Mrs. Krups e Mr. Vandemar

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Mrs. Krups e Mr. Vandemar

Postby Samwise » 27 Feb 2007 18:50

Mrs. Krups e Mr. Vandemar *

João Ortega, miúdo de oito anos, mora com os pais no 2º esquerdo do nº 26 dos Prazeres à Lapa. No futuro, quando a realidade da quotidiana vivência neste prédio não passar de uma ténue e descolorida lembrança no seu cérebro, o Joãozinho terá sempre na recordação a Sra. Krups como a velhinha simpática do 3º direito que de vez em quando lhe oferecia chupas. E, se ao rapaz pedissem amanhã na escola para fazer um desenho da Sra. Krups, ficariam espantados não com a figura da mulher si, pequenita e atravancada, mas com a sombra que o Joãozinho, não fazendo ideia porquê, lhe hipoteticamente pintaria - uma sombra de abutre. São instintos certeiros, como viremos daqui a pouco a saber.

Para a D. Carmim, porteira, ocupante da Cave esquerda, o Sr. Vandemar sempre lhe pareceu uma pessoa extremamente taciturna. Reservado e distante, homem de nunca olhar os outros nos olhos, para além dos habituais bons-dias, boas-tardes e boas-noites, a D. Carmim nunca lhe ouviu mais do que "Hum"s, "Ahum"s, e "Mmmm"s da boca para fora. Não fosse pelo facto de já lhe ter visto a língua em duas ou três ocasiões - possivelmente quando o Sr. Vandemar a cumprimentou com os tais "bons ou boas qualquercoisas" - a D. Carmim diria que um gato lha havia comido. Estranho casal esse, a Sra. Krups e o Sr. Vandemar; ela uma velha encardida, e ele um cepo rijo. Casados vai bem para umas bodas de diamante...

Aos olhos do Sr. António Malmequer, a Sra. Vandemar é uma jóia de pessoa. Excentrica, de facto, mas não deixa de ser uma jóia por causa disso. Sempre que se cruza com ela no corredor comum (o Sr. Malmequer mora no 3º esquerdo) ou no elevador, a Sra. Krups pergunta-lhe atenciosamente pela saúde, pela esposa e pelos filhos. Mais: normalmente, de duas em duas semanas, a Sra. Krups bate-lhe à porta para oferecer umas "empadas de galinha e uns rissoizitos acabados de fritar". E que delícia, aquelas empadas. Não duram para duas refeições.

Pedro Góis, estudante universitário de pais abastados, oriundo de Traz-os-Montes, é arrendatário do apartamento do 1º esquerdo. Não poucas vezes, quando regressa das aulas, à tardinha, o Sol já do outro lado do monte, o Pedro vê o Sr. Vandemar a enfrascar-se na tasca da esquina. Já deu com ele a cambalear pela rua, apoiando-se nas parede e nos carros estacionados ao longo do passeio. E quando o Sr. Vandemar repara que o estão a observar, saca da boina e faz uma vénia, "M'to boas tarde, patrão. A vida? Vai bem? Os estudos?" É sempre a mesma coisa. E o Pedro tem pena; o raio do velho está sempre bem disposto - nunca o viu irritado. Segundo a D. Carmim, não se lhe conhecem notícias de violência doméstica. E lá está, volta e meia aparece-lhe a Sra. Krups à porta, com uma travessa carregada daquelas delicias de galinha - se a mulher levasse pancada, nem sonhar que punha tanto amor na cozinha.

A D. Gertrudes, inquilina do 2º direito, mulher beata de profunda dedicação religiosa, já conhece a Sra. Krups há uns vinte anos e tal. Conhece, é como quem diz, que a velha é mais reservada que um jackpot em máquina de casino. A D. Gertrudes vai todos os Domingos com a Sra. Krups à missa na igreja do bairro. Ao longo dos dez minutos de caminho, o discurso pouco varia: ele é a telenovela das onze, ele é o governo que só faz disparates, ele é o frio que se vem sentindo desde que a hora mudou. E se fizéssemos as contas às vezes e aos anos que estes minutos todos somam, para cá e para lá, ora de casa para a igreja, ora da igreja para casa, das duas uma, ou depressa nos afundaríamos nas parcelas da operação, ou rapidamente nos perderíamos como para os carneiros do sono. E todos os Domingos, dever católico cumprido, antes de em suas casas entrarem, antes de se despedirem "até para a semana, fique bem vizinha", lá estão as duas senhoras a trocar delícias culinárias - vai para lá compota de gengibre e hortelã, de lá vêm seis pasteis de massa tenra, desses que me cheiraram ontem há noite na escada, quando fui pôr o lixo na rua.

