Adão 22

Pedro Farinha
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Adão 22

Postby Pedro Farinha » 27 Jun 2011 18:37

Sentia a cabeça pesada e o corpo dorido. No entanto lembrava-me de tudo. As pálpebras ergueram-se lentamente como uma porta de garagem mal oleada e olhei em redor: o corpo dela, muito branco, contrastava com as paredes escuras da gruta.

Ela ainda dormia e fiquei assim uns momentos, a olhar aquele traseiro muito branco, as coxas roliças, o cabelo louro a cair em cascata pelas costas. Espreguicei-me e instintivamente a minha mão tocou a minha erecção matinal. Eu estava nu como ela, claro. A custo retirei o olhar dela. Teria muito tempo para a observar por certo, tempo demais provavelmente. Ainda que estivesse completamente nu, deitado sobre a areia numa caverna, estiquei o braço em busca do telemóvel inexistente para ver as horas.

Quanto tempo iria demorar a perder estes hábitos enraizados? Levantei-me e dirigi-me até ao verde resplandecente que me aguardava cá fora. A luz intensa feriu-me os olhos e tive de pôr a mão a fazer de pala para poder observar a natureza que me rodeava. Um belo naco de paraíso. Ligeiramente artificial no entanto. O relvado demasiado verde, as árvores carregadas de fruta, o lago...

Brinquei ao pecado original e com a maçã trincada na mão dirigi-me até ao lago, sereníssimo, e de um azul estonteante. Dei mais uma dentada na maçã que pousei sobre uma pedra e mergulhei naquelas águas sentindo uma sensação estimulante. Um sorriso alargava-me a cara: a água muito azul, a natureza domesticada, uma mulher bela e nua dentro da caverna e zero de concorrência, quantas noites não tinha eu sonhado com uma vida simples e prazerosa como esta.

Saí da água e deixei o sol secar a minha pele enquanto percorria as cercanias com o olhar. Junto a uma árvore, mesmo ao pé da entrada da caverna, estava um saco com comida. Frango, batatas e sumo de fruta. Se a seguir me servissem um café eu nunca mais quereria sair dali.

A Eva apareceu passado pouco tempo, as pernas estremunhadas e um olhar perdido. Olhou para mim e aproximou-se a medo. Chamei-a com a mão e ofereci-lhe um copo de sumo que ela aceitou com relutância.

Ainda inebriado pelo cenário idílico e pouco habituado à nudez, puxei-a para mim, com desejo de encostar a minha pele contra a dela. Estranhamente, e após tanta renitência a aceitar a comida que lhe ofereci, ela deixou-se conduzir e encostou-se a mim como se fossemos velhos parceiros.

Não avancei mais. Não queria assusta-la logo no primeiro dia e ainda não sabia bem os efeitos do que lhe tinham feito e eu escapara. Não sabia sequer se ela falava.

Resolvi levantar-me e explorar o espaço tendo o cuidado de não me afastar demasiado da caverna, afinal não sabia se haveria um outro sítio bom para dormir e a comida tinha ficado lá. Vagueei sem rumo, em círculos cada vez maiores, em redor da caverna, e a sentir a premência de beber um café até a cabeça se apertar ao ponto de quase me fechar os olhos.

Quando regressei à caverna encontrei a Eva sentada à minha espera de ar vazio e olhar distante. Chamei-a e descobri que falava. Conversamos um pouco, ela não se lembrava de nada, de quem era ou de como tinha vindo ali parar. Também não se importava, sentia no entanto uma sensação esquisita, confessou-me, como se lhe tivessem roubado algo, mas ela não sabia o quê.

À noite, puxei-a para mim e adormecemos abraçados. Mal o som da respiração dela amoleceu percorri-lhe o corpo com os dedos até ela se abrir para mim e acordar com os olhos já felizes de prazer. Foi um dia bom, e o primeiro de uma sucessão de dias sempre iguais. Demasiado iguais como depressa vim a descobrir.

