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Thanatos
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Postby Thanatos » 04 Apr 2005 12:57

[size=50][…]
The Second Coming! Hardly are those words out
When a vast image out of Spiritus Mundi
Troubles my sight: somewhere in sands of the desert
[…]
And what rough beast, its hour come round at last,
Slouches towards Bethlehem to be born?[/color]

----------------------
[size=50]The Second Coming[/color]
W.B. Yeats



O quieto e breve instante que precede a alvorada, quando o céu se despe do púrpura profundo e enverga o ouro, era uma sublime experiência na orla do ar-Rub Al-Hali. As eternas areias, auríferas, levemente sopradas por uma brisa incansável, recortavam-se em dunas após dunas num ciclo constante.

O caçador soprou na palma da mão a ordem habitual:
- Ide… – e as sondas, livres, elevaram-se no ar da manhã, planando nos primeiros mantos de calor, rumo a destinos pré-programados. Iniciava-se assim o tempo de espera, a ansiedade da caça, o fremir da adrenalina.

Impiedoso, o Sol ergueu-se em fúria martelando implacavelmente o ouro na bigorna do planeta. A brisa tornou-se mais insistente, mais cálida. As horas escorreram num declive entrópico. O elmo do caçador informava-o da evolução das sondas, retransmitindo pequenos procedimentos para alargar o leque da busca. Um pouco antes do anoitecer as sondas regressaram antes das cargas energéticas se exaurirem por completo. Dardejaram, quais colibris mutantes, em volta do caçador, buscando as adiposidades de onde escorriam breves gotas de proteínas. Durante a curta noite recarregariam as baterias proteicas. O caçador suspirou. Não seria hoje o Dia da Resolução.

O Dragão Quântico era a mais temível arma do Arsenal dos Mecanistas. Baseando a sua existência no postulado quântico da incerteza, a sua presença era virtualmente impossível de detectar sem a ajuda de sondas especialmente concebidas para vibrarem continuamente no espaço-tempo, recolhendo milhares de bits de dados que eram posteriormente processados por CPUs vulgares. Um desses CPUs residia na parte frontal do elmo do caçador e enquanto este se encaminhava para o pequeno igloo onde passaria a noite, processava violentamente as strings. Concatenando cadeias infinitas de probabilidades estabeleciam-se as probabilidades da presença futura do Dragão. A informação era passada directamente ao córtice neuronal do caçador. A cada dia que passava as probabilidades apontavam com mais certeza para a presença do Dragão naquele deserto.

A intenção parecia-lhe clara. Aquela única arma fora a responsável pelo desaparecimento das grandes cidades do Bloco Norte. Inexoravelmente deslocara-se pela superfície do planeta, queimando todos os focos civilizacionais. Os Abandonatti, os esquecidos da poderosa civilização que um dia rumara às estrelas, deixando atrás de si um enorme complexo de guerra, sorvedouro insaciável de recursos naturais, de que o planeta já não dispunha, lutavam pelo seu direito de herança, e nos tempos finais refugiaram-se na pirâmide invertida, a que chamaram o Reduto. Algures na vasta Inteligência Artificial que comandava o exército Mecanista as ordens eram para a destruição completa do Reduto.
Carregado de sombrias certezas, com as sondas alimentando-se nas suas carnes, deitou-se na austera esteira e disciplinou o cérebro para cair em onda alfa.

O terrível pesadelo voltou, insinuante, gélido no âmago. À sua volta o deserto das emoções, tal como uma gravura velha de Doré. A traços de tinta-da-china. Para sempre aprisionados, a esposa e o filho. Mudos, imóveis. Sofrendo a lenta eternidade, enquanto por todo o lado o lodaçal dos vícios passados escorria pelas escarpas ameaçando asfixiá-los. Ele gritava, tentando acordá-los do coma, mas o som morria mal saía dos lábios, todo o movimento era abafado numa cortina de bruma. Restava-lhe vê-los morrer, soterrados na negra lama. Novamente. E novamente. E ainda outra vez!