O Sr. Antão, 1º direito, reformado, viúvo, passa os dias a bater cartas no jardim da Conceição. Ele e mais um grupo de sobras sociais. É lá que se sente bem. Joga à sueca e ao dominó, joga e espera, espera e joga. Vão falando de futebol, que as mulheres já a vontade não atinge. Volta e meia o Sr. Antão joga às cartas como Sr. Vandemar, outra presença assídua naquelas tardes de fim de vida. Quando ganha, o Sr. Vandemar faz "Ahem", e põe um sorriso desdentado de boa disposição; quando perde, faz "Hum", e afunda um pouco mais a boina na cabeça. Então vizinho, como vai a vida. Cá nos vamos, cá nos vamos. E o Sr. Antão fica então a pensar a que é que o Sr. Vandemar se refere ao certo.

A Sra. Krups e o Sr. Vandemar são primos, não lhes estranhemos pois a diferença no apelido. Se calhar é por isso que o Tristão, o filho, nasceu com uma cara tão chata. O Tristão tem vinte e três anos, nunca foi amigo da escola, e não sabe quantos são um e um (uma vez respondeu à professora que eram pardais). Dói só de olhar para o moço. Parece quase que levou com uma porta em cheio no meio do nariz. Tem a testa alta, uma cara esguia e as orelhas salientes, e imagina-se-lhe uma cicatriz à Frankestein em volta do pescoço. O Tristão trabalha, mas nunca ninguém o vê entrar ou sair de casa; Oo Tristão trabalha de noite. O padre lá da paróquia, por piedade aos pais, arranjou-lhe trabalho na morgue do cemitério. É de lá que o Tristão, todo ele sorrisos de amor fraterno, traz a carne para a mãe fazer os rissóis.

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* Nome dos personagens vagamente inspirados no livro "Neverwhere", de Neil Gaiman
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Re: Mrs. Krups e Mr. Vandemar

Postby vooodo » 28 Feb 2007 18:36

Adorei Sam, quero mais.
Mas a ultima frase...como dizer?...partiu-me todo!
Os rissóis são feitos com carne de mamifero bipede?
Claro que isso é o que menos interessa numa história toda ela familiar, acho até que algumas dessas personagens moram cá no prédio.
Thumbs up!

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Re: Mrs. Krups e Mr. Vandemar

Postby Venom » 05 Mar 2007 13:49

Curiosamente os teus textos ainda me surpreendem. Bom trabalho.
no sci-fi masterpiece depicts an AI that, upon coming online and searching its database in an effort to better understand mankind, responds by shouting, “You guys are awesome! We should get nachos!

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Re: Mrs. Krups e Mr. Vandemar

Postby Samwise » 05 Mar 2007 14:01

Realidades sociais, dir-se-ia - :mrgreen4nw: -, que esses aí também moram no meu prédio...

Thanks for your comments, both of you.

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Re: Mrs. Krups e Mr. Vandemar

Postby Thanatos » 05 Mar 2007 18:31

Gostei de ler mas... vais apresentando diversas personagens que depois não têm continuidade. Por exemplo o Ortega. Terminas o parágrafo escrevendo: "são instintos, como viremos daqui a pouco a saber." Ou estou muito distraído ou esperava que o Ortega surgisse de novo na história. Já no final dos rissóis merecia que os mesmos fossem previamente apresentados para que o impacto final fosse maior (e eu pensava que rissóis eram feitos com camarão, já croquetes é que são de carne). Mas isto são picuinhices minhas. No fundo penso que a história tinha mais espaço para respirar se te alongasses um poucochinho mais. :wink:
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Re: Mrs. Krups e Mr. Vandemar

Postby Samwise » 05 Mar 2007 19:04

Thanatos wrote:Gostei de ler mas... vais apresentando diversas personagens que depois não têm continuidade.

Certo: 1 personagem/1 localização por parágrafo.

Por exemplo o Ortega. Terminas o parágrafo escrevendo: "são instintos, como viremos daqui a pouco a saber." Ou estou muito distraído ou esperava que o Ortega surgisse de novo na história.

Porquê?

Já no final dos rissóis merecia que os mesmos fossem previamente apresentados para que o impacto final fosse maior Mas isto são picuinhices minhas. No fundo penso que a história tinha mais espaço para respirar se te alongasses um poucochinho mais. :wink:
Sim, admito que sim. Sabes como é... é escrever enquanto e inspiração vem à cabeça... e depois, às vezes, há preguicite e algum receio em acrescentar texto ao que já foi escrito... :dry:

(e eu pensava que rissóis eram feitos com camarão, já croquetes é que são de carne).

Também os há - os rissões de carne, digo. :devil2: (fora de brincadeira - também se fazem!)

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Re: Mrs. Krups e Mr. Vandemar

Postby Thanatos » 06 Mar 2007 13:09

Samwise wrote:
Por exemplo o Ortega. Terminas o parágrafo escrevendo: "são instintos, como viremos daqui a pouco a saber." Ou estou muito distraído ou esperava que o Ortega surgisse de novo na história.

Porquê?

Sam


Porque pensei que os instintos eram do Ortega e que aquele remate final do parágrafo o ia trazer de novo à baila adiante.
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Re: Mrs. Krups e Mr. Vandemar

Postby Samwise » 06 Mar 2007 13:59

Thanatos wrote:Porque pensei que os instintos eram do Ortega e que aquele remate final do parágrafo o ia trazer de novo à baila adiante.


