14-18

Pedro Farinha
Edição Única
Posts: 3298
Joined: 03 Apr 2005 00:07
Contact:

14-18

Postby Pedro Farinha » 04 Jun 2011 17:52

Apesar da lentidão dos meus passos sentia-me ofegante. O barulho da minha própria respiração ecoava à volta da minha cabeça. Em redor, enquanto a nuvem se dissipava, o cheiro nauseabundo a pólvora e a corpos estilhaçados antecipava as imagens brutais que se seguiriam.

Estaquei.

Descontando as nuvens e a poeira a assentar nada se movia. Atrás de mim, os corpos dos meus companheiros. A mão do Carvalho ainda segurava a manilha de espadas, mas o braço estava separado do corpo. Aos poucos o cinzento elevava-se no ar mostrando a lama do fundo da trincheira a tingir-se de vermelho viscoso.

O Capitão, que estava ao pé de nós a ver-nos jogar à sueca, jazia agora numa poça de sangue ao lado da mesa improvisada. O Carvalho era o meu parceiro e erguera a manilha no ar com um sorriso de vitória nos lábios secos. Agora o sorriso fora-se com parte da cara. A menos que se pudesse chamar sorriso ao rasgão que começava no canto da boca e terminava na face desfeita.

Tirei a máscara. Senti o ar a entrar-me nos pulmões. Já não aguentava mais. Respirei profundamente. Uma vez, duas vezes. Nada aconteceu. Se havia gás venenoso à mistura já se tinha dissipado.

Uma fila de uniformes ensanguentados, de corpos estendidos em posições mais ou menos impossíveis e de membros decepados estendia-se até ao fim da trincheira. Nenhuma lágrima me aflorou ao rosto. Nenhuma emoção também. Há quanto tempo eu tinha perdido a capacidade de chorar ou de me sentir afectado pela morte à minha volta?

Ajoelhei-me e puxei de um cigarro. O fumo acre aqueceu-me os pulmões e percebi que estava vivo. Não que fosse importante, ou que fosse algo que eu quisesse particularmente, mas estava vivo e miraculosamente sem qualquer mazela.

Levantei-me e galguei o muro de terra reforçado com sacos de pedras. A paisagem tinha mudado. As poucas árvores existentes erguiam-se agora, despidas e famélicas, com os braços em direcção ao céu. Crateras juncavam o chão, alinhadas como uma plantação de abóboras.

Ninguém.

Comecei a caminhar. Porquê? Para onde? Não era relevante. Sei que me doía o dedo mindinho do pé esquerdo. A bota, gasta e apertada, feria o dedo a cada passo ainda que tivesse envolvido os pés em ligaduras antes de calçar as botas torpes.

Concentrei-me nessa dor. Nada mais interessava. Uma pequena dor, centrada numa extremidade do meu corpo. Os passos, sem rumo, tropeçavam em torrões de terra e nalguns cadáveres que, via agora, trajavam uniformes inimigos.

O que eu queria? O que eu era? Ninguém.

O sol torrava-me os miolos sobreaquecidos pelo capacete metálico que arranquei e atirei para o chão num gesto de desprezo. Livrei-me também da espingarda, pesada e inútil. Larguei a mochila e segurei o cantil com as duas mãos deixando o líquido precioso desperdiçar-se contra a minha cara, zebrando a minha cara em sulcos de água contra o negro da poeira.

Mais leve, ainda percorri mais uns passos até que desisti. Parei e sentei-me encostado a uma árvore que, estranhamente, ainda conservava parte da copa verde projectando uma sombra fresca na calidez do terreno.

A vontade de me descalçar era enorme, mas a experiência dizia-me que se o fizesse, seria impossível calçar-me de novo. Os pés inchados recusar-se-iam a entrar de novo no cano estreito das botas.

Sentado, encostado à árvore fiquei a ouvir os disparos distantes. Cada vez mais distantes, até que os meus olhos se fecharam e me transportaram para os teus braços seguros. Enrosquei-me no teu colo macio e fui apagando, pouco a pouco, as imagens das últimas semanas. Por fim, apenas restava um braço solitário com uma manilha de espadas pintalgada de sangue a agitar-se ao vento.

Curvaste-te sobre mim, beijaste-me e também isso se apagou.


Felizmente um obus impediu-me de acordar de novo.

User avatar
João Arctico
Dicionário
Posts: 537
Joined: 23 Oct 2009 23:16
Contact:

Re: 14-18

Postby João Arctico » 05 Jun 2011 00:58

Eu quase diria La Lyz mas em Abril não deveria estar "aquele sol" que torrava os miolos desse bravo soldado.

"Nós somos soldados. É uma grande irmandade, que junta à camaradagem das canções populares, o sentimento de solidariedade e uma lealdade desesperada de uns para os outros, de homens condenados a morrer..."
- Erich Maria Remarque in A Oeste Nada de Novo -

:tu: :tu: , Pedro.
"É isto o que, de todo em todo, pretendia o autor? Não sei; é a opinião do leitor que eu dou." Jean-Paul Sartre
"Mas mesmo aquilo que a gente não se lembra de ter visto um dia, talvez se possa ver depois de algum viés da lembrança" Chico Buarque in Estorvo


Return to “Pedro Farinha”




  Who is online

Users browsing this forum: No registered users and 2 guests

cron