Mário de Carvalho
Começo pelo título, já que foi um título que me atraiu a Mário de Carvalho, concretamente o do seu romance de 1995, Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto. É uma coisa muito minha a satisfação que me dá ver certas palavras, as mais simples, bem escritas, pelo que, ao ver grafada na perfeição a primeira pessoa do plural do pretérito imperfeito do conjuntivo do verbo “trocar” na lombada, parei, curioso, e peguei no livro para o ver melhor. Talvez seja o cansaço de ver tanto acento esquecido em tanta escrita que leio por aí, ou então é a conjugação esdrúxula tipo “éramos” ou “fôssemos” ou “seríamos” que me atrai. Não sei. Certo é que aquela forma do verbo “trocar”, aliada ao comprimento (que não é o mesmo que cumprimento) do título e à curiosidade suscitada por “o assunto”, levou-me a arriscar comprar um livro de um autor que vergonhosamente desconhecia com 25 anos e com um curso de letras concluído… No caso de Fantasia para dois coronéis e uma piscina, o autor recorre ao mesmo dispositivo para me atrair, o de provocar em mim a mesma curiosidade, e lá está mais uma palavra simplesmente bem acentuada, como tão raras vezes se vê quando alguém escreve “papéis” ou “anéis”. Portanto, se o meu caro leitor não quiser continuar a ler este texto, gostar de português imperialmente bem escrito e se estiver, ademais, a perguntar-se Que raio farão dois coronéis à beira de uma piscina?, largue o computador e vá comprar o livro; se não tiver dinheiro ou gastá-lo em livros for para si considerado luxo, vá, como eu, à biblioteca municipal e requisite-o!
Não largou? Não foi? Faz mal meu caro. Mas vai bem a tempo, ainda! Não? Pois olhe que incorre no perigo de que o que vier a ler aqui dê cabo da sua curiosidade e não menos da oportunidade de conhecer sem intermediários indubitavelmente falíveis um autor português digno da sua lavra que não é nem jornalista, nem desse género de escritores que escrevem nos jornais e nas revistas, que aparecem na TV ou que falam na rádio de tudo, sem pouco mais acrescentarem que nada.
Continuou? Pois bem: o parágrafo que leu e este em que ora voga recorrem a um dispositivo literário que, modestamente cônscios da ampla distância que os separam dos que Carvalho compõe, ensejam mimetizar as conversas que o narrador desenvolve com o leitor. Depois, na transição entre cenas, assistimos à teatralidade indisfarçada de quem leva o leitor pela mão, nalguns casos alegando até um certo pudor quanto àquilo que testemunharíamos se continuássemos focados naquela cena, indo focar-nos noutra. Para além disso, há momentos deliciosos, “efeitosinhos estilosos”, em que o “autor” convoca algumas personagens e conversa também com elas sobre se, por exemplo, as trata bem ou não, a que poderíamos ainda chamar de pós-modernos se esse tipo de poalha classificativa nos deixasse comprazidos.
Consideremos também o tom e o olhar, o que me faz simpatizar incondicionalmente com os narradores de Mário de Carvalho. Como o vejo, ao narrador de Fantasia… dá um gozo imenso, imbuído de uma certa tristeza, apresentar-nos os vários padecimentos que corroem Portugal – o falajar infindável de quem tem opinião a partilhar sobre tudo e com toda a gente e em todo o lugar e em toda a ocasião (o polissíndeto procura dar conta do que eu penso sobre este assunto; repararam?); gente como Soraia Marina, a cantora extremamente popular que arrasta multidões ca(n)tatónicas a reboque; os animalóides amantes de futebol que, em quatro patas e aos urros, destroem estações de serviço e a possibilidade de algum momentozinho mais contemplativo; a gente que abusa até à náusea (vê, caro leitor, procurei resistir a demonstrações vácuas de latinidade de berloque) do “É assim:…”, como se fossem dotados da verdade absoluta ou temessem a contradição (se não fosse assim...) e portanto o diálogo; os manhosos empresários oportunistas, de conseguimentos dúbios, com camisa desabotoada, casarão à emigrunho, cachucho na falange, tanto dinheiro no banco como “marisco na arca”, mas uns subdotados no que toca ao caco e tiranozinhos irascíveis quando algo enebriados; jovens de quarenta anos com vidas de adolescente vividas à custa do que sacam aos pais; jornalistas ignorantes, mal preparados que se safam somente à custa da estupefacção em que se acham os entrevistados quando confrontados com microfones e afins. A todos Carvalho dá um sardónico momento da sua atenção e por causa de todos se entristece na última frase: “Há emenda para este país?”
Mas o que dizer dos dois coronéis e das respectivas mulheres, refugiados em montes vizinhos no Alentejo e que têm como pouso para as histórias que vão desfiando e ruminando as espreguiçadeiras em redor da piscina; do puto mestre de xadrez, Emanuel, e do seu Renault 4, que também é vedor (é ele quem encontra a água que enche a piscina), percorrendo o Alentejo e tentando ensinar a jogar xadrez; do tio de Emanuel e do mocho e do melro que andam com os sonos trocados por causa da barulheira em redor da sua oliveira de eleição?
Estou tentado a afirmar que, no caso dos coronéis, se trata de uma geração incapaz de lidar com a merda que fez, mas acho que não o farei pela indelicadeza que isso representaria relativamente a uma geração que nos deu a liberdade de termos o país que temos, livre, bronco e em cacos. Todavia, ouso dizer que representam, estes militares, um desejo de fuga e um anseio por alguma ordem no caos instalado. Emanuel, por seu turno, para além de dar uma nota religiosa, vê-se que tem a predilecção do narrador. Pela sua inteligência, humildade, inocência e vulnerabilidade, paciência e pacatez, despretenciosismo, respeito pelo outro e vontade de ajudar, vêmo-lo amiúde perplexo com o que testemunha. Ao tio é conferido o condão de misógino de serviço, ou pelo menos de forte alerta ao sobrinho para o que de pior pode advir de se deixar levar por um rabo de saia qualquer, chatices que vêm a surdir à mesa com os coronéis, quando Emanuel é disputado debaixo da mesa pelos calcantes da Maria das Dores e de Maria José, mulheres dos ditos. Por fim, e porque a prosa vai já longa, o mocho e o melro, que vão tecendo uns considerandos a propósito do que são obrigados a tolerar aos humanos.
Se, depois disto tudo, o leitor não tiver pelo menos curiosidade de ler Fantasia para dois coronéis e uma piscina, deixe-me dizer-lhe que temo sinceramente por si. Ainda assim, saúdo-o pela paciência de ler isto até aqui…


