Anjos e Demónios

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Samwise
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Anjos e Demónios

Postby Samwise » 19 Sep 2005 09:38

Anjos e Demónios

A noite chegou mansa, densa e fria. A lua redonda ofuscava as estrelas.

Barnabé pastor regressava a casa pelo velho caminho. Apoiando-se no cajado de pau arrastava a mula teimosa monte acima. Desde que começara a subida uma dorzita de cabeça aconchegava-se-lhe nas têmporas. Cascos ecoavam sobre pedras de granito mal alinhadas e cigarras tagarelavam, à beira da estrada, enfiadas nas ervas. Barnabé ouvia um leve zumbido que atribuía aos efeitos do tinto com que brindara a broa que comera ao lanche.

- Arre!... Embora... Vamos! Daqui a pouco é a descer...

Quanto mais se aproximavam do velho poço que, abandonado, aguardava lá em cima, no ponto de inflexão do relevo, mais o bicho contrariava os puxões do dono.

- Mas que tens hoje? Não levas assim tanto peso... ARRE, Salomão! Tocá subir...

Um caldo quente, uma tigela de guisado e umas brasas incandescentes para aquecer os pés. Quando chegasse a casa, comer-cama, que o dia seguinte também seria dia.
Não muito longe começava a distinguir-se a clareira lateral, a abertura à esquerda no caminho, onde dormitava desde há séculos o poço.
Que raio de sítio para cavarem um buraco... tiveram que subir cá acima para chegarem lá abaixo. Se calhar era onde havia água. Não iam cavar ali só por cavar. Mas não deixava de ser curioso. Barnabé deu-se consigo a pensar que nunca havia reflectido sobre aquela estranheza.
O poço sempre ali estivera. Ele sabia-o. Era um facto, não uma coisa que se questionasse. Tantas vezes naquele caminho passara e nem nunca dera atenções aquela fria passagem para as entranhas da terra.
Passagem para as entranhas da terra? Barnabé, deves andar doente! Ou isso ou foi da vinhaça, que se calhar te caiu mal. O zumbido dentro da sua cabeça acentuava-se, tornando-se mais grave. Começava a senti-lo nos tímpanos, uma vibração constante, que fazia comichão.
Nisto, a mula fez finca-pé, atirando-lhe a figura, desamparada, para o meio do chão.

- Raisparta! Que bicho te mordeu?

Levantava-se a custo o pastor quando, pelo canto do olho, vislumbrou luz provindo da clareira. Era com se a lua se reflectisse nalguma coisa, ainda para ele oculta, e criasse uma aura de luminosidade em seu redor.
Caminhou uns passos à frente, contornou os sobreiros de folhagem volumosa que lhe cortavam o ângulo e deparou-se com um espectáculo que lhe asfixiou os motivações.
À sua frente, acabadas se sair do velho poço de pedra, três jovens mulheres, completamente despidas, nuas como vieram ao mundo - e tinham acabado de vir, para todos os efeitos – disparavam-lhe olhares viperinos.
Barnabé, mudo de fala e mudo de movimentos, distinguiu ao longe o trotear irregular da mula, que se apeava rápida a descer por onde há pouco tinha subido.
Os corpos nus, arrebitados, iluminados como que por holofotes escondidos nos arbusto, moviam-se serenos numa harmonia hipnótica. Não desviavam os olhos do pobre pastor.
A Barnabé fez-lhe confusão as contradições aparentes que lhe tolhiam os sentidos. Na sua boca, seca como cal, desprendiam-se jactos de saliva que chicoteavam a língua. Queria fugir e queria ficar. Um alto imenso sentia-o na braguilha. Na sua nuca os pelos competiam a ver quem se esticava mais alto. O sangue circulava a custo, de certo limitado pela escassa temperatura à qual tinha descido; mas o homem tinha era calor. Um calor mais intenso do que o Sol alguma vez lhe tinha proporcionado.
Anjos? Parecem anjos. Ou melhor, parecem anjas!

