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Oféui, a cidade sitiada

Posted: 29 Nov 2010 18:13
by Pedro Farinha
Oféui é uma cidade sitiada. De muralhas tenuemente erguidas, de aspecto frágil, onde o vento rodopia e semeia estragos.

Quem veja a cidade de cima pode nem se aperceber da terrível situação em que se encontra Oféui, pois as pessoas caminham pelas ruas, o comércio funciona e não se vislumbra falta de trabalho. Mas um olhar mais atento, que mergulhe nas entranhas da cidade, consegue ver nos rostos apáticos dos seus habitantes que algo lhes foi roubado. Os sorrisos com que se cumprimentam tem o calor de um icebergue e o acumular de roupa nos seus corpos esquálidos mostra como o frio penetrou até ao seu âmago. Nas ruas pejadas de gente, deambulam os corpos porque a inércia é uma lei da física que perdura para além do sinal do fim dos tempos.

Em vão o exército sitiante estende uma passadeira vermelha numa álea larga para que os habitantes de Oféui possam sair e procurar outras paragens onde talvez pudessem viver felicidades de plástico e alegrias efémeras regadas com álcool profuso ou cogumelos exóticos.

Oféui é uma cidade sitiada porque não tem saída ainda que lhe estendam uma saída. É que Oféui é uma cidade de sentido único e esse, malogradamente, foi-lhe vedado.

Dito isto o passageiro do vento resolveu que não ia vaguear mais. Escutou o eco do vento longínquo, entrou na biblioteca e fechou a porta.

Re: Oféui, a cidade sitiada

Posted: 29 Nov 2010 18:23
by Thanatos
Muito bom mesmo!

Este teu ciclo do passageiro do vento merecia ser antologizado. ;)

Re: Oféui, a cidade sitiada

Posted: 30 Nov 2010 12:20
by Ripley
Mais uma vez nos transportas a cenários perdidos em tempestades de areia que não encontraríamos sem a tua bússola ímpar.
Desta vez, e porque o passageiro resolveu abandonar as suas peregrinações por essas terras perdidas do mundo, deixo uma resposta.


Pedro Farinha wrote:Dito isto o passageiro do vento resolveu que não ia vaguear mais. Escutou o eco do vento longínquo, entrou na biblioteca e fechou a porta.


Mais acima, na pedra gasta do torreão, a falcoa caçadora fita o seu olho imóvel na porta agora fechada. Sabe que talvez não volte a ver aquele humano diferente dos outros humanos, que como ela pairava nas correntes e brincava no dorso dos zéfiros.
Se dominasse as palavras talvez lhe chamasse amigo, talvez lhe perguntasse porque abdica assim de tal liberdade. Mas a falcoa é um ser de instinto, animal de paixão voadora e de silêncios opacos.

Se um dia encontrar quem a ensine a falar, voltará para contar àquele humano todas as viagens que tenha feito, as terras que tenha visitado e os ventos diferentes que tenha saboreado. E talvez, por um breve momento, e ainda que o seu corpo não saia de entre as quatro paredes onde se encerrou por vontade própria, aquele humano, aquele amigo volte a voar - em imaginação pelo menos.
Talvez um dia.

Lentamente, a falcoa descai no sopro do crepúsculo e deixa-se levar ao sabor da aragem morna, as asas acenando um até breve.

Re: Oféui, a cidade sitiada

Posted: 30 Nov 2010 14:44
by João Arctico
Tal como a propriedade que se transformou em lei (leia-se, a Inércia), os teus (pequenos) textos transformam-se em "verdadeiras epopeias". Não (só) por aquilo que escreves mas por aquilo que nos permite ler...

:tu: :tu: :tu:

Re: Oféui, a cidade sitiada

Posted: 30 Nov 2010 23:00
by MAGG
Pedro Farinha wrote:Oféui é uma cidade sitiada porque não tem saída ainda que lhe estendam uma saída. É que Oféui é uma cidade de sentido único e esse, malogradamente, foi-lhe vedado.


:bow: Muito bom ...