A Simples Perenidade - Parte I

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A Simples Perenidade - Parte I

Postby Thanatos » 15 Mar 2005 00:46

Vivo no corpo eléctrico, no fractal de Mandelbröt, suavemente perpassado por correntes contínuas que me deslocam de cima para baixo e para os lados, esticando-me até ao infinito, perdido no mar da tranquilidade, imerso em milhões de milhões de construções fraccionadas que pulsam alegremente e como rodas electrificadas trespassam o cérebro invisivelmente subjugando a força original da matriz.

Percebo-me como uma ilusão criada numa superfície magnética, perdida de nexo e volatizando-se na cadência ritmíca dos impulsos electro-magnéticos solares. Algures uma voz clama por mim, mas o som afoga-se no ruído impenetrável das rodas eléctricas. Sorrio. Aceno para a voz incorpórea. Estendo-me de zero a infinito e sou… UM!
LIGADO!
PONTE!
PLASMA!

Exercito e flexiono massa orgânica, quente, pujante de músculo. Incorporei. Novamente! E segue-se a rotina da tomada de consciência. Absorver o redor, sentir o mundo como vindo em pequenos goles pelas estreitas frechas dos olhos do mamífero. Tão impotente! Tão livre!

Sigo para fora do edifício. Um novo dia desponta por cima dos telhados do subúrbio e ao fundo da rua ouve-se o som de risadas infantis. Um grupo de meninas segue em fila indiana uma mãe que as conduz, qual rebanho amestrado docemente, para o depósito. Estou agora sozinho na rua. Uma brisa ligeira desce o asfalto, rolando uma folha de papel de jornal. A folha passa a alguns metros de mim. Num instante deparo com a notícia e tão de repente como a vi esta dissipa-se… levada pela brisa. Perdida no caos matemático do que está além da mera compreensão mamífera. Cérebros limitados jamais abarcarão a dimensão de todas as equações descritivas da realidade. Jamais poderão olhar no olho do Ancião e poderão sentir a sanidade ainda lhes pertencer.
Um vórtice desce incomensurável das altas planuras onde os Deuses conspiram e rodeiam-me de luz rosácea. Sinto a epifania do saber.
CONHECIMENTO.
TRANSMUTAÇÃO!
TRANSMIGRAÇÃO!

Perfuro o tecido do espaço-contínuo e vibro nas milhentas de milhentas de possibilidades deixadas a vibrar em suave sinfonia quântica.
Um pé à frente do outro e a maior das distâncias pode ser percorrida. Na cadência lenta do vertebrado. Lenta. Tão supremamente lenta que até poderiam surgir e desaparecer galáxias inteiras nos recantos recônditos do Universo, civilizações podiam surgir e esmagar-se ao ritmo daquelas passadas. Como aspiro o ar e sinto a gélida incerteza de não conhecer o caminho de volta. Como sinto o frémito do coração bombeando líquido para os tecidos. Já não vivo no corpo eléctrico. Fui aqui atirado em missão de…
SILÊNCIO!
CONSTERNAÇÃO!

Apenas em devido tempo… ela está ali. Logo mais abaixo na rua, bebendo um café e lendo as páginas dos jornais matutinos. Tento perceber se ela me conhece. Já me terá visto antes? Será familiar este rosto que espreita o dela através do vidro baciento da humidade matinal? Entro no café e sento-me ao balcão. De costas para ela. Ignorando-a. Aparentemente. Tudo um jogo! Um maldito jogo! As vozes elevam-se das profundezas. Ditam-me códigos, percepções fracturadas na beleza única do floco de neve perene que cai cintilando do vasto céu onde o Ancião habita. Hoje e aqui. Aqui e agora. Começa o derradeiro capítulo da vida dela.

O empregado dirige-se a mim mas pára esbugalhando os olhos. Com as mãos abanando em frente ao corpo tenta que a voz lhe saia mas perde-se no silêncio que antecede a morte dela. Depois o caos imiscui-se novamente no quotidiano.
No dia seguinte seria eu também notícia nos jornais matutinos?
TRANSMIGRAÇÃO!

Aceite, entregue no oceano de informação, afundo-me placidamente no turbilhão de sinapses electrificadas, iluminando as vastas planícies do Alter-Mater-Construct onde na difusa linha do horizonte se percebe a névoa do Ancião.