Barnabé... Barnabé…

Um sussurro, um vibrar daquele zumbido nos tímpanos. Elas não falavam mas ele ouvia-as.

Barnabé... Anda...

Barnabé Jacinto, quarenta e três anos, alguns cabelos grisalhos, e duas vezes na vida, que se lembrasse. Duas vezes na vida tinha Barnabé visto o corpo de mulher desprovido de aconchegos. A primeira tinha sido na ribeira, quando muito novo. Não contava essa, nada de invulgar tinha sentido. A outra fora num calendário de oficina, manchado por dedadas de óleo, na aldeia de S. Julião. O mês era Agosto e a rapariga da fotografia tinha, de certeza, sido escolhida em sintonia com a época do ano. Conservava aquelas curvas, da cara já não se lembrava, na memória. Quando nos montes apertava a vontade, agarrado à lã que um dia haveria de ser tosquiada, Barnabé imaginava que assentava as mãos sobre o dorso da menina do calendário. Não lhe servia, pois, o rosto para nada.

Barnabé...

As anjas avançavam, deslizavam até ele, desdobravam-se em graciosos movimentos eróticos. Ele percorria-lhes os corpos com os órgãos que podia, mais atónito que atento. Ai minha mãe! Ai Jesus, que vou explodir!
Agarraram-lhe a mãos e puxaram-no para o meio da clareira, deitaram-no sobre um manto de musgo e começaram a despi-lo.
Uma delas sentou-se sobre o colo de Barnabé, que só via seios à sua volta. Não sabia o que havia de fazer. Dadas as circunstâncias, a questão não parecia um problema. Não ousava mover-se, não fossem as meninas tomar a iniciativa como sinal de repúdio.
Acariciaram-no com as mãos, com as línguas, com as pontas dos cabelos suaves. Aqueciam-lhe o corpo com os seus. Alimentavam-lhe nervos e sensações que nem suspeitava possuir. Se morresse agora, dizia ele para consigo, morreria feliz. Porco desavergonhado, retorquiu-lhe a consciência, não tardas pela demora.
Uma anja beijou-o na boca, língua e tudo, numa volúpia de infernais desejos crescentes. Que horror, não lavo os dentes há uns meses.

Barnabé... Barnabé...

Ouvia ainda aquele sussurro estonteante quando a carne de seu corpo se começou a desprender dos ossos, arrancada à bruta. À sua volta não estavam anjas mas demónios. Não mulheres de pele suave mas animais escamosos de caudas compridas, dentes afiados e orelhas pontiagudas. Não femininos mas masculinos.
Um grito instintivo iniciou-se lá dentro, nos centros de decisão sensoriais de Barnabé. Não chegou a espalhar-se pela noite, visto já não existir boca, nem maxilar, nem cordas vocais para efectivar tamanha vontade. Os demónios mordiam, rasgavam, trincavam e mastigavam, deglutiam e arrotavam alto para o ar, fazendo calar as cigarras. Bebiam o sangue. Lambiam os beiços manchados de satisfação. Riam-se histericamente. Barnabé já não existia em consciência, era todo ele ossos e carne pendurada nesses ossos. Não tardaria um esqueleto roído atirado ao poço, agora caindo, agora aterrando sobre uma pilha de outros Barnabés magricelas, engolido e ruminado pelas entranhas da terra.

FIM
Guido: "A felicidade consiste em conseguir dizer a verdade sem magoar ninguém." -

Nemo vir est qui mundum non reddat meliorem?

My taste is only personal, but it's all I have. - Roger Ebert

- Monturo Fotográfico - Câmara Subjectiva -

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Venom
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Re: Anjos e Demónios

Postby Venom » 21 Sep 2005 17:39

Este tal como o artista tao muito bem descritos,e sao muito do meu agrado :P Voces sabem que eu gosto de este tipo de contos :angel:
no sci-fi masterpiece depicts an AI that, upon coming online and searching its database in an effort to better understand mankind, responds by shouting, “You guys are awesome! We should get nachos!


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