Os dias sucederam-se como umas férias num resort “tudo incluído”, o sol, o lago, a comida todos os dias de manhã num saco à entrada da caverna e a fruta pronta a colher directamente da árvore. A juntar a tudo isto, a minha Eva, um pouco vazia de pensamentos e sem memória passada mas, talvez por isso, sem quaisquer barreiras morais ou psicológicas e que me aceitou, sem questionar, como parceiro sexual, dispondo-se sempre que eu quis a servir-me e a ser servida.

Aos poucos fui explorando o espaço numa curiosidade que nunca consegui estender à Eva. Frente à caverna havia uma árvore alta mas fácil de trepar, e num dos ramos mais altos onde consegui chegar, coloquei o saco da comida, já vazio, para que ao longe conseguisse mais facilmente encontrar o caminho de volta.

Um dia, depois de tanto andar, descobri que tinha chegado ao limite do terreno. A parede que nos cercava estava forrada a papel fotográfico, como uma paisagem infinita de árvores e pradaria a estender-se. Na verdade apenas consegui descobrir que o terreno terminava ali a pouco mais de dois passos do seu limite. Fora essa ilusão a responsável por não ter descoberto mais cedo os limites do terreno que me fora concedido. Olhei para trás. Não estaria a mais de dois quilómetros da caverna, conseguia ver, ao longe, o grito vermelho do saco a balouçar ao vento no meio de todo aquele verde.

Decorei o caminho para que no dia seguinte lá pudesse voltar. E assim o fiz. A partir desse ponto que assinalei sujando o papel com terra, comecei a andar sempre de mão na parede. Um dia chegou para percorrer todo o perímetro do terreno. Não encontrei uma única abertura e, nesse dia, ao voltar para a caverna, a minha perspectiva tinha mudado. Já não estava a passar umas férias naturistas de luxo, estava numa prisão. Simpática por certo, mas uma prisão cercada de muros altos que por muito que estivessem decorados com as cores da natureza, não deixavam de ser muros intransponíveis.

No dia seguinte sentia nas pernas o efeito daquela caminhada e fiquei estendido na areia até tarde. A Eva trouxe-me comida e ficou a olhar-me enquanto eu comia. Várias vezes tinha tentado conversar com ela sem grandes resultados. Ela não fazia a mínima ideia de como tinha vindo ali parar, nem quem era. Toda e qualquer explicação que eu lhe tenha tentado fazer sobre coisas que não existiam entre os muros que nos cercavam, eram para ela incompreensíveis. Tinha tanta curiosidade como o calhau onde eu estava sentado a comer. A sua grande qualidade era aceitar com bonomia tudo o que eu quisesse fazer. Mas a sua passividade começava a irritar-me. Sim, proporcionava-me bons momentos de prazer ainda que a sua presença constante, nua e disponível, mas sem nunca tomar a iniciativa, lhe tivesse tirado o erotismo inicial.

Numa noite resolvi não dormir, quis investigar por onde surgia aquele saco com comida com que nos brindavam todas as manhãs. Não muito longe da entrada da caverna, por detrás de duas árvores umbrosas, havia um arbusto denso por onde me enfiei não sem arranhar as pernas. Aquilo de andar sempre nu tinha-me já começado a incomodar.

Deitado na penumbra, tentando manter-me desperto, fui reflectindo na situação em que me encontrava. Um paraíso insípido. Principalmente na ignorância do que esperavam de mim. Durante quanto tempo me iriam manter ali? A Eva nada se lembrava da vida passada e por isso não sentia a falta dos confortos e dos pequenos prazeres que a vida moderna nos proporciona, mesmo para quem não tinha onde cair morto como eu.

Recordava-me da vida lá fora. Sabia trabalhar com computadores, guiar um carro ou desbloquear um telemóvel. Nada disso me servia aqui. Mesmo que soubesse muito mais do que sabia, nunca conseguiria montar um carro porque pura e simplesmente não havia peças. Tudo o que havia era madeira e pedras. Nem uma simples carreta conseguiria construir com aquilo.

Estava embrenhado nestes e noutros pensamentos infrutíferos quando repente se abriu um alçapão no chão e saiu de lá um homem todo vestido de negro transportando o saco vermelho da comida. Olhou em volta, provavelmente a certificar-se da nossa ausência e substituiu o saco vazio por um cheio. Não esteve ali mais de dois minutos e retirou-se por onde entrara.