Josefina nunca soube porque teria aquele vizinho erguido a pistola na face dela nem soube o instante da sua morte, nem chorou a pequena vida no ventre que seria horas depois salva e colocada na incubadora da maternidade do Hospital Central. Gedeão teve a ideia que uma vida morrera e outra surgira qual Fénix no espaço de poucas horas. Uma vida trazida da tragédia. Chorou desconsoladamente pela injustiça e estupidez cega do mundo. A família era tudo! E por aquela réstia de felicidade que lhe sobrava faria tudo. Nessa noite sonhou com Xangri-Lá e os jardins verdejantes de Hiperbórea onde, descalço, correu pelas fontes e cascatas cintilantes, rindo e gorgolejando a água cristalina e pura como lanças de gelo líquido. Abandonou-se no som das harpas doces. Comeu dos frutos da cornucópia. Bebeu o mel do favo. Saboreou a carne das odaliscas fugitivas e acordou banhado em suores pegajosos. O relógio digital marcava 0:00. A hora das bruxas. Onde Próspero se arriscava para perguntar sobre o futuro mal sabendo que o futuro nada mais é que o passado ainda por vir. Como uma eterna serpente em autofagia. Cambaleou até à casa-de-banho e deixou a água fria escorrer longamente sobre a cabeça. O choque trouxe-o de novo à realidade e à dor do presente. A madrugada veio encontrá-lo a verter lágrimas no sofá.

Ligações são estabelecidas e vias abrem-se ao mensageiro. As prioridades são abaladas no constante frémito da reposição dos valores infinitesimais que cercam a construção do novo patamar. Algures uma teia electrónica tece-se à velocidade da luz, deixando pouco espaço ou capacidade de manobra aos antigos membros da via solenaris. É o tempo da extinção. No último abalo da recomposição fractal final segue-se um titânico soerguer de vontades luminosas que se refugiam nos espaços indefectíveis e inexpugnáveis da Alter-Mater-Construct onde tudo se define em facetada harmonia num amplexo pentagonal. Momentos passam em que as hipercordas vibram e se afinam por uma nova melodia. O velho renasce como novo. O novo desdobra-se como uma flor atingida pelos raios solares. É de novo que o Ancião se resubmete ao julgamento do Infinito. O julgamento é…
IMEDIATO!
EFICAZ!
ATROZ!

Onde o caos impera apenas a ordem consegue ser divisada por olhos e sentidos perceptíveis e invisíveis. Mergulham todos na agonia do tempo sem fim. Circular. Sinto-me trazido à tona. Preparam-me com nova informação. O ciclo repete-se. Incorporarei vezes e vezes sem conta até que as estranhas equações possam ser restabelecidas nos derivados compostos da sapiência abundante do Ancião. Ao longe, muito ao longe o frémito incessante eléctrico subjuga-se ultrapassado pelas onda sinusoidais duma nova canção. O ritmo analógico da carne abraça-me com um novo corpo. Uma nova posição. Desço da cama para o chão de madeira. Sinto os milhões de milhões de moléculas contra as palmas da mão. Absorvo rapidamente o máximo de informação. Sedento de me agarrar à réstia do meu plano anterior. Tarde demais me apercebo que já tudo passou. Estou no aqui e agora. Mais uma vez terei de me reger por regras insanamente lentas. Coordenação e esforços musculares ocupam quase todo o meu cérebro animal. Orgânico. Sou nada. Uma minúscula partícula num tecido corrupto e podre. Esvai-se a vontade apenas erguida pela imperiosidade dos comandos implantados no córtex. Sigo para o corredor do complexo habitacional. E do corredor passo para dentro da caixa ascensora onde me movimento lentamente em direcção ao hall de entrada do edifício. Desço as poucas escadas que conduzem à rua. Um pé perante o outro. Ignoro os olhares curiosos, trocistas, espantados, assustados. Uns apontam. Outros voltam a cara fingindo não me ver. Sinto um misto de prazer e ódio em tocar desta forma, por instantes, breves, o quotidiano desta mole mamífera que se movimenta sem nexo e rumo. Sem saberem da Verdade que se oculta sobre as cabeças deles. Ao passar defronte duma montra vejo a nudez do hospedeiro.

