O Incidente

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anavicenteferreira
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O Incidente

Postby anavicenteferreira » 29 Oct 2005 22:59

A causa primeira do incidente tinha sido, naturalmente, o alarme do BMW. Mas nenhum dos envolvidos conseguia explicar o que se tinha passado depois.

A rua Coimbra era uma rua calma, cheia de casas absolutamente iguais umas às outras, embora algumas tivessem sido pintadas de cores diferentes do amarelo original, desde que a urbanização tinha sido concluída. Eram casas de um piso, com janelas de águas-furtadas no telhado, uma garagem para dois carros não muito grandes à esquerda, um pequeno pátio atrás e um pequeno jardim à frente.

O carro causou estranheza quando os habitantes regressaram a casa do trabalho. Não estavam habituados a ver por ali carros que tivessem custado o mesmo ou mais que qualquer casa daquela rua. Ninguém sabia quem era o dono do carro, ninguém o vira chegar, já que quase todos os habitantes da rua trabalhavam fora.

Entre as oito da manhã e as seis da tarde, as únicas pessoas que permaneciam na rua Coimbra eram a Dona Cremilde, uma senhora viúva e reformada que vivia sózinha com um papagaio cinzento e um grand danois tão cinzento como o papagaio na casa branca e azul que ostentava o número cinco, e a Tininha Tomás, mulher do Senhor Tomás da Junta, que fora mãe de trigémeos há três semanas e estava em casa, no número doze, em licença de maternidade. Mas nenhuma das duas vira fosse o que fosse: a Dona Cremilde porque passara a tarde a preparar a casa para a visita de familiares no dia seguinte; a Tininha porque passara a tarde às voltas com fraldas e biberões e birras vezes três.

Portanto o BMW lá estava e o dono não estava e todos presumiram que devia ser de um visitante do Doutor Pacheco, já que o carro estava estacionado à frente do número oito, e todos prosseguiram com as suas vidas. E o Doutor Pacheco chegou a casa tarde porque ficara retido no tribunal e perguntou-se quem seria o idiota que quase lhe bloqueara o portão, antes de decidir que estava demasiado cansado para se importar.

O barulho começou passava pouco das duas manhã, já poucas luzes se viam acesas nas janelas e a maior parte da rua dormia. Ninguém sabia o que tinha accionado o alarme do carro, mas o Senhor Feijó, que morava no número dois, à entrada da rua, e era um dos poucos que ainda estavam acordados, juraria mais tarde que ouvira passar um camião na estrada perpendicular à rua Coimbra.

Demorou quinze minutos até que as luzes se começassem a acender, embora aqueles que dormiam e que não tinham sido imediatamente despertados pelo alarme do BMW, acordassem pouco depois com os uivos lancinantes do grand danois da Dona Cremilde, acompanhados pelos latidos agudos do spitz anão da Tininha Tomás e dos dois Jack Russels dos Fernandes, do número sete.

Dois minutos depois da primeira janela se iluminar, o Doutor Pacheco saíu para a rua, seguido pelos vizinhos dos números dez , seis e nove. E em breve todos os habitantes da rua Coimbra rodeavam o carro ofensor.

Trocaram-se ofensas, algumas dirigidas a ninguém em particular. Fizeram-se e rebateram-se acusações. Os ânimos exaltaram-se. A Catarina Fernandes sugeriu que alguém chamasse a polícia, mas disseram-lhe que não se metesse na conversa dos adultos e ela afastou-se, amuada, tendo ficado num canto, a cochichar com a Pati Feijó e a Vânia Pacheco, enquanto os irmãos das três e mais alguns rapazes da rua se sentavam no muro de Dona Cremilde, para apreciar o espectáculo.

Todos concordaram que a violência começara com o pontapé frustrado que o Engenheiro Borba dera no parachoques da frente do BMW, ao mesmo tempo que gritava:

– Mas esta merda há-de ser de alguém!

Ao que o Doutor Pacheco respondera, com um murro no tejadilho:

– Meu é que não é

Depois disso, a gritaria continuara, pontuada por murros e pontapés no veículo, que foram gradualmente aumentando de intensidade, até que, ninguém sabia muito bem como, a maior parte dos habitantes da rua Coimbra atacava o BMW, alguns a golpes de vassoura e chave inglesa. Vidros foram partidos, chapas amolgadas, retrovisores arrancados, faróis e farolins estilhaçados. Dois dos rapazes tinham sacado de pequenos canivetes e retalhavam ferozmente os pneus e as crianças fugiam, rindo, de um pequenito que se armara espadachim com a antena do BMW.

A pancada foi tanta que a tampa da bagageira se abriu. Os moradores que atacavam a traseira do BMW pararam o que estavam a fazer e deixaram-se ficar, mudos e imóveis, de olhos fixos na bagageira. Pouco a pouco, o silêncio inusitado deles foi atraindo a atenção dos outros, que se aproximaram, um por um, da traseira do carro para ver o que se paassava.

O Doutor Pacheco foi o último a cessar hostilidades, só se juntando aos outros depois de um derradeiro e sonoro pontapé na porta do pendura. Mas foi talvez aquele que melhor entendeu as implicações do que estava a ver.

Na bagageira do BMW que eles tinham acabado de destruir, enrolava-se num novelo disforme o cadáver de um homem de meia-idade, a pele bronzeada descolorida por inúmeras contusões, os cabelos e as roupas de bom corte e o relógio de ouro que lhe ornava o pulso largo manchados pelo sangue que lhe escorria de numerosos ferimentos. Ferimentos e contusões que poderiam bem ter sido feitos a golpes de vassoura e chave inglesa.
Ana

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Re: O Incidente

Postby anavicenteferreira » 29 Oct 2005 23:04

Se precisam de perguntar onde fui buscar inspiração para este contozito talvez um pouco tétrico, invejo-vos. Muito! <_<
Ana

Pedro Farinha
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Re: O Incidente

Postby Pedro Farinha » 30 Oct 2005 00:31

Ana, isto não é um conto pois não ?

Isto tem de ser um primeiro capítulo :rolleyes: e eu já estou à espera do segundo.

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Re: O Incidente

Postby anavicenteferreira » 30 Oct 2005 11:50

A ideia era mesmo ser um conto de final aberto. Se vai haver continuação ou não, não sei. Depende da inspiração. Neste momento estou muito satisfeita com ele assim, em suspenso.
Ana

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Re: O Incidente

Postby Samwise » 31 Oct 2005 11:44

Está uma delicia. O crime perfeito...

Não sei que achar... por um lado acho que acaba bem assim e por outro tenho vontade de ler mais... muito mais, acerca das circunstâncias que levaram aquele carro até ali.

O desenrolar da história fez-me lembrar aqueles passatempos género:
O vizinho que se chama João tem um automovel de marca Fiat. O vizinho do nº 22 deixa o automóvel na rua e aos fins de samana vai para fora... etc... ect..
Diga quem são so vizinhos, onde moram e que carros é que têm e onde os deixam...

SamW

P.S. A sinfonia nocturna dos cães... :lol:
Guido: "A felicidade consiste em conseguir dizer a verdade sem magoar ninguém." -

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Cerridwen
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Re: O Incidente

Postby Cerridwen » 31 Oct 2005 22:54

Muito bom, este texto. Batante original e "realista", parece mesmo o início de um grande policial.


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