto a minha mãe como o meu pai trabalhavam de sol a sol. O jardim era apenas um pretexto para ocupar parte dos tempos do meu pai porque de resto vi-o a trabalhar desde as cavalariças até aos regadios e às vinhas que na altura ainda faziam parte dos terrenos do solar. Já a minha mãe começava o dia a arrumar os quartos dos condes e da família, na altura tinham já eles sete filhos e durante os anos que cá estivemos nasceram mais três isto já para não falar dos avós, tios e primos que passavam aos meses cá aquartelados, passava depois pela cozinha para dar uma ajuda, tratava dos animais, da horta, das salas. Como eu disse nem um nem outro tinham uma hora de folga durante o dia todo enquanto os condes e a família por aqui estivessem. E quando os condes recebiam ainda era pior. Uns dois a três dias antes do evento o solar entrava em polvorosa com toda a criadagem a limpar salas e saletas e salões, a esfregar estátuas, a desentupir lagos, a aparar relvas e a podar árvores. Vinham mais duas cozinheiras da vila para ajudar noite fora a preparação das massas para os folhados, a bater as claras para os bolos, a depenar as aves, a temperar as carnes e a escamar os peixes.

Nessa altura eu desaparecia de vista, quer para não atrapalhar e levar uma galheta dos criados mais velhos, quer para que não tivessem ideias de me pôr a carregar selhas de água para a cozinha, ou a acartar lenha para os fogões. Havia um bosquezinho na orla da propriedade. Descobrira lá um riacho e entretia-me o dia todo a tentar apanhar os pequenos peixinhos prateados ou a ver o esvoaçar das libélulas sobre a água. Só voltava à noite quando a maior parte das pessoas já dormiam e só mesmo os mais resistentes ainda trabalhavam. A minha mãe era uma delas. Por vezes ia dar com ela na cozinha sentada num banquinho pequeno a descascar favas, ou ervilhas, a cortar castanhas para o forno ou a depenar um pato com uma selha de água quente aos pés e milhares de penas esvoaçantes que acabavam por se colar a tudo. Nessa altura eu sentava-me no chão juntinha a ela e contava-lhe como tinha sido o meu dia. Ela sorria e pelo meio ia dizendo como seria bom que um dia ela e o pai juntassem dinheiro para me tirarem de vez dali. Para onde nunca cheguei a saber.

Os anos passaram lentos. Fui vendo os filhos dos condes crescerem, vi os bebés nascerem, e com o tempo até eu já pensava fazer parte da família. Foi no ano em que fazia catorze anos que o filho mais velho dos condes começou a reparar em mim. Era um rapaz já feito, quase homem, devia ter, se bem que não tenha a certeza, uns vinte e poucos anos. Segundo diziam as criadas mais novas era um terror que não podia ver um rabo de saias. Algumas, mais das minhas amizades, diziam para eu ter cuidado com ele. Corriam histórias de que na vila não havia moça que não tivesse já passado por baixo dele. Eu era nova mas nessa questão do sexo não era inocente de todo. Naqueles tempos nenhuma rapariga do povo, como se costumava dizer, era virgem por muito tempo assim que passava a barreira dos treze. A virgindade e a pudicíe era reservada às meninas de bem da alta sociedade. Eu, talvez pelo facto de ser esquiva e de ter saído muito cedo da vila ainda não sabia o que era o sexo por experiência mas fazia uma muito boa ideia pelo que ouvia as mulheres contarem durante os longos serões na cozinha. A ideia de duas pessoas juntas numa coisa que mais parecia uma luta mas a que chamavam foder criava em mim um misto de repulsa e atracção. Por um lado tinha curiosidade em saber qual a sensação de ter um homem metido dentro de mim, por outro lado achava que tudo aquilo devia ser muito nojento e muito porco. E quando pensava que esse homem podia ser o filho dos condes, um moço com uma cara bexigosa e um sentido de humor muito pessoal que implicava sempre rir às custas das desgraças de outrém, o sentimento de repulsa avolumava-se. Mas a verdade é que o rapaz, de nome Alberto, se bem que toda a criadagem o tratasse por menino à frente dele e da família, e por cara-de-passevite nas costas deles, começara a seguir-me por todo o lado. Levou algum tempo a abordar-me mas quando o fez entrou a matar.