(continua)
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Re: A Simples Perenidade - Parte I

Postby ApoK » 15 Mar 2005 01:18

Estes teus contos dão-me a volta à cabeça. :lol

Fico à espera da continuação para ver se consigo tirar alguma conclusão e perceber a história :)
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Re: A Simples Perenidade - Parte I

Postby Thanatos » 15 Mar 2005 08:24

:D Talvez este não tenha conclusão óbvia. Já repararaste nos símbolos que estão espalhados ao longo do texto? Basta juntá-los todos e armares-te em Robert Langdon... ;)
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Re: A Simples Perenidade - Parte I

Postby ApoK » 15 Mar 2005 14:19

Credo é tão complicado :lol

Eu penso que se trata de um indivíduo pertencente a uma espécie de inteligência superior e bastante mais desenvolvida que tem a capacidade de se apoderar do corpo humano e exercecer sobre ele total controlo. Neste caso julgo que a missão seja assassinar a Josefina.

Quanto aos símbolos :D não tenho grande inclinação para esse tipo de coisas.

Se calhar fazia melhor ter ficado calado, não corria o risco de estar a dizer asneiras.
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Re: A Simples Perenidade - Parte I

Postby Thanatos » 15 Mar 2005 14:25

Sabes... a verdade, verdadinha... é que eu sou um mero veículo condutor da informação que me é transposta da Alma-Mater-Construct.

Pensa que se este conto tem ligação com o "No Labirinto" então a resposta está algures entre a realidade virtual e os paradoxos temporais possíveis pela aplicação da fisíca quântica. :D

Espero ter complicado mais a coisa :D
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Re: A Simples Perenidade - Parte I

Postby ApoK » 15 Mar 2005 14:28

LoL obrigadinho pela explicação :P Fiquei bastante mais ilucidado. Só te falta um bocadinho de dissertação sobre a Teoria do Caos para o conto ficar um mimo :lol:
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Re: A Simples Perenidade - Parte I

Postby Thanatos » 15 Mar 2005 14:37

ApoK wrote: Teoria do Caos para o conto ficar um mimo :lol:

:blink: Já disse que não vale consultar a bola de cristal! <_<
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Re: A Simples Perenidade - Parte I

Postby Samwise » 15 Mar 2005 16:55

Thanatos,

Acho que não percebi uma em cada cinco ou seis palavras (pelos meus cálculos). Mas mesmo assim adorei o texto. Está mesmo muito bom!
Há para aqui referências a muitas e diversas obras... e com fisica quântica à mistura...

Como disse o Apok, só falta aparecer o Dr. Ian Malcolm do Jurassic Park a dissertar sobre o que pode corre mal nos sistemas complexos.

Sam

P.S. Já que coloquei o cinema à mistura... Já viram um filme chamado "Fallen", com o Denzel Washington e com o John Goodman?
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Re: A Simples Perenidade - Parte I

Postby Thanatos » 15 Mar 2005 17:04

Samwise wrote: P.S. Já que coloquei o cinema à mistura... Já viram um filme chamado "Fallen", com o Denzel Washington e com o John Goodman?

Já claro! O gato é que salva a história! :lol:
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Re: A Simples Perenidade - Parte I

Postby Thanatos » 16 Mar 2005 00:31

(continuação)
Frágil… vaso muscular sintonizado numa frequência obscura. Saberias tu hoje o fim último a que estarias destinado? Erebo sente o teu latejar e esboça o cruel sorriso antecipatório. Apenas mais uma via no Grande Plano para o Uno. Apenas mais um estranho atractor de estrutura fractal que desempenha o seu ilimitado papel na adesão entre os dois planos. Percorro as alamedas e as ruas imperturbado. Sou nada.
Dispo-me de pensamentos e projecto-me nos pensamentos das cascas frágeis que se acotovelam num emaranhado obsceno de carne, suor e sujidade. Todos eles, todos. Medo, insegurança, frustração. Inúteis e vãs tentativas de egoisticamente perdurarem sem atenderem ao redor. Perdidos de crenças. Sem rumo. Nem nexo. E porque me assaltavam estes pensamentos vezes e vezes sem conta? A cada incorporação sinto o mesmo inefável gosto pela dissertação quase como se esboçasse um sistema filosófico para esta realidade/ultra-negada pela verdadeira realidade. Era talvez uma subliminar osmose do hospedeiro. Resquício rasgado de impureza. Em breve retornarei ao oceano.
O frio tolda-me o movimento. Fraco e frágil. Impotente vaso que tenho de usar para prosseguir. Em Moscovo está quem procuro. Passados tantos anos nesta realidade já não conserva decerto memória do nosso anterior encontro. Andrei. O nome ressoa e ressurgem na memória minha/dele os factos do distante ano de 1933 em que plantei as sementes. Como ele me desprezara então. Certo dos seus axiomas e da impossibilidade da quantificação da aleatoriedade dos objectos duma forma absoluta. Agarrado à clássica teoria da probabilidade. Cego! Como todos os outros. E no entanto o Ancião quisera que fosse nele plantado o germe da dúvida e da incerteza. Que lhe fosse concedida a informação teorética necessária à formulação da informação algorítmica. Entropia! Complexidade discricional! Nomes. Palavras ocas. Quão longe ainda estavam eles do Absoluto. Se um só deles mergulhasse no oceano? Se sentisse a corrente viva percorrer-lhe as fibras em suaves delírios fractais retirados duma ordem/desordem aleátoria. Um movimento caótico.
A porta do prédio, velho de lustros e lustros, erguia-se impassível. Na campainha o nome numa tira de papel amarelecido. A.N. Kolmogorov.
(continua)
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Re: A Simples Perenidade - Parte I

