Mário de Carvalho

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horaciosilva

Panfleto

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Post 06 Mar 2010 23:47

Mário de Carvalho

Fantasia para dois coronéis e uma piscina é um belíssimo livro de Mário de Carvalho. Mas isto não diz quase nada. A questão é, se me permitem: por que decidiria alguém, que não leu nada do autor, pegar neste livro e lê-lo, se tivesse apenas como razão da sua escolha as palavras que a propósito dele eu escrevo?

Começo pelo título, já que foi um título que me atraiu a Mário de Carvalho, concretamente o do seu romance de 1995, Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto. É uma coisa muito minha a satisfação que me dá ver certas palavras, as mais simples, bem escritas, pelo que, ao ver grafada na perfeição a primeira pessoa do plural do pretérito imperfeito do conjuntivo do verbo “trocar” na lombada, parei, curioso, e peguei no livro para o ver melhor. Talvez seja o cansaço de ver tanto acento esquecido em tanta escrita que leio por aí, ou então é a conjugação esdrúxula tipo “éramos” ou “fôssemos” ou “seríamos” que me atrai. Não sei. Certo é que aquela forma do verbo “trocar”, aliada ao comprimento (que não é o mesmo que cumprimento) do título e à curiosidade suscitada por “o assunto”, levou-me a arriscar comprar um livro de um autor que vergonhosamente desconhecia com 25 anos e com um curso de letras concluído… No caso de Fantasia para dois coronéis e uma piscina, o autor recorre ao mesmo dispositivo para me atrair, o de provocar em mim a mesma curiosidade, e lá está mais uma palavra simplesmente bem acentuada, como tão raras vezes se vê quando alguém escreve “papéis” ou “anéis”. Portanto, se o meu caro leitor não quiser continuar a ler este texto, gostar de português imperialmente bem escrito e se estiver, ademais, a perguntar-se Que raio farão dois coronéis à beira de uma piscina?, largue o computador e vá comprar o livro; se não tiver dinheiro ou gastá-lo em livros for para si considerado luxo, vá, como eu, à biblioteca municipal e requisite-o!

Não largou? Não foi? Faz mal meu caro. Mas vai bem a tempo, ainda! Não? Pois olhe que incorre no perigo de que o que vier a ler aqui dê cabo da sua curiosidade e não menos da oportunidade de conhecer sem intermediários indubitavelmente falíveis um autor português digno da sua lavra que não é nem jornalista, nem desse género de escritores que escrevem nos jornais e nas revistas, que aparecem na TV ou que falam na rádio de tudo, sem pouco mais acrescentarem que nada.

Continuou? Pois bem: o parágrafo que leu e este em que ora voga recorrem a um dispositivo literário que, modestamente cônscios da ampla distância que os separam dos que Carvalho compõe, ensejam mimetizar as conversas que o narrador desenvolve com o leitor. Depois, na transição entre cenas, assistimos à teatralidade indisfarçada de quem leva o leitor pela mão, nalguns casos alegando até um certo pudor quanto àquilo que testemunharíamos se continuássemos focados naquela cena, indo focar-nos noutra. Para além disso, há momentos deliciosos, “efeitosinhos estilosos”, em que o “autor” convoca algumas personagens e conversa também com elas sobre se, por exemplo, as trata bem ou não, a que poderíamos ainda chamar de pós-modernos se esse tipo de poalha classificativa nos deixasse comprazidos.