(continua)
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Re: Vera no Cimo das Escadas

Postby Lazy Cat » 18 Oct 2006 18:41

já estava a estranhar três "capítulos" tão light. agora sim chegou o Thanatos-contador-de-histórias! =P
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Re: Vera no Cimo das Escadas

Postby Aignes » 18 Oct 2006 23:03

Lazy Cat wrote:já estava a estranhar três "capítulos" tão light. agora sim chegou o Thanatos-contador-de-histórias! =P


Indeed.. :smile:

E esperamos os próximos capítulos.( :ranting: )
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Re: Vera no Cimo das Escadas

Postby Thanatos » 19 Oct 2006 08:55

(continuação)

Um dia apanhou-me no bosque e sem perder muito tempo atirou-me ao chão e disse que estava na hora de eu saber o que era um homem. A minha vontade era de lhe ter pregado um valente pontapé nos tomates mas depois pensei nos meus pais e a vontade passou. A bem ver também sabia que mais tarde ou mais cedo ele ia levar a dele avante e quanto mais eu me esquivasse pior seria. Isto pensava eu na altura, enquanto ele resfolegava em cima de mim e me batia com os ossos das ancas, já que não era dos rapazes mais nutridos que podiam haver, sem imaginar que afinal ainda podia haver coisas piores à minha espera no futuro. Felizmente o rapaz tinha mais olhos que barriga e não demorou muito a vir-se. Terminado o servicinho afastou-se rapidamente sem sequer se preocupar comigo. Para ali fiquei, no meio das ervas, de pernas abertas, vestido meio rasgado, olhando meio apática para o céu azul e pensando se tanta coisa de que se falava e no fim era só aquilo. Ao fim dum bocado, segura de que ele já se afastara de vez, compus-me e voltei ao solar. Nessa noite a minha mãe veio ter comigo e sem grandes palavras consolou-me. De alguma forma apercebera-se do que se passar e tentava confortar-me. Chorei e solucei junto ao seu regaço, tão quente e acolhedor que desejei voltar a ser aquela menina de nove anos despreocupada que andava sempre por ali aos pinotes. Mas o tempo não volta atrás nem serve de nada querermos desfazer o que está feito. Mal ou bem apenas nos resta o caminho em frente e talvez o conseguir ajudar outros nesse caminho que a todos espera.

O Alberto ignorou-me durante as semanas seguintes deixando-me uma sensação de alívio. Pensei que tinha encontrado outro interesse algures na vila e que agora que tinha provado de mim já não se interessava mais. Como estava enganada. O fim de ano chegava a passos largos e os condes tinham decidido dar uma festa de arromba. Vinham mais de centena e meia de convidados e alguns até teriam de ficar nas hospedarias da vila. O solar andava num reboliço dia e noite. Havia sempre gente acordada a qualquer hora e havia sempre alguma tarefa a concluir antes da data. Chegaram a pintar a fachada toda do edifício, coisa que era um acontecimento quase inusitado naqueles tempos. Às habituais duas cozinheiras que vinham da vila juntou-se um pelotão de homens e mulheres para ajudar nas mais variadas tarefas. Eu, com os meus catorze anos, já não podia fugir ao trabalho e lá acabei por passar cera nos soalhos de todos aqueles salões e sala e saletas, ajudar nas pinturas, lavar os vidros das janelas, desentupir as chaminés e as lareiras da fuligem acumulada de anos, carregar sacos e sacos de rosas para que lhes arrancassem as pétalas e as metessem dependuradas em cima de lençóis presos ao tecto. Ajudei a polir as pratas e os ouros, a pendurar as cortinas, a sacudir os tapetes e milhentas outras tarefas. Foram as duas semanas mais cansativas da minha vida e quando chegava a noite era só mesmo encostar a cabeça ao travesseiro que logo a seguir parecia que já a minha mãe me abanava.