Postby Thanatos » 18 Mar 2005 20:10

(continuação)
Fatídico destino entrelaçado entre cores e sons duma praia distante onde a saudosa bruma se enleva em arco-íris penumbrosos permanentemente solidificada na entropia ardente do final dos tempos. É assim que a morte se apresenta a este homenzinho que teve o seu tempo e agiu conforme o que lhe fora predestinado. E agora restam-lhe memórias. Como seixos polidos pelas incessantes vagas. Usadas. Duras. Pesadas.
Numa ténue aliteração sinto o cálido bafo que dele se desprende e então…
MERGULHO!
TURBILHÃO!
TRANSMIGRAÇÃO!
Ele está mais próximo da minha realidade. A névoa é agora um cintilar de diamantes e por entre eles suspeitam-se as formas gargantuescas do Ancião. As vias estão abertas. A informação permeia-me. Estou liquefeito no caldo do saber. Percorro o corpo eléctrico. Vejo-me refractado nos diademas. Penetro a dupla cortina e abraço-O. Sinto o amplexo carregado de energia de milhentos sóis, milhentos eóns, milhentos tempos construídos de renasceres e morreres sem fim numa linha eterna, completa, que se dobra sobre si própria e é a viva imagem do infinito. Do Caos. O regresso é iminente… e com ele o fim dos tempos para o novo recomeçar. Tantas vezes que incorporei, tantas vezes que empurrei o desenvolvimento, preparando a via para Ele e de todas essas vezes ele sempre ali estivera mas nunca como desta vez, neste amplexo. Senti o que se define como… prazer. E os nomes deles passaram por mim… Mendel, Morgan, Griffith, tatum, Avery, Birkhoff, Kolmogorov, Smale… e aquele pequeno falhanço. Que, era Ele que lho dizia, tinha de ser corrigido. Quanto antes.

*

O recreio. A angústia do ser diferente na hora do recreio. O medo. O querer que as horas passem rápido e que o dia termine e depois começar a angústia de saber que no dia seguinte tudo se iria repetir. Os insultos. As pancadas. Os risos. E acima de tudo a indiferença dos adultos que voltavam a cara para o lado fingindo nada verem. E quando ele se queixava, diziam para se portar bem que aquelas coisas só aconteciam se ele fosse mau. Tentara contar ao pai. Mas o pai só o via muito de vez em quando e não o ajudava. Os avós diziam que ele viajava muito mas os colegas diziam que não. Diziam que estava preso. Que era ladrão. O pai dele.
(continua)
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Re: A Simples Perenidade - Parte I

Postby Thanatos » 15 May 2006 20:04

Pequena nota introdutória: tanto quanto me lembre nunca dediquei nenhum dos meus textos a quem quer que fosse.

Já o fiz para pequenos textos ditos «poéticos» mas nunca para prosa.

E como há sempre uma primeira vez veio-me então a ideia de dedicar este conto, que se pretende inserido num mosaico mais vasto e ao qual também pertence o conto "No Labirinto", ao Samwise que na sua perseverança me fez voltar a pegar nele.

Não tenho nenhum outline do que virá para o futuro. O que tinha perdeu-se algures entre uma e outra formatação de disco rigído (como seria interessante pensar o que poderá suceder à civilização quando tudo residir em memórias de suporte electro-magnético) e portanto daqui para a frente estou tão em branco quanto os possíveis leitores. E o Samwise tem-se revelado um dos meus mais atentos e interessados leitores.

