Naquele dia...

Pedro Farinha
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Naquele dia...

Postby Pedro Farinha » 16 Jun 2010 01:03

- Pedro ?
- Sim, mãe...

A voz da minha mãe subitamente envelhecida. O sotaque portuense mais marcado como sempre que está muito cansada ou triste.

Não precisou de dizer mais nada. A espada paira sobre a nossa cabeça há tempo suficiente para que não me restassem dúvidas. A voz da minha mãe num sussurro de fio de água.

- O pai...
- Sim, mãe, eu sei.

Um desejo imenso de estar ao pé dela e de a poder abraçar. De poder soltar as lágrimas e mistura-las com as dela, para que um único rio de dor, unido, desaguasse sobre o corpo inerte do meu pai. Penso em correr para ela, sei que é isso que tenho de fazer. Mas o corpo rasga-se em dor e saudade, os olhos tolhem-se de maresia e as pernas não obedecem.

Como suportar a dor da sua ausência. Como explicar ao coração que tem de continuar a bater, aos pulmões para respirarem se nada mais faz sentido. Não consigo carregar a falta que ele me faz. As suas palavras certeiras. A brutalidade com que expunha as suas opiniões e a doçura com que defendia quem amava.

A puta da minha consciência diz que eu tenho de ser forte, que há quem precise de mim. Mas há dores que eu não fui talhado para suportar. Principalmente sem esperança. O meu pai sempre me disse, é pela força com que se luta por algo que se demonstra o quanto se quer essa mesma coisa.

E agora pai? Como posso eu lutar por ti?

A solidão cai sobre mim como um manto negro e o estômago contorce-se de azia. As pernas trémulas arrastam-me até ao computador para que ponha em palavras o que sinto e desta forma possa começar a expurgar a raiva e a tristeza que me assolam os pensamentos.

Mas ainda é muito cedo para escrever. A carne ainda sangra e as palavras não conseguem sair com a eloquência necessária.

É então que me sento aqui e começo a escrever um outro texto, onde possa falar da falta, da dor e da forma como a mesma me massacra o corpo.

Naquele dia, como em nenhum outro ele sentiu a falta que lhe fazia a ausência dela. Deambulou pela casa com as mãos nos bolsos em busca da ilusão de outras mãos. Pôs-se frente ao espelho e abriu a camisa, para seu grande espanto não se via a cicatriz em carne viva que ele sentia...

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Re: Naquele dia...

Postby Ripley » 16 Jun 2010 11:23

:bow:

Pedro Farinha wrote:(...) é pela força com que se luta por algo que se demonstra o quanto se quer essa mesma coisa.


Poderia responder, eventualmente perguntar, mas o testemunho de dor é avassalador. Comento apenas e assinalo.
"És a metade que me é tudo." [Pedro Chagas Freitas]
---§§§---
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Re: Naquele dia...

Postby Lazy Cat » 16 Jun 2010 14:19

:hug:
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Re: Naquele dia...

Postby Aignes » 16 Jun 2010 17:42

sem palavras..
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Re: Naquele dia...

Postby MAGG » 16 Jun 2010 19:15

Aignes wrote:sem palavras..


x2 :(

Pedro Farinha
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Re: Naquele dia...

Postby Pedro Farinha » 17 Jun 2010 00:16

Depois de alguns comentários aqui ambíguos (por exemplo a MAGG ter ficado tão triste com o meu texto que multiplicou por 2 um sorriso triste), acho por bem esclarecer que:

1. Daniel Defoe nunca naufragou numa ilha deserta apesar de ter escrito isto:

Vagueei pela costa, erguendo as minhas mãos, e todo o meu ser como que estava envolvido na contemplação do meu salvamento; fazia mil gestos e movimentos, que não consigo descrever; reflectindo sobre todos os meus camaradas que se afogaram, e que nenhuma alma se havia salvo senão eu.

in Aventuras de Robinson Crusoé


2 - Sir Arthur Conan Doyle nunca foi viver com Sherlock Holmes apesar de ter escrito isto:
Encontrámo-nos no dia seguinte conforme combinado, e fomos ver o apartamento no 221-B da Baker Street, que consistia de dois confortáveis quartos de cama e de uma espaçosa sala de estar, alegremente mobilada e iluminada por duas amplas janelas. (...) Nessa mesma tarde mandei vir do hotel as minhas coisas, e na manhã seguinte Sherlock chegou com as suas várias caixas e maletas.