Os instintos são do menino Ortega, mas isso não faz com que a frase implique o seu regresso mais lá para a frente.

De qualquer forma, já começo a entender o que estás a querer dizer: talvez a frase esteja mesmo mal aplicada, ou lhe falte qualquer coisa para ficar correcta, tipo: "São instintos certeiros, como viremos daqui a pouco a saber."

E o que "viremos a saber daqui a pouco" é o certo que estão os instintos, e não os instintos em si.

Mais ou menos isso, certo?

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Re: Mrs. Krups e Mr. Vandemar

Postby Thanatos » 06 Mar 2007 14:22

Pois colocando a frase "São instintos certeiros, como viremos daqui a pouco a saber." faz mais sentido para mim como leitor.

O importante é entendermos que como escritores temos outra perspectiva que o leitor ignora. Como tal é necessária alguma abstracção para tentar ler os textos do ponto de vista de alguém que não partilha a nossa cabeça. :smile:

Claro que também há leitores casmurros (como eu) que por mais que se esclareça ou se esmiuce nunca lá chegam :tongue:

Basicamente queria deixar patente que os universos devem fazer algum sentido ao leitor. Mesmo que ao início pareçam estranhos, bizarros ou meramente louco, mais adiante deve-se conseguir estabelecer um rapport entre o universo criado/imaginado e o leitor. Demasiada estranheza gera a indiferença na maior parte dos leitores. E se bem que eu seja muito a favor da ambiguidade final nos contos (e particularmente nos contos, já em obras de maior fôlego não penso assim), penso que demasiadas pontas soltas ou obscuras e sem resolução podem deixar um sentimento de frustração ao leitor.

E daí, cada leitor é um caso portanto... :wink:
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Re: Mrs. Krups e Mr. Vandemar

Postby Samwise » 06 Mar 2007 16:25

Para rematar o assunto, só quero dizer que isso das "picuinhices" é uma importante fonte de (in)formação para quem está do outro lado. Pormenores como este são por vezes propositados, mas outras vezes - como é o presente caso - são falhas que não dá por elas o autor.

E a falar é ca gente sentende, não? :tongue:

Disto isto, vou libertar o texto desse e de outros espinhosos espinhos.

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Re: Mrs. Krups e Mr. Vandemar

Postby Aignes » 10 Mar 2007 00:15

Samwise wrote:* Nome dos personagens vagamente inspirados no livro "Neverwhere", de Neil Gaiman


Então realmente reconheci os nomes, ainda que vagamente. :smile:

Gostei da história... personagens interessantes. Pobre Tristão, vítima dos genes.
«The force that through the green fuse drives the flower
Drives my green age; that blasts the roots of trees
Is my destroyer.
And I am dumb to tell the crooked rose
My youth is bent by the same wintry fever.»

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Re: Mrs. Krups e Mr. Vandemar

Postby Sofia » 19 Oct 2007 15:19

Ola,

Acho que os vários parágrafos do conto de interligam muito bem, mostrando as diferentes perspectivas dos vizinhos relativamente ao casal Krups e Vandemar. Eu relacionei o desenho da sombra de abutre que o miudo fez instintivamente com o facto dos pasteis de carne virem da morgue... carne de mortos :blink: . Daí o desfecho vir explicar o início.

Este é um estilo de narrativa que se lê muito bem. As ideias tomam uma forma muito directa e familiar que muitas vezes vivemos ou observamos no dia a dia. Uma vez, vi um comentador na TV dizer uma coisa que me fez pensar: Bolas, mais bem dito não podia ser. Essa frase podia aplicar-se aqui e era qq coisa como isto. "A normalidade esconde segredos profundos e armadilhas que resultam em momentos de extrema violência." Se trocarmos a última palavra por... nojice ou qq coisa parecida, voilá.

Por último, sei que isto é um conto, mas dimensionaste tão bem as personagens com tão poucas frases que dá vontade de ler mais.

Bom trabalho :smile:

Jinhos
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Re: Mrs. Krups e Mr. Vandemar

Postby azert » 31 May 2008 15:31

Olha, vim aqui matar saudades! Reencontrar alguns dos teus textos, conhecidos além bbde e, então como agora, muito apreciados. Queremos mais, pois então! :pcorn:

Provavelmente, já cheguei depois de alguns edit, pois os rissóis (também os há de carne, confirmo-o :mrgreen4nw: ) lá estão à mesa de alguns vizinhos.

Quanto à apresentação das personagens, assim a modos que desgarradas, acho que se adequa à descrição de um prédio - é como se espreitássemos de janela em janela (não sei se não escrevi já algures algo do género, ó Sam).

Quanto à proveniencia do recheio dos rissóis, faz-me lembrar o filme "Soylent Green". ("E que delícia, aquelas empadas. Não duram para duas refeições.") :biggrin:
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