Queres ser minha amiga ?

Pedro Farinha
Edição Única
Posts: 3298
Joined: 03 Apr 2005 00:07
Contact:

Queres ser minha amiga ?

Postby Pedro Farinha » 12 Jun 2005 22:14

Queres ser minha amiga ?

A pergunta, dita nesta infantilidade deixou-a surpreendida. A mim também, talvez, fez-me recordar há uns anos valentes atrás no meu primeiro dia de escola. A minha mãe, perante a minha vergonha, ensinara-me "Quando chegares à escola, escolhes um menino e pergunta-lhe se ele quer ser teu amigo. Se ele disser que sim, então podes sentar-te ao lado dele, e aí já conheces alguém, tens um amigo e já não há razão para teres vergonha".

Hoje sentia a mesma inocência e perguntava-lhe - Queres ser minha amiga ?

Tinha arrumado a casa. Varrido dos cantos mais fundos as recordações e tinha vomitado dores, desilusões, incompreensões e álcool. Muito álcool. Muito tabaco também.

Tinha sido uma semana a esvaziar a casa e a bílis. E à medida que o lixo saía de minha casa e do meu corpo, o sol encontrava espaço para entrar. Lentamente que também não se quer pressas nestas coisas. Primeiro um chilrear de um passarinho, depois um raio de sol, mais tarde o som da água cristalina ...

A casa estava vazia mas, por incrível que pareça eu não. Vazio andava eu há anos a enganar esse vazio com as preocupações com que atafulhava a mente. Agora estava limpo. A casa estava virgem de novo.

Os olhos dela continuavam fixos nos meus enquanto eu aguardava com a serenidade recém conquistada a resposta que tardava.

- Queres ser minha amiga - inquiri de novo, mas desta feita penas com o olhar.
- Sim - respondeu-me por fim, mas apenas com o olhar porque as palavras enganam tanto e ela já não acreditava em palavras.

E eu que já tinha deixado de acreditar em tudo, a começar por mim e a acabar em mim, agora acreditava de novo. Acreditava no chilrear dos pássaros, nos raios de sol e no som da água cristalina a jorrar de uma fonte imaginária.

Eu agora era outro. O outro afogara-se entre a pilha de tralha varrida da casa e dissolvera-se em Gins bebidos tónicos primeiros e puros depois. Eu era um rapazinho. Um rapazinho que ia de novo para a escola e cuja mãe ensinara como fazer amigos.

Ela era outra. Mas ela não esquecera porque as dores do corpo deixam mais marcas que as da alma ainda que doam menos. Ela não esquecera porque bastava-lhe olhar para baixo para ver as nódoas negras nos braços e as marcas das agulhas.

- Não uses a palavra amigo - pediu-me.

Mas o pedido feito com a boca contradizia-se com o pedido feito com os olhos. E eu sempre acreditei mais em olhos que em bocas. E disse-lhe que palavras leva-as o vento mas que as acções guarda-as o coração, e que um dia saberíamos se éramos ou não amigos.

E ela não disse mais nada porque sabia que se falasse as lágrimas poderiam romper a comporta mal erguida. E eu não chorei porque tinha secado as lágrimas e porque os rapazinhos não choram se não podem ser chamados de mariquinhas. E eu não queria ser um mariquinhas, eu queria ser forte e alto como o meu pai ou como o Corto Maltese que era quase a mesma coisa pois ambos viviam envoltos na névoa do silêncio, e a ambos admirava e temia.

E ela deu-me a mão e eu senti que não precisava de usar a palavra amigo. E eu que jurara que não daria mais a mão, apenas os olhos, gostei de sentir aquela mão na minha. E apesar de ser uma mão franzina, rugosa e marcada pelo tempo, era uma mão que tinha o poder de aquecer muito a minha. Tanto, tanto que o calor subia-me pelo braço acima e chegava aos olhos. E os olhos que estavam secos, humidificaram com o calor como uma selva tropical.

E eu retirei a mão, sorri para ela e corri para casa. E a minha casa com o soalho brilhante e as paredes nuas estava cheia de sol. E eu abri as torneiras todas e saiu uma água muito cristalina que cantou para mim.

Escrevi então uma carta à minha mãe, que me ensinara a fazer amigos, e disse-lhe que nunca lhe agradecera o suficiente. Selei a carta com uma lágrima e um beijo e atirei-a pela janela sabendo que o vento não precisa de código postal para levar sentimentos às pessoas que amamos principalmente se já morreram.

User avatar
Samwise
Realizador
Posts: 14974
Joined: 29 Dec 2004 11:46
Location: Monument Valley
Contact:

Re: Queres ser minha amiga ?

Postby Samwise » 15 Jun 2005 15:47

Pedro,

Só uma palavra: Belíssimo!

Um texto em que as emoções substituem as palavras.

SamW
Guido: "A felicidade consiste em conseguir dizer a verdade sem magoar ninguém." -

Nemo vir est qui mundum non reddat meliorem?

My taste is only personal, but it's all I have. - Roger Ebert

- Monturo Fotográfico - Câmara Subjectiva -

isabelucha
Comic Book
Posts: 122
Joined: 02 Apr 2005 23:41
Location: Porto, Portugal
Contact:

Re: Queres ser minha amiga ?

Postby isabelucha » 16 Jun 2005 11:43

Bolas... Quem ficou com os olhos humedecidos fui eu :)

Gostei muito do texto, e só vem apoiar a minha certeza de que nunca devemos deixar morrer a criança dentro de nós, porque ela tem sempre tanta coisa para nos ensinar!...

Está muito bonito mesmo, Pedro, obrigada por partilhares! :bow:
My name is <b>Blu</b>... <b>Just Blu</b>!<br /><br /><a href='http://isabelucha.deviantart.com' target='_blank'><b>My deviantART page</b></a>

Maloveci
Livro de Bolso
Posts: 239
Joined: 16 Mar 2005 23:27
Location: Jamaica man !!
Contact:

Re: Queres ser minha amiga ?

Postby Maloveci » 17 Jun 2005 23:51

Pedro Farinha :Selei a carta com uma lágrima e um beijo e atirei-a pela janela sabendo que o vento não precisa de código postal para levar sentimentos às pessoas que amamos principalmente se já morreram.



:tu: :tu: :tu: :tu: MUITO BOM Pedro :tu: :tu: :tu: :tu: , apetecia-me mesmo era dizer daqueles palavrões que expressam o quanto gostamos do que lemos :)
<!--coloro:#0000FF--><span style="color:#0000FF"><!--/coloro-->Desabafas??? Eu também... Estou aqui: <!--colorc--></span><!--/colorc--> <!--coloro:#9932CC--><span style="color:#9932CC"><!--/coloro-->maloveci@jamaicans.com<!--colorc--></span><!--/colorc-->

Pedro Farinha
Edição Única
Posts: 3298
Joined: 03 Apr 2005 00:07
Contact:

Re: Queres ser minha amiga ?

Postby Pedro Farinha » 18 Jun 2005 13:57

:) :) :)

pedroi
Dicionário
Posts: 577
Joined: 06 May 2005 10:48
Location: Rio Maior
Contact:

Re: Queres ser minha amiga ?

Postby pedroi » 14 Jul 2005 14:07

Gostei muito. Mais uma vez surgem-me recordações da minha mãe, do que ela me ensinou e do que não pôde ensinar.

O ultimo paragrafo é excelente, uma imagem belissima. Transmite duma forma linda o sentimento de que aqueles que morrem nunca nos abandonam se os guardarmos no coração.


Return to “Pedro Farinha”




  Who is online

Users browsing this forum: No registered users and 2 guests

cron