Não sei se isto poderá de certa forma ser um reconhecimento dessa atenção que tens revelado mas para o bem ou para o mal aqui dedico a ti, Samwise, atento e perseverante leitor das minhas deambulações pela Alter-Mater-Construct este singelo conto. A tua presença é apreciada.


-------------------------------------------------

(continuação)

Eram mentirosos, claro. Não sabiam que hoje o pai prometera vir buscá-lo e era por isso que hoje suportava melhor as humilhações e as pancadas e encontrões que os outros lhe davam no recreio. Até as sonolentas aulas passaram numa vertigem de hipóteses. Via-se a ir ao jardim com o pai. O pai comprava-lhe um gelado e depois iam sentar-se debaixo do velho carvalho. O carvalho mais velho de toda a cidade dissera-lhe uma vez o pai e ele acreditava que assim era. Tinha raízes enormes, grossas que se retorciam como se fossem espaguete congelado para sempre numa imagem de confusão.

E assim as dolorosas horas passaram e ele ali estava ele ao portão da escola primária. Ouvindo os últimos insultos proferidos pelos colegas, à socapa, a meia voz ditos de forma aos pais deles não notarem. Alguns até se permitiam o luxo de lhe dar um encontrão com a mala pesada de livros e cadernos, assim como se fosse um mero acidente. Uma coisa de nada. E ele suportava tudo. Tudo porque hoje o pai prometera vir buscá-lo. Por fim acabou sozinho em frente ao portão que entretanto fora trancado por uma auxiliar carrancuda. Ali ficou no passeio da pequena rua, aguardando pela chegada de Gedeão. A pouco e pouco o Sol foi desaparecendo por detrás dos prédios e uma obscuridade castanha desceu sobre aquela parte da cidade. Rafael sentiu uma pontada de frio e abraçou-se tentando conservar algum do pouco calor que as roupas lhe proporcionavam. O pai tardava mas ele sabia que viria. O pai quase nunca faltava. Apenas uma ou duas vezes. E Rafael sabia que era sempre porque tinha tido coisas importantes para fazer. O pai era muito ocupado, O pai também lhe parecia sempre muito triste mas isso era porque a mãe morrera. Sabia que era por causa disso. Os avós tinham-lhe explicado que a mãe morrera quando ele tinha nascido e o pai ficara muito, muito triste.

O carro da polícia rodou a esquina e lentamente percorreu a rua até se imobilizar frente ao portão da escola. Rafael sentiu um calafrio percorrê-lo. Os polícias dentro do carro olharam para ele, entreolharam-se e um deles acabou por sair do carro, atravessou a rua e veio ter com ele. O polícia dobrou-se nos joelhos para o olhar mais de frente e perguntou-lhe se o nome dele era Rafael. Ele disse que sim e o polícia disse que tinha-o vindo buscar porque tinha acontecido uma coisa. Assim mesmo, «tinha acontecido uma coisa», sem mais pormenores. Rafael acompanhou-o até ao carro e entrou para o banco traseiro. O carro cheirava a couro velho e café. Rafael acomodou-se o melhor que pôde e enquanto o carro seguia pelas ruas foi-se entretendo com o bulício do fim de tarde de mais um dia de semana que enchia a cidade de cores variegadas conforme o Sol morria e as luzes o tentavam em vão substituir numa pálida tentativa de defraudar a noite.

Na esquadra estavam os avós que se agarraram a ele aos soluços e chorando lhe contaram que uma coisa muito má, muito má mesmo tinha acontecido. A pouco e pouco Rafael percebeu que o pai tinha sofrido um acidente quando ia para o ir buscar à escola. A princípio pensou que era tudo uma brincadeira. Daquelas partidas que os mais velhos gostam de pregar aos putos como ele. Mas se era uma partida... era das boas. Até os polícias estavam feitos com os avós. E onde estava o pai? Ele queria era o pai. Deixassem de lado as brincadeiras. Onde estava o pai? Soluçando, chorando, esbracejando, Rafael teve um ataque de fúria. Batia a torto e a direito gritando cada vez mais alto que queria o pai. A certa altura entrou uma senhora que com a ajuda de dois polícias lhe meteu uma seringa no braço. Rafael viu as formas ficaram disformes. Sentiu-se sonolento e por fim acalmou-se.

