Charles Bukowski

Escolha um autor e fomente uma discussão sobre a sua obra e a sua vida
sigbjorntrumbaugh
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Re: Charles Bukowski

Postby sigbjorntrumbaugh » 12 Jan 2010 23:08

Estive a ler alguns dos posts posts antigos deste tópico e fiquei algo triste por não entenderem, pelo menos em certa medida, o pobre Buk. Enfim, era um tipo introvertido para a sua própria amargura...mas machista? Enfim, nunca li uma linha sua em que mandasse uma mulher para a cozinha, ou lhes criticasse a condução, ou dissesse que só serviam para uma coisa e uma coisa só. Nunca sequer li nada de um machismo encapotado__ pelo menos, nada fora dos propósitos cómicos e auto-críticos que prezava. E, em sua defesa, o velho Buk__ sim, o amargo e velho Buk, o amargo e cansado de tentar amar ou ser amado Buk __ ainda tinha uma opinião bastante admirável sobre as mulheres.
Uma vez que ele se via como um emplastro de carências e cuidados, e isto a despeito de confissões literais sobre o caso, um dia, de braço sobre o ombro da sua mulher__ Linda, se não erro... __, disse isto e disse-o certo: as mulheres são fortes...muito mais fortes do que se lhes dá crédito. Para quem o ache nihilista isto deve cair que nem uma luva pois, a um tipo que se detesta veementemente, como ele fazia, o amor de uma mulher, ou doutro ser humano, teria que ser um pequeno prodígio de potência, e força, para que acreditasse nele e assim o sentisse.
Digo só que, amar aquele velho não era nada fácil porque, primeiro que o resto, ele teria que nos deixar fazê-lo; não é verdade?
No que à escrita concerne, isso era fácil; aí ele apresentava-se como o herói, ou anti-herói, adorável que era. Mas na sua vida privada, duvido que fosse assim... Bem, com certeza que eu não lhe aturaria as bezanas e aquele especial talento para a auto-destruição e muito menos as agressões; ainda que o amasse como...um pai ou um irmão ou o que fosse. Na realidade, amá-lo, amá-lo mesmo, só amou a sua última mulher__ uma que levou um pontapé dele quando gravavam um documentário; situação delicada essa...não o abandonou porém...quando mulher mulher o faria pela sua dignidade.
Enfim, pode dizer-se que ele arranjou alguém típico para aguentar repetidos cenários de abuso__ enfim, aquela velha dinâmica do "quanto mais me bates mais eu blá-blá-blá." Mas eu digo em retorno que, ao contrário do típico copofonista, que malha na mulher quando o Benfica perde e a sopa é caldo verde, ele ainda dizia: as mulheres são mais fortes do que se lhes dá crédito.
Ela não o abandonou, nem o queria; repare-se. E quem sabe bem da sua vida, além da sua obra, sabe igualmente o que quero dizer com isto. O Buk mudou e mudou muito ao entrar na velhice. Dantes, ele pensava que todo o sucesso e mulheres e o resto tinham chegado tarde demais para ele; ainda com tudo pelo qual tinha lutado, ainda sendo o Senhor do seu Tempo, tudo tinha chegado demasiado tarde__ ele não tinha reparo, pensava... Só que, entenda-se isto: uma mulher deu-lhe a volta e fê-lo deixar esta terra sóbrio, compassivo, satisfeito: feliz. Uma mulher chegou através e marcou a diferença onde ninguém o poderia fazer. Não foi só o caso de ele deixar que isso acontecesse, ou o caso de ele o querer pela sua salvação. O caso foi o seguinte, ele foi amado por uma mulher e mudou... Só isto: puro e simples.
Mesmo que não se acredite nisto, leia-se o seguinte poema e diga-se que ele é machista, nihilista, ruim:

there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too tough for him,
I say, stay in there, I'm not going
to let anybody see
you.
there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I pour whiskey on him and inhale
cigarette smoke
and the whores and the bartenders
and the grocery clerks
never know that
he's
in there.

there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too tough for him,
I say,
stay down, do you want to mess
me up?
you want to screw up the
works?
you want to blow my book sales in
Europe?
there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too clever, I only let him out
at night sometimes
when everybody's asleep.
I say, I know that you're there,
so don't be
sad.
then I put him back,
but he's singing a little
in there, I haven't quite let him
die
and we sleep together like
that
with our
secret pact
and it's nice enough to
make a man
weep, but I don't
weep, do
you?

...

horaciosilva
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Re: Charles Bukowski

Postby horaciosilva » 02 Feb 2010 16:53

Sem querer polémicas, pois estou aqui para descobrir e partilhar, na minha humilde opinião, Bukowski não só é um autor (não disse escritor) sublime como um pensador cujas propostas sociológicas e intelectuais, sem o serem deliberadas, deveriam ser de leitura obrigatória em muitos contextos.

E o asco que ele provoca em alguns leitores apenas confirma o que enunciei acima.