Mal o alçapão se fechou rastejei para fora do meu abrigo roçando desagradavelmente os meus testículos pelo chão. Levantei e sacudi-me apressando-me a decorar o lugar onde o alçapão se encontrava, bem dissimulado, no meio da vegetação rala.

Abri apenas uma ponta, para me certificar que não me enganara e voltei para a caverna estendo-me, sem sono, ao lado do corpo macio de Eva. Iria explorar o alçapão e onde o mesmo iria dar, mas não naquele momento. O homem de negro ainda poderia andar por ali.

Passei o dia seguinte inquieto à espera que anoitecesse. Queria explorar à vontade sem a presença emplastra da Eva.

Quando abri o alçapão encontrei uma pequena escada que me permitia descer até um túnel. Junto à escada o número 22. Os túneis encontravam-se bem iluminados e conduziam a vinte e duas escadas, todas elas numeradas. Ou pelo menos tudo apontava nesse sentido porque não passei para lá do 17. Mas a sinalética nos corredores que saiam do túnel principal levava-me a crer que houvesse realmente vinte e dois terrenos. Perdi a noção do tempo que passara lá em baixo. Ainda assim, antes de regressar, resolvi subir cautelosamente a escada assinalado com o número 21. Levantei o alçapão e espreitei em volta. O que vi era uma réplica quase exacta do sítio onde vivia. Até o posicionamento da caverna e das árvores era igual, apenas as ramagens e um conjunto de pedras colocadas em redor do que devia ter sido uma fogueira apagada me permitia verificar que não me enganara e tinha subido pela mesma escada que descera anteriormente.

Nessa noite não me atrevi a ir mais longe, mas o meu dia-a-dia alterou-se. Passei a dormir todas as manhãs até tarde e a explorar os terrenos vizinhos durante a noite. Olhava para os corpos adormecidos dos outros Adões e das outras Evas. Para as alterações que alguns tinham introduzido na natureza. Nada de especial, uma fogueira, uns ramos cortados para servirem de bancos, pequenas ferramentas de pedra lascada, seja como for bastante mais do que eu próprio tinha feito.


Quando as mãos dela me tocaram nas costas não pude conter um grito que ela silenciou com um shiu. Virei-me para ela. O shiu e o gesto de colocar o dedo sobre os lábios fez-me evocar outras recordações e pensei se também ela se lembraria da outra vida. A Eva 20, pois era no terreno 20 que me encontrava, era esguia e morena. Tinha uns olhos escuros que me olhavam enquanto se aproximou de mim e se começou a roçar provocatoriamente.

Coloquei-lhe a mão atrás das costas e puxei-a para mim beijando-lhe os lábios que entreabriu com um gemido. Senti um desejo selvagem a apossar-se de mim e arrastei-a para o chão. No entanto, ainda que consentisse que eu a tocasse e acariciasse, manteve as pernas fechadas e bem firmes contra os meus avanços. Que se passa, perguntei-lhe. Não estou limpa – disse e levando a mão ao sexo mostrou-me a ponta dos dedos tingidos de vermelho. Sorri. Não faz mal. Mas ela abanou a cabeça.

Estranho como a Eva 20 fazia todos os gestos que via nas mulheres da minha vida anterior. Ao contrário da Eva 22, a minha Eva, que tirando a linguagem, em mais nada comunicava ou se comportava como as mulheres que eu conhecera.

Estes pensamentos em nada me interromperam o desejo e estendi a mão para lhe tocar em baixo mas ela agarrou-a, suave mas firmemente, e levou-a até ao seu peito. Acariciei-lhe os seios e percorri o seu corpo com os dedos mantendo as mãos bem afastadas da sua vagina para que ela fosse ganhando a minha confiança e se descontraísse. Ao fim de um certo tempo, já ela tinha o corpo todo relaxado e estremecia de prazer perante o meu toque. Voltei-a e percorri-lhe as costas com as mãos até ao rabo que se alçou de imediato. Coloquei-me então por trás dela e penetrei-a com cuidado.