in Um estudo em vermelho



3 - E seguramente Arthur Golden nunca foi uma Gueixa, ainda que tenha escrito:

Depois de mais dois anos de festas e saídas – o tempo todo continuando com os meus estudos e participando em exibições de dança sempre que podia – fiz a mudança de aprendiza de gueixa para gueixa. Isto foi no Verão de 1938, quando tinha dezoito anos.

in Memórias de uma Gueixa


Por isso, mesmo que por vezes se coloquem no BBdE textos que não sejam de ficção, acreditem que o meu pai está vivo. Mas não posso deixar de agradecer a vossa preocupação.

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Re: Naquele dia...

Postby Thanatos » 17 Jun 2010 08:04

Portanto... comparas-te a Defoe, Doyle e Golden. Podias estar em pior companhia, de facto. :P


De revés digamos que por vezes também muita gente confunde os disparates que eu alinhavo com realidades do quotidiano. A essas pessoas apenas posso dizer que o escritor (não que eu mereça tal título) é um mentiroso. E os melhores escritores mentem tão bem que por vezes até a vida imita as suas mentiras.


(sim, eu sei que antes de mim já Pessoa disse algo semelhante e duma forma infinitamente melhor)
Não importa como, não importa quando, não importa onde, a culpa será sempre do T!

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Re: Naquele dia...

Postby Bugman » 17 Jun 2010 08:13

Pedro Farinha wrote:3 - E seguramente Arthur Golden nunca foi uma Gueixa, ainda que tenha escrito:


Estudos científicos americanos (porque se não forem americanos, perdem em credibilidade) provam que todas as pessoas importantes na História da humanidade são/foram homossexuais. Estudos ainda mais aprofundados mostram que os muito importantes tinham ainda uma vida paralela no mundo transformista. Apelando a estes 'estudos' eu não diria 'seguramente'... :whistle: :devil:
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Re: Naquele dia...

Postby Aignes » 17 Jun 2010 17:03

Sim, isso agora não foi nada snobe e de pouca consideração.

Mas pronto, o texto continua bem escrito que foi o que eu quis dizer. ;)
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Re: Naquele dia...

Postby MAGG » 18 Jun 2010 00:12

Pedro Farinha wrote:Depois de alguns comentários aqui ambíguos (por exemplo a MAGG ter ficado tão triste com o meu texto que multiplicou por 2 um sorriso triste), acho por bem esclarecer que:

1. Daniel Defoe nunca naufragou numa ilha deserta ...

Pois não mas, o Alexander Selkirk naufragou . :)

Pedro Farinha wrote:2 - Sir Arthur Conan Doyle nunca foi viver com Sherlock Holmes


Pois não mas, poderá ter vivido com o Joseph Bell. :)

Pedro Farinha wrote:3 - E seguramente Arthur Golden nunca foi uma Gueixa.


Pois não mas, a Mineko Iwasaki é ( foi ? ) . :)

Daí que por via das dúvidas que a ficção tenha ido buscar inspiração à realidade ...

Pedro Farinha wrote: Mas não posso deixar de agradecer a vossa preocupação.

Duly noted ;).

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Re: Naquele dia...

Postby João Arctico » 19 Jun 2010 01:02

Pedro Farinha wrote:A puta da minha consciência
Há palavras feias que só nos apetece dizer em momentos feios; há palavras de raiva que proferimos em momentos que não conseguimos compreender porque acontecem.
Pedro Farinha wrote: Mas há dores que eu não fui talhado para suportar.
... e a ironia da "puta da vida" é que mais cedo ou mais tarde acabamos por as enfrentar...

Mas entrando mais no texto...
Pedro Farinha wrote: Naquele dia, como em nenhum outro ele sentiu a falta que lhe fazia a ausência dela. Deambulou pela casa com as mãos nos bolsos em busca da ilusão de outras mãos. Pôs-se frente ao espelho e abriu a camisa, para seu grande espanto não se via a cicatriz em carne viva que ele sentia...
Onde se situa realmente o narrador no texto? Qual a verdadeira dor?
A falta do pai ou a falta "dela"?...

:tu: :tu: :tu:
"É isto o que, de todo em todo, pretendia o autor? Não sei; é a opinião do leitor que eu dou." Jean-Paul Sartre
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