Fresquinho e acabadinho de ler:
Invisible, de 2009.
Lendo o romance e tendo em conta o seu título, é de esperar que se procure descortinar o que é que é invisível, e a conclusão a que se pode chegar (pelo menos, aquela a que eu cheguei) é que a
verdade é o invisível, o insubstancial, o inalcançável deste romance (de todos?).
Invisible está dividido em partes e cada uma delas é uma versão de acontecimentos apresentada pelo interveniente. Chegam até a ser várias versões consoante os diversos pontos de vista que o protagonista principal adopta, e mesmo esta identificação de quem é o protagonista principal incorre em subjectividade(s). É verdade que o que espoleta o romance é um esboço de um livro supostamente autobiográfico de Adam Walker, é com ele e na primeira pessoa que o romance arranca. Porém, quem se prepara para suspender a descrença chega, a páginas tantas, à conclusão de que esse nível não é suficiente; que é até falacioso (!). Há que descer mais fundo (não é música do acaso Auster evocar Dante na primeira página), muito mais fundo num inferno quase arqueológico, se queremos chegar à verdade, nós e, sabêmo-lo mais tarde, também o romancista que organiza a busca. E em cada parte o nível de indeterminação é maior, os factos históricos pessoais mais histriónicos, falsos, romanceados. Estamos afinal nas mãos de um romancista, dependentes de narradores variegados sucessivamente postos em causa, mas que somos convocados a entender, a predicar. Nunca tocamos directamente na verdade ou na pessoa que a pode transmitir mais imediatamente - somente em relatos escritos: páginas da história sobre as histórias, folhas soltas de computador, cartas transcritas, fotocópias de diários, notas apressadas.
São fragmentos de vida, farrapos de existências o que faz este excelente romance de Paul Auster. As histórias de vida que dele constam, todas as histórias de vida, digo eu, são meros fragmentos interpretativos ou vagas possibilidades ontológicas, rastos existenciais - a origem do romance, uma poética do romance, um poeta que reflecte entre as linhas tortas das vidas que conjura sobre a invisibilidade da verdade.
Concordam? Alguém leu?
Há quem diga que é o amor o que subjaz ao livro (
http://www.nytimes.com/2009/11/15/books/review/Martin-t.html)... Opiniões?