Um Dia de Cão II

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anavicenteferreira
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Um Dia de Cão II

Postby anavicenteferreira » 25 Jun 2005 23:29

Havia um ponto latejante bem no centro do seu cérebro que conseguia sentir o trem de aterragem do enorme Airbus A319 a deixar a pista; o momento exacto em que o último milímetro de borracha vulcanizada perdia contacto com o último milímetro de alcatrão. Um gosto amargo invadiu-lhe a boca e ele começava a suspeitar que ia ter de usar o saquinho de papel reforçado que lhe fora fornecido.

Ximena tocou-lhe no braço e disse:

– Já podes desapertar o cinto.

Caetano olhou para ela friamente. Não tinha quaisquer intenções de desapertar o cinto durante esta viagem. Bem, talvez se a Natureza chamasse – com um megafone. E daí, a viagem durava só umas duas horas e meia: podia aguentar.

Odiava aviões. Odiava aviões! Sabia que não devia culpar Ximena pelo desconforto que sentia; sabia que a sua sugestão de irem até Zurique de comboio era pouco prática, mas não conseguia deixar de se ressentir. Afinal ela insistira em que ele devia ir à Suiça atrás dele e insistira ainda por cima em acompanhá-lo. O que piorava tudo – não conseguia explicar bem porquê, mas piorava.

Nunca fora daqueles tipos que andam por aí a papaguear que o cliente tem sempre razão. Sempre fizera as coisas à sua maneira: o cliente era quem pagava, mas ele era quem sabia da poda. Ximena Madruga, porém, era definitivamente diferente de qualquer cliente que ele tivesse tido antes. Percebera isso quando ela o conseguira seguir até ao bar onde Yves o esperava. Tivera medo do que ela pudesse fazer se ele recusasse a ida a Zurique.

Caetano estava preocupado e não era só por estar preso dentro de toneladas de metal a milhares de quilómetros de altitude. Havia mais neste caso do que lhe parecera à primeira vista.

Quando Ximena o procurara pela primeira vez, quase três meses antes, marcara-o imediatamente como um caso limpo: o tipo cansara-se do casamento; arranjara uma mulher mais nova, mais bonita, mais qualquer coisa, e pusera-se a andar com o dinheiro que tinha conseguido esconder da legítima. Mais típico, só se a outra fosse a secretária.

No entanto, à medida que investigava o desaparecimente de Hugo, à medida que Yves e outros como ele lhe iam trazendo informações, o caso começava a fazê-lo sentir-se desconfortável.

À superfície parecia ser tudo exactamente como ele calculara – até havia uma funcionária da empresa que se demitira e partira para parte incerta menos de uma semana antes de Hugo Madruga desaparecer (não era a secretária, mas ia dar no mesmo). O problema era que ele conseguia sentir que havia muito mais por baixo da aparente simplicidade do caso.

Todo aquele assunto tinha tantas camadas como uma cebola. E começava a parecer-lhe que cheirava tão mal como uma, também.

Quando aterraram finalmente em Zurique, Caetano tinha uma dor de cabeça que lhe apanhava o pescoço e toda a parte de trás da cabeça. Os ouvidos zuniam-lhe e sentia o estômago como se tivesse um chihuahua enlouquecido aos pulos lá dentro.

O táxi levou-os a um hotel pequeno numa rua estreita, ao fundo da qual se via uma nesga de rio. Não era propriamente um cinco estrelas, mas mesmo assim, era melhor do que a maioria dos hotéis que fora conhecendo ao longo dos anos.
Na recepção, perguntou por Hugo ao concierge. Yves tinha descoberto o nome que ele tinha usado para se registar. O concierge olhou para Ximena e pareceu tê-la identificado imediatamente como “a esposa”. Pela maneira discreta como rodeava as questões deles, era claro que Hugo Madruga – ou melhor Richard Matthews – estava no quarto e não estava sozinho.

Caetano pediu-lhe finalmente que ligasse para o quarto para avisar o hóspede de que tinha visitas. Enquanto ele tratava disso, tentou ver que número de extensão ele marcava – alguns hotéis faziam corresponder os números das extensões aos números dos quartos para facilitar as comunicações.

– Infelizmente, o M.Matthews não responde, – disse o concierge.

– Isso é estranho, – Caetano virou-se para Ximena perguntou-lhe em português, – O seu marido tem o sono pesado?

Ela abanou a cabeça.

– Acorda com a mais pequena coisa, até com qualquer veículo maior que passe na nossa rua durante a noite.

Os instintos de Caetano diziam-lhe que havia qualquer coisa de muito errado aqui. Talvez o tipo os tivesse visto chegar e saísse pelas traseiras ou estivesse no quarto, a ouvir o telefone tocar e a fazer-se de morto. Mas suspeitava que o caso seria mais grave que isso.

– Número do quarto?

O concierge empalideceu.

– Monsieur, não é possível. A privacidade dos hóspedes–

– A privacidade dos hóspedes que se lixe! Ele está lá em cima, certo? E não está a responder ao telefone, certo? O mínimo que podemos fazer é verificar que ele está bem. E é o que vamos fazer.

O concierge conduziu-os escada acima – o elevador estava avariado, aparentemente – até ao segundo andar. O corredor era escuro, apesar das janelas em cada uma das extremidades e dos apliques em meia-concha dispostos de metro a metro e que deitavam uma luz fraca. O verde-escuro da parede e os castanhos da alcatifa não ajudavam a atenuar a sensação de obscuridade.

Chegaram a uma porta de madeira escura e baça. Uma pequena placa de plástico branco ostentava o número 214. O concierge bateu à porta e chamou várias vezes, mas de dentro não se ouviu qualquer resposta. Ele acabou por puxar da sua chave e abrir a porta, empurrando-a delicadamente, ao mesmo tempo que chamava novamente por Richard Matthews.

Impaciente, Caetano passou-lhe à frente, entrando no quarto, mas estacou imediatamente. Sem se virar para trás e disse ao homem que chamasse a polícia.

À sua frente, estava Hugo Madruga. Alguém o tinha amordaçado e amarrado à cama e passado, de seguida – pelo que Caetano podia avaliar –um tempo considerável a matá-lo.
Ana

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Re: Um Dia de Cão II

Postby Cerridwen » 26 Jun 2005 10:56

Gostei do texto. Tal como nos outros que li, a história está muito bem desenvolvida.
O modo como descreves o "medo" do personagem de andar de avião, está bastante original. :)

Mas parece-me que a história não se vai ficar por aqui. Vai haver continuação?

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Re: Um Dia de Cão II

Postby anavicenteferreira » 26 Jun 2005 11:38

Em princípio sim. Tenho andado a escrever esta aos soluços e - o que é raro quando escrevo - não faço a miníma ideia do que se vai passar a seguir. Está a ser giro! :D
Ana


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