Consideremos também o tom e o olhar, o que me faz simpatizar incondicionalmente com os narradores de Mário de Carvalho. Como o vejo, ao narrador de Fantasia… dá um gozo imenso, imbuído de uma certa tristeza, apresentar-nos os vários padecimentos que corroem Portugal – o falajar infindável de quem tem opinião a partilhar sobre tudo e com toda a gente e em todo o lugar e em toda a ocasião (o polissíndeto procura dar conta do que eu penso sobre este assunto; repararam?); gente como Soraia Marina, a cantora extremamente popular que arrasta multidões ca(n)tatónicas a reboque; os animalóides amantes de futebol que, em quatro patas e aos urros, destroem estações de serviço e a possibilidade de algum momentozinho mais contemplativo; a gente que abusa até à náusea (vê, caro leitor, procurei resistir a demonstrações vácuas de latinidade de berloque) do “É assim:…”, como se fossem dotados da verdade absoluta ou temessem a contradição (se não fosse assim...) e portanto o diálogo; os manhosos empresários oportunistas, de conseguimentos dúbios, com camisa desabotoada, casarão à emigrunho, cachucho na falange, tanto dinheiro no banco como “marisco na arca”, mas uns subdotados no que toca ao caco e tiranozinhos irascíveis quando algo enebriados; jovens de quarenta anos com vidas de adolescente vividas à custa do que sacam aos pais; jornalistas ignorantes, mal preparados que se safam somente à custa da estupefacção em que se acham os entrevistados quando confrontados com microfones e afins. A todos Carvalho dá um sardónico momento da sua atenção e por causa de todos se entristece na última frase: “Há emenda para este país?”

Mas o que dizer dos dois coronéis e das respectivas mulheres, refugiados em montes vizinhos no Alentejo e que têm como pouso para as histórias que vão desfiando e ruminando as espreguiçadeiras em redor da piscina; do puto mestre de xadrez, Emanuel, e do seu Renault 4, que também é vedor (é ele quem encontra a água que enche a piscina), percorrendo o Alentejo e tentando ensinar a jogar xadrez; do tio de Emanuel e do mocho e do melro que andam com os sonos trocados por causa da barulheira em redor da sua oliveira de eleição?

Estou tentado a afirmar que, no caso dos coronéis, se trata de uma geração incapaz de lidar com a merda que fez, mas acho que não o farei pela indelicadeza que isso representaria relativamente a uma geração que nos deu a liberdade de termos o país que temos, livre, bronco e em cacos. Todavia, ouso dizer que representam, estes militares, um desejo de fuga e um anseio por alguma ordem no caos instalado. Emanuel, por seu turno, para além de dar uma nota religiosa, vê-se que tem a predilecção do narrador. Pela sua inteligência, humildade, inocência e vulnerabilidade, paciência e pacatez, despretenciosismo, respeito pelo outro e vontade de ajudar, vêmo-lo amiúde perplexo com o que testemunha. Ao tio é conferido o condão de misógino de serviço, ou pelo menos de forte alerta ao sobrinho para o que de pior pode advir de se deixar levar por um rabo de saia qualquer, chatices que vêm a surdir à mesa com os coronéis, quando Emanuel é disputado debaixo da mesa pelos calcantes da Maria das Dores e de Maria José, mulheres dos ditos. Por fim, e porque a prosa vai já longa, o mocho e o melro, que vão tecendo uns considerandos a propósito do que são obrigados a tolerar aos humanos.

Se, depois disto tudo, o leitor não tiver pelo menos curiosidade de ler Fantasia para dois coronéis e uma piscina, deixe-me dizer-lhe que temo sinceramente por si. Ainda assim, saúdo-o pela paciência de ler isto até aqui…
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horaciosilva

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Post 07 Mar 2010 00:00

Mário de Carvalho é o meu autor preferido, aquele cujo escrever, a par do de Aquilino Ribeiro, mais gozo me dá percorrer e, em certos dias, tentar emular. A propósito de Mário de Carvalho, que já tive o gosto de ver e ouvir falar na Biblioteca Manuel da Fonseca, em Santiago do Cacém, uso afirmar “quando for grande, gostava de saber escrever assim.”