Na última semana do ano o solar ficou, finalmente, em condições de receber os convidados mas nem mesmo assim a criadagem ficou mais liberta. Com a chegada dos hóspedes redobraram os trabalhos. Agora éramos solicitadas quase constantemente. Ou porque um lorde queria a água quente para o banho, ou porque uma dama precisava de roupa lavada e passada para vestir, ou porque um dos filhos dos nobres tinha de ser entretido, ou porque era a hora da refeição deles todos. Enfim, um corropio de ir e vir, de subir escadas e descer escadas. E no meio de toda a azáfama chegaram os amigos do Alberto. Eram sete rapazes, todos de famílias nobres como ele evidentemente, e todos desejosos de se divertirem. As meninas da sociedade eram apenas um ligeiro aperitivo para os gostos mais rudes deles e era nas moças da vila e da criadagem que eles esperavam encontrar o devido gozo. Conforme os dias passavam podia ver que o Alberto e os amigos me olhavam lascivamente e não me sobravam dúvidas do que lhes ia pela cabeça. Comecei a evitar andar por locais menos frequentados e quando via o grupo tratava de me escapulir o mais rapidamente possível. O lugar mais seguro para estar naqueles dias era na cozinha junto das outras mulheres. A cozinha era como que um templo feminino praticamente interdito aos homens. Assim, no meio dos vapores e dos cheiros dos cozinhados fui passando os dias até à véspera de fim de ano. Nesse dia a azáfama atingiu cumes de loucura. O solar parecia um formigueiro a quem tinha espetado um pau. Havia criados e criadas por todo o lado, atarefados nos preparativos finais. Da vila tinham começado a chegar os restantes convivas que não tinham tido alojamento no solar e o barulho das vozes era atordoante. Para cúmulo um quarteto de cordas instalou-se no salão principal e daí a pouco era tudo inundado com os acordes de música festiva. As pessoas iam e vinham quase chocando umas com as outras e uma pequena rapariga como eu tinha de se mexer rapidamente para não ser atropelada no meio da confusão. Os andares superiores estavam menos caóticos e foi para lá que me refugiei. Foi uma péssima ideia. Percorria o corredor em direcção às escadas do sótão quando de um dos quartos quem vejo sair? Os amigos de Alberto obviamente embriagados. A início ficaram estacados como que sem saberem o que fazer e de dentro do quarto ouço a voz fanhosa do Alberto perguntar se havia azar. Um deles respondeu: “Azar? Não, não me parece que haja azar, antes pelo contrário.” E com um uivo de satisfação avançou na minha direcção. Os outros obviamente perceberam a ideia e num instante me cercaram. Ainda tive tempo de ver o Alberto dentro do quarto a acabar de puxar as calças e a sair para o corredor com um sorrisinho na face. “Essa puta não é lá grande coisa a mexer-se, mas a cavalo dado... ou será a égua?” disse ele aos amigos que rebentaram a rir como se ele tivesse dito o dichote mais cómico de sempre. “para onde a levamos, Alberto?” perguntou um deles. Eu tentava furar o cerco mas eles eram maiores e era como se fosse uma brincadeira para eles segurarem-me. “Ora para o quarto ali já não convém, por isso... vamos subir.” Pegaram-me pelos braços e pernas e carregando-me como se fosse uma trouxa seguiram o Alberto até ao sótão. Nessa altura o sótão era uma arrecadação de mobílias e outros trastes que iam ficando ou velhos, ou estragados. Pequenos amontoados de velharias cobertos por lençóis faziam como que um pequeno labirinto. Largaram-me no chão mais ou menos onde tu agora estás sentado, Américo. Um deles ainda se lembrou de estender uma cortina velha no chão. Com um lenço amordaçaram-me a boca, não porque eu estivesse a gritar, que até então não soltara um pio mas porque tinham medo que eu lhes desse uma dentada. Outro deles amarrou-me as mãos atrás das costas.