Depois de ter satisfeito o meu desejo deitei-me ao lado dela e deixei-me ficar, naquele torpor pós-coito até que adormeci. Quando acordei o Adão 20 olhava para mim espantado. Eu estava a dormir agarrado à sua Eva mas ele não se pareceu importar com o facto. Apenas estranhava a minha presença. Era um negro possante e pensei que se tivesse que me haver com ele poucas hipóteses teria. No entanto, depois de ter andado em meu redor, entretanto tinha-me posto de pé e apenas a Eva jazia a meus pés, aproximou-se de mim e apontou-me para o pénis e depois para o dele. Olhei-o expectante - sim o dele era maior e daí? Finalmente a boca abriu-se num sorriso e disse: somos os dois homens. Ela é uma mulher disse apontando para o chão, nós os dois somos homens.

Durante muito tempo tinha evitado ao máximo estabelecer contacto com os outros Adões e Evas, a partir desse dia fiz exactamente o contrário e passei a visitar regularmente os outros terrenos. Descobri que havia Adões e Evas de diferentes etnias, altos, baixos, magros ou gordos, mas que todos tínhamos aparentemente a mesma idade. Outra coisa interessante que descobri foi que aos poucos todos tinham inventado alguma coisa. Havia uma evolução em curso, na gastronomia por exemplo. No conforto que tinham trazido para a caverna ou na forma como a Eva 16 tinha enfeitado o seu corpo e andava sempre com uma espécie de colar com folhas e pequenos paus pendurados.

Descobri também que no terreno 7, o Adão e a Eva se mantinham afastados e não tinham qualquer espécie de intimidade. Em todos os outros viviam como casais.

A alegria de poder comunicar com outras pessoas que não apenas a Eva 22, trouxe-me um novo alento. Principalmente porque eu, para todos eles, era o factor novidade, aquele que aparecia e desaparecia. Senti-me especial como nunca me sentira na minha vida anterior e um dia resolvi que iria juntar toda a comunidade no meu terreno. Até aí nunca lhes mostrara por onde entrava e também nunca me tinham perguntado. Aceitavam apenas a minha presença e a minha ausência. Sem questões.

Planeei tudo com alguma antecedência, avisei a Eva 22 que havia mais pessoas e que viriam ter connosco. Ela olhou para mim admirada – mais pessoas. Onde? Acabei por leva-la comigo pois recusou-se a ficar à espera e começamos a grande jornada pelo terreno 1. Foi uma grande caminhada até chegar lá, mas o Adão e a Eva números 1 não hesitaram em nos acompanhar. Aos poucos fomos percorrendo todos os terrenos e engrossando o longo cortejo de Adões e Evas que olhavam embasbacados para os outros e para aqueles túneis tão diferentes de tudo o que alguma vez tinham visto ou se lembravam.

Rapidamente me apercebi que teria sido mais inteligente juntar todos no terreno do meio, no 11 ou no 12, mas lá acabamos por chegar todos ao 22, uns mais extenuados que outros, pois nem todos tinham ganho o hábito de fazer grandes caminhadas. A minha ideia original era apenas juntar aqueles quarenta e quatro seres e realizar uma espécie de festa onde todos se conheceriam. Mas o homem é um animal gregário e rapidamente decidiram que iriam passar a viver todos juntos. Tentei demovê-los, não era bem aquilo que eu tinha pensado. Mas na impossibilidade de os convencer resolvi assumir a liderança, organizar a logística. Era necessário recolher a comida que havia nos vários terrenos. Arranjar forma de todos poderem dormir ali, pois o chão arenoso da caverna não permitia mais do que umas oito pessoas.