Neste livro, A Sala Magenta, assistimos à convalescença a quatro tempos, ou entre quatro paredes, de Gustavo Miguel. A óbvia, embora de origens obnubiladas, é a de um acidente que deixa o protagonista imobilizado de uma perna na casa da irmã; outra, a familiar, é aquela que permitirá a Gustavo progressivamente enfrentar os seus incumprimentos relativamente à irmã, encontrando por intermédio dela uma réstia, porventura a única que lhe sobra, de redenção; outra ainda, a profissional, no âmbito da qual Gustavo acaba por confessar a si mesmo ser um falhado de um cineasta lisboeta, a quem os amigos ignoram quando, em desespero de fuga, o realizador quase desconhecido, irrelevante mesmo, pede auxílio, tentando reaver um crédito de que afinal não dispõe; e a central, a que envolve a sua relação com Maria Alfreda, uma relação carregada de significado para Gustavo, inquietante e perturbadora como o bibelot que Maria Alfreda tem numa mesinha em casa, uma pistola, mas que, como a pequena arma, acaba por se desnovelar inócua, vazia de concretização – um mero pedaço de ruína preciosa perdida num irrelevante campo alentejano. Este desfiar de memória quadrifónico é enquadrado na casa da irmã, Marta, casa esta situada à beira de uma lagoa, a Lagoa Moura, espelho de água de que emerge, após um certo clímax, um Gustavo resignado à sua nulidade, à vida que lhe resta apoiado na bengala fornecida pela irmã.

Um belo livro (até uma bela imagem do Portugal contemporâneo) escrito num vernáculo robusto, cujas origens são evocadas pelo projecto cinematográfico que a personagem de Gustavo talvez jamais realize – A Casa Grande de Romarigães.
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Samwise

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Post 08 Mar 2010 00:56

Fantasia para dois coronéis e uma piscina é um belíssimo livro de Mário de Carvalho. Mas isto não diz quase nada. A questão é, se me permitem: por que decidiria alguém, que não leu nada do autor, pegar neste livro e lê-lo, se tivesse apenas como razão da sua escolha as palavras que a propósito dele eu escrevo?


Horácio, interessante jogo que fazes no teu "ensaio de narrador para leitor" com os títulos do livros, as palavras que te atraem neles e o porquê desse fascínio. Interessante e conseguido a ponto de me teres cativado para começar a prestar mais atenção ao autor - um nome que, diga-se em abono da verdade, já anda a zumbir em espirais à minha volta desde há uns tempos.

Mas são tantos... tantos...
«Somos a memória que temos e a responsabilidade que assumimos. Sem memória não existimos, sem responsabilidade talvez não mereçamos existir.» - José Saramago - Diário II

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(...)
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Tzimbi

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Post 08 Mar 2010 01:01

Samwise wrote: Interessante e conseguido a ponto de me teres cativado para começar a prestar mais atenção ao autor - um nome que, diga-se em abono da verdade, já anda a zumbir em espirais à minha volta desde há uns tempos.


Aposto contigo que vais gostar muito deste autor, Sam.
Eu li o Era Bom Que Trocássemos umas Ideias Sobre o Assunto e Os Casos do Beco das Sardinheiras há muitos anos e lembro-me de que fiquei impressionada com escrita do autor e, acima de tudo, com a sua ironia.

Agora vou ganhar coragem para ler o post quilométrico do horaciosilva. ;)

S.

Edit: bom trabalho, horaciosilva, convenceste-me a ler o livro (Fantasia....)! :tu:
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João Arctico

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Capa Dura

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Post 08 Mar 2010 01:10

Também eu me confesso: nunca li nada dele. No entanto, há bem pouco tempo, peguei no livro "A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho" e estive muito tentado em comprá-lo. Porquê? Não sei. Mas prometo que lhe vou prestar atenção. :)
O pão que transformo,
São rosas negras, senhor.
Os milagres já não existem,
As flores já não têm cor…
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horaciosilva

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Post 08 Mar 2010 15:49

Mário de Carvalho é, na minha opinião, um autor que merece um grande respeito, alguém com um domínio da língua portuguesa só comparável ao enorme Aquilino Ribeiro.

(Obrigado pelos elogios ao post e desculpem a incaracterística extensão. Got carried away...)
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azert

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Post 12 Mar 2010 12:01

Também é um autor do meu coração.
Dele li "A inaudita guerra....", o "Era bom que trocássemos...", o "Fantasia..."... e acho que é tudo. É um autor em que pretendo reincidir, sem dúvida alguma.