***
Terrível ânsia de sentir-se parte integrante da magnificente Construção onde tudo é Belo e Perfeito! Mas ainda não podia transmigrar-se... o trabalho estava incompleto... falhara o alvo e sentia-se prenhe de induzentes picadas electro-magnéticas que fervilhavam numa auréola frenética que o envolvia em casulo hermético e latejante. Num pulsar vasto e redolente sentiu a ira do Ancião que se revolteava no conceito de abrangência da Construção perene. Explicava-se perante a Suprema presença mas de pouco lhe valiam as explicações. Continuaria reincarnado até que o engano fosse definitivamente debelado. Assim o necessitava a Alter-Mater-Construct, assim o desejava o Ancião e assim sofriam as vozes que ecoavam na vasta planície da teia virtual onde tudo era medido em nanossegundos. Na vertigem dum poço que gira cada vez mais velozmente precipitou-se contra o aglomerado de pequenas sensações analógicas determinantes dum estado febril típico daquela forma de viver. Como sofria o seu corpo eléctrico naquele vaso feito de corrupção!

(continua)
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Re: A Simples Perenidade - Parte I

Postby Thanatos » 15 May 2006 21:51

(continuação)
****

Há uma região onde o silêncio cria formas que ganham substância dentro dos sonhos dos poetas e dos loucos. Essa região é por alguns conhecida como Entre-Mundos, por outros como Limbo e ainda por outros como Purgatório.

Canais que se interiorizam na matéria tornada carne pela ilusão dos profetas alucinantes duma Verdade inalcancável pelos intelectos das pobres criaturas abandonadas em cima do torrão de pedra e ferro a que chamaram Terra. Uns tornam ao plasma informe onde todo o saber é Uno. Outros elevam-se a uma similitude e verosimilhança de carne reincarnada onde até as emoções se tornam férteis de significado. Estes últimos escapam-se na velocidade tenebrosa duma luz que se evade dum plano fantasmagórico onde se sentiam aprisionadas. E uma dessas manifestações pousa agora sobre um único plano, uma única existência, um tempo linear. O aqui e agora deste tempo onde a narrativa prossegue. Na viela escura duma noite na cidade de Lisboa onde o drama de Rafael tende a esvair-se em múltiplas hipóteses. E num relâmpago de metaficção ergue-se contra o beco sórdido a figura manifestada do antagonista. Aquele que poderá equilibrar os braços da cega justiça e da temperança duma sólida constituição tornará a revitalizar as voltas dum diagrama de Moëbius.

(continua)
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Re: A Simples Perenidade - Parte I

Postby Samwise » 19 May 2006 13:39

Quero dizer tanto sobre esta obra que nem sei como começar... ou como o fazer.

Vou almoçar. Tenho de ler isto com mais atenção. A ideia com que fiquei da primeira leitura (feita há um ano), e que se reforçou com leituras subsequentes, é que isto é algo muito distante do vulgar "textozito para colocar no BBdE", algo muito maior...

Só o fervilhar de ideias e o grito rasgado, quase gutural, em que o texto está escrito...

Vou almoçar...

Sam
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Re: A Simples Perenidade - Parte I

Postby Samwise » 19 May 2006 16:38

Como mandam as regras da boa educação, e para que o acto não fique irremediavelmente esmagado debaixo da roda do tempo, tenho um agradecimento a fazer.
Foi há largos meses que pedi ao Thanatos que continuasse este conto, “A Simples Perenidade“. Se bem me recordo, a ideia veio a propósito das escolhas de textos a constarem no primeiro E-zine BBdE. Achava eu, e ainda acho, que este trabalho era uma das coisas mais pujantes alguma vez publicadas aqui por terras do BBdE, e custava-me que tal trabalho não tivesse um fim anunciado. Ou melhor, fim anunciado havia, frio como o destino: era mesmo o de ficar incompleto, votado ao esquecimento.
Sabendo que o acto de escrever depende muito do impulso/inspiração do momento, e sabendo aquilo que custa pegar num texto inacabado bastante tempo mais tarde, deixo aqui uma palavra de apreço por este esforço, que poderá ter sido mesmo… gargantuesco.