No entanto fui desprezado. Ninguém se preocupou muito com a organização, comeram a minha comida e apenas resolveram ir buscar a dos terrenos 21 e 20 quando a fome lhes bateu à porta e a minha comida tinha acabado. Quando acabou de comer, a Eva 20 aproximou-se de mim e pôs-se de gatas à minha frente. Virou-se para trás com um sorriso pleno de um convite implícito. As minhas recordações de homem civilizado criaram-me uma inibição de a penetrar à frente dos demais. Mas os mesmos velhos hábitos trouxeram-me a vergonha de ser visto a recusar e poder passar por fraco. Algo contrafeito e tentando-me abstrair dos olhos postos em nós, montei-a por trás e fechei os olhos concentrando todos os meus sentidos no seu sabor de fêmea ardente. Nos seus gemidos, nas sensações que percorriam o meu corpo. Quando me vim e deixei-me cair sobre ela abrindo os olhos vi que uma imensa orgia tinha proliferado no terreno. Os Adões e as Evas, trocavam de casais e pude observar, também, algumas relações homossexuais.

O sexo tinha-me provocado sede e fui beber água à nascente junto do lago. Fui seguido por um Adão, o 14 ou o 15, não tenho a certeza. Olhei para ele mas não abri a boca, ele olhou para mim e para a nascente e explicou que no terreno dele tinha arranjado uma forma de fazer a água chegar até à caverna, com canas abertas ao meio. Pareceu-me uma excelente ideia, lembrei-me que no terreno 21 tinha visto uma espécie de carrinho de mão e que poderia servir para ir buscar a comida aos terrenos mais longe. Será que os misteriosos homens de negro continuariam a colocar a comida em cada terreno ou já estariam cientes de que estávamos todos reunidos e a trariam toda para ali?

Os dias seguintes foram dias de grande azáfama, tendo-se mudados todos para o 22 foi necessário construir abrigos para os que não cabiam na caverna. Montámos um sistema de turnos para ir buscar a comida e canalizámos a água de forma que a nascente pingasse junto ao local onde comíamos. Apesar da aparente organização, com quarenta e quatro pessoas juntas, começaram também as primeiras discussões sérias. Houve trocas de murros e de pontapés e um dia, ao acordar, encontrei o Adão 4 morto, com a cara enfiada na água do lago.

Achei que era de mais. Tornava-se necessário estabelecer regras e para isso era preciso um chefe. Um rei - pensei. Vou ser o rei desta gente. Pedi a todos que se juntassem à porta da caverna e expliquei-lhes o que tinha acontecido com o Adão 4 e a necessidade de punir o culpado, mas que antes era preciso escolher um rei. Alguém responsável por aplicar a justiça, por organizar os turnos, por distribuir as tarefas.

Não foi fácil explicar a necessidade de um rei.

- Porque razão devo passar a obedecer a um rei perguntou a Eva 20.

Olhei para ela e puxei-a para mim - Se eu for o rei tu serás a rainha, também te obedecerão a ti.

Ela afastou-me com um safanão - Não quero mandar em ninguém.

- Mas - perguntou o Adão 14- e se não quisermos obedecer.

- O rei manda, mas manda para o bem de todos - expliquei. - Quem não obedecer será punido. Poderá ser preso ou ficar sem comer ou...

Agora todos olhavam em volta, uns para os outros, como se nunca se tivessem visto e perguntassem quem deveria ser o rei. - Ser rei é uma grande responsabilidade – continuei - mas eu estou disposto a ser o vosso rei, a tratar das coisas por vocês, a organizar tudo para o bem de todos.

Olharam para mim e riram-se. O rei é ele, disseram apontando para um mastodonte asiático com cara de lutador de sumo. Ele é o mais forte, a ele obedeceremos porque ele consegue-nos punir, tu não.

De repente senti-me farto daquilo tudo. Daqueles homens e daquelas mulheres nuas. Do paraíso artificial servido por uma quadrícula de túneis. Senti a falta dos pequenos prazeres da vida. De ver televisão, de beber uma boa cerveja, de andar de mota com a cara ao vento. Estava farto. De certeza que havia uma saída, o local por onde os homens de negro entravam.

Enfiei-me pela abertura que dava acesso aos túneis deixando o novo rei a decidir o que fazer e como. O silêncio do betão foi um alívio após as vozes ruidosas daquela tribo. Andei para um lado e para o outro sem conseguir encontrar nenhum vestígio de uma saída. No entanto, também não tinha descoberto o alçapão até o ver abrir-se. Resolvi subir para um terreno, era o 17 e deitei-me na caverna a descansar até que adormeci, longe do rebuliço instalado no terreno 22.

