Respirar

Pedro Farinha
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Respirar

Postby Pedro Farinha » 17 Apr 2011 00:30

É preciso não me esquecer como se respira. Inspiro e expiro. O ar a entrar-me nos pulmões aumenta a dor no peito. Tenho de inspirar em doses pequenas e deixar o ar voltar a sair devagarinho. Num pequeno sopro, um fio de ar, coisa pouca.

Não me consigo mexer. Quando a casa se desmoronou sobre mim quebrou-me as pernas. Uma viga ou algo pesado prende-me os movimentos e não me deixa sair de onde estou. Mais que uma pessoa me tinha avisado que a casa podia ser bonita mas não era estável, que viria abaixo antes de eu ter tempo de fundear os alicerces.

E eu ria-me desses velhos do Restelo de mau agoiro. E dizia, sim, sim e julgava que bastava a força mágica que carrego dentro do peito. Como se a força de um só peito fosse suficiente para suster uma casa de pé. Como se uma casa não precisasse de ser construída antes de ser habitada.

Dói-me tudo. O corpo e os pensamentos. Oiço vozes passarem e comentarem o entulho que se avolumou sobre mim e então sustenho a respiração para que ninguém saiba que há um ser vivo debaixo dos escombros. Deixem-me ficar aqui. Eu vou respirando: prometo. É fácil. Inspiro. Expiro. A dificuldade está em dosear o ar que deixo entrar dentro do peito ferido. Porque me parece que o peito se vai rasgar. Que a dor que tenho dentro de mim vai extravasar e fazer-me implodir em estilhaços de carne humana e ideias soltas.

Estou deitado. Como que numa cama. Há um lençol branco por baixo de mim tatuado com uma pinga vermelha de sangue. Consigo mexer os braços e por sorte rolaram para perto de mim algumas coisas da cozinha. Como uma lata de leite condensado, mal aberta e onde mergulho devagar os dedos para pensar em coisas doces do passado.

Fecho os olhos mas não adormeço. Recordo apenas. A casa cheia de cor. Os dias em que se enchia de sons e de sonhos e se transformava em algo maior que uma simples casa. Depois, quando a maré vazava. Eu recolhia as conchas deixadas na areia e alinhava-as na prateleira da memória esperando a maré alta seguinte.

Mas a casa desmoronou-se. Tenho as pernas presas e não me consigo mexer. Também não queria se pudesse. Ir para onde? Não tenho muita coisa aqui ao alcance da mão. Dois ou três livros, pedaços de madeira que devem ter sido de uma mesa ou de uma cómoda e este computador, onde escrevo, mas que perdeu a rede. Mas o mais importante trago na minha cabeça e na memória da ponta dos dedos. Sim, eu recordo a arquitectura da casa e poderia erguê-la outra vez. Mas os destroços tolhem-me os movimentos e eu tenho de me concentrar em respirar. Devagarinho porque me dói, mas se não o fizer não conseguirei continuar a recordar a casa onde vivi nos últimos dois anos. Sem alicerces, mas com um pára-raios apontado ao céu em busca da trovoada certeira.

Inspiro e expiro. Dói como o raio, mas não posso parar.

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