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Rua da espera

Posted: 23 Jul 2010 13:00
by Pedro Farinha
As fachadas dos prédios alinhadas umas ao lado das outras, como soldados indolentes em parada militar ao meio dia. A brisa que agita o toldo da esquina onde um talho lança uma luz arroxeada sobre os desenhos simétricos da calçada. Dois carros que passam, em sentidos contrários deixando um mar de papéis a agitarem-se contra o rebordo do passeio.

Passa uma rapariga eléctrica a gesticular em alta voz ao telemóvel, deixando a sua estridência a vibrar o ar, mesmo depois de já ter dobrado a esquina.

Um cão, nariz rente ao chão, ziguezagueando em busca de cheiros familiares é o primeiro que se aproxima de mim. Ergue os seus olhos meigos para os meus olhos de criança como se perguntasse o que faço eu ali, tempos infindos, sentado no degrau frente à porta fechada de madeira maciça intransponível.

Atrevo-me numa festa, olhando de soslaio os caninos que ressaltam da sua boca arfante e ele retoma o seu trajecto desenhado a olfacto nas pedras da calçada.

Subitamente a rua mergulha na penumbra provocada pela sombra gigante da nave espacial. De uma escada articulada desce a minha mãe que me cumprimenta com um sorriso e faz um gesto vago em direcção à nave que levanta voo.

Abre a porta de casa e entramos os dois, mãos dadas, a minha pequena, afogada nos dedos compridos da dela.

Demorei muito, pergunta-me sorridente. Olho para ela e penso em tudo o que pensei e senti, enquanto ela percorria planetas, galáxias longínquas e asteróides reluzentes sem que eu nunca soubesse quando aterraria de novo ou se algum acidente cósmico a poria fora da minha vida para sempre. Mas agora que sei que nunca mais me vai largar, abraço-a com força e digo apenas – demoraste o tempo que foi preciso.

Re: Rua da espera

Posted: 23 Jul 2010 14:49
by Ripley
Se trocasses a nave espacial por um táxi pareceria uma cena normalíssima dos subúrbios. Quase um Rockwell em palavras.

Adorei o último parágrafo...

Demorei muito, pergunta-me sorridente. Olho para ela e penso em tudo o que pensei e senti, enquanto ela percorria planetas, galáxias longínquas e asteróides reluzentes sem que eu nunca soubesse quando aterraria de novo ou se algum acidente cósmico a poria fora da minha vida para sempre. Mas agora que sei que nunca mais me vai largar, abraço-a com força e digo apenas – demoraste o tempo que foi preciso.

Re: Rua da espera

Posted: 23 Jul 2010 16:52
by Pedro Farinha
Ripley wrote:Se trocasses a nave espacial por um táxi pareceria uma cena normalíssima dos subúrbios.


A nave espacial foi a forma que encontrei para explicar que a mãe da criança era do outro mundo :)

Re: Rua da espera

Posted: 23 Jul 2010 18:25
by Samwise
Pedro Farinha wrote:
Ripley wrote:Se trocasses a nave espacial por um táxi pareceria uma cena normalíssima dos subúrbios.


A nave espacial foi a forma que encontrei para explicar que a mãe da criança era do outro mundo :)


Não sei o que achei mais bonito - se o texto se esta explicação... :)

Re: Rua da espera

Posted: 23 Jul 2010 19:03
by Ripley
Pedro Farinha wrote:A nave espacial foi a forma que encontrei para explicar que a mãe da criança era do outro mundo :)


Às vezes temos a sorte de conhecer pessoas assim ^_^