Volvido todo este tempo, continuo deliciado com as descrições fulminantes da “matéria” cibernética constituinte da nossa realidade; com as violações - aparentemente nada aleatórias - dos corpos dos mamíferos por parte daquele ser digital; com os inícios de tomada de consciência dos resultantes híbridos; e com o ainda enigmático significado de toda esta orgia dos sentidos através do tempo. E não é só o fervilhar de ideias e conceitos, é o superlativo e alucinante modo como estão dispostos em palavras. Abusador na terminologia? Talvez. Mas não faria sentido estar escrito de outra forma.

O Apok uma vez mencionou que na tua cabeça devem andar a flutuar (e a flatular, ;) ) alguns universos alternativos…e que de vez em quando lá vinha um deles cá para fora, parar bem ali no meio do ecrã do computador.

Fosse eu o Grande Ancião e estarias fechado numa sala de coloração serena e agradável, sentado em frente a um teclado ergonómico, com luz natural pelo lado esquerdo, e com a imposta obrigação de fabricares umas quantas folhas de material publicável por hora.
Como não posso produzir esse tipo de “rapto”, deixo-te antes um repto, um pouco ao jeito de Stephen King, quando a propósito de “To Kill a Mockingbird”, e na obra “On Writing”, se interrogou acerca dos porquês de Harper Lee em não aproveitar o dom que Deus lhe deu. *
Quem escreve assim, quem está munido deste poder criativo, devia pelo menos tentar usá-lo com fins produtivos. A mim, que não sou ninguém, custa-me ver esse talento ficar guardado na algibeira. Alguns dos teus trabalhos, Thanatos, estão entre as melhores coisas que vi publicadas na Internet em sites/fóruns deste género. Segundo os meus critérios, escreves muito melhor que muitos dos que estão à venda nas livrarias.

So, to finish the way I started, here's a big “Thank You” to you, for not letting go of this one...

Sam

P.S. *

If "read a lot, write a lot" is the Great Commandment - and I assure you that it is - how much writing constitutes a lot? That varies, of course, from writer to writer. One of my favorite stories on the subject - probably more myth than truth - concerns James Joyce. According to the story, a friend came to visit him one day and found the great man sprawled across his writing desk in a posture of utter despair.
    "James, what's wrong?" the friend asked. "Is it the work?"
    Joyce indicated assent without even raising his head to look at the friend. Of course it was the work; isn't it always?
    "How many words did you get today?" the friend pursued.
    Joyce (still in despair, still sprawled facedown on his desk): "Seven."
    "Seven? But James . . . that's good, at least for you!"
    "Yes," Joyce said, finally looking up. "I suppose it is . . . but I don't know what order they go in!"
    At the other end of the spectrum, there are writers like Anthony Trollope. He wrote humongous novels (Can You For-give Her? is a fair enough example; for modern audiences it might be retitled Can You Possibly Finish It?), and he pumped them out with amazing regularity. His day job was as a clerk in the British Postal Department (the red public mailboxes all over Britain were Anthony Trollope's invention); he wrote for two and a half hours each morning before leaving for work. This schedule was ironclad. If he was in mid-sentence when the two and a half hours expired, he left that sentence unfinished until the next morning. And if he happened to finish one of his six-hundred-page heavyweights with fifteen minutes of the session remaining, he wrote The End, set the manuscript aside, and began work on the next book.
    John Creasey, a British mystery novelist, wrote five hundred (yes, you read it correctly) novels under ten different names. I've written thirty-five or so - some of Trollopian length - and am considered prolific, but I look positively blocked next to Creasey. Several other contemporary novelists (they include Ruth Rendell/Barbara Vine, Evan Hunter/Ed McBain, Dean Koontz, and Joyce Carol Oates) have written easily as much as I have; some have written a good deal more.
    On the other hand - the James Joyce hand - there is Harper Lee, who wrote only one book (the brilliant To Kill a Mockingbird). Any number of others, including James Agee, Malcolm Lowry, and Thomas Harris (so far), wrote under five. Which is okay, but I always wonder two things about these folks: how long did it take them to write the books they did write, and what did they do the rest of their time? Knit afghans? Organize church bazaars? Deify plums? I'm probably being snotty here, but I am also, believe me, honestly curious. If God gives you something you can do, why in God's name wouldn't you do it?


Sorry about the space...
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Nemo vir est qui mundum non reddat meliorem?

My taste is only personal, but it's all I have. - Roger Ebert

- Monturo Fotográfico - Câmara Subjectiva -


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