Clausura

Pedro Farinha
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Clausura

Postby Pedro Farinha » 01 Mar 2011 01:01

Fecho a porta.

A casa está nua e o soalho baço. A luz, ainda que mortiça, teima em entrar. As janelas estão já fechadas e apresso-me a fechar as portadas. Lá fora ficam as desilusões, as promessas não formuladas nem cumpridas.

Olho em volta. Cacos. A minha vida estilhaçada.

As palavras escritas por mim e por quem sabe, cercam-me na estante que de pequena se faz grande e envolvente. As palavras confortam quando os gestos são omissos. Mas hoje até as palavras sangram e jazem inúteis em prosas por cumprir.

Escrevo: não me é possível viver sem amor mas posso viver com um amor amordaçado. Quem sabe se adiado.

A casa tem muitas portas e apresso-me a fechar as outras. Nunca me faltou a coragem para agir mesmo quando dói.

Fecho as janelas. Não preciso de mirones nem de traidores. De miseráveis ou oportunistas. Basto-me a mim próprio. Chego-me.

Mas os meus passos tornam-se inquietos quando me aproximo da última porta, aquela que tem a forma do teu corpo e por onde mais ninguém pode entrar. Pouso a mão na porta mas não a consigo fechar. Sei que se a fechar nunca mais a conseguirás abrir. Sei que se a fechar nunca mais a conseguirei abrir.

É então que enfio a mão no peito e arranco, da minha carne, a chave. A porta está fechada mas existe uma chave debaixo de um tapete. Sabes onde está, sabes como abrir, sabes que estarei à tua espera e acima de tudo sabes o que eu sei.

Sim, eu até sei aquilo que nunca me disseste.

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