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O 8º dia

Posted: 13 Dec 2010 01:17
by Pedro Farinha
E ao oitavo dia a semana desvanece-se. As trevas rasgam-se em absurdos de calor e a tua boca cola-se à minha como se não houvesse amanhã.

Nem há.

Ao oitavo dia o mundo é só nosso. Na obscuridade das sombras as nossas peles inebriam-se no festim dos corpos e as palavras são ditas em sussurros quentes, quase inaudíveis, porque não há nada para dizer que não tenha já sido dito.

Ao oitavo dia o corpo rejubila. Os olhos chispam relâmpagos e as mãos percorrem caminhos sinuosos que a pele recolhe em momentos de prazer. O oitavo dia tem a melodia da tua respiração descompassada e o cheiro dos teus cabelos rebeldes.

É no oitavo dia que a semana, finalmente, vence a batalha contra o quotidiano sem sentido dos outros sete dias. Que percorremos cidades fantásticas e desenhamos mapas que mais ninguém pode ver.

O oitavo dia é efémero.

Mas é nosso.

Re: O 8º dia

Posted: 13 Dec 2010 16:21
by Ripley
Um texto desenhado com as tinturas de sonho a que me habituei a reconhecer nos teus quadros.

O oitavo dia é efémero, sim. Esquivo. Não existe em todas as semanas. Não existe para toda a gente.
É não-democrático.
Se mais semanas tivessem oito dias, não se ouviriam tantos suspiros - lamentos em Do(r) Maior. E talvez o Mar fosse menos salgado.

Re: O 8º dia

Posted: 13 Dec 2010 22:41
by João Arctico
Ao oitavo dia, o Senhor (Pedro) criou. :)

Para quem tem o oitavo dia, para quê ter os outros? Mas, infelizmente, para muitos nem o oitavo dia existe. Feliz este par.

Re: O 8º dia

Posted: 14 Dec 2010 18:33
by medicated
Não quero correr o risco de ser inoportuno e sinceramente tenho lido os post's do Pedro Farinha e as reacções deixam-me perplexo, só eu não entendo a originalidade e valor dos mesmos, deve ser algo psicossomático.

Re: O 8º dia

Posted: 15 Dec 2010 04:44
by Arsénio Mata
medicated wrote:Não quero correr o risco de ser inoportuno e sinceramente tenho lido os post's do Pedro Farinha e as reacções deixam-me perplexo, só eu não entendo a originalidade e valor dos mesmos, deve ser algo psicossomático.


E eu não querendo ser advogado de defesa de ninguém, tenho-te a dizer que se és só tu que não percebes, então de facto talvez o problema seja só teu. O que não retira valor algum a tua opinião, simplesmente nem todos podemos ou devemos ter a mesma sensibilidade e gosto.

Re: O 8º dia

Posted: 22 Dec 2010 18:23
by medicated
Arsénio,


Coloca-se então a questão da predominância da maioria relativamente à interpretação de um texto, se é quase unânime tem que ser bom e edificante, os que estão na margem e não concordam e expressam essa discordância calmamente são designados como indivíduos de pouco gosto e sensibilidade. Não querendo ser promotor publico caro Arsénio só posso dizer que a prova fala por si e que o álibi não se comprova, mas posso sempre gesticular e curvar-me diante da genialidade destes textos, fora isso tudo bem.


Medicate

Re: O 8º dia

Posted: 23 Dec 2010 15:52
by Samwise
medicated wrote:Coloca-se então a questão da predominância da maioria relativamente à interpretação de um texto, se é quase unânime tem que ser bom e edificante, os que estão na margem e não concordam e expressam essa discordância calmamente são designados como indivíduos de pouco gosto e sensibilidade.


Eu diria que é isso que normalmente acontece, quase* sem tirar nem pôr, medicated. Mas, como o Arsénio referiu, isso não retira qualquer valor à opinião desses indivíduos. Apenas não se coaduna com as demais.

* a minha única reserva verifica-se em relação ao "tem de ser bom e edificante". Não é uma questão de "ter de ser". O "ser bom e edificante" não é uma obrigação, é antes uma espécie de consequência das opiniões expressadas pela tal maioria.

Re: O 8º dia

Posted: 23 Dec 2010 19:25
by croquete
Não querendo ofender ninguém com isto.
Queria apenas dizer que:

Boa Pedro. Gostei muito do texto. :D

Re: O 8º dia

Posted: 24 Dec 2010 00:46
by Arsénio Mata
medicated wrote:Arsénio,


Coloca-se então a questão da predominância da maioria relativamente à interpretação de um texto, se é quase unânime tem que ser bom e edificante, os que estão na margem e não concordam e expressam essa discordância calmamente são designados como indivíduos de pouco gosto e sensibilidade. Não querendo ser promotor publico caro Arsénio só posso dizer que a prova fala por si e que o álibi não se comprova, mas posso sempre gesticular e curvar-me diante da genialidade destes textos, fora isso tudo bem.


Medicate


Como de costume estás a levar as coisas demasiado a peito, como se procurasses uma guerra. Em lugar algum eu disse que tinhas pouco gosto e sensibilidade, disse apenas que tinhas um gosto e sensibilidade diferentes. Acho óptimo que diferentes pessoas tenham diferentes gostos, agora parece-me que uma critica, quando negativa, deve ter em si algo de positivo e não apenas o intuito de deitar abaixo. Mas gesticula à vontade, não digo que o faças bem, mas parece-me que é algo que te deixa satisfeito.

PS - Pedro, desculpa o off-topic.

Re: O 8º dia

Posted: 27 Dec 2010 21:34
by medicated
Existe um histrionismo perceptivel na tua argumentação, tenho que aplaudir o teu voluntarismo na defesa de um texto. Gostei da referência a uma exuberancia gestual, mas como estou um homem transfigurado vou manter o meu proverbial cavalheirismo. Não quero guerras e como penso já ter escrito eu até gosto muito do que escreves e se não gostasse tinha o mesmo tipo de comentário que coloquei aqui.

Re: O 8º dia

Posted: 28 Dec 2010 14:33
by croquete
medicated wrote:mas como estou um homem transfigurado vou manter o meu proverbial cavalheirismo


:thumbsup: