Dor

Pedro Farinha
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Dor

Postby Pedro Farinha » 29 Jun 2005 14:49

Foi quando chegou a casa que o seu peito se desmoronou. Aguentara a ecografia, o olhar, suspenso no seu rosto, do médico e, mais difícil que tudo, as palavras compreensivas ditas pelo sua mãe.

Agora que estava sozinha as lágrimas não arranjaram mais nenhum argumento para não invadirem a cara e se despenharem do queixo até ao chão deixando marcas bem menos profundas que aquelas que o resultado da mamografia tinham produzido na sua mente.

Ela sabia que não era o fim do mundo. Ela sabia que essas coisas acontecem que não é só aos outros e que antes assim, terem descoberto cedo do que apenas quando mais nada houvesse a fazer.

Ela sabia isso tudo porque era uma mulher culta e informada. E tinha aguentado tudo porque lhe tinham ensinado a não mostrar fraquezas diante doutros e porque conhecia os dramas que existem no mundo e perante os quais o dela não era nada. Uma pequena alfinetada num corpo carbonizado.

Mas os conhecimentos não são chamados quando uma mulher de quarenta e dois anos entra na sua casa e se deita na sua cama. Na mesma cama onde se entregara tantas e tantas vezes ao seu marido, onde sentira as suas mãos a percorrerem-lhe o corpo e a deterem-se, carinhosas, nos seus seios.

Como seria quando para as duas mãos dele apenas restasse um seio dela ?

Um grito inesperado rompeu-lhe a garganta sem que ela sequer o ouvisse. Os sapatos, num sobressalto, saltaram-lhe dos pés para o chão e ela enrolou-se sobre si mesma, sobre a cama, num regresso à posição fetal.

Quando ele chegou a casa não a abraçou mais demoradamente que nos outros dias. Não lhe deu mais um beijo nem lhe murmurou palavras afectuosas ao ouvido. Se viu os estragos patentes no rosto dela, não deu sinal disso. Dirigiu-se à sala, ligou a televisão e foi para a cozinha preparar o jantar.

Ela restou na cama. Silenciosamente à escuta dos gestos do quotidiano que prevaleciam sobre a sua dor. Comeu sem fome quando ele a chamou para a mesa e ouviu apática as palavras dele a discorrer sobre o dia no emprego. Interiormente chamou-lhe nomes mas forçou-se a erguer o queixo como se não fosse nada com ela.

Viram um filme juntos e ela foi-se deitar apenas um pouco mais cedo que o costume. O último olhar ao espelho devolveu-lhe a sua imagem habitual. Nada na sua imagem dizia que havia um monstro dentro dela a corroer-lhe o corpo. Estranhamente não demorou a adormecer e nunca chegou a saber que foi apenas quando ela adormeceu que ele perdeu toda a compostura do olhar, que as lágrimas rebentaram diques, que a mão procurou conforto num copo de vinho e que se sentou frente a um computador a escrever estas palavras.

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Re: Dor

Postby Samwise » 29 Jun 2005 15:47

Pedro,

Fiquei sem palavras. :(

Aquilo que vai dentro de mim não o consigo escrever.

Esta situação... é real, suponho?

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Re: Dor

Postby Pedro Farinha » 29 Jun 2005 16:55

Não Sam felizmente que não.

Aliás acho que se fosse verdade não a conseguiria escrever ou, pelo menos, mostrar a alguém o que escreveria.

No entanto teres pensado que a situação poderia ser real é, para mim, um grande elogio, quer dizer que o sentimento ficcionado está escrito de uma forma que parece real. :tu:

E a minha mulher é um pouco mais nova ;)

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Re: Dor

Postby Samwise » 29 Jun 2005 17:22

Pedro Farinha wrote: Aliás acho que se fosse verdade não a conseguiria escrever ou, pelo menos, mostrar a alguém o que escreveria.

Pois...

Isso é um dado adquirido para ti, mas não é para nós, indefesos leitores do outro lado na net.

Apanhei um susto daqueles!... Nem consigui escrever nada sobre o texto em si, que está bem bom, por sinal.

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Re: Dor

Postby isabelucha » 01 Jul 2005 13:49

Se não houvesse comentários, eu teria feito a mesmíssima pergunta que o Sam...

Fiquei aliviada por ver que é apenas fruto da maneira fantástica como escreveste este texto, tão real...

E penso que posso dizer que o senti de maneira diferente dos dois senhores acima de mim porque... Entendo bem o que significa "perder uma parte de ser mulher"... Não consigo imaginar como seria se acontecesse comigo, e prefiro não pensar em relação a quem me está próximo...

Divagações à parte: muito bom, Pedro :)
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Re: Dor

Postby pedroi » 14 Jul 2005 13:57

A minha mãe morreu devido a um cancro de mama. Eu tinha 13 anos.

Viver durante 7 anos os efeitos que as varias fases da doença tiveram na minha familia faz-me apreciar este texto de uma forma diferente. As recordações são dolorosas.

Este texto trouxe essas recordações de volta. Os sentimentos descritos não foram os mesmos que senti, já que era apenas uma criança, mas foram os que testemunhei: a magoa da minha mãe ao sentir o seu corpo violentado, o desespero do meu pai que ficou como suporte unico da familia e não podia fraquejar apesar da dor que o corroia.

As emoções do texto são reais mesmo que (felizmente) a situação não o seja. Excelente.

Pedro Farinha
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Re: Dor

Postby Pedro Farinha » 14 Jul 2005 23:36

As emoções do texto são reais mesmo que (felizmente) a situação não o seja. Excelente.


Quando escrevo um texto tento, tal como um actor, sentir os sentimentos duma situação imaginária para assim os conseguir escrever. As palavras que tu aqui escreveste, tendo vivido uma situação que lamento e para a qual te mando um abraço solidário, é o melhor elogio que alguma vez me fizeram.

Obrigado

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Re: Dor

Postby pedroi » 15 Jul 2005 15:52

Pedro Farinha wrote: As palavras que tu aqui escreveste, tendo vivido uma situação que lamento e para a qual te mando um abraço solidário, é o melhor elogio que alguma vez me fizeram.

O elogio é totalmente merecido por isso não tens de agradecer.


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