Memória a preto e branco com uma cor escondida

Pedro Farinha
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Memória a preto e branco com uma cor escondida

Postby Pedro Farinha » 07 Oct 2010 23:44

Quando se chega a uma certa idade os dias do passado são mais brilhantes que os do presente. A casa cheia de gavetas e em todas pequenos rastilhos de memórias. Como esta fotografia que caiu no chão quando o meu neto abriu, convulsivamente, as gavetas em busca de lápis de cores. Uma fotografia tua.

Ele olhou-a num relance e soltou a pergunta: tu e esse rapaz eram muito amigos avô? Mas não esperou pela resposta, as pernas ganharam vida e eclipsou-se da sala deixando-me parado com as recordações despertas. O meu amante mais secreto. O meu único amor e o mais proibido de todos.

Foi há cinquenta anos, mas o meu corpo cansado, murcho e engelhado, ainda recorda a suavidade da tua pele. O rosto bem barbeado mas onde sentia, na ponta dos dedos, as pilosidades a despontar, criando uma textura tão própria e tão tua. Mas isso foi quando já nos tínhamos rendido à paixão, quando os nossos corpos se encontraram e pude sentir, pela primeira vez, o teu sexo dentro de mim, a tua boca máscula na minha e o teu corpo, tão gémeo do meu, a abraçar-me com força.

Mas antes... a angústia dos dias em que temia a rejeição, que passávamos juntos em conversas eternas que duravam até que os cafés nos apagavam a luz e prolongávamos, ainda, à porta de tua casa ou da minha. Tanto medo que eu tive que tu não me quisesses, porque tu eras homem e eu era homem e não estava certo para mim. Eu nunca tinha estado com nenhum homem nem voltei a estar depois de ti. Não me parecia certo, mas o meu corpo pedia-te, uma e outra vez. E tu, ainda que não parecesses, eras experiente e soubeste seduzir-me quebrando as minhas resistências ténues e os meus preconceitos burgueses.

Seguro na mão a fotografia, a única que tenho, onde estamos lado a lado, sorrisos paralelos e um brilho no olhar. O que a fotografia não mostra, pois nem o fotógrafo viu, é que por detrás daqueles risos a preto e branco existia a cor da tua mão no meu rabo.

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Re: Memória a preto e branco com uma cor escondida

Postby Samwise » 13 Oct 2010 16:26

A única novidade que tenho para te dizer sobre a tua escrita numa ficção curta como esta (curta mas completa e totalmente delimitada na história que conta) é que finalmente conseguiste usar a palavra "rabo" sem me fazer espécie ou eu achar que destoa no meio da restante linguagem a ponto de me puxar para fora da narrativa - e nem vou argumentar que é por estar mesmo no fim do texto. :mrgreen:

Mais a sério: excelente fotografia da memória. É um texto com corpo e densidade. Recorda uma imagem do passado mas começa com num futuro perfeitamente definido - há um neto e toda uma vida construída que se adivinha a partir daí. E há uma outra vida que se adivinha com mais detalhe a partir da fotografia que origina a memória.

Quando li "avô" e depois li "o meu amante" fique por uns instante a pensar que te tinhas enganado no acento. Depois li o resto...
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Re: Memória a preto e branco com uma cor escondida

Postby Ripley » 13 Oct 2010 16:50

Muito depois de vidas construídas, reconstruídas, modificadas, as memórias podem esconder muitas coisas.
Nestas cujo véu levantas há um segredo, uma cor - escondida, como indicas - de intenso sentimento oculto sob estratos de muitos anos de vida convencional.
Ainda que a menção ao "rabo" me tenha feito rir, dado o historial da palavra nos teus textos, foi desta vez um riso suave, talvez terno... tão terno como a mão do amante atrás das costas, cor escondida de tudo e todos numa cena que todos viram a preto e branco.
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---§§§---
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Re: Memória a preto e branco com uma cor escondida

Postby Pedro Farinha » 13 Oct 2010 17:51

Quando depois de ter começado este texto cheguei ao seu rabo final, e antes de o postar, estive quase escrever uma dedicatória em que diria algo como: este texto e em especial o rabo é dedicado ao Sam

Mas antevi uma série de sorrisos travessos, alguns piscares de olhos confundidos e pensei que o Sam podia se sentir constrangido face a uma dedicatória que ficaria, certamente, nos anais da história, e por isso abstive-me.

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Re: Memória a preto e branco com uma cor escondida

Postby Samwise » 13 Oct 2010 18:00

Pedro Farinha wrote:Quando depois de ter começado este texto cheguei ao seu rabo final, e antes de o postar, estive quase escrever uma dedicatória em que diria algo como: este texto e em especial o rabo é dedicado ao Sam

Mas antevi uma série de sorrisos travessos, alguns piscares de olhos confundidos e pensei que o Sam podia se sentir constrangido face a uma dedicatória que ficaria, certamente, nos anais da história, e por isso abstive-me.



Epá! Escreveres-me uma dedicatória dessas num texto destes... errr... as pessoas ficariam realmente com uma ideia errada sobre nós. :twisted:
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Re: Memória a preto e branco com uma cor escondida

Postby Pedro Farinha » 13 Oct 2010 18:13

Sim, o próximo texto terá de ser bem hetero para que não restem dúvidas :tu:


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