Acordou, como sempre, encharcado em suor. Arrastou-se para fora do igloo para saudar mais um amanhecer. Suspirou a ordem usual e elas voaram de encontro ao Sol. Ajustou o camuflado, roubado de um armazém Mecanista, para iludir os Olhos do Céu que em breve passariam por aquelas coordenadas. As Inteligências Artificiais Mecanistas dariam tudo por tudo para saberem onde ele se encontrava. Ele, contudo, ali estava. Alimentado pelo ódio cego da tenacidade, aliado à catarse da vingança. Era o último bastião de defesa do Reduto. Milhões de Almas dependiam do seu sucesso. E apenas duas lhe importavam.

A meio do dia veio a confirmação decisiva. O Dragão Quântico oscilava a duzentos quilómetros dali. Era o tempo da acção. Colocou o camuflado em matte absoluto, para lhe dar uma chance de aproximação indetectada. Com um bisturi removeu as adiposidades, cauterizando as feridas com saliva. Manteve as sondas na esteira do inimigo enquanto percorria a distância que o separava da nemésis.

Hoje, finalmente, seria o Dia da Resolução.

Um frémito de calor elevava-se das dunas à sua frente. As sondas informavam-no que para além delas estava o Dragão. Embora contasse muitos anos o caçador sabia que o que iria presenciar seria algo nunca antes visto por olhos humanos. Uma criação automática das infernais fábricas Mecanistas, o Dragão existia com um único fim. A aniquilação do Reduto e com ele os últimos elementos dos Abandonatti, os que ficaram para trás, os que optaram por morrer no berço.
Feito à imagem do monstro mitológico, oscilando entre dois perenes estados-tempos num continuum trepidante apenas visível aos receptores oculares do elmo, o Dragão era uma máquina atroz de volume quase impossível de abarcar de uma só vez. Um scan rápido enviou-lhe para a retina as exactas dimensões da besta, mas o caçador preferiu ignorar as precisões do CPU e deixar os sentidos inundarem-se na imensidão perante si. A máquina, caso se encontrasse no in loco, obscureceria o Sol, elevando-se a mais de 100 metros e estendendo-se no horizonte por umas três vezes essa medida. Umas asas mecanóides sustentavam o ciclópico corpo sem esforço aparente. Excrescências espigavam-se por toda a superfície, recolhendo dados, analisando tudo e procurando possíves ameaças que se pudessem tornar em alvos para a miríade de armas dissimuladas por detrás de portinholas inocentes. Neste preciso instante fora assimilada a presença do caçador o que foi uma total surpresa para a máquina que recebia os dados com antecedência dos Olhos do Céu. O inesperado surgimento duma possível ameaça sem pré-aviso colocou o Dragão em alerta máximo. Milhares de miras fixaram-se na tremeluzente forma do homem que do alto de uma duna se recortava contra o horizonte. Um breve scan informou a máquina da espécie biológica, e pesando os dados à velocidade da luz decidiu eliminá-lo prontamente. Uma portinhola algures no ventre abriu-se deixando passar um micro-missíl que impulsionado pela curta explosão de gás foi alojar-se no peito do caçador, trespassando-o de lado a lado, rompendo pelo caminho os ventrículos do coração, desfazendo um pulmão, estilhaçando parte duma costela e libertando veneno durante todo o percurso. Mais rápido que as junções sinápticas, o veneno actuou matando o caçador ainda antes de este sentir fosse o que fosse.

A Inteligência Artificial decidiu que se impunha uma análise mais detalhada daquele humano para tentar perceber mais do inimigo. Extensores projectaram-se do corpo do Dragão agarrando brutalmente o caçador e recolhendo-o ao interior do complexo assassino. Toda a informação era preciosa. Guerras ganhavam-se ou perdiam-se com base na qualidade e quantidade de informação que cada antagonista dispunha. O Dragão respondeu aos programas básicos de todas as máquinas Mecanistas de eterna compilação e catalogação de dados, para alimentar a gigantesca Inteligência Artificial que as guiava.