P.S. (Estou a ganhar coragem para ler o posto do horaciosilva, sem ser na diagonal). :)
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Ripley

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Post 23 Mar 2010 18:53

Terminei ontem Um Deus passeando na brisa da tarde.
Não estava nos meus "projectos de leitura" mas fi-lo para dar um apoio extra à minha filha, que tem esta obra no Contrato de Leitura para este ano lectivo.

Fiquei agradavelmente surpreendida, já que nunca tinha lido nada de Mário de Carvalho.
A escrita é fluida e o vocabulário, apesar da especificidade da época que retrata, não dificulta a leitura.

Lúcio Valério Quíncio é o duúnviro único de uma pequena cidade da Lusitânia no inicio da era cristã: Tarcisis, uma cidade inventada pelo autor, a poucas milhas de Ébora.
A poucos meses do fim do seu mandato, vê-se a braços com uma crise em várias frentes: intramuros, a chegada da família Cantaber causa instabilidade entre o povo, uma vez que há rumores de que abrigam cristãos; no exterior, o aviso da aproximação de uma horda de bárbaros vindos de África, além de um salteador arrojado que não dá tréguas a quem viaja nas imediações.
Lúcio Valério, homem íntegro e tão pouco dado aos entretenimentos a que se entregam os outros membros da comunidade que chega a alhear-se um pouco deles, tem que lidar com uma cúria de preguiçosos e maledicentes. O único homem da cidade, para além dele, que parece tentar fazer algo de positivo, é Rufo Cardílio, filho de libertos, que quer ascender ao cargo de edil apesar de não ser cidadão romano. Rufo sabe como chamar a atenção do povo e entra em rota de colisão com Lúcio devido à sua impertinência, ambição e espalhafato.

Entre a reparação da muralha da cidade, que vai obrigar à demolição de casas, os tumultos causados pelas acusações (e acções) contra os cristãos e a invasão bárbara que se avizinha, Lúcio apaixona-se por Iunia, a filha do seu velho amigo Máximo Cantaber, ao mesmo tempo que descobre que a jovem é uma fanática religiosa.
A chegada dos bárbaros que sitiam a cidade é o culminar da crise, aproveitada pelos detractores de Lúcio Valério.
A tudo isto assiste, mais ou menos serenamente, a sua esposa, Mara, sempre paciente, sempre dando o seu apoio mesmo ao aperceber-se dos sentimentos do marido por Iunia Cantaber.

O final, não sendo inesperado, é um anti-clímax que nos faz questionar várias situações focadas durante o relato, fazendo um paralelismo com a actualidade: o que prefere o povo? Um líder recto e justo ou um que diga o que querem ouvir mesmo não sendo a verdade? Eficácia ou popularidade?

Fui levada a simpatizar com Lúcio Valério praticamente desde o início da história. É um bom homem, para quem a magistratura não é um "tacho" mas um dever que deve cumprir da melhor forma possível. Assisti à sua luta inglória contra "a incúria da cúria" e, embora em algumas alturas achasse que merecia uma bela cachaporrada na cabeça para "acordar", gostei do personagem, solidarizei-me com as suas batalhas, públicas e privadas.
Talvez fizessem falta uns quantos como ele na vida real - acredito que existam alguns, sem dar nas vistas, cumprindo as suas funções com os meios que têm, enquanto os outros, que se pavoneiam e chamam a si louvores imerecidos, minam constantemente o equilíbrio e a credibilidade dos primeiros.
Mas naquela altura como agora, o povo apoia mais facilmente quem lhes dá o panem et circenses do que quem lhes garante julgamento justo e um lugar seguro para viver...
"És a metade que me é tudo." [Pedro Chagas Freitas]
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Desenhei em mim a tua ausência, moldando-a em palavras. No meu peito se recorta essa silhueta que ninguém sabe ser tua.
É teu o espaço, é teu o vazio à espera de ser preenchido - porque só tu fazes de mim um Ser maior do que o corpo que ocupo.
Virás um dia dar-me a mão? Quebrando barreiras, rasgando fronteiras, faremos dos dias o Céu e completaremos o horizonte.
Juntos.

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