Quando acordei já era de noite e fiquei a olhar para fora da caverna até que vi o alçapão a abrir-se. O homem de negro saiu e depositou o saco vermelho no local do costume. Devia pensar que todos estávamos reunidos no terreno 22 pois não tomou qualquer precaução para não ser visto e deixou o alçapão aberto. Desci e vi uma carrinha carregada de sacos vermelhos. Estava fechada pelo que não me foi possível entrar. No entanto, aproveitei para me colocar atrás dela pois não havia outro esconderijo possível. Fomos andando de terrenos em terreno até ao 21. Talvez por o 22 estar cheio e a probabilidade de alguém estar acordado e puder ser descoberto, ele não parou junto ao 22 e seguiu a sua marcha mais uns dez metros. Carregou num telecomando e desceu uma plataforma elevatória para onde deslocou a carrinha.

Fiquei cá em baixo a vê-los subir. Uma altura de três metros, não mais. Olhando para cima vi que a abertura permanecia aberta mesmo depois da carrinha desaparecer. Afinal seria fácil sair dali desde que conseguisse galgar aquela distância. Nada que com a ajuda de uns Adões fosse particularmente difícil.

No dia seguinte dirigi-me ao terreno 22. Esperei observando-os enquanto acordavam e iniciavam as tarefas diárias. Do meu lado esquerdo estava o Adão 20 e outros dois. Dirigi-me ao Adão negro que era alto e forte e disse que precisava da ajuda dele para fugir. Fugir? Fugir para onde, fugir de quê. Tentei explicar-lhes que queria sair dali mas eles não faziam a mínima ideia que houvesse algo mais do que aquilo.

Foi então que comecei a contar tudo o que nos levara até aquele lugar. A experiência de larga escala, a evolução do homem em laboratório, a forma como tínhamos sido recrutados: pessoas com diferentes graus de inteligência, de diferentes cidades, com histórias de vida e heranças genéticas diferentes, mas todos em idade de procriar. Contei por fim como os cientistas iam festejando à medida que faziam a lavagem cerebral e como ao chegarem ao último paciente, eu o Adão 22, se tinham esquecido de fazer o tratamento e por isso eu recordava o que era a vida lá fora. As maravilhas do mundo moderno.

Por essa altura já tinha a audiência completa e o lugar de rei teria sido meu se eu ainda o quisesse. Inebriado pela atenção expliquei-lhes como era o mundo lá fora. Falei das coisas boas e das más. Da tecnologia e da miséria. Das casas onde as pessoas viviam. Ao contrário do que eu supunha os seus olhares eram de admiração mas também de medo. E, concluí eu, preciso da vossa ajuda para me ajudarem a fugir, prometo-vos que os venho buscar a todos de seguida. Que vou denunciar esta experiência bárbara.

O rei fez um gesto com a mão e pediu para me calar. Temos de conversar entre todos, disse. Tu já não és um de nós. És um homem de outro mundo. Deixa-nos pensar e já falamos contigo.

Vi-os afastarem-se gesticulando. Não todos, alguns continuavam espantados a olhar para mim ou a bombardearem-me com perguntas sobre esse estranho mundo.

A minha descrição sobre o mundo lá fora tinha-me feito despertar ainda mais a impaciência para sair dali. Levantei-me e deambulei sem rumo avistando ao longe o grupo que à volta do rei esbracejava exaltado. Finalmente o rei virou-se para mim. Fiquei a olhar parado quando tinha tido todo o tempo do mundo para fugir. Mas não. Nunca pensei que eles me agarrassem, me arrastassem para a água e me afogassem com medo que eu os levasse para aquele mundo tão assustador que eu tão bem descrevera. O meu último pensamento foi que tinha cometido um pecado mortal, que tinha cedido à tentação e ia ser expulso do paraíso, quem sabe para onde. Depois a água entrou nos meus pulmões e o mundo escureceu.

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