Círculo

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Samwise
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Postby Samwise » 29 Jan 2007 18:50

"the sewers belch me up..
the heavens spit me out...
from ethers tragic I am born again...
and now i'm with you now
inside your world of wow!"

in The End Is The Begining Is The End - The Smashing Pumpkins


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Ontem, 19 de Janeiro, não aconteceu nada de estranho a Mr. Jingles.

Absolutamente nada.

A não ser, evidentemente, o facto de ter tido de rastejar, em pelota, ao longo de uma tubagem de esgoto com 40 centímetros de diâmetro e 500 metros de extensão, na mais completa escuridão, de ter demorado 4 horas a fazê-lo, e de, por falta de alternativa, ter sido obrigado a mergulhado numa lagoa de imundices quando finalmente se puxou para fora do cilindro, com o corpo engelhado de frio e as articulações tolhidas pelas cãibras.

A mensagem apócrifa que encontrara por baixo da almofada na sua cela de aprisionamento, depois de ter chegado do jantar, deixara-o completamente boquiaberto:

«Por trás da tua escrivaninha há um túnel. Esgueira-te por ele depois de fecharem as luzes na ala. Vai dar à sala das máquinas. Enfia-te pela conduta C-19 (não te enganes, senão morres lá dentro) e põe-te ao fresco. Mais indicações no exterior. Mastiga e engole esta mensagem. Ass: J.»

Que alguém conseguisse facilmente colocar uma mensagem dentro da sua cela, não lhe custava engolir. O que lhe custava engolir era que um túnel tivesse sido escavado até lá, através de várias camadas betão reforçado, mesmo nas suas barbas. Ainda pensou tratar-se de uma partida qualquer, talvez até perpetrada pelo Sargento Hadley (sim… estariam todos à sua espera no final do túnel, eles e os simpáticos bastões), mas logo colocou a ideia de parte. O idiota do Hadley não tinha miolos para uma patranha daquela magnitude. E quando queria bater, não precisava de desculpas. Atirava com o bastão e pronto – era o osso que estivesse à frente.

Depois de ter nadado para fora da poça macilenta, Jingles reparou numa seta verde fluorescente pintada numa grande rocha uns metros à sua frente. A seta, que rebrilhava à luz da lua e dos inquietos reflexos lançados pela água da lagoa, apontava para uma apertada fenda na estrutura irregular.

Jingles olhou em redor. Conseguia ver a penitenciária atrás de si, ao longe, e um pinhal bastante denso à sua frente, a uns 50 metros de distância.

Avançou até à rocha, enfiou a mão na fenda e retirou uma mochila lá de dentro. O seu espanto crescia a cada segundo que passava. Correu o fecho e encontrou, no interior, uma toalha de banho, roupa seca, uns ténis Nike novinhos em folha - do seu número -, um GPS electrónico, e uma segunda nota assinada por J.

«Limpa-te, veste-te, calça os ténis, liga o GPS, e dirige-te até ao ponto de encontro assinalado como ‘cabana’. Espero-te lá. Tens duas horas de caminho pela frente – isto se vieres a correr. Tens pouco tempo. Não tardarão a dar pela tua falta.»

Jingles ligou o aparelho e esperou pela ligação triangular aos satélites. Uma seta apareceu no ecrã, indicando-lhe a direcção ao tomar. Colocou a mochila às costas e embrenhou-se pelo bosque adentro, transportando aquela fonte de claridade esverdeada na mão, que emitia luz como se de um pirilampo se tratasse.

Iniciava já a amanhecer quando um Jingles à beira da exaustão avistou o princípio da clareira onde a cabana assentava fundações.

Jingles saiu do bosque como quem sai de um pesadelo. De um lado escuridão e sombras, e do outro, um prado verdejante, o sol, à beira de nascer, lançando claridade por detrás das montanhas, e uma cabana de madeira surgida como que de um conto de fadas, uma camada neve sobre o telhado e tufos de fumo brando a escaparem-se pela chaminé.

Bateu à porta com os nós dos dedos e encostou-se a um pilar de madeira que suportava o alpendre. Tentou controlar a respiração.

Um homem, que era a sua cara chapada, abriu a porta, consultou o relógio de pulso, e exclamou: ‘Atrasado.’

‘Quem é o senhor? O que se está a passar?’, disse Jingles, apavorado, enquanto aquela figura - o seu reflexo exacto - o arrastava convidativamente para dentro da habitação.

'Não tenhas medo, perceberás tudo num instante.'

No interior da cabana, um enorme espaço vazio. Havia uma lareira acesa ao fundo, crepitando a um canto, e, ao centro, uma cadeira de madeira escurecida, uma mesa do mesmo material, e uma máquina de escrever por cima.

‘Estás cansado. Senta-te, senta-te.’

Jingles, sentou-se, aparvalhado. Olhou para o papel encravado no rolo da máquina, e foi tomado por uma vertigem devoradora. Era como se o seu cérebro tivesse sido virado do avesso, puxado de dentro para fora por uma gigantesca ventosa de borracha. No momento em que Jingles começou a ler, realidade tomou contornos de ficção.

No papel, três linhas incompletas, à espera de continuação:

«Ontem, 20 de Janeiro, não aconteceu nada de estranho a Mr. Jingles.
Absolutamente nada.
A não ser, »

Sim, entendia agora tudo.

De súbito, apercebeu-se de que estava sozinho na sala. Sorriu de desilusão, o rosto contorcido numa careta ácida, e colocou mãos à obra.

Tec – Tec – Tec…



Sam
Guido: "A felicidade consiste em conseguir dizer a verdade sem magoar ninguém." -

Nemo vir est qui mundum non reddat meliorem?

My taste is only personal, but it's all I have. - Roger Ebert

- Monturo Fotográfico - Câmara Subjectiva -

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