Foi durante a autópsia preliminar que o Dragão percebeu o erro que cometera. Dissimulado no organismo do cadáver, um feroz nanovírus propagara-se aos sistemas de análise e recolha de informação da sala de autópsias. Dali escapara para a rede principal, e iludindo todas as contra-medidas de segurança e todos os algoritmos de encriptação, alojara-se no cristal que comandava o sistema principal. Curiosamente, ou talvez nem tanto assim, este nanovírus era tão antiquado que nenhuma das barreiras digitais estava precavida para um ataque a um nível tão baixo. O Dragão fora derrotado pelo passado.

Para evitar ficar exposto a ataques exteriores o Dragão cometeu o equivalente ao suícidio queimando os circuitos de estabilização. Ostracizado numa eterna dobra quântica o Dragão deixou de pertencer à terceira dimensão.

Passados éons é ainda possível, com o equipamento correcto, ver a magnífica forma da Besta encurralada na mais estranha prisão de todas.

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Re: Dragonslayer

Postby Maloveci » 04 Apr 2005 22:28

:clap: :clap: .... altamente radical .
Temos aqui um novo autor para a saga do "Senhor dos Anéis" ou something like that ... :rolleyes: ... Gostei, é diferente daquilo que costumo ler .
Adoras B.D. ... estarei errado ?
<!--coloro:#0000FF--><span style="color:#0000FF"><!--/coloro-->Desabafas??? Eu também... Estou aqui: <!--colorc--></span><!--/colorc--> <!--coloro:#9932CC--><span style="color:#9932CC"><!--/coloro-->maloveci@jamaicans.com<!--colorc--></span><!--/colorc-->

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Re: Dragonslayer

Postby Thanatos » 05 Apr 2005 07:35

Maloveci wrote: Adoras B.D. ... estarei errado ?

Obrigadão! :D

B.D. gosto moderadamente. Os euros não chegam para os vícios todos e a coitadita da B.D. tendo em conta o tempo que levo a lê-la e o preço acaba sempre por ficar mal na lista de opções. :(
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Re: Dragonslayer

Postby Samwise » 05 Apr 2005 11:29

Ora aqui está um perfeito conto Sci-Fi/Fantástico.

Totalmente contido na seu curto tamanho, não perde tempo com explicações desnecessárias.
É curioso mais do que o suficiente para nos manter presos e a história faz sentido.
Melhor que tudo: é muito agradável de ler.

Thanatos... este, afinal, é que é o tal conto do "Dragão Quântico" de que eu te fiz, inadvertidamente, lembrar?

O título do conto faz-me lembrar um filme com o mesmo nome, lançado pelos estúdios Disney há uns anitos valentes. O que saltava mais à vista eram os efeitos especiais, excelentes para a época (e quem sabe ainda hoje). O dragão estava particularmente imponente e bem construído.

Sam
Guido: "A felicidade consiste em conseguir dizer a verdade sem magoar ninguém." -

Nemo vir est qui mundum non reddat meliorem?

My taste is only personal, but it's all I have. - Roger Ebert

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Re: Dragonslayer

Postby Samwise » 05 Apr 2005 11:31

Está na altura de criares uma área para colocares os teus contos!!!!! ;)

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Re: Dragonslayer

Postby Thanatos » 05 Apr 2005 11:38

Totalmente contido na seu curto tamanho, não perde tempo com explicações desnecessárias.


Short & Sweet. Para quem ainda pensa que o tamanho conta. :lol: Por acaso tem este tamanho porque havia uma imposição de limite de palavras. :stars:

Thanatos... este, afinal, é que é o tal conto do "Dragão Quântico" de que eu te fiz, inadvertidamente, lembrar?


Yep. The one and only! :P

O título do conto faz-me lembrar um filme com o mesmo nome, lançado pelos estúdios Disney há uns anitos valentes. O que saltava mais à vista eram os efeitos especiais, excelentes para a época (e quem sabe ainda hoje). O dragão estava particularmente imponente e bem construído.


O dragão por acaso era uma dragoa. :P E sim os efeitos eram excelentes e a história também era bem cativante. Infelizmente só existe em DVD Região 1 sem extras de jeito.
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