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Re: Charles Bukowski

Postby Samwise » 02 Feb 2010 16:57

horaciosilva wrote:Sem querer polémicas, pois estou aqui para descobrir e partilhar, na minha humilde opinião, Bukowski não só é um autor (não disse escritor) sublime como um pensador cujas propostas sociológicas e intelectuais, sem o serem deliberadas, deveriam ser obrigatórias em muitos cursos obrigatórios.

E o asco que ele provoca em alguns leitores apenas confirma o que enunciei acima.


Não querendo contrariar a tua opinião em relação ao homem, em que é que o "asco provocado em alguns leitores" torna determinado autor num "pensador cujas propostas sociológicas e intelectuais, sem o serem deliberadas, deveriam ser obrigatórias"? :mrgreen:

(não consideres isto como uma tentativa de "entrar em polémicas", mas apenas uma tentativa de perceber o teu raciocínio ;) ).
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Re: Charles Bukowski

Postby horaciosilva » 02 Feb 2010 19:59

Bukowski mexe muito com o convencional, o instituído, o confortável das sociedades - tudo o que se toma por dado adquirido e que nos custa questionar. Nalgumas almas o efeito chega a ser agónico!... W. Burroughs, Kerouac (menos), Ginsberg et alii tinham (e pelos vistos têm) esse efeito.

E não me entendas mal, oh Samwise; eu não me importo com polémicas; não quero é ofender ninguém. Como disse, vim aqui para aprender, descobrir, partilhar, não para chatear ninguém. E estás à vontade para me questionar! :cheers:

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Re: Charles Bukowski

Postby horaciosilva » 12 Feb 2010 16:52

Acabei de reler Post Office e compreendo que se caracterizem as personagens de Bukowski, neste caso o Chinaski, como bêbedos, machistas e coisas assim. Compreendo, mas, de novo, e desta vez claramente, rejeito. A personagem respeita e idolatra as mulheres que vai conhecendo. Sim, às vezes, apetece-lhe dar-lhes uma lambada (mas isto é porque é humano, não porque é homem); outras, vê-as de um ponto de vista gastronómico, mas isso não é machismo, é apetite. (E, já agora, lá porque gostamos muito de coelho(s) não quer dizer que tenhamos que passar a comer só cenouras...)

Se dissermos, ao contrário, que Chinaski-Bukowski recusa o politicamente correcto, que confronta o absurdo do materialista, que se enjoa com o conformismo, que descreve a crueldade estúpida do poder burocrático ou que abomina os perigos do facilitismo intelectual, e, acima de tudo, que Bukowski escreveu há quase 40 anos atrás The Post Office, e se olharmos para o vício contemporâneo do politicamente ajeitadinho, então melhor será que nos olhemos bem ao espelho e façamos uma escolha: quero ou não conhecer-me melhor?

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Re: Charles Bukowski

Postby amulhercerta » 12 Jun 2013 09:50

horaciosilva wrote:Acabei de reler Post Office e compreendo que se caracterizem as personagens de Bukowski, neste caso o Chinaski, como bêbedos, machistas e coisas assim. Compreendo, mas, de novo, e desta vez claramente, rejeito. A personagem respeita e idolatra as mulheres que vai conhecendo. Sim, às vezes, apetece-lhe dar-lhes uma lambada (mas isto é porque é humano, não porque é homem); outras, vê-as de um ponto de vista gastronómico, mas isso não é machismo, é apetite. (E, já agora, lá porque gostamos muito de coelho(s) não quer dizer que tenhamos que passar a comer só cenouras...)

Se dissermos, ao contrário, que Chinaski-Bukowski recusa o politicamente correcto, que confronta o absurdo do materialista, que se enjoa com o conformismo, que descreve a crueldade estúpida do poder burocrático ou que abomina os perigos do facilitismo intelectual, e, acima de tudo, que Bukowski escreveu há quase 40 anos atrás The Post Office, e se olharmos para o vício contemporâneo do politicamente ajeitadinho, então melhor será que nos olhemos bem ao espelho e façamos uma escolha: quero ou não conhecer-me melhor?



Li dois livros dele. Ham on Rye e Factotum.
Ham on Rye é a infância, Factotum a fase adulta.
Adorei ambos. Aliás, eu adoro Bukowski. Pela escrita crua, sem floreados, com humor. O único escritor que conheço verdadeiramente (mesmo sem conhecer).
Este homem é fantástico.

urukai
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Re: Charles Bukowski

Postby urukai » 12 Jun 2013 10:19

Só li o Post Office e a sensação com que fiquei é que ele é, no fundo, até é bastante terno com as mulheres.

É necessário realçar que as mulheres com quem ele se relaciona, são mulheres vividas, com esperteza de rua e, elas próprias agressivas e independentes. É natural que a personagem dele choque com as mesmas e resultem alguns atritos. Mas certas passagens, deram-me a entender que ele nutria por elas um enorme carinho e que, no fim de contas, quem sofria era ele por debaixo daquela aparência machista e, de certa forma, defensiva.

Gostei do Post Office mas pareceu-me que o resto da obra seria mt semelhante pelo que não li mais nada dele.


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