(continua)
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Re: Vera no Cimo das Escadas

Postby Thanatos » 19 Oct 2006 21:00

(continuação)

O primeiro a violar-me foi o Alberto. Rasgou-me o vestido, arrancou-me a roupa interior e depois de baixar as calças até aos tornozelos penetrou-me sem cerimónias. Seguiram-se os outros, um atrás do outro. Enquanto dois deles me seguravam os braços, outros dois afastavam-me as pernas e iam-se revezando. Não resisti, sabia que se resistisse só me magoaria mais. Mas a mordaça estava demasiado apertada e eles não paravam. Comecei a sentir-me agoniada e com falta de ar. Só conseguia respirar pelo nariz mas não era suficiente. E com a sensação de asfixia comecei a entrar em pânico e a precisar ainda mais de ar. Eles nem sequer deram por nada. A certa altura estavam a violar um cadáver. E assim foi que agora me tens aqui, Américo.

A Vera só podia estar a gozar comigo! Só mesmo. “Ouve lá Vera, eu sei que tenho este aspecto de velhinho a cair da tripeça mas achas que estou senil? Isto cá dentro” – e aponto para a cabeça – “ainda trabalha, se calhar não a 100% mas ainda, pelo menos, a uns 97%.” Ela suspirou, revirou os olhos e disse: “Já estava à espera dessa reacção. É mesmo de ti tentares sempre racionalizar tudo, enfrentar o desconhecido com a lógica e tentares reduzir tudo a explicações controladas.”
“Porque é que falas assim de mim, como se me conhecesses bem? Aliás como é que sabes que me chamo Américo?”
“Estás a ver? Nem mesmo aquilo que devia ser evidente se simplesmente aceitasses as coisas como elas são, tu consegues entender. Olha, se eu te dissesse tudo o que sei de ti...”
“E não queres dizer?”
“Hoje já não. É tarde para ti. Desce vai dormir e volta amanhã. Amigo.”
Meio abalado e sem saber bem o que pensar de tudo aquilo obedeci. Algo me dizia que amanhã iria estar todo o dia impaciente.

(continua)
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Re: Vera no Cimo das Escadas

Postby Lazy Cat » 19 Oct 2006 21:20

afinal foi rápido. pensei q ias entrar em pormenores podres =P

até amanhã!
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Re: Vera no Cimo das Escadas

Postby Venom » 19 Oct 2006 23:43

Estou a gostar.Era giro se o fim pudesses disponibilizar tudo num pdf para mais tarde ler tudo.
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Re: Vera no Cimo das Escadas

Postby Thanatos » 20 Oct 2006 08:39

Lazy Cat wrote:pensei q ias entrar em pormenores podres =P


Os podres ficam para a versão unrated a publicar oportunamente. :cool:

Era giro se o fim pudesses disponibilizar tudo num pdf para mais tarde ler tudo


É uma ideia. A ver se este fim de semana tenho uma aberta e faço isso. Claro que implica corrigir as gralhas e dar outra volta ao texto mas não é nada de transcendente.

Obrigado pelo interesse demonstrado de todos os leitores. :smile:
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Re: Vera no Cimo das Escadas

Postby Samwise » 20 Oct 2006 10:56

E lá vamos nós... andando de cliffhanger em cliffhanger... :biggrin:

Depois desta última revelação, só me pergunto: o que é que vai sair daqui.

Estou a gostar, embora os motivos pelo meu gosto tenham mudado entretanto, desde o primeiro post. A história é a mesma mas o tom é